domingo, 22 de junho de 2014

Riocorrente (anotações)

- EXPECTATIVA: Entrando na sessão com um pé atrás depois que li que o diretor deseja que o público saia do cinema "com raiva". Não acho essa uma boa postura. Por mais negativo ou provocativo que seja um filme, quando ele é de fato bom, você acaba saindo empolgado, admirado, e não com raiva.

- Naturalismo. Filme não tem história, personagens não são bem apresentados, não sabemos direito quais suas ideias, conflitos, metas, qual a relação entre eles. Filme mostra pessoas problemáticas e relacionamentos problemáticos sem um propósito aparente (e também não parece condenar o fato desses personagens serem criminosos, mentirosos, o que é suspeito).

- Desintegração. Diretor dá atenção exagerada a coisas aleatórias e sem relevância pro filme (a banda logo no começo, o garotinho jogando sinuca, as contas de multiplicação, a corrida de cavalos, o garoto vendo o incêndio na TV, o vizinho que se suicida, a entrevista com o artista, a cena no cinema, etc), isso desorienta a plateia e faz ela sentir que há um significado misterioso por trás do filme que ela não consegue entender ("não estou entendendo nada, então deve ser genial").

- Embora as cenas do filme não sigam uma sequência lógica, elas acabam tendo uma coerência, no sentido de que são frequentemente negativas, violentas. O diretor não colocaria uma cena igualmente irrelevante, mas que expressasse algo leve - um casal correndo na praia, um atleta ganhando uma medalha, etc. Isso não combinaria com o "Senso de Vida" dele, que parece ser a única coisa que interliga os eventos do filme. Os discursos intelectuais jogados no meio da história também são vagos e tendem ao subjetivismo, ao niilismo, etc.

- Não apresentar direito os personagens é uma maneira desonesta de manter o interesse. A gente acompanha o filme com certa curiosidade não por que há uma história envolvente, personagens fascinantes, valores em jogo, mas porque a gente não está entendendo nada: Quem são essas pessoas? Com o que elas trabalham? Essa criança é filha de quem? O que houve com os pais dela? Será que em algum momento algo irá acontecer?

- Ratos roendo o jornal / menino arrancando o dente / leões / briga de cães / motos no globo da morte / pessoa andando sob a brasa / arremesso de facas, etc. Diretor acha que o público é vidente e entenderá esses "símbolos" de alguma forma. Símbolos, pra terem algum sentido, precisam ser definidos no próprio filme de maneira compreensível (exceto símbolos muito universais talvez, como uma cruz, um arco-íris, etc).

- Ou talvez essas cenas "simbólicas" nem sejam pra ter um significado intelectual mesmo... O diretor só as coloca pela sensação que elas causam. Por exemplo: ele quer que o público sinta aflição, então ele joga na tela uma imagem de um olho sendo arrancado (!). Pra ver o quão absurdo é isso, imagine a mesma técnica empregada numa outra situação: o diretor quer causar sensação de carinho e empatia pelo casal central... Então, durante um encontro romântico, ele insere na edição algumas imagens de gatinhos e cachorrinhos que nada têm a ver com o resto do filme.

- Por que a mulher chora de emoção ao ver uma performance tão péssima quanto a do homem no piano? Será que esse é o desejo do cineasta? Apresentar algo horrível e mesmo assim obter uma reação emocionada do público?

CONCLUSÃO: Filme altamente subjetivo que acaba sendo interessante de ver mais pelos erros do que pelos acertos.

(Riocorrente / BRA / 2014 / Paulo Sacramento)

FILMES PARECIDOS: O Som ao Redor, Holy Motors.

NOTA: 2.0

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