
Traduzi aqui alguns parágrafos dos livros The Art of Fiction e The Romantic Manifesto, ambos de Ayn Rand, pra ajudar a esclarecer as diferenças entre filmes "românticos" e "naturalistas", usando a terminologia de Rand. A escola que eu gosto é a Romântica, que no cinema é melhor representada pelo cinema tradicional de Hollywood. O Naturalismo predomina praticamente em todo o resto do mundo - a maioria dos filmes Europeus e latino-americanos pertencem à essa escola, e mesmo o cinema americano hoje em dia é muito influenciado por ela (porém nos EUA haja geralmente uma mistura maior com o método Romântico).
Esses textos são sobre literatura, mas os princípios básicos servem pra outras artes também. Claro que o tema é muito extenso e estou deixando de fora muita coisa, mas isso aqui já começa a expor as diferenças fundamentais:
"A principal distinção entre uma obra Romântica e uma Naturalista é que a Romântica tem enredo (trama) e a Naturalista não. Mas, embora ela não tenha uma progressão proposital de eventos, uma boa obra Naturalista ainda tem uma série de eventos que formam uma história."
"As premissas filosóficas básicas que determinam se um autor pertence à escola Naturalista ou Romântica são as premissas do determinismo ou livre arbítrio. Se a convicção básica de um escritor é a de que o homem é uma criatura determinada - que ele não tem escolha, mas é uma marionete do destino ou de suas origens ou de Deus ou de suas glândulas - este escritor será Naturalista. A escola Naturalista, essencialmente, apresenta o homem como impotente; ela tem alguns ótimos escritores, mas é uma escola filosoficamente má, e seu defeito literário é a falta de enredo. Uma trama, sendo uma progressão proposital de eventos, necessariamente pressupõe a liberdade do homem de escolher e sua capacidade de atingir objetivos. Se um escritor acredita que os homens são seres determinados, ele será incapaz de elaborar uma trama."
"(Um escritor é governado por suas convicções mais profundas, e não por crenças que ele possa afirmar ter. Ele pode dizer que acredita no livre arbítrio mas subconscientemente ser um determinista, ou vice-versa. A sua premissa subconsciente é a que se revelará na estrutura de sua escrita.)"
"A escola Romântica aborda a vida com a premissa de que o homem tem livre arbítrio, a capacidade de escolha. A característica essencial dessa escola é uma trama bem estruturada.
Se o homem tem o poder de escolha, então ele pode planejar os eventos de sua vida; ele pode estabelecer metas e atingi-las. Portanto, sua vida não é uma série de acidentes. Coisas não "acontecem" a ele simplesmente; ele determina aquilo que irá acontecer (e se acidentes ocorrem, seu objetivo é superá-los). Ele é o arquiteto de sua própria vida.
Se essa é a sua visão do homem, você vai escrever sobre eventos que lidam com os propósitos do homem e os passos que ele toma para atingi-los. Uma trama é "uma progressão proposital de eventos" - não uma série acidental de acontecimentos, mas uma progressão centrada no propósito de alguém (normalmente do herói ou heroína)."
"Numa história com trama, homens e eventos são puxados adiante por um propósito. Numa história Naturalista, eles são empurrados por trás, como na natureza física."
"[Numa obra Romântica] os eventos são determinados pelas metas que os personagens querem cumprir, e cada evento é exigido pelo evento anterior - exigido não de forma determinista, mas pela lógica. "Se A, então B logicamente vem em seguida".
Como contraste, os eventos numa obra Naturalista não procedem um do outro, mas são amplamente aleatórios. Um Naturalista não tem princípios pra decidir se vai mostrar um piquenique em família, um dia de compras, uma exposição de flores ou um café da manhã. Os eventos servem pra apresentar ou influenciar os personagens - e esse é o critério de seleção do autor. A linha central é sempre o desenvolvimento de certo personagem; e o autor para quando ele acha que já apresentou o personagem o bastante pro leitor entendê-lo. A predominância de caracterização sobre ação é a premissa básica do Naturalismo."
"Se você é um observador perceptivo porém superficial e você olha para as pessoas na vida real, você pode enxergar uma ou duas camadas de motivação por trás de suas ações. Por observador "superficial", eu não quero dizer um observador burro. Quero dizer "não-filosófico". Quero dizer alguém que não pensa de maneira muito abstrata sobre a natureza do homem e suas motivações."
