segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Naturalismo vs. Romantismo

Abaixo, um resumo das características mais essenciais que, na minha interpretação, diferenciam o Romantismo do Naturalismo.

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Romantismo

- Representa a realidade de maneira seletiva, estilizada, de acordo com os valores e a visão de mundo do autor. O filme não pretende retratar a vida como ela é, mas como ela poderia ser - uma versão da realidade baseada nos ideais e nos interesses do autor. O autor é primeiramente um criador.

- Retrata personagens/eventos especiais, dignos de destaque.

- O autor tem uma postura ativa e tem a intenção de comandar a experiência do espectador. A obra é uma projeção dos valores/senso estético do autor - mas que se ajusta à consciência e aos desejos do espectador. Ela respeita o fato de que o espectador é naturalmente motivado por prazer, e constrói a obra ao redor dessa realidade - apresentando uma narrativa envolvente, estimulante, que caminha em direção a um clímax, discute temas de interesse da plateia, etc.

- Os personagens têm livre arbítrio, objetivos, e a capacidade de decidir/influenciar seus destinos, de forma que suas decisões e o resultado delas são de interesse do público pois têm implicações morais e aplicação universal.

- Expõe o universo como um lugar compreensível (mudanças, causas, efeitos e pessoas têm explicação) e benevolente (é um lugar onde o ser humano pode ser próspero e atingir seus objetivos se ele agir corretamente).

Exemplos: E o Vento Levou / Titanic / O Iluminado / O Poderoso Chefão / Cantando na Chuva / Os Sete Samurais / Lawrence da Arábia / Psicose / Star Wars / Clube da Luta / Esqueceram de Mim / A Vida É Bela / Dogville

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Naturalismo

- Pretende retratar/comentar a realidade como ela é. O autor é mais um guia e um observador do que um criador.

- Retrata pessoas/eventos realistas.

- O autor tem uma postura passiva e apenas expõe fatos e eventos que acha relevantes, mas não pretende comandar a experiência interna do espectador. A realidade é apresentada de maneira crua e o autor no máximo sugere uma maneira de olhar para aqueles fatos. O autor rejeita o fato de que o espectador é motivado por prazer e auto-interesse, e exige altruísmo / auto-sacrifício emocional dele em nome de um "bem maior" (geralmente o de valorizar os mais fracos: as pessoas mais fracas, os artistas mais fracos, os países e culturas mais fracas). A obra não se ajusta às necessidades do espectador criando estímulo, clímax, etc. O espectador é que tem que se ajustar à obra.

- Os personagens são vítimas das circunstâncias e não têm muito poder sobre suas vidas, escolhas e destinos.

- Expõe o universo como um lugar complexo / incompreensível (mudanças, causas, efeitos e o comportamento humano são difíceis de entender) e malevolente / impróprio para a prosperidade e objetivos do ser humano.

Exemplos: A Regra do Jogo / Os Incompreendidos / Ladrões de Bicicletas / A Estrada da Vida / As Vinhas da Ira / Nashville / Central do Brasil / Mary e Max: Uma Amizade Diferente / Perdidos na Noite / Fanny & Alexander / A Canção da Estrada / Uma Mulher Sob Influência

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Análises da Ayn Rand:

Traduzi aqui alguns parágrafos dos livros The Art of Fiction e The Romantic Manifesto, ambos da Ayn Rand, pra ajudar a esclarecer as diferenças entre filmes "românticos" e "naturalistas", usando a terminologia de Rand. A escola que eu gosto é a Romântica, que no cinema é melhor representada pelo cinema tradicional de Hollywood. O Naturalismo predomina praticamente em todo o resto do mundo - a maioria dos filmes Europeus e latino-americanos pertencem à essa escola, e mesmo o cinema americano hoje em dia é muito influenciado por ela (porém nos EUA haja geralmente uma mistura maior com o método Romântico).

Esses textos são sobre literatura, mas os princípios básicos servem pra outras artes também. Claro que o tema é muito extenso e estou deixando de fora muita coisa, mas isso aqui já começa a expor as diferenças fundamentais (montei também esse vídeo com a própria Rand se explicando):



"A principal distinção entre uma obra Romântica e uma Naturalista é que a Romântica tem enredo (trama) e a Naturalista não. Mas, embora ela não tenha uma progressão propositada de eventos, uma boa obra Naturalista ainda tem uma série de eventos que formam uma história."

