segunda-feira, 16 de julho de 2012

Na Estrada

Adaptação do livro de Kerouac que foi uma grande influência pra geração "beat", o filme descreve a viagem pelos Estados Unidos e pelo México de Sal Paradise e Dean Moriarty (que na realidade seriam Jack Kerouac e Neal Cassady). A produção é de Coppola, que escolheu Walter Salles pra dirigir o projeto após assistir Diários de Motocicleta.

Um amigo meu comentou que não queria ver o filme pois ele detesta essas pessoas pretensiosas que querem ser felizes e intelectuais ao mesmo tempo - ele acha que elas teriam que escolher um ou outro. Apesar de eu já discordar dessa ideia, o importante é notar que os personagens de Na Estrada não são nem intelectuais e nem buscam felicidade de fato. Eles são contra o intelecto e a mente - eles querem viver no impulso do momento, sem planejar ou entender nada, apenas cultuando sensações (o que dá a eles um ar de intelectualidade é o fato deles serem pretensiosos e divagarem sobre a vida; mas eles não demonstram de fato interesse por ideias, por conhecimento, por fatos; queriam no fundo anular o cérebro e viver na base de estímulos físicos: maconha, benzedrina e sexo - e, se essa é a noção de felicidade deles, não é à toa que estão sempre considerando o suicídio).

Eles querem ser "livres"; inclusive pra cometer crimes e desrespeitar o direito dos outros. A noção deles de "viver intensamente" é bater os pés no chão e agir no impulso animal - pisar no acelerador na contramão e colocar em risco a vida das pessoas que não "vivem intensamente". Eles agem como criminosos, mas quando um policial os para na estrada, o policial é mostrado como um opressor. Eles não querem pensar, ter responsabilidade, e vivem de pequenos roubos. Em determinado ponto, Sal arruma um trabalho colhendo algodão. Quando ele vai receber o pagamento pelo dia, o empregador é mostrado como um opressor. Sal o encara com um olhar que expressa "indignação pela injustiça do sistema". Mas a indignação dele não é contra o sistema e sim contra a realidade - contra o fato de que a sobrevivência não é automática.



E tudo isso é glamourizado, como se eles fossem heróis por terem tido a coragem de viver de verdade e romper com a sociedade (concordo que fugir de valores convencionais é uma virtude - mas não nessa direção). Os atores que fazem os heróis são todos bonitos e adoráveis - rostos que expressam saúde, inocência, inteligência, sensualidade, carisma. Aqueles que representam o resto da sociedade - os "não-livres" - são sistematicamente mais feios, duros, falam como caipiras ignorantes, enrustidos e sem vida - visto assim, a vida deles de fato parece mais atraente.

O filme é uma série de festas, cenas de sexo, pessoas usando drogas, cometendo crimes, fazendo viagens de carro, surubas, lendo frases de Proust, e de repente tudo acaba. Algo acontece, depois algo acontece, depois algo mais - não há uma progressão lógica de acontecimentos, apenas uma progressão cronológica. Um ano se passa, Sal sofre uma transformação inexplicável - aparece de terno e gravata - e tudo parece ter virado passado. Por que? Não é dito.

Não é pro meu gosto mas, comparado com Paraísos Artificiais (que ao invés dos ancestrais dos hippies mostrou os descendentes deles), é um retrato muito mais requintado e com mais valor técnico. É Naturalismo puro mas, dentro disso, não é um filme mal feito.

On the Road (França, Reino Unido, EUA, Brasil / 2012 / 137 min / Walter Salles)

INDICAÇÃO: Quem gostou de Paraísos Artificiais, Diários de Motocicleta, Na Natureza Selvagem, E Sua Mãe Também.

NOTA: 6.0

3 comentários:

lcattapreta disse...

Vi ontem, gostei muito.
Senti que o filme não te diz o que pensar na maior parte do tempo, o que acontece fica dentro dos personagens e nem sempre eles reagem

Caio Amaral disse...

Oi Laura! Verdade, e essa é uma das características essenciais do Naturalismo. Por que o filme não te diz o que pensar? Porque ele é apenas um registro de pessoas e acontecimentos que o autor observou.. Não há uma abordagem psicológica, não há uma mensagem unindo a história como um todo.. ele apenas revela uma coisa, depois outra coisa, etc - e espera que a plateia conclua algo disso tudo, mas não algo em particular.. o que servir pra você (se isso é um mérito ou não é outra discussão). Bjos!

Caio Amaral disse...

PS: o filme não te diz explicitamente "o que pensar", mas isso não quer dizer que ele não expresse uma série de valores e que você, como espectadora, não tenha dados pra avaliar os personagens e as intenções do autor. A partir do momento em que o diretor liga a câmera e aponta pra um ator, ele já está fazendo dezenas de escolhas. E quando um personagem faz ou diz algo isso necessariamente revela coisas sobre ele.

A diferença é que os filmes naturalistas não tentam ir nos 'porquês' essenciais por trás dos fatos, não lidam com conceitos abstratos, com questões universais, não revelam as motivações dos personagens - apenas mostram acontecimentos, sem tirar conclusões filosóficas, psicológicas, etc.