segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Contardo Calligaris, Amy Winehouse e Justin Bieber

Li esse texto do Contardo Calligaris quando morreu a Amy Winehouse e não comentei na época, mas acho importante combater esse tipo de ideia. Foge do tema "filmes", mas tem a ver com cultura pop, filosofia e com cinema indiretamente. Vou comentando em vermelho ao longo do texto.


Stéphanie, minha enteada, tem 11 anos: ainda é menina, mas é já moça. Assim que foi informada da morte de Amy Winehouse, ela veio até minha escrivaninha e, simulando o choro inconsolável de um nenê, perguntou: "Você está sabendo que morreu minha cantora preferida?".

Justamente por ela simular o choro e se esforçar para ser engraçada, pensei que devia estar sofrendo muito. A coisa se confirmou no meio da noite, quando Stéphanie acordou, e, para que reencontrasse o sono, foi preciso que alguém conversasse com ela sobre a vida e a morte de Amy.

Teria gostado de poder oferecer a Stéphanie uma boa explicação pela dureza da vida e da morte de sua cantora preferida -por exemplo, dizer que Amy teve uma infância muito triste, que nada em sua vida adulta pôde compensar; ou, então, que ela teve sorte na vida profissional, mas não no amor, e se perdeu nas drogas e no álcool por desesperos sentimentais. Mas o que sei da infância e dos amores de Amy é só fofoca.

Sem mentir nem inventar, melhor deixar Stéphanie lidar com este enigma: alguém pode ter um extraordinário talento, gostar de exercê-lo, alcançar sucesso e reconhecimento, amar e ser amado por um ou mais parceiros e, mesmo assim, esbarrar num vazio que nada consegue preencher.
(E assim começa a má influência: só o fato de Amy ter morrido por conta das drogas já seria motivo o bastante pra Contardo dizer pra sua sobrinha que, apesar da fama, Amy era muito infeliz, mesmo desconhecendo os motivos. Mas ele não faz isso... Ele ensina pra sua sobrinha que a felicidade é uma força misteriosa e incompreensível que está acima de seu controle - que sua consciência está à mercê do acaso, e portanto ela pode conquistar todos os seus objetivos na vida e ainda assim terminar derrotada por um vazio, sugerindo que não há conexão alguma entre felicidade e a conquista dos seus valores. Ele parte do princípio que ter reconhecimento como cantora e ter um namorado eram os grandes objetivos da vida de Amy, e que mesmo assim ela terminou mal - mas quem disse que era isso que ela precisava pra ser feliz? Pelo resultado, tudo indica que isso não era o bastante. Se havia um "buraco", então obviamente é porque haviam outras coisas que ela precisava mais e falhou em conquistar ou mesmo em identificar).

Stéphanie também tinha lido sobre a maldição dos 27 anos, que, antes de Amy, teria pego Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain etc. Como é normal na sua idade, ela parecia sensível à "glória" de morrer jovem (ou talvez de não viver até se tornar tão chato quanto os adultos).

Foi fácil desvalorizar a morte precoce mostrando que ela é, justamente, um ideal muito antigo: o rock apenas retomou o lugar comum romântico do poeta que vive tão intensamente que, como Ícaro, queima suas asas e cai antes da hora, em pleno voo
(Então o fato de ser um ideal antigo - e não um novo - "desvaloriza" a morte precoce? Que tipo de ideia é essa? Se a morte precoce de Amy fosse uma rara exceção então ela seria gloriosa demais pra ser contestada?!). Em suma, eu não tenho nada contra viver intensamente; ao contrário, artista ou não, acho que a gente deve viver da maneira mais intensa que der. Mas resta o seguinte: a ideia de que viver intensamente consistiria, por exemplo, em encher a cara de absinto ou ópio é velha de 200 anos. (Ele diz que é velha mas não diz se é uma ideia falsa ou verdadeira. O que é viver intensamente pra ele?).

Agora, há uma coisa que pensei e que não disse a Stéphanie: no fundo, para mim, a história de Amy tem um valor pedagógico, não só (obviamente) como exemplo dissuasivo ("Olhe o que pode lhe acontecer se você beber ou se drogar"), mas também como exemplo "positivo".