"As premissas filosóficas básicas que determinam se um autor pertence à escola Naturalista ou Romântica são as premissas do determinismo ou livre arbítrio. Se a convicção básica de um escritor é a de que o homem é uma criatura determinada - que ele não tem escolha, mas é uma marionete do destino ou de suas origens ou de Deus ou de suas glândulas - este escritor será Naturalista. A escola Naturalista, essencialmente, apresenta o homem como impotente; ela tem alguns ótimos escritores, mas é uma escola filosoficamente má, e seu defeito literário é a falta de enredo. Uma trama, sendo uma progressão proposital de eventos, necessariamente pressupõe a liberdade do homem de escolher e sua capacidade de atingir objetivos. Se um escritor acredita que os homens são seres determinados, ele será incapaz de elaborar uma trama."

"(Um escritor é governado por suas convicções mais profundas, e não por crenças que ele possa afirmar ter. Ele pode dizer que acredita no livre arbítrio mas subconscientemente ser um determinista, ou vice-versa. A sua premissa subconsciente é a que se revelará na estrutura de sua escrita.)"

"A escola Romântica aborda a vida com a premissa de que o homem tem livre arbítrio, a capacidade de escolha. A característica essencial dessa escola é uma trama bem estruturada.
Se o homem tem o poder de escolha, então ele pode planejar os eventos de sua vida; ele pode estabelecer metas e atingi-las. Portanto, sua vida não é uma série de acidentes. Coisas não "acontecem" a ele simplesmente; ele determina aquilo que irá acontecer (e se acidentes ocorrem, seu objetivo é superá-los). Ele é o arquiteto de sua própria vida.
Se essa é a sua visão do homem, você vai escrever sobre eventos que lidam com os propósitos do homem e os passos que ele toma para atingi-los. Uma trama é "uma progressão proposital de eventos" - não uma série acidental de acontecimentos, mas uma progressão centrada no propósito de alguém (normalmente do herói ou heroína)."

"Numa história com trama, homens e eventos são puxados adiante por um propósito. Numa história Naturalista, eles são empurrados por trás, como na natureza física."

"[Numa obra Romântica] os eventos são determinados pelas metas que os personagens querem cumprir, e cada evento é exigido pelo evento anterior - exigido não de forma determinista, mas pela lógica. "Se A, então B logicamente vem em seguida".
Como contraste, os eventos numa obra Naturalista não procedem um do outro, mas são amplamente aleatórios. Um Naturalista não tem princípios pra decidir se vai mostrar um piquenique em família, um dia de compras, uma exposição de flores ou um café da manhã. Os eventos servem pra apresentar ou influenciar os personagens - e esse é o critério de seleção do autor. A linha central é sempre o desenvolvimento de certo personagem; e o autor para quando ele acha que já apresentou o personagem o bastante pro leitor entendê-lo. A predominância de caracterização sobre ação é a premissa básica do Naturalismo."

"Se você é um observador perceptivo porém superficial e você olha para as pessoas na vida real, você pode enxergar uma ou duas camadas de motivação por trás de suas ações. Por observador "superficial", eu não quero dizer um observador burro. Quero dizer "não-filosófico". Quero dizer alguém que não pensa de maneira muito abstrata sobre a natureza do homem e suas motivações."

"Numa caracterização Romântica, o leitor é dado tanta psicologia humana quanto a ambição e habilidade do autor permitem. Numa caracterização Naturalista, em contraste, muitos detalhes físicos são dados sobre figuras que se movem mas sem nenhuma psicologia real.
Eles são seres humanos que têm certos motivos - e só. O autor não vai mais fundo do que suas motivações imediatas, nem os próprios personagens jamais questionam suas próprias almas ou os significados mais profundos por trás delas.
A razão pela qual um Naturalista aborda caracterização dessa forma é seu determinismo filosófico básico. Se alguém vê o homem como um ser determinado, ele não vai a fundo naquilo que o move. Ele é o que é. Se ele age de certa forma, ele diz: "Bem, então ele tem esse tipo de paixão." O que faz uma mente centrar em tal paixão? Um Naturalista não faz essas perguntas; não é relevante pra sua visão do homem. Ele vê o homem como "dado-em-árvore"."

"Um Naturalista te diz que o homem age de certa forma, mas não por que ele o faz; ou (se ele for um Naturalista sério) ele te dá alguma indicação, mas uma relativamente superficial. Ele sempre para antes de qualquer "Por que" fundamental - de qualquer tópico relativo a todos os seres humanos. Ele nunca toca nos universais do comportamento humano, porque fazer isso seria ir contra a premissa de que o homem é determinado. Não há espaço na filosofia determinista pra abstrações amplas, universais, que governam o comportamento humano dentre as quais o homem tem poder de escolha."

