quinta-feira, 30 de junho de 2011

Transformers: O Lado Oculto da Lua


O mais incrível desse filme é que fiquei 2 horas e meia olhando pra tela e acho que nenhum minuto isolado fez algum sentido!

Pra mim, qualquer bom filme funciona mais ou menos como uma equação matemática: os símbolos vão sendo apresentados pra gente um de cada vez, nós vamos interpretando o significado de cada um deles, associando-os aos outros que vimos anteriormente, armazenando tudo numa estrutura cada vez maior, até que no final chegamos a um significado - um significado que depende da relação de todos esses elementos, e que perderia o sentido caso um "x" fosse substituído por um "y".

Transformers 3 é como uma equação - uma equação feita por uma pessoa demente, que em nenhum momento entendeu que esses símbolos significam alguma coisa, e achou que bastaria fazer uma colagem de letrinhas e sinaizinhos, organizados num formato que imitasse vagamente o de outras equações que ela viu antes.

A única maneira de aproveitar a loucura que é esse filme é sendo igualmente insano - reagindo apenas ao imediato, ao que se vê na tela naquele instante, sem fazer qualquer tipo de associação com o que veio antes, sem nenhuma expectativa em relação ao que virá depois - apenas se divertindo com uma frase engraçadinha, com um carro bonito, com uma garota de lábios sensuais, até que os estímulos acabem e as luzes do cinema se acendam.

Sem exagero, em termos de super-produções é uma das piores coisas que eu já vi! Chega a ser inacreditável. E pior do que o filme em si é encontrar o nome de Steven Spielberg nos créditos finais como produtor executivo. Se eu saí da sala tendo calafrios de vergonha alheia só de ter assistido ao filme, fico imaginando ele que teve que assinar embaixo!

Transformers: Dark of the Moon (EUA / 2011 / 157 min / Michael Bay)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Transformers 2, O Incrível Hulk, O Escorpião Rei, etc.

NOTA: 2.5

terça-feira, 28 de junho de 2011

Carros 2


Mais um caso óbvio de Herói Envergonhado. Como se não bastasse o protagonista Lightning McQueen já ser um herói envergonhado, o filme resolve descer ainda mais baixo e focar no coadjuvante Mater - o caminhãozinho enferrujado - este sim um típico "pobre-coitado", e fazer dele o herói do filme.

A história foca na amizade entre McQueen e Mater, e ensina que é importante ser "leal" aos seus amigos, por um senso de obrigação, mesmo quando eles não têm nada a ver com você e estão ameaçando a sua carreira e a sua vida (McQueen em determinado momento insiste em usar o combustível do amigo, por lealdade, mesmo com fortes evidências de que o produto poderia levar o carro à explosão!).


Não achei ruim, achei apenas chato, como o primeiro. O filme foi bem de bilheteria mas felizmente a crítica não foi muito positiva e a nota do público no IMDb está bem sensata.

Cars 2 (EUA / 2011 / 112 min / John Lasseter, Brad Lewis)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Kung Fu Panda 2, Como Treinar o Seu Dragão, etc.

NOTA: 4.0

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um Lugar Qualquer


Escrito e dirigido por Sofia Coppola (As Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros, Maria Antonieta), o filme mostra o dia a dia de um homem infeliz, drogado, completamente apático e desinteressado pela vida (Stephen Dorff), que ficamos sabendo ser um astro de filmes de ação de Hollywood. Ele tem uma filha pré-adolescente (Elle Fanning, irmã da Dakota), e o filme basicamente fica intercalando momentos vazios da vida dele (fazendo sexo sem significado, trabalhando na promoção de seu último filme, etc) com alguns momentos um pouco mais agradáveis junto com a filha, jogando vídeo game e fazendo coisas sem importância.

A vida dele não tem propósito (ele mesmo reconhece isso) mas o problema é que o próprio filme não tem propósito, e parece ter sido feito por um cineasta igualmente apático e desmotivado.

Não há conteúdo, psicologia, apenas um certo bom gosto técnico, uma leve tentativa de originalidade (o filme tem algumas imagens interessantes e fora do comum, embora fora de contexto) e um leve tom de cinismo ou "crítica", tentando se passar por inteligência - como um zoom longo e silencioso no rosto de Stephen Dorff tirando um molde da cabeça pra fazer uma maquiagem especial para um filme:

Uma crítica ao látex, imagino.