"Numa caracterização Romântica, o leitor é dado tanta psicologia humana quanto a ambição e habilidade do autor permitem. Numa caracterização Naturalista, em contraste, muitos detalhes físicos são dados sobre figuras que se movem mas sem nenhuma psicologia real.
Eles são seres humanos que têm certos motivos - e só. O autor não vai mais fundo do que suas motivações imediatas, nem os próprios personagens jamais questionam suas próprias almas ou os significados mais profundos por trás delas.
A razão pela qual um Naturalista aborda caracterização dessa forma é seu determinismo filosófico básico. Se alguém vê o homem como um ser determinado, ele não vai a fundo naquilo que o move. Ele é o que é. Se ele age de certa forma, ele diz: "Bem, então ele tem esse tipo de paixão." O que faz uma mente centrar em tal paixão? Um Naturalista não faz essas perguntas; não é relevante pra sua visão do homem. Ele vê o homem como "dado-em-árvore"."
"Um Naturalista te diz que o homem age de certa forma, mas não por que ele o faz; ou (se ele for um Naturalista sério) ele te dá alguma indicação, mas uma relativamente superficial. Ele sempre para antes de qualquer "Por que" fundamental - de qualquer tópico relativo a todos os seres humanos. Ele nunca toca nos universais do comportamento humano, porque fazer isso seria ir contra a premissa de que o homem é determinado. Não há espaço na filosofia determinista pra abstrações amplas, universais, que governam o comportamento humano dentre as quais o homem tem poder de escolha."
"O método Romântico, por outro lado, vai até as abstrações fundamentais. Isso não quer dizer que todo autor Romântico faça isso; mas todo autor Romântico vai tão fundo quanto suas ambições pessoais ou seu tema requerem."
"Há uma contradição fundamental na premissa da escola Naturalista. Você se interessa em ler uma história Naturalista como Ana Karenina apenas pela suposição de que os personagens têm escolha. Se uma mulher hesita entre deixar o seu marido pelo homem que ela ama ou deixar o homem que ela ama por seu marido, essa é uma escolha crucial em sua vida. Isso só pode te interessar se você imaginar que ela tem escolha, pois você quer saber por que ela faz determinada escolha e se ela está certa ou errada. Se, no entanto, você mantiver firme a ideia de que ela não tem escolha e deve fazer o que seu destino determinar - e que, se algum dia você estiver numa situação semelhante, suas ações futuras serão desconhecidas porque algo além da sua escolha irá determinar a sua decisão - a história não terá nenhum significado para você.""Se o homem não tem escolha, você não pode escrever uma história sobre ele, e também não há sentido em ler uma. Se eles tem escolha, não faz sentido ler sobre eventos não escolhidos [pra isso, não-ficção é muito melhor]. O que você racionalmente quer ler é uma história sobre as escolhas do homem, certas ou erradas - sobre suas decisões e sobre o que eles deveriam ter decidido - ou seja: uma história Romântica, de livre-arbítrio e trama."
"Os praticantes do Naturalismo dizem que o escritor deve retratar aquilo que eles chamam de "vida real", ou seja "como as coisas são", não exercendo seletividade ou julgamento de valores."
"Mas observem que esses Naturalistas são extremamente seletivos em relação a dois atributos da literatura: estilo e caracterização. Sem seletividade, seria impossível realizar qualquer tipo de caracterização, nem a de um homem fora do comum nem a de um homem ordinário, que é oferecido como sendo estatisticamente típico de uma grande parcela da população. Portanto, a oposição dos Naturalistas à questão da seletividade se aplica a apenas um atributo da literatura: o conteúdo ou assunto."
"A pergunta óbvia, pra qual os herdeiros do Naturalismo estatístico não têm resposta, é: se heróis e gênios não podem ser considerados representantes da humanidade, por causa da raridade numérica deles, então por que monstros e aberrações podem? Por que os problemas da mulher barbada têm maior relevância universal que os problemas de um gênio? Por que a alma de um assassino merece estudo, mas não a alma de um herói?"
"A resposta se encontra na premissa metafísica básica do Naturalismo, tenham seus praticantes a escolhido conscientemente ou não: como uma evolução da filosofia moderna, a premissa básica é anti-homem, anti-mente, anti-vida; e, como uma evolução da moralidade altruísta, Naturalismo é uma fuga desesperada do julgamento moral - um longo e lamentado choro por pena, por tolerância, pelo perdão de qualquer coisa."
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