segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Romantismo Reprimido

Vou chamar de Romantismo Reprimido um fenômeno que é da família do do Herói Envergonhado, mas que é algo mais abrangente, que está num estágio anterior - é uma característica psicológica que interfere no filme (ou na obra) como um todo, não apenas na figura do personagem central. Podemos dizer que o Herói Envergonhado pode ser resultado do Romantismo Reprimido, mas este pode se manifestar de outras formas também (e não só em filmes!).

Romantismo é a visão de que a arte deve projetar as coisas como elas deveriam ser - uma visão exaltada da existência (e do homem) que inspira o espectador e transmite valores positivos. É algo que apela para nossa natureza idealista, que busca a perfeição e deseja vivenciar sem restrições o melhor que o mundo tem a oferecer.

Quando somos criança, todos gostamos do Romantismo e o aceitamos sem questionamento (geralmente nem temos consciência de que há uma "polêmica" a respeito disso, e não entendemos por que alguém iria querer consumir arte que não fosse romântica). Na medida em que crescemos, alguns de nós preservam esse gosto pelo Romantismo, mas alguns o abandonam, passando a ter uma visão cínica e pessimista da vida (e querendo ver essa visão refletida na arte, muitas vezes como um ato de rebeldia contra o idealismo da juventude, ou como uma consolo pras próprias frustrações). Mas em muitos casos, as pessoas ficam no meio do caminho - nem cedendo totalmente ao cinismo, e nem aceitando a visão romântica por completo. É aí que pode ocorrer o que chamo de Romantismo Reprimido.

Ele acontece quando o artista, num nível emocional, deseja criar algo idealizado, positivo, mas isso entra em conflito com o seu lado cínico (que não acredita totalmente na mensagem que quer passar). Então ele tenta "disfarçar" seu romantismo de alguma forma - amenizando esse aspecto de seu trabalho (normalmente por medo de ser acusado de ser ingênuo, imaturo, ou uma farsa). O resultado é um trabalho contraditório, que cria e destrói as próprias intenções, fica no meio do caminho, nem inspira e nem deprime.

É importante notar a essência do equívoco: muitas pessoas acreditam subconscientemente que o romantismo é algo que reflete imaturidade, ingenuidade, fraqueza, falta de realismo - e que cinismo, pessimismo e moderação refletem força, maturidade, realismo (talvez por ser algo exclusivo da vida adulta, o que não torna isso necessariamente desejável; artrose também é algo exclusivo da vida adulta e nem por isso é algo bom). Como os adultos (mesmo os românticos) querem ser vistos como maduros e inteligentes, eles podem cair na armadilha de adotar uma atitude cínica achando que isso comprovará inteligência e maturidade, quando na verdade essas são características independentes. Uma pessoa pode ser 1) idealista e madura, 2) idealista e imatura, 3) cínica e madura, 4) cínica e imatura. A postura que a pessoa toma diante da vida e do homem é uma coisa - depende de seu temperamento, de sua filosofia, de seu Senso de Vida, etc. A qualidade e a profundidade de seu pensamento é outra. O que quero dizer é: mesmo sendo realista e aceitando que a vida raramente é tão perfeita quanto a imaginação pode conceber, ainda é possível manter um respeito pela função da arte romântica de projetar esses ideais que nos inspiram e nos fazem buscar o melhor, sem se rebelar imaturamente contra o fato de que a vida não é perfeita na maior parte do tempo.

Vou listar abaixo algumas das estratégias que esses artistas divididos costumam usar pra "disfarçar" o aspecto idealista / romântico neles:

1. Expressando algo romântico mas de maneira caricata, exagerada, dando um tom cômico, fútil ou não realista para aquilo.
2. Expressando algo romântico mas logo em seguida fazendo algo anti-romântico pra quebrar o clima.
3. Expressando algo romântico mas simultaneamente fazendo apelo ao violento, ao vulgar, ao imoral, ao trágico, ao melancólico, ao feio e ao negativo pra "equilibrar" o resultado.
4. Expressando algo romântico mas de maneira discreta, casual, despretensiosa, sem emoção, vigor ou intensidade, como se não fosse algo importante (misturando romantismo com naturalismo, minimalismo).
5. Expressando algo admirável apenas num nível técnico / visual, mas não em aspectos mais relevantes da obra.
6. Não sendo romântico, mas constantemente fazendo referências e flertando com o universo do romantismo, geralmente em tom cínico.
7. Debochando do romantismo de outras pessoas, lugares ou épocas, invalidando aquilo como algo superficial, ridículo ou ultrapassado.

Esses últimos na verdade não são românticos reprimidos, e sim cínicos convictos que desejam apenas desencorajar o que há de romântico nas outras pessoas. No que chamo de Romantismo Reprimido, o artista simpatiza pelo Romantismo em algum nível, mas ele tenta disfarçar ou amenizar isso através das técnicas acima (entre outras). O receio é sempre o de revelar seu lado idealista - o que há de mais puro em sua essência: felicidade, ambição, autoestima, uma visão não-cínica da existência e do homem.

2 comentários:

TiffanyNoelli9 disse...

É aquilo que comentamos sobre o exemplo de como o Cazuza pensava!Em um modo geral como vc disse " cínicos convictos" eu conheço muitos que levam essa personalidade não só em relacionamento, mas em tudo na vida! Em simples comentário o cara é assim. Tem os que são sinceros demais que chegam a levar ao ápice da loucura aos olhos de alguns, e outros que considero insuportáveis quem nem para amizade conseguimos aturar. Adorei seu post! Bjs

Caio Amaral disse...

Sim, muito a ver com o depoimento do Cazuza...!

Os que são "cínicos convictos", ou seja, aqueles que nem tentam expressar nada de romântico, que de fato têm uma visão negativa das coisas, esses eu nem critico tanto.. pq pelo menos eles são íntegros.. estão fazendo o que acreditam..

Me incomodam mais os românticos reprimidos, porque esses estão em conflito.. eles criam algo bonito, e depois o cobrem de manchas, de sujeira.. acaba sendo pior de ver..