É um caso não muito extremo de Desintegração (veja minha nova entrada no "glossário"). O filme levou o Leão de Ouro em Veneza, mas ninguém levou isso muito a sério, afinal o presidente do júri era Quentin Tarantino, ex-namorado de Sofia.

Somewhere (EUA / 2010 / 97 min / Sofia Coppola)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Flores Partidas, Encontros e Desencontros, etc.

NOTA: 4.0

terça-feira, 21 de junho de 2011

Desintegração / Anti-Estrutura

Estou pegando emprestado um conceito do escritor e filósofo Leonard Peikoff e aplicando ao cinema por conta própria.

"Integração" é o processo pelo qual as pessoas relacionam dados concretos pra formar um "todo" coerente - fatos isolados, valores, leis, acontecimentos num livro, as disposições da Constituição, etc.

Um tipo de processo mental trabalha pra integrar dados através de um processo racional ("integration" ou "I" - integração). Outro, procura integrar dados através de processos não-racionais ("misintegration" ou "M" - "má integração"). Um terceiro, rejeita integração de qualquer tipo ("disintegration" ou "D" - desintegração).

Um exemplo de "I" é ciência
Um exemplo de "M" é religião.
Um exemplo de "D" é arte não-objetiva

Filmes baseados num método de Integração funcionam mais ou menos como uma equação matemática: os números e símbolos (ou seja, os elementos que compõem o tema do filme) vão sendo apresentados pra gente um de cada vez, nós vamos interpretando o significado de cada um deles, associando-os aos outros que vimos anteriormente, armazenando tudo numa estrutura coerente, até que no final chegamos a um significado - um significado que depende da relação desses elementos, e que perderia o sentido caso um "x" fosse substituído por um "y" aleatoriamente (não estou excluindo a experiência sensorial que o cinema também proporciona - ao contrário de um livro, por exemplo - apenas sugerindo que um filme não deve se reduzir a isto). 

Mas o que eu quero falar aqui é sobre o "D".

"Desintegração" (filmes "Anti-Estrutura", como diz Robert McKee) no cinema aparece naqueles filmes de "arte" que contestam a norma, onde as pessoas saem do cinema cada uma com uma versão completamente diferente do que foi que aconteceu, sem poder provar qual foi o propósito do filme ou mesmo se houve algum. São filmes que rejeitam a razão e as características essenciais da mente - negam que a comunicação seja possível, que existem técnicas melhores ou piores pra se transmitir uma ideia, que a arte tenha o propósito de comunicar algo, e defendem uma visão completamente subjetiva e arbitrária da arte, como um cozinheiro que se nega a adaptar suas criações à "ditadura" do paladar humano, querendo ser livre pra usar veneno de rato como ingrediente se ele estiver a fim. 

Quase sempre são filmes sem trama, onde os personagens centrais não têm objetivos claros. São comuns cenas longas onde nada acontece, a câmera não se move, os enquadramentos são esquisitos, muitas vezes coisas acontecem fora de quadro, como se houvesse um desinteresse crônico por parte da câmera. Não há senso de ritmo, os diálogos são incompletos, raramente há um clímax, e o filme termina em um momento inesperado, sem nenhum senso de conclusão, deixando a platéia intrigada, tentando entender a mente "profunda" e misteriosa por trás daquilo (o foco desses filmes geralmente é a figura do autor e não o trabalho em si).

Algumas vezes não há nem como saber se o que foi incluído no trabalho foi cuidadosamente planejado ou se o autor na verdade é insano. Nas artes plásticas isso é bem mais comum do que no cinema, chegando a ser uma convenção hoje em dia (afinal um filme custa muito caro, envolve dezenas de profissionais, o que acaba servindo de filtro contra experimentos desse tipo).

Muita gente acaba sendo respeitosa em relação a esse tipo de trabalho por puro complexo de inferioridade - por medo de não ter sido capaz de compreender a mensagem do artista. O resultado pode ser visto neste experimento, onde pessoas numa galeria de arte analisam um quadro abstrato, sem saber que na verdade ele foi pintado por crianças de 2 anos:

http://www.youtube.com/watch?v=Pj4MVtoNWZc&feature=youtu.be 

Isso é um bom exemplo do que acontece quando se tira a objetividade da arte.