"O método Romântico, por outro lado, vai até as abstrações fundamentais. Isso não quer dizer que todo autor Romântico faça isso; mas todo autor Romântico vai tão fundo quanto suas ambições pessoais ou seu tema requerem."

"Há uma contradição fundamental na premissa da escola Naturalista. Você se interessa em ler uma história Naturalista como Ana Karenina apenas pela suposição de que os personagens têm escolha. Se uma mulher hesita entre deixar o seu marido pelo homem que ela ama ou deixar o homem que ela ama por seu marido, essa é uma escolha crucial em sua vida. Isso só pode te interessar se você imaginar que ela tem escolha, pois você quer saber por que ela faz determinada escolha e se ela está certa ou errada. Se, no entanto, você mantiver firme a ideia de que ela não tem escolha e deve fazer o que seu destino determinar - e que, se algum dia você estiver numa situação semelhante, suas ações futuras serão desconhecidas porque algo além da sua escolha irá determinar a sua decisão - a história não terá nenhum significado para você."

"Se o homem não tem escolha, você não pode escrever uma história sobre ele, e também não há sentido em ler uma. Se eles tem escolha, não faz sentido ler sobre eventos não escolhidos [pra isso, não-ficção é muito melhor]. O que você racionalmente quer ler é uma história sobre as escolhas do homem, certas ou erradas - sobre suas decisões e sobre o que eles deveriam ter decidido - ou seja: uma história Romântica, de livre-arbítrio e trama."

"Os praticantes do Naturalismo dizem que o escritor deve retratar aquilo que eles chamam de "vida real", ou seja "como as coisas são", não exercendo seletividade ou julgamento de valores."

"Mas observem que esses Naturalistas são extremamente seletivos em relação a dois atributos da literatura: estilo e caracterização. Sem seletividade, seria impossível realizar qualquer tipo de caracterização, nem a de um homem fora do comum nem a de um homem ordinário, que é oferecido como sendo estatisticamente típico de uma grande parcela da população. Portanto, a oposição dos Naturalistas à questão da seletividade se aplica a apenas um atributo da literatura: o conteúdo ou assunto."

"A pergunta óbvia, pra qual os herdeiros do Naturalismo estatístico não têm resposta, é: se heróis e gênios não podem ser considerados representantes da humanidade, por causa da raridade numérica deles, então por que monstros e aberrações podem? Por que os problemas da mulher barbada têm maior relevância universal que os problemas de um gênio? Por que a alma de um assassino merece estudo, mas não a alma de um herói?"

"A resposta se encontra na premissa metafísica básica do Naturalismo, tenham seus praticantes a escolhido conscientemente ou não: como uma evolução da filosofia moderna, a premissa básica é anti-homem, anti-mente, anti-vida; e, como uma evolução da moralidade altruísta, Naturalismo é uma fuga desesperada do julgamento moral - um longo e lamentado choro por pena, por tolerância, pelo perdão de qualquer coisa."

6 comentários:

Isabela F. disse...

O que será que a Ayn Rand acharia do cineasta (e não sei quantas coisas mais) Alejandro Jodorowsky? Arte ou não? Aliás, Caio, qual sua opinião em relação a ele?

Caio Amaral disse...

Ela ia odiar sem dúvida! Hehehe. Eu fiz alguns comentários a respeito dele na postagem sobre o documentário Duna de Jodorowsky: http://profissaocinefilo.blogspot.com.br/2015/04/duna-de-jodorowsky.html

Eu na verdade só assisti El Topo e A Montanha Sagrada.. ambos me divertiram pela bizarrice.. acho que existe um elemento grande de criatividade ali.. e um visual interessante.. mas não acho que ele saiba integrar essas qualidades numa narrativa coerente e satisfatória (como o David Lynch consegue em seus melhores trabalhos). Parece um cineasta insano simplesmente.. Cai naquilo que chamo de "desintegração".. ou no tipo "D" de filmes (se vc viu minha postagem "Virtudes e Tipos de Filmes").

Jussara Lima disse...

Interessante, mas ainda fiquei um pouco na dúvida sobre naturalismo e romantismo. Pois o filme A História da Eternidade (Cavalcante, Camilo 2015, BRA - PE), me desconcertou. Você já o assistiu Caio?? Gostaria de saber sua opinião sobre o filme.

