segunda-feira, 28 de julho de 2014

Senso de Vida

[Nota inicial: embora o termo Senso de Vida ("sense of life") tenha sido criado pela Ayn Rand, eu não estou falando aqui em nome dela, estou apenas emprestando o conceito pra explicar minhas noções estéticas pessoais. A maioria das ideias aqui foram tiradas do livro "The Romantic Manifesto", pois de fato eu concordo com ele em quase tudo, mas várias outras coisas foram elaboradas por mim e podem não estar de acordo com as ideias de Rand.]

"Senso de Vida" é soma integrada dos valores fundamentais de um homem. É uma avaliação subconsciente que fazemos do ser humano e da existência, e que estabelece a natureza das nossas reações emocionais e a essência do nosso caráter.

Nosso senso de vida não vem primeiramente de nossas convicções explícitas - é algo formado subconscientemente, baseado em nossas experiências pessoais, e que pode estar ou não em harmonia com nossas opiniões conscientes.

Mesmo sem entender nada a respeito de filosofia, ao longo da vida um homem tem que fazer escolhas, formar uma opinião a respeito dele próprio e do mundo ao seu redor (em particular de sua capacidade de lidar com o mundo). Através de suas conclusões, ele chega a um sentimento generalizado em relação à existência - uma emoção básica que está por baixo de todas as suas experiências.

Embora suas conclusões sejam baseadas em suas experiências particulares, elas acabam se tornando um sentimento generalizado a respeito do universo como um todo.

A importância de entender o que é "senso de vida" é que ele é a principal ferramenta de avaliação das pessoas. É com base em nosso senso de vida que nós escolhemos os nossos amigos, nossos pares românticos, nossas músicas e filmes favoritos - praticamente tudo o que envolve nossas emoções. Nós aprovamos e nos sentimos atraídos pelas coisas que estão em harmonia com nosso senso de vida, e rejeitamos aquelas que não estão.

Na medida em que uma pessoa domina seus processos mentais, o senso de vida pode ser moldado por ela própria ao longo de sua formação, e chegar à vida adulta em harmonia com uma filosofia consciente. Na maior parte dos casos, o senso de vida de uma pessoa é formado por influências aleatórias, imitações, osmose cultural, e frequentemente é cheio de contradições e está em conflito com suas ideias. De qualquer forma, ninguém pode evitar de formar um senso de vida.

A filosofia é dividida em ramificações como: metafísica, epistemologia, ética, política e estética. Nosso senso de vida é formado principalmente pelas conclusões que chegamos (ou aceitamos sem pensar) a respeito de metafísica, epistemologia e ética - que são a base da filosofia e formam nossos valores mais fundamentais.

Vou listar a seguir alguns exemplos de perguntas filosóficas que são essenciais na formação de um senso de vida:

- O universo é um lugar governado por leis naturais, estável, absoluto, ou é um caos incompreensível para o homem?
- Nossa mente é capaz de compreender a realidade, ou a razão é impotente?
- O homem tem livre arbítrio ou suas escolhas são determinadas por outros fatores (cultura, genética, classe social, emoções)?
- O homem é capaz de atingir sucesso, felicidade, ou a vida é feita de dificuldades e frustrações?
- O homem é essencialmente bom, admirável, ou ele é mau e desprezível por natureza?
- As pessoas podem conviver em harmonia, ou seus interesses mais básicos estão em conflito?
- O homem deve buscar seus objetivos, ou ele deve se sacrificar (pelos outros, pela sociedade, etc)?
- O homem deve ter ambição, autoestima, sonhar alto, ou ele não deve se sobressair?
- Sua vida deve ser importante, extraordinária, ou simples e comum?
- É importante lutar pelos seus valores - ou é importante não contrariar ninguém?
- É importante ser independente e realizar algo de valor - ou é importante ganhar dos outros?
- A felicidade é importante  - ou a abnegação é importante?

Respostas diferentes para as perguntas acima resultarão em pessoas com sensos de vida diferentes e irão interferir diretamente em todas as suas escolhas, preferências, em suas reações a outras pessoas e a obras de arte.

É importante lembrar que, entre os extremos, existem posicionamentos intermediários entre todas essas respostas. Por exemplo, uma pessoa pode sentir que: 1) A felicidade é o estado natural do homem e que conflitos são a exceção. 2) Que a vida é feita de grandes conflitos mas que eles são superáveis e que a felicidade pode ser conquistada com esforço. 3) Que conflitos não são superáveis e que a felicidade só pode ser atingida em moderação. 4) Que a vida é trágica e que a felicidade é uma ilusão.