Desintegração total nunca é muito popular (o público em geral prefere histórias e mensagens palpáveis - são mais os intelectuais e que se interessam por esse tipo de coisa), mas hoje em dia é considerado uma espécie de "requinte" ter uma dose de desintegração num filme.

Mas é importante saber diferenciar casos de desintegração daqueles casos de integração menos ortodoxos, mais complexos - ou seja, casos onde você possa simplesmente não ter entendido o tema do filme de primeira, mas que ele exista, seja válido, e possa ser apontado no próprio trabalho. E é preciso diferenciar desintegração de Naturalismo, que é uma outra questão - o naturalismo na verdade tem elementos de desintegração, mas num grau menos intenso (esses filmes ainda costumam apresentar uma história com um tema central, etc). 

sábado, 18 de junho de 2011

Meia Noite em Paris


O filme mais imaginativo e original que eu vejo em um bom tempo - provavelmente o melhor filme de Woody Allen desde a "era dourada" de sua carreira. O filme é um ataque divertido à nostalgia - aquela sensação que temos de que o presente é sempre desimportante, banal, enquanto as eras passadas eram necessariamente mais ricas e interessantes. O filme não tenta descobrir os MOTIVOS disso acontecer - ele simplesmente expõe essa ideia e a concretiza numa trama (que eu prefiro não comentar, pra não estragar as surpresas) misturando comédia, fantasia, filosofia e história. Woody parte de um argumento simples, interessante, e o desenvolve com total clareza, objetividade e criatividade, num filme onde nenhum minuto sequer parece acidental ou dispensável, como toda obra de arte deve ser.

O filme se passa todo em Paris (que eu nunca vi tão bonita e tão bem explorada no cinema) e não tem Woody Allen no elenco - quem interpreta "Woody" é Owen Wilson, que se mostra um excelente substituto, por incrível que pareça. Rachel McAdams também está ótima, assim como Marion Cotillar, Michael Sheen e todas as participações especiais (Kathy Bates, Adrien Brody, etc).

Mas por que o passado parece mais glamouroso do que o presente? A postagem vai ficar gigante, mas eu queria entrar mais nessa discussão que o filme levanta.

Em primeiro lugar, acho que nostalgia não se aplica a todas as atividades. Se falarmos em medicina ou informática (talvez até esporte), ninguém vai achar que houve uma era dourada há 100 anos atrás! Mas no que diz respeito à arte, certamente este é o caso.

Um dos motivos é que o passado é condensado, resumido na nossa mente, enquanto o presente não. Quando olhamos pro presente, pensamos por exemplo nos filmes que estão em cartaz essa semana - quando pensamos no passado, pensamos em eras. Ninguém pensa em "filmes que estrearam em 18 de Junho de 1941" - nós pensamos em anos, em décadas, ou até em séculos, dependendo da arte, e é claro que nenhum instante do presente pode competir com isso (daqui a 50 anos, nós vamos lembrar que vivemos nos tempos gloriosos de Steven Spielberg, Martin Scorsese, Michael Jackson, Madonna - e vamos esquecer das Ke$has e dos Robert Rodriguez).

Outro motivo é que as pessoas valorizam muito a própria infância (as memórias são mais fortes, não só por características naturais da infância, mas também por esse processo de "condensação"). Então o que acontece? Nossos pais nos convencem de que a época da juventude deles era mais importante que a nossa, e nós tentamos convencer nossos filhos de que a nossa juventude era mais importante, criando uma eterna sensação de que o passado era maior (uma coisa que Woody poderia ter feito pra zombar disso seria ir até o futuro e mostrar a Britney Spears como um símbolo do requinte do passado!). Filhos que respeitam e admiram os pais costumam também ter uma relação melhor com o passado.

Mas claro, nada vai tornar uma composição medíocre superior à uma obra-prima, só porque a medíocre foi composta 100 anos antes. O filme não se posiciona claramente quanto a objetividade ou a subjetividade da arte. É meio contraditório. Por um lado, a trama parece sugerir que é tudo relativo - o que é antigo é bom, o que é novo é ruim, e não se pode julgar uma obra de arte racionalmente. Por outro lado, o filme mostra que no passado os artistas eram muito mais inteligentes, cultos e habilidosos - sugerindo que a nostalgia no fundo é justificável, afinal no passado eles REALMENTE eram melhores!