Como assim, positivo??? (Agora ele torna explícita sua visão negativa de mundo)

Concordo, a morte de Amy é um horror e uma estupidez, mas também lembra que viver é uma coisa séria, com apostas e riscos sérios, a começar pelo risco de perder a própria vida antes da hora. Você dirá: "Alguém duvida disso?". Pois é, constato que há um monte de gente tentando convencer nossas crianças de que a vida é feita de gritinhos, compras e namoricos que só servem para trocar trivialidades online com amigos e amigas. (Um MONTE de gente? Nossa, onde ele vive? Acho que uma criança hoje em dia é mais exposta ao terror e ao pessimismo através da mídia do que em qualquer outra época da humanidade. Quem me dera... Mas o importante aqui é o conceito falso de felicidade de Contardo.
Vejam como ele seleciona palavras tolas como "gritinhos", "namoricos", na tentativa de associar entusiasmo e felicidade a um estilo de vida necessariamente fútil e superficial. Ele não sabe que são 2 coisas separadas - que você pode ser superficial sim, e que você pode ser feliz - que uma coisa não está ligada à outra. Na verdade é quase o contrário - uma pessoa de fato superficial, que nunca pensa em nada além de marcas, pode até passar uma impressão externa de alguém feliz, mas olhe mais de perto, espere alguns anos, e você vai ver um rombo na auto-estima dela, e vai perceber que é impossível ser feliz irracionalmente, vagando por aí sem questionar nada. É isso que os intelectuais não sabem - os professores, artistas, psicólogos, jornalistas, políticos, ou seja, as pessoas que moldam a cultura e definem as ideias por trás de um país. Eles ensinam que há uma incompatibilidade entre a felicidade e os fatos da realidade).

Até a morte de Amy, eu pensava que o cantor preferido de Stéphanie fosse Justin Bieber. Ora, é possível que Bieber seja uma espécie de Dorian Gray (uma cara de porcelana que esconde dramas e anseios humanos), mas o fato é que ele promove uma imagem de bom moço num mundo intoleravelmente cor-de-rosa. (Bom moço sim, no sentido de que Bieber por enquanto passa a imagem de uma pessoa moral e não a de um delinquente. Mas o que ele quer dizer com "mundo intoleravelmente cor de rosa"? O que é intolerável pra Contardo? Alguém acreditar no amor? Alguém curtir a vida? Alguém ser inteligente e habilidoso? Alguém ter chegado ao estrelato por mérito próprio? Alguém ser positivo, honesto e ter confiança?
Alguém não ser deprimido e não achar que a vida é trágica? Alguém projetar em seu trabalho um mundo superior àquele imediatamente acessível? Arte não é jornalismo; não precisa mostrar as coisas como elas são na média - como dizia Aristóteles, arte deve mostrar as coisas como elas poderiam e deveriam ser).

"E daí?", dirão alguns pais, "não seria esse o adolescente ideal com quem deveríamos gostar que nossas filhas saíssem, em sua primeira ida ao cinema sozinhas com um garoto?". E acrescentarão: "Você quer o quê, que sua enteada seja parecida com Justin Bieber ou com Amy Winehouse?".

Claro, é um golpe baixo: ninguém quer que sua filha acabe como Amy
(Engraçado que no texto todo ele só se refere ao fato de Amy ter usado drogas e ter acidentalmente morrido, como se ESSA fosse sua obra, seu talento, sua mensagem final como artista - a comparação é entre overdose e um mundo fútil e sem conflitos, não entre Amy e Justin de fato). Mas devolvo a pergunta: será que Justin Bieber é mesmo melhor?
Stéphanie será mais protegida se ela permanecer numa pré-adolescência à la fã de Justin Bieber. Mas protegida de quê, se não da própria vida? Entre imaginá-la errando para sempre num corredor de shopping e imaginá-la numa balada que pode acabar na sarjeta à la Amy, a escolha não é fácil. E, na comparação, Amy passa a simbolizar minha esperança (e meu receio, indissociavelmente) de que Stéphanie cresça e se torne mulher, com desejos próprios, fortes (Por que os desejos de Amy Winehouse são fortes - ela que buscava refúgio no álcool, nas drogas e cantava sobre escapar da reabilitação? E por que os desejos de Bieber não são fortes - um garoto de 17 anos determinado e ambicioso cuja mensagem é "nunca diga nunca"? Muito mais do que Amy, é justamente um ídolo como Bieber que pode (pode, não digo que vai necessariamente) preparar um adolescente para os obstáculos da vida, inspirando e motivando ele a desenvolver o máximo de seu potencial, mostrando que seus objetivos são realizáveis e que seus esforços não serão em vão).

