sábado, 29 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi

Espetáculo visual de Ang Lee (O Tigre e o Dragão, Brokeback Mountain) que conta a história de Piscine Molitor Patel ("Pi") - um garoto indiano que perde a família num naufrágio e fica à deriva no Oceano Pacífico num bote salva-vidas junto com um tigre de bengala chamado Richard Parker.

Mas em vez de um drama trágico, o filme é contado como se fosse uma aventura - uma viagem ao paraíso onde o garoto vive uma experiência inesquecível (dá pra lembrar de O Corcel Negro, A Lagoa Azul, Náufrago e até filmes como Amor Além da Vida, Um Olhar do Paraíso, O Mensageiro do Diabo, que também usam desse contraste entre o desastre e a fantasia).

A história tem uma introdução divertida (há tantos detalhes que até parece um filme diferente), apresentando Pi como um garoto independente, profundamente místico, e estabelecendo a relação dele com seus familiares. O pai é extremamente racional, e é interessante como o roteiro aborda a discussão de fé X razão com inteligência, mas sem atacar os valores de ninguém.

É difícil comparar o filme pois ele reúne vários tipos de história em uma só, e dessa mistura acaba surgindo algo novo. Já vimos filmes de sobrevivência no mar, já vimos filmes sobre um garoto domando um animal selvagem, já vimos filmes sobre a descoberta de um lugar paradisíaco, já vimos comédias sobre famílias estrangeiras exóticas, já vimos filmes sobre homens que narram suas histórias de vida e aumentam os fatos - mas nunca isso tudo junto, o que dá ao filme um aspecto familiar e original ao mesmo tempo.


SPOILER: No final, surge a questão: a história de Pi é real, ou é apenas uma versão enfeitada de eventos muito mais dolorosos? Ouvi algumas pessoas reclamando que essa questão é colocada de maneira muito explícita, mastigada - que seria mais interessante deixar a platéia lidar sozinha com a ambiguidade. Talvez. Mas isso não me incomoda, pois o filme não apresenta a ideia de maneira pretensiosa - e uma boa ideia não deixa de ser boa apenas por ser fácil de entender. Me incomoda um pouco o toque de pessimismo, pois nesse momento o filme acaba expressando um senso de vida trágico - dizendo que a realidade é cruel e portanto existe certa sabedoria em fugir pra um mundo de ilusão.

Mas isso não tira a beleza do filme, que é uma aula de narrativa visual e um dos melhores exemplo de como a computação gráfica e o 3D podem contribuir artisticamente para um filme. O espectador é constantemente presenteado com imagens impossíveis que parecem ter sido extraídas diretamente de um sonho - o mar iluminado por plânctons, a sequência na ilha flutuante, o barco perdido em meio às estrelas... Mais pro começo do filme, há uma tomada magnífica do navio submergindo que é um daqueles momentos mágicos do cinema onde fotografia, música, tecnologia e narrativa se unem com tal perfeição que Ang Lee mereceria um Oscar por ela apenas.

Life of Pi (EUA, China / 2012 / 127 min / Ang Lee)

INDICAÇÃO: Pra quem gostou de Avatar, Náufrago, Forrest Gump, O Corcel Negro.

NOTA: 9.0

4 comentários:

lcattapreta disse...

Mas eu ainda não sei qual é a história verdadeira!
ele conta a história do tigre para embelezar a tragédia ou conta a história das pessoas no barco salva vidas para quem não acredita na história do tigre?

Caio Amaral disse...

O detalhe da ilha carnívora é o que mais sugere que era invenção - além do fato de mostrarem o menino desde pequeno fascinado por religiões e histórias fantásticas. Não era uma mente muito científica.. rs.

E se a história do tigre fosse real, ele não deixaria a coisa ambígua também pro escritor.. Teria dito apenas pros 2 caras no hospital, não acha?

Thiago P. disse...

Eu li o livro antes de ver o filme e fiquei impressionado com a qualidade da adaptação.

Poucas coisas que ficaram de fora do filme, e a qualidade assombra justamente por ter sido considerado durante anos como "infilmável" li no Omelete que até o Shyamalan desistiu do projeto (por causa do final, iam achar que era invenção dele).

No livro a ideia de que a historia do naufrágio com o tigre é invenção se justifica na terceira parte quando ele vai narrar a outra história (chega ser cruel e angustiante de ler).

A ideia do livro é contar uma história sobre a importância de acreditar em Deus ou no sobrenatural, acho até que nesse aspecto o filme é muito feliz pois fala de Deus de uma forma muito aberta sem entrar em detalhes e assuntos delicados de religiões, mesmo o personagem tendo 3 religiões diferentes.

SPOILER ---------------

No filme tem algo extremamente tendencioso em relação ao livro. A parte que o pai dele dá um bode para o tigre comer para ensinar os filhos que o tigre é perigoso no livro é um tigre qualquer e não o Richard Park (o que deixaria em aberto para o fato do tigre ser invenção dele).

Ah, gostei muito do filme/livro. E no filme a cena do naufrágio com o navio mergulhado é impressionante mesmo.

Abraço

Caio Amaral disse...

Haha, sem dúvida o final ia parecer alteração do Shyamalan... Então no livro não é tão ambíguo? Fica claro que a história do tigre é invenção?

Quanto ao lance da fé.. por que acreditar em Deus seria importante na história? É a fé que faz o menino sobreviver? Pq se vc for pensar, se não fosse pelas lições 'científicas' do pai, o menino teria sido devorado pelo tigre logo no começo, rss. É o lado racional do garoto que o torna apto pra sobreviver... Mas também fica a sensação de que sem o lado místico ele não teria tido a mesma motivação pra lutar.

Enfim, filosoficamente não concordo com cada detalhe da história, mas mesmo assim adorei o filme, achei tudo muito bem contado.. fora a trilha, a fotografia, os efeitos.. bem legal mesmo. Abraço!!