No cinema americano e na música há de fato uma decadência. Mas não acho que isso seja um problema fixo, eterno, uma tendência da humanidade. Pra mim a culpa é da cultura e da tecnologia. Os filmes dos anos 40 não são piores que o dos anos 30. E o dos anos 50 não são piores que o dos anos 40. A coisa começou a descambar no fim dos anos 60, e isso por esses 2 motivos - porque a cultura mudou (pra pior na minha opinião) e porque a tecnologia foi tornando a produção cada vez mais fácil (no caso de cinema por exemplo). Hoje em dia, qualquer um pode fazer um filme - nos anos 50 era tão difícil que apenas alguém competente chegaria lá.

A tecnologia apenas facilita a execução e a divulgação da arte - mas não ajuda em nada na criação. O que você tem hoje é um monte de gente que PODE gravar um filme a qualquer momento, que PODE gravar uma música e jogar no YouTube - mas que não teve necessariamente que passar pelo esforço de aprender o que é isso.

Será que Leonardo Da Vinci teria feito tanta coisa se ele estivesse vivendo hoje, com entretenimento disponível no celular a qualquer instante? Será que teria se esforçado pra inventar tanta coisa, se todas as respostas já estivessem disponíveis no Google? Me parece que certa dificuldade é um fator essencial do desenvolvimento. Será que quanto mais fácil a vida se torna, menos as pessoas precisam pensar? E será que o nível de exigência das pessoas também cai, na medida em que elas se tornam menos capazes de criar?

Fico imaginando um futuro onde algumas pessoas jamais terão sofrido e também não correrão nenhum tipo de risco - elas serão fisicamente perfeitas, saudáveis, e não terão que trabalhar para os seus sustentos, pra preservar suas vidas - e por consequência, não se interessarão em compreender a realidade de nenhuma forma, pois não será necessário.

Arte, nesse mundo, serão cadeiras de massagem automáticas, projetadas por pessoas que também nunca tiveram que entender nada, equipadas com luzes coloridas e agradáveis que serão projetadas em suas retinas, enquanto elas ouvem sons harmônicos e indefinidos, sem qualquer tipo de melodia ou estrutura.

Nesse contexto, não é tão difícil de imaginar a Britney como um símbolo do requinte do passado!

Enfim, isso tudo é só uma pontinha das coisas que passam pela nossa cabeça vendo Meia Noite em Paris. Pra mim, é o filme do ano por enquanto.

Midnight in Paris (ESP EUA / 2011 / 100 min / Woody Allen)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Desconstruindo Harry, Tiros na Broadway, A Rosa Púrpura do Cairo, etc.

NOTA: 9.0

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Herói envergonhado


A maneira em que os heróis têm sido retratados no cinema revela um dos conflitos mais presentes na cultura popular hoje em dia: a necessidade de projetar algum tipo de virtude, de capacidade, de figura admirável, brigando com o fato de que a cultura se tornou anti-ambição, anti-autoestima - ou seja, os valores que tornam os heróis possíveis. Os anos 80 e 90 foram décadas em que a cultura foi dominada por projeções inspiradoras e admiráveis do ser humano, tanto no cinema quanto na TV e na música. A partir dos anos 2000 as coisas foram mudando. Os heróis não foram abandonados por completo, pois isso seria impossível: é da natureza humana querer ter algo pra aplaudir e pra admirar, pra se inspirar - mas agora isso briga com o medo de ser acusado de ser arrogante, ou pior: de querer ser "superior" a alguém. Então os heróis dos filmes, da TV e da música estão sendo diminuídos - eles demonstram certas virtudes, mas de uma maneira corrompida, disfarçada, envergonhada, misturada com algum elemento subversivo, que serve como um perdão por suas qualidades.

Existem vários tipos de "heróis envergonhados", mas eles revelam sempre a culpa da parte dos artistas em projetar auto-estima, habilidade; um senso de orgulho e ambição que muita gente considera nocivo hoje em dia.