Caio Amaral disse...

Oi Jussara! Nunca tinha ouvido falar nesse filme.. vi o trailer agora.. achei diferente no mínimo.. você gostou?

Esses termos "naturalismo" e "romantismo" agrupam uma série de valores.. por isso é difícil às vezes de interpretar em que categoria cai um filme.. eles podem ter coisas misturadas.. é que nem dizer que uma pessoa é de "direita".. nem todo mundo que é de direita apresenta todas as características básicas da definição.. tipo: ser religioso, ser contra casamento gay, pró-armas, etc. O certo seria desmembrar naturalismo e romantismo em seus componentes essenciais.. e daí discutir um por um, que valores eles representam.. em vez de falar da categoria geral..

Recomendo uma outra postagem que fiz aqui também pra ajudar a definir filmes que estão em sintonia com a escola romântica:

Virtudes e Tipos de Filmes
http://profissaocinefilo.blogspot.com.br/2015/10/virtudes-e-tipos-de-filmes.html

Marcus Aurelius disse...

Caio, o que tu acha do seguinte: uma pessoa que tem a vida tão infeliz, tão parada, tão tediosa que um filme naturalista seria uma grande aventura. Por exemplo alguém que nunca sai da rotina casa-trabalho, e a vida é solitária. Então assiste um "Nebraska", "Central do Brasil", "Diários de Motocicleta" e vê neles uma grande aventura romantizada e possível?

Só que, um filme romântico está tão acima disso que para ela é pura fantasia irrealista e infantil, pois ela está em um estágio "abaixo" do naturalismo em sua vida pessoal e em aspectos intelectuais.

Quando falo desta pessoa, não me refiro a um cínico convicto, alguém que tem ódio dos valores positivos, mas sim quem tem a vida mais desinteressante do que um filme naturalista propriamente dito (já que em filmes naturalistas existes personagens e "acontecimentos"), e sem qualquer tipo de interação com pessoas reais bem como nenhum contato com um ambiente fora de sua rotina.

Caio Amaral disse...

Oi Marcus! A MINHA vida por exemplo é bastante parada (nunca fui atacado por tubarões, nunca vi alguém ser morto, etc)... Diria que bem mais parada que a maioria dos filmes Naturalistas que vejo... Não é baseado no que acontece na minha rotina pessoal que eu julgo se um filme é realista ou retrata eventos extraordinários... Se não quase TUDO seria extraordinário pra mim.. É baseado no que sabemos ser possível dentro da experiência humana / artística... considerando tudo o que sabemos sobre o mundo, o que já lemos em livros, o que vemos nos jornais, todos os filmes que já vimos, todas as emoções que já sentimos, tudo o que a arte já conseguiu nos provocar, e também no que a imaginação é capaz de conceber... Então se o filme mostra um homem e uma mulher que pegam um navio, e nada acontece, eles simplesmente chegam ao destino, não se apaixonam nem nada.. vc sabe que viu uma história naturalista, mesmo que vc nunca tenha andado de navio e isso em si já fosse fascinante pra vc. Afinal vc sabe o que PODERIA ter acontecido em tal situação.. você já leu sobre o Titanic, já viu o filme, sabe que grandes paixões acontecem, sabe que a arte é capaz de te comover, etc.. então mesmo uma pessoa que não sai de casa terá noção do que é banal ou extraordinário na vida, se ela tem qualquer contato com o mundo externo.. os filmes românticos tendem a nos levar aos limites da experiência humana dentro do contexto da história..

"Ah mas e se você pegar um índio que nem sabe que existe cinema e mostrar pra ele Central do Brasil? Pra ele não vai ser tão impactante quanto Star Wars é pra gente?". A resposta pra isso é que valores dependem de contexto.. Não dá pra julgar um filme adequadamente sem levar em conta quando / em que contexto ele foi feito.. Por exemplo: pra um cientista do ano 1500, qualquer imbecil dos tempos de hoje que viajasse no tempo iria parecer um gênio: saberia que a Terra é redonda, saberia sobre átomos, sobre anestesia, etc.. Mas, se esse cientista soubesse de todo o contexto; de onde veio essa pessoa, o que é senso comum naquela realidade, etc... ele já deixaria de achar essa pessoa genial.. saberia que ela não tem de fato aquelas virtudes... Ou seja, foi a ignorância dele quanto ao contexto que o fez admirar algo que na realidade era medíocre...