Nosso senso de vida classifica as coisas de acordo com as emoções que elas evocam. No livro "The Romantic Manifesto", Rand cita uma série de exemplos concretos e sugere que emoções esses exemplos provocariam em pessoas com níveis diferentes de auto-estima. Por exemplo: uma nova descoberta, triunfo, um homem heroico, o horizonte de Nova York, cores puras, música extasiante - ou, o pessoal da casa ao lado, uma rotina familiar, um homem humilde, um vilarejo antigo, uma paisagem nebulosa, cores turvas, música folk. Pra uma pessoa com um nível de auto-estima elevado, os exemplos do primeiro grupo devem provocar admiração, exaltação, um senso de desafio. Os exemplos do segundo grupo devem provocar tédio, desinteresse ou repulsa. Pra uma pessoa com um nível mais baixo de auto-estima ou de ambição, as emoções unindo os exemplos do primeiro grupo devem ser de medo, culpa, ressentimento. As emoções unindo os exemplos do segundo grupo devem ser de alívio, conforto, a segurança de estar num universo não muito exigente.

O senso de vida de uma pessoa é algo que percebemos quase instantaneamente quando a conhecemos, pois envolve tudo a respeito dela: cada pensamento, emoção, gesto, sua postura, tom de voz, maneira de sorrir, de se vestir. É uma soma complexa de informações, mas que percebemos muito rapidamente, o que leva as pessoas a acharem que se trata de uma espécie de "energia" misteriosa que as pessoas emitem e que não se pode explicar (de fato é difícil de explicar um senso de vida - é algo que pode ser sentido, mas não compreendido imediatamente, a não ser por uma análise mais cuidadosa).

Numa obra de arte, o senso de vida de um artista se expressa através de seu conteúdo e de seu estilo (O QUE ele decide retratar, e a MANEIRA em que ele o retrata). Esses 2 aspectos - conteúdo e estilo - podem tanto estar em harmonia quanto podem estar em conflito um com o outro, assim como os valores conscientes e subconscientes de uma pessoa podem estar em harmonia ou em conflito.

O CONTEÚDO reflete os valores mais conscientes do artista: Que tipo de mensagem a obra transmite? Que tipo de eventos e pessoas o artista decide retratar? Heróis buscando objetivos nobres? Gente comum sem muitas características admiráveis? Ou pessoas monstruosas? Essas pessoas são retratadas positivamente (sendo eficazes, vitoriosas) ou negativamente (sendo ineficazes, derrotadas)? Um herói retratado positivamente indica um artista com um senso de vida benevolente. Uma figura desprezível retratada negativamente também pode indicar um senso de vida benevolente (é como multiplicação: + vezes + dá um resultado positivo, - vezes - também dá um resultado positivo). Já um herói (+) retratado negativamente (-), ou um monstro (-) retratado positivamente (+), gera um resultado negativo e indica um senso de vida malevolente.

O ESTILO reflete os valores mais subconscientes (e geralmente mais reveladores e verdadeiros) da obra. Por exemplo: o artista comunica suas ideias de maneira clara, precisa, compreensível? Ou de maneira nebulosa, imprecisa, caótica? Se há uma história, ela é dramática, estruturada? Tem uma direção clara, propósito, clímax? Ou ela é monótona, os eventos são aleatórios e não caminham pra nenhuma resolução? O artista cria uma experiência estimulante, prazerosa, tanto pra mente quanto para os sentidos do espectador? Ou ele cria uma experiência desagradável? Escala atores admiráveis e virtuosos, ou coloca figuras comuns na tela? Ele demonstra suas virtudes como realizador, ou se coloca em segundo plano pra não se "exibir"?

Sensos de vida são formados por combinações de inúmeras percepções a respeito da vida, e podem ser extremamente diversificados. Ainda assim, é possível classificar, a grosso modo, sensos de vida entre mais "malevolentes" e mais "benevolentes". Um senso de vida malevolente é dominado pelas respostas negativas às questões filosóficas mais fundamentais (a vida é trágica, o universo é um lugar caótico, nossa mente não está em contato com a realidade, o homem é desprezível e está condenado ao sofrimento, seus interesses estão em conflito, etc), e um senso de vida benevolente é dominado pelas respostas positivas (a vida é boa, o universo é compreensível, o homem é admirável e capaz de atingir seus objetivos, seus interesses não estão em conflito, etc).