Isso tudo é muito evidente nos filmes de super-heróis, por exemplo, que começaram a ficar cada vez mais sombrios e realistas. Os heróis, em vez de serem figuras de destaque, personagens carismáticos, maiores que a vida, passaram a ficar mais "humanos", comuns, apresentando todo tipo de fragilidade e de distúrbio psicológico.

As animações infantis também revelam claramente essa mudança. Em vez das princesas belas e elegantes
dos tempos de Branca de Neve ou mesmo do Rei Leão, você tem figuras muito mais simplórias: príncipes e princesas sem pompa, às vezes de caráter ambíguo, que falam e gesticulam de maneira comum, vulgar, são alvos de piadas, e não têm a classe e nobreza que caracterizavam os personagens Disney de antigamente.

Há também uma série de programas de TV e artistas pop que levantam a bandeira dos "losers", como Glee, afirmando que agora é a vez dos fracos conquistarem os holofotes.

Não estou dizendo que um herói não possa apresentar fragilidades ou desvantagens. Muito pelo contrário - acho importante que um herói tenha vulnerabilidades e pontos fracos, pois seria impossível para o público se identificar com uma máquina indestrutível. Alguém infalível que realiza um grande feito não diz nada para o espectador. Só pode ser uma inspiração alguém que tenha limitações humanas naturais e mesmo assim supere essas limitações e conquiste seus objetivos. Mas há uma diferença grande entre ter limitações, fragilidades, e ser um "herói envergonhado". A principal é que, no primeiro caso, o foco está na projeção das virtudes e não na projeção das falhas - as qualidades e as conquistas do herói são dramáticas, convincentes, empolgantes, memoráveis, e as fragilidades estão presentes apenas pra dar um senso de realismo e tornar a superação ainda mais intensa. Num filme de "herói envergonhado", toda atenção é dada às fragilidades, às inseguranças, ao lado "humano" e "realista" do herói, mas nunca vemos uma apresentação dramática de suas virtudes, daquilo que faz dele digno de ser contemplado (é comum essas figuras fazerem parte de um grupo, onde a atenção é diluída entre vários personagens e o protagonista não ganhe crédito demais por suas conquistas). É importante também diferenciar entre desvantagens, fragilidades, e falhas de caráter. Enquanto desvantagens e fragilidades são aceitáveis e criam uma ponte pro espectador se identificar com o herói, falhas de caráter são no fundo uma tentativa de corromper o conceito de herói.

Outra maneira de diminuir o herói é através do uso de humor. Não que o herói não possa ser divertido ou 
ter senso de humor. A pergunta a ser feita aqui é: você está rindo com o personagem ou do personagem? Não há problemas em rir de coisas que o personagem faz intencionalmente e que não ferem sua dignidade. Mas rir às custas do herói é quase sempre errado, a não ser que você esteja vendo uma paródia.

Heróis são feitos pra provocar inspiração - as crianças saem do cinema imitando seus gestos, querendo ser como eles. Um "herói envergonhado" é feito pra amenizar a baixa auto-estima, dar um senso de conforto pro espectador, de "inclusão", dizendo que ninguém é grande demais - que todo mundo é inseguro, tem falhas, portanto não há por que se sentir inferior.

Na minha opinião isso é uma contradição. Se você quer celebrar humildade, igualdade, o lado simples e não-heroico do ser humano, há vários estilos de filmes adequados para isso. Mas não: as pessoas querem contar histórias grandiosas, de superação, integridade, de reis e princesas - ou seja, criar heróis, e ao mesmo tempo dizer que eles não são tão heroicos assim. A intenção não é inspirar o fraco dizendo que ele é capaz de se superar, mas diminuir o forte e trazer todo mundo pro nível do comum.

Esse elemento pode surgir de várias maneiras e em vários graus diferentes, nem sempre comprometendo o total do trabalho. Às vezes é de maneira óbvia, como em animações do tipo Madagascar, Kung Fu Panda, e às vezes de maneira menos evidente, como no mundo da música, na tendência dos cantores pop de usarem vozes semi-roucas, sem intensidade, distorcidas, que passam uma atitude menos ambiciosa (se comparada com a dos astros dos anos 80 e 90, que demonstravam todo seu poder vocal). Em casos onde há uma mistura de heroísmo com elementos de "heróis envergonhados", meu critério final é: no fim das contas a figura é admirável? Inspira um senso de desafio, de grandiosidade? Tem habilidades que encantam? Uma criança ficaria inspirada - gostaria de agir como ela? Se a resposta for sim, pode ser possível perdoar o resto.