É o paradoxo de Amy: o que você prefere, uma filha que se perca tragicamente nos excessos do desejo ou uma filha que chegue à vida adulta sem ter conhecido outros desejos do que os que surgem nas conversas sobre marcas de mochilas e sapatos? (Aqui ele resume sua filosofia, que exclui do universo a possibilidade de uma felicidade real, consciente. Só existem 2 alternativas: ou você é um zumbi num shopping que aparenta estar feliz mas que está negando a realidade, ou então você encara os fatos e se perde nas drogas e nos "excessos", afinal o universo é maligno e incompatível com os desejos do ser humano. Mas que desejos são esses? Todos os seres humanos têm os mesmos desejos? Todos são inatingíveis? Não é esclarecido).

Esse texto é especialmente confuso e mal escrito, mas não é isso que eu estou atacando aqui e sim as ideias que hoje em dia predominam na sociedade (me refiro principalmente às classes mais altas - quanto menos dinheiro e menos cultura, menos contaminadas as pessoas estão por esses intelectuais, por isso a impressão geral de que o pobre se diverte mais, de que depressão é doença de rico, etc). Além disso, o pobre tem a "pobreza" pra culpar quando ele não atinge seus objetivos na vida. As pessoas que têm dinheiro e mesmo assim não atingem seus objetivos só têm duas opções: admitir que foram incapazes ou então inventar teorias malucas que coloquem toda a realidade em xeque.

Influenciadas por figuras como ele, sem munição intelectual, sem vozes promovendo outras ideias, as pessoas aceitam essa visão como sendo a verdadeira, e percebem que quanto mais culto e inteligente se é, mais negativa é sua percepção de mundo, ficando com a impressão geral de que um adulto inteligente tem que necessariamente ser um cínico. Poucos são independentes o bastante pra considerar que pessoas respeitadas como Contardo Calligaris, Arnaldo Jabor, Clarice Lispector e cia possam estar partindo de premissas erradas. Então da mesma forma que "gritinhos" e "namoricos" viram sinônimo de futilidade, melancolia e pessimismo viram sinônimo de maturidade, e sarcasmo e deboche viram símbolo de inteligência (e as pessoas passam a buscar arte que confirme essa visão de mundo).

Um produto disso é o pseudo-intelectual - a pessoa que tenta atingir o status de intelectual imitando os trejeitos desses cínicos e adotando uma posição crítica e ironizando tudo aquilo que sugere o positivo, que o homem é capaz de viver na Terra (Justin Bieber sendo um bom símbolo), sem entender a essência dessas ideias.

E por consequência há o pseudo-feliz: essas mesmas pessoas, quando querem experimentar a felicidade plena (algo inevitável), concluem que pra isso precisam abandonar a mente e a realidade, afinal a alegria só é possível quando você não pensa em nada - acabam de fato se perdendo em shoppings ou, num caso mais comum, se drogando em festas, fazendo sexo sem significado, ouvindo barulhos monótonos que dispensam o uso cérebro, etc.

Minha intenção aqui não é a de avaliar os trabalhos de Amy e Justin - e sim a de expor as ideias negativas que estão ao nosso redor e mostrar como elas são transmitidas dos intelectuais para as pessoas comuns - e como a cultura pop tem um papel fundamental nesse processo. Pra apontar as saídas, existem pessoas mais preparadas que eu.

3 comentários:

renatocinema disse...

Amigo......crítica e reflexão perfeita sobre nossa realidade.

Parabéns.

Tapa na cara de alguns, ou melhor, de todos nós da sociedade.

lcattapreta disse...

eu cheguei à mesma conclusão antes de ler o final, existem outros tipos de filhas!
E digo mais, existem filhas que gostam de Amy Winehouse E Justin Bieber.

Caio Amaral disse...

Valeu Renato!

Pois é Laura.. a própria sobrinha do Contardo também devia gostar do Justin - ele só se surpreendeu com o fato dele não ser o favorito dela, mas vai saber se não gostava dos dois, hehe.