Você pode ser um artista com um senso de vida predominantemente benevolente tanto em conteúdo quanto em estilo (pra pegar exemplos do cinema, cito Steven Spielberg), um artista com um senso de vida predominantemente malevolente tanto em conteúdo quanto em estilo (Jean-Luc Godard), ou então uma mistura, como por exemplo Stanley Kubrick, que em seu estilo expressa um senso de vida benevolente (precisão, clareza, propósito, virtuosismo técnico, histórias dramáticas, bem estruturadas, etc) mas que no conteúdo geralmente expressa uma visão negativa da natureza humana.

Qual senso de vida está certo e qual está errado? Eu poderia tentar explicar por que eu acho (e a Ayn Rand achava) que o senso de vida benevolente é o melhor e o que está mais de acordo com a realidade humana. Mas o principal propósito dessa postagem não é o de defender o senso de vida benevolente, e sim o de explicar o conceito e como ele interfere nas nossas preferências.

No entanto, gostaria de listar algumas crenças que costumam andar lado a lado com o senso de vida malevolente e que fazem as pessoas reagirem ao senso de vida benevolente negativamente, como algo irreal ou "superficial" (vou repetir algumas coisas já ditas acima):

- A ideia de que nossos sonhos e nossos maiores valores não podem (pela natureza das coisas) ser conquistados na Terra (o que pode ser um fato se você tiver objetivos e valores morais que vão contra a natureza).
- A ideia de que nossa mente é impotente para lidar com a realidade (o que pode ser um fato se você tiver métodos impróprios de raciocínio ou problemas psicológicos involuntários).
- A ideia de que sentimentos (e não ações) definem nosso caráter (por exemplo: se você sentiu desejo pela esposa do vizinho, isto é o mesmo que traição).
- A ideia de que o auto-interesse é mau; que os interesses dos outros estão acima dos nossos e da nossa felicidade - e que moralmente devemos nos sacrificar ("Como eu posso comprar um carro de luxo enquanto há pessoas passando fome?").
- A ideia de que os interesses das pessoas estão em conflito (que pra uma se sobressair, outra precisa ser inferiorizada, de que pra uma pessoa ficar rica, outra tem que ficar pobre, etc).
- A ideia de que tudo é relativo, de que não existe certo ou errado, bom ou mau, e que tudo é uma questão de opinião.
- A ideia de que a comunicação objetiva entre as pessoas é impossível (inclusive entre o artista e o espectador).
- A ideia de que a morte é uma tragédia (que a vida só faria sentido se existissem outras vidas, Deus, "algo mais", etc).
- A ideia de que a razão leva à tristeza, que quanto mais compreendemos a realidade, mais trágica ela parece. De que a felicidade só é possível através da ignorância.

Rand dizia que senso de vida não é uma ferramenta válida de avaliação estética - que ele apenas estabelece nossa reação emocional à uma obra de arte, mas que isso não é o suficiente pra provar se o trabalho é bom ou ruim. Ela dizia que pra se julgar a qualidade de um trabalho, você teria que usar critérios puramente estéticos. Eu pessoalmente discordo um pouco de Rand nesse ponto, e acredito não ser possível separar totalmente valores estéticos de senso de vida. Concordo que senso de vida não seja infalível e que não seja o suficiente pra se julgar um trabalho, mas não acho que seja possível chegar a critérios estéticos absolutos que não estejam conectados a um senso de vida ou a uma base filosófica (da mesma forma que Rand dizia que ciência vinha depois de filosofia, e não antes, eu acho que estética só pode vir depois de alguns critérios filosóficos básicos serem estabelecidos). Mesmo princípios como "clareza" ou "consistência", que parecem inquestionáveis, na verdade parecem já ser expressão de um senso de vida benevolente do artista, pelo menos no nível de estilo (reflete alguém que acredita que o universo seja inteligível, que a razão seja eficaz, que uma comunicação objetiva entre artista e espectador seja possível, etc).

Na minha visão, seria impossível um artista com um senso de vida extremamente negativo
realizar uma grande obra de arte. Se ele realmente acreditasse que o homem é desprezível (o que incluiria ele próprio e também os espectadores), incapaz de atingir seus valores, que a comunicação fosse uma ilusão, etc, ele não teria nem a motivação e nem a capacidade de realizar uma obra de arte de valor. Portanto, acho que apenas na medida em que um artista possuí valores positivos (mesmo que subconscientes) é que ele consegue realizar algo de valor estético. Se isso for verdade, só poderiam existir obras de arte dentro da área azulada do gráfico ao lado. Nas áreas pretas, estariam casos impossíveis como filmes perfeitos esteticamente, mas com um senso de vida 100% negativo.