Kung Fu Panda 2


Os filmes cometem geralmente os mesmos erros (e também os mesmos acertos), e eu acho chato ter que gastar várias linhas pra explicar um conceito que já foi repetido diversas vezes aqui. Então estou pensando em criar novos termos, sempre que necessário, pra resumir ideias longas em poucas palavras (ou até em códigos numéricos - no futuro, minha resenha de Kung Fu Panda 3 poderá ser algo do tipo "98 143 17 95 01 04"!).

O problema básico de Kung Fu Panda 2 (e do 1 também) - que eu gostaria de transformar em um termo - é o do "herói envergonhado". Se você não sabe do que eu estou falando, clique AQUI e leia a minha teoria.

O Panda é um herói envergonhado do tipo "fracassado". Ou seja, ele quer ao mesmo tempo mérito por lutar muito bem e nossa simpatia por ele lutar muito mal. Às vezes ele arrasa - luta com diversos vilões simultaneamente, dá saltos sobrenaturais, resiste a golpes mortais, etc, e no instante seguinte, quer que a gente dê risada do fato dele estar tão gordo que é incapaz de subir uma escadaria.

Além desse problema, que já contamina o filme todo desde a raíz, a história é ainda menos interessante que a do primeiro, e gira toda em torno da questão do Panda descobrir que é filho adotivo - algo que não envolve pois a relação entre ele e o pai é completamente superficial e mal explorada.

Pelo menos o filme não foi tão bem de bilheteria e nem se pagou nos EUA até agora. Sinal de que o público anda mais exigente?

Kung Fu Panda 2 (EUA / 2011 / 90 min / Jennifer Yuh)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Happy Feet, Carros, Madagascar, etc.

NOTA: 4.0

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Caminho da Liberdade


Vi Caminho da Liberdade há umas 3 semanas e mesmo tendo gostado do filme não me ocorreu nada de interessante pra falar a respeito dele, então simplesmente não escrevi (não faço nada por obrigação!). Mas agora fiquei com pena e resolvi postar uma nota porque o filme é de ótima qualidade e quando sair em vídeo poderá ser uma boa indicação.

Ele conta a história de 7 prisioneiros do regime de Stalin que escapam do Gulag Soviético em 1940 durante uma nevasca. Mas fugir da prisão era o menor dos problemas - pra sobreviver eles teriam que caminhar milhares de quilómetros, enfrentando a natureza nos territórios mais hostis do planeta. O filme é uma recomendação segura - uma boa história, com vários níveis de interesse, direção competente de Peter Weir (de Sociedade dos Poetas Mortos e O Show de Truman), bons atores, visualmente impressionante, e mostra que é possível contar uma história de extrema agonia (ênfase no extrema!) sem ter que tornar isso uma experiência desagradável pro espectador.

The Way Back (EUA / 2010 / 133 min / Peter Weir)

INDICAÇÃO: Quem gostou de O Sobrevivente, No Limite, Vivos, O Império do Sol, etc.

NOTA: 7.0

domingo, 12 de junho de 2011

Namorados Para Sempre


É quase uma pegadinha de mau gosto lançar esse filme no fim de semana do dia dos namorados - ainda mais com esse título que certamente vai atrair alguns casais desavisados, que na hora que virem a cena da seringa espetando a vagina da protagonista irão perceber que escolheram o filme errado.

O filme foi indicado ao Oscar de melhor atriz pra Michelle Williams (Ryan Gosling merecia tanto quanto ela uma indicação) e mostra a deterioração de um relacionamento entre dois jovens, ao mesmo tempo em que revela através de flashbacks como foi que tudo começou, fazendo uma comparação contrastada entre o início e o fim.

Isso pode dar a impressão de que o filme é pessimista e não acredita nos relacionamentos - mas eu achei o contrário: o filme não diz que o amor é impossível e que todos os relacionamentos estão fadados ao fracasso. Não, ele diz que ESSE relacionamento específico, entre essas duas pessoas, estava fadado ao fracasso. E estava mesmo! Vendo como tudo começou, fica claro que a atração entre os dois era muito vaga, superficial. Ele se apaixona por ela à primeira vista, baseado na aparência e em trejeitos no máximo - e ela em nenhum momento pareceu estar encantada por ele. Deve ter achado ele "fofo", "bonitinho" no começo, e foi deixando o tempo passar até que confundiu isso com romance e acabou grávida.

Ou seja, o filme não é pessimista e sim realista (e pra mim isso já é quase otimismo). Se o filme tivesse mostrado um início ideal de relacionamento, entre duas pessoas realmente apaixonadas e compatíveis, e mostrasse o mesmo destino fracassado, isso seria pessimismo.

SPOILER!!!

Se os dois não se separassem no final, e o filme mostrasse eles sentados na varanda, fazendo as pazes, aceitando aquela situação medíocre com um sorriso amargo no rosto e um violãozinho tocando ao fundo, isso também seria pessimismo, pois o filme estaria dizendo "a realidade é essa, não espere mais da vida".

Do jeito que está, é um filme positivo e sensível que apenas mostra uma história de amor que não deu certo - não pra te deprimir, te deixar pra baixo, mas talvez pra servir de exemplo, dizendo "olha, se o seu relacionamento estiver DESSE jeito, caia fora imediatamente".

Blue Valentine (EUA / 2011 / 112 min / Derek Cianfrance)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Reencontrando a Felicidade, Foi Apenas um Sonho, etc.

NOTA: 7.5

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Transcendendo Lynch


Não perca seu tempo com esse filme que não passa de um making-of amador - um extra de DVD glamourizado, tentando se passar por documentário. O filme (feito por um brasileiro, certamente fã) registra a passagem de David Lynch (diretor de Veludo Azul e Cidade dos Sonhos) pelo Brasil, quando veio divulgar o seu livro sobre meditação transcendental Em Águas Profundas. Tudo o que Lynch diz no documentário você encontra resumidamente no YouTube em qualquer entrevista que ele tenha dado nos últimos anos (Lynch é muito repetitivo nos comentários, então não há nada de novo, nada de exclusivo, nada de valioso no documentário a respeito dele que justifique sua existência). O filme tem só 84 minutos e mais da metade do material é inútil - registros desnecessários de Lynch em elevadores, Lynch em carros, Lynch dando autógrafos, como se ele fosse uma espécie de deus e qualquer registro dele em vídeo fosse tão valioso que não pudesse ser desperdiçado. Pra piorar, o diretor fica inserindo cenas pretensiosas no meio do documentário, tentando imitar o estilo único de Lynch, como quem diz "Olha David, eu também sei, me dá um emprego?".

(BRA / 2011 / 84 min / Marcos Andrade)

INDICAÇÃO: Não veja. Se você se interessou, veja essa breve entrevista no YouTube.

NOTA: 4.0

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Quebrando o Tabu


Documentário conduzido por Fernando Henrique Cardoso (e dirigido pelo irmão do Luciano Huck) que discute a descriminalização das drogas. O filme é a favor da descriminalização, obviamente, e aponta alguns bons argumentos, mostrando por exemplo que é impossível impedir o consumo de drogas mesmo dentro de uma prisão de segurança máxima. O filme mostra depoimentos de celebridades como Paulo Coelho, Dráuzio Varella, Gael Garcia Bernal e Bill Clinton, mas ainda assim parece que falta alguma coisa. Ele deixa de fora questões importantes, não desenvolve bem os argumentos, não apresenta dados científicos sobre o efeito das drogas no cérebro e no corpo, e também não entrevista ninguém que seja CONTRA a descriminalização, só pra ouvir o lado de lá e poder analisar a questão de forma mais objetiva.

Minha opinião? Sou contra o uso de drogas e de qualquer coisa que comprometa o meu raciocínio ou que me dê algum tipo de felicidade não merecida, desconectada da realidade (não vejo problemas em beber moderadamente) - mas não acho que o governo tenha o direito de dizer o que você pode ou não pode fazer com a sua vida desde que você não force os outros. Se eu quiser cheirar cocaína, me matar, dirigir sem cinto, tudo isso é problema meu. Se eu me drogar e resolver matar o vizinho, daí entra a polícia. Se o governo acha que é função dele cuidar da vida das pessoas, então quem é que estabelece o limite? Não deveria ser proibido então morar em São Paulo, pois a poluição pode te matar a longo prazo? E comer fast-food? Quem sair na rua sem filtro solar não deveria levar multa? O que é mais prejudicial? O filme não vai tão fundo.

(BRA / 2011 / 80 min / Fernando Grostein Andrade)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 6 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe


Do mesmo diretor de Kick-Ass, este é um X-Men "como tudo começou" (já fizeram um filme assim sobre o Wolverine, que neste só faz uma aparição rápida).

A ideia de um "grupo de heróis" pra mim soa contraditória, pois um herói deveria ser alguém muito raro, especial. Num filme onde todos são especiais, ninguém é especial, e o filme não percebe isso; ele ainda acha que a plateia ficará admirada ao ver um X-Men erguendo um submarino, como se aquilo fosse fora do comum no contexto do filme. Mas pra mim o problema maior é que o filme acha que ser herói significa ter certas habilidades físicas. Sim, super-heróis costumam ter habilidades físicas, mas se isso não estiver associado a uma personalidade admirável, um estilo de vida fascinante, não serve pra nada (já o contrário não é verdade; existem muitos heróis no cinema que não têm super-poderes mas mesmo assim são fascinantes). Este X-Men mostra um grupo de pessoas normais, particularmente inseguras, que apenas herdaram habilidades físicas fora do comum (que são sentidas mais como deformidades do que talentos), e usam essas deformidades não pra atingir suas metas, seus desejos, o que seria mais interessante, mas para servir a nação, o grupo, etc.

No fundo é uma mensagem de auto-ajuda: "Todos temos defeitos", "Devemos nos aceitar do jeito que somos", "Somos todos especiais de alguma forma". Achei que a Katy Perry fosse entrar no final cantando "Baby, you're a firework"...

De qualquer forma, é um filme bem produzido, dentro da média, não-constrangedor e com alguns bons atores (é o terceiro filme que vejo esse ano com a Jennifer Lawrence - a Mística - indicada ao Oscar esse ano por Inverno da Alma, e gostei muito dela nos 3).

X-Men: First Class (EUA / 2011 / 132 min / Matthew Vaughn)

INDICAÇÃO: Quem gosta de Homem de Ferro, da série Heroes, Glee...

NOTA: 6.0

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um Novo Despertar


Dirigido por Jodie Foster, o filme conta a história de um empresário em depressão (Mel Gibson) que sofre um colapso emocional completo e a partir daí começa a falar com a mão, através de um boneco de castor (!) que ele encontra no lixo, pra "criar uma distância psicológica entre ele e os aspectos negativos de sua personalidade". O trailer faz parecer que o filme é uma comedinha cult, mas na verdade é um dos dramas mais originais e interessantes que eu vi esse ano.

Por que você é do jeito que é? O que significa "ser você mesmo"? Agir sem pensar, da maneira como sempre agiu? Mas será que esse é o certo? Será que não temos que reavaliar as coisas de tempos em tempos, como ocorre na adolescência? O que te levou a ser uma pessoa mais quieta, ou mais extrovertida? O que te levou a usar o cabelo de certa forma? A escolher determinado trabalho? A rir de certa maneira? Quem está interpretando mais: o Walter com o castor, ou o Walter empresário, pai de família? É esse tipo de coisa que o filme te faz questionar (há um discurso de Gibson na TV que resume tudo de maneira genial) e se você conseguir abstrair do absurdo da premissa, o filme é muito rico psicologicamente. Comercialmente foi um fracasso absoluto (não faturou nem 1 milhão nos EUA, tendo custado mais de 20), talvez até pela péssima imagem pessoal de Mel Gibson.

"Beaver" (castor) em inglês também serve como apelido pra parte íntima da mulher, então achei suspeito quando soube que o novo filme da Jodie Foster (assumidamente lésbica) se chamaria The Beaver, pois seria o mesmo que a Ana Carolina lançasse um álbum chamado A Perereca. Mas no fim o filme não tem nada a ver com isso.

The Beaver (EUA / 2011 / 91 min / Jodie Foster)

INDICAÇÃO: Quem gostou de O Solteirão, A Garota Ideal, Uma Mente Brilhante, etc.

NOTA: 7.5