Uma observação final: embora senso de vida seja crucial, outros elementos podem contribuir pra atrair uma pessoa a uma obra de arte ou a uma outra. Por exemplo, duas pessoas podem ter sensos de vida idênticos, mas operarem intelectualmente em níveis diferentes - uma pode ter uma capacidade de abstração maior do que a outra, uma inteligência maior do que a outra, e isso atraí-la a obras mais complexas, que estejam mais em harmonia com seu tipo de funcionamento mental.

"Quando você aprende a traduzir o significado de uma obra de arte em termos objetivos, você descobre que nada é tão potente quanto a arte em expor a essência do caráter de um homem.  Um artista revela sua alma nua em seu trabalho - e você também, caro leitor, quando você responde a ela." - Ayn Rand, The Romantic Manifesto

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Juntos e Misturados (anotações)

- Drew é sempre carismática, Sandler também é simpático... Elenco tem boa química.

- Piadas são irregulares e não muito inteligentes (como em todo filme do Adam Sandler). Roteiro parece ter sido escrito às pressas, sem nenhuma sutileza ou capricho.

- Divertido o contexto da história (viagem pra África, o fato dos 2 serem perfeitos um pro outro, etc). O grande problema é que não há nenhum conflito forte - nada de sério que impeça os 2 de ficarem juntos imediatamente - nenhuma decisão importante a ser tomada, etc, então a resistência deles acaba parecendo artificial e o romance perde força.

CONCLUSÃO: Comédia familiar bem intencionada, porém muito comum, previsível e com piadas meio óbvias e nada sofisticadas.

(Blended / EUA / 2014 / Frank Coraci)

FILMES PARECIDOS: Gente Grande, Separados pelo Casamento, Como Se Fosse a Primeira Vez.

NOTA: 4.0

domingo, 20 de julho de 2014

Planeta dos Macacos: O Confronto (anotações)

- Linda a fotografia e a direção de arte. Visualmente o filme é impecável, e os efeitos especiais estão entre os mais perfeitos que já vi!

- Filme começa bem. A introdução antes do título é boa pra apresentar a situação, e a primeira cena da caça sem diálogos é ótima também e super bem dirigida.

- De novo a trilha sonora do 2001: Uma Odisséia no Espaço (que também usaram em Godzilla)? Aqui pelo menos faz mais sentido (lembramos dos macacos do 2001, etc).

- Não simpatizo pelo macaco principal (Caesar), sempre com essa cara de revoltado / injustiçado. O filme parece querer dar mais dignidade a ele do que aos humanos.

- Gosto da trilha sonora. É bem integrada à imagem e enfatiza momentos específicos das cenas, ajudando a narrar o filme.

- Direção também é muito boa. Adoro que não há tantos cortes e que temos tempo de nos sentir dentro de cada ambiente.

- Não concordo com o diálogo de que os macacos são superiores por não precisarem de tecnologia, armas, etc. Talvez os macacos comuns não precisem mesmo, mas esses do filme (que são inteligentes) já usam fogo, derrubam árvores pra construir suas casas, então eles precisam sim de ciência, tecnologia, etc - só estão uns estágios mais atrasados que nós.

- Personagens humanos do filme são distantes e pouco cativantes. No Planeta dos Macacos antigos, Charlton Heston era claramente o herói, e a gente vibrava toda vez que ele demonstrava sua inteligência (os macacos achavam que ele era um animal inferior).

- Um ponto fraco é que não torcemos nem pra um lado nem pro outro direito. Tanto os macacos quanto os humanos têm suas razões, mas nenhum dos lados é extremamente gostável. O filme acaba sendo um conflito sem solução entre 2 grupos distantes.

- SPOILER: Discussão ética do filme é um pouco superficial (a mensagem de que não devemos brigar, de que a guerra é sempre ruim, etc). Mas é legal a mensagem anti-racismo, quando o filme mostra que o que separa as pessoas não é a raça delas, e sim seus valores (Caesar e Malcolm no fim têm muito mais em comum do que Caesar e Koba, que são ambos macacos).

- SPOILER: História fica mais envolvente no final (Malcolm contra o personagem do Gary Oldman, que quer explodir a torre, e a luta entre Caesar e Koba acontecendo ao mesmo tempo). Agora Malcolm e Caesar parecem estar no mesmo time, pois ambos lutam pela paz entre humanos e macacos - no outro time estão Koba e o Gary Oldman, que apesar de lutarem entre si, concordam com a ideia de que humanos e macacos devem entrar em guerra).

CONCLUSÃO: Filme incrivelmente bem realizado, que poderia ter sido melhor se tivesse personagens mais cativantes e se o conflito real (que não é entre humanos e macacos e sim entre pessoas civilizadas e selvagens) tivesse sido estabelecido mais cedo.

(Dawn of the Planet of the Apes / EUA / 2014 / Matt Reeves)

FILMES PARECIDOS: Godzilla (2014), Guerra Mundial Z, Oblivion, Planeta dos Macacos: A Origem.

NOTA: 7.0

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Enigma Chinês (anotações)

- Interessante o monólogo inicial sobre o personagem não ter propósito na vida (ponto A, ponto B, etc). Faz a gente entender a situação dele e introduz uma discussão sobre felicidade com a qual a plateia pode se relacionar.

- Um pouco forçada a cena no banco de sêmen. Feita pra tirar risadas baratas do público.

- Naturalismo. Personagem é muito comum, sem nada de muito interessante.

- Ele não é escritor? Isso não é um propósito em sua vida? Ele não é pai e deseja criar os filhos? A vida dele não parece ser tão sem rumo assim quanto ele afirma.

- Audrey Tautou é carismática e traz alguns dos melhores momentos do filme.

- Comparação do bordado do Schopenhauer (de que a vida se passa metade do lado certo do bordado e metade do lado de trás) pode até ser válida pra vida, mas na arte, não há por que mostrar o lado de trás. Esse filme é como o bordado do lado errado: só vemos o aspecto bagunçado e pouco atraente das coisas. O interessante é que o protagonista acha reconfortante essa ideia do Schopenhauer - pois isso parece justificar o fato da vida dele ser uma bagunça. Ligando os pontos - assistir a um filme como esse pode ser reconfortante pro espectador que leva uma vida frustrante.

- Xavier acha que a glória da cidade de Nova York é diminuída pelo fato de haver um cruzamento desorganizado em um ponto da cidade - e ele sente prazer nessa pequena descoberta. Ele se sentiria inseguro diante de algo muito grandioso (mesmo uma cidade), portanto ele sente prazer em procurar falhas nas coisas ("se até Nova York é imperfeita, então eu posso ter minhas falhas também").

- Ele acha que o ato banal de cruzar a rua com os filhos é um momento digno de atenção, pois isso também faz parte da infância delas. Ou seja, o filme quer que um momento não-especial seja especial. Quer que uma cidade especial seja não-especial. Quer que o lado errado do bordado tenha tanta relevância quanto o lado certo (!).

- Depois de 1 hora a história começa a cansar (falta um "ponto B" pra trama também, não só pra vida do Xavier). Filme começa a focar em sub-tramas desinteressantes (como a traição da amiga lésbica) que não parecem ter muita relevância (exceto pra mostrar como "a vida é complicada").

- A reação da Audrey quando termina de ler o livro é mais ou menos a minha reação em relação ao filme: a vida do cara não é tão complicada assim. É apenas comum. Ele é que foca nos problemas.

- SPOILER: Não vejo graça na correria no final pra não deixar a amiga ser pega traindo a namorada. Seria melhor que as duas fossem pegas em flagrante! O Xavier está ajudando elas a mentirem.

- SPOILER: Xavier dizia que pra namorar era preciso haver uma "chama" especial - mas no fim, ele decide ficar com a Audrey (por quem ele não parecia sentir essa chama). Outra vez, o filme quer tornar especial o não-especial.

CONCLUSÃO: O filme tem alguns personagens simpáticos e serve como uma reflexão leve sobre a felicidade, mas eu pessoalmente não me identifico com os valores por trás da história.

(Casse-tête chinois / França, EUA, Bélgica / 2013 / Cédric Klapisch)

FILMES PARECIDOS: Bonecas Russas.

NOTA: 5.0

sábado, 12 de julho de 2014

O Teorema Zero (anotações)

- Filme é muito estilizado visualmente, mas não se pode dizer que é um visual bonito - que ele tem uma boa fotografia, uma boa direção de arte, uma palheta de cores coerente, etc.

- Personagem central é tão excêntrico e distante que fica difícil se identificar com ele ou mesmo entendê-lo.

- É o tipo de filme que faz as pessoas levantarem e irem embora do cinema. Ele quer ser excêntrico, bizarro, mas não há nada de envolvente na história. O que importa pra plateia solucionar o teorema? Isso nem é de grande importância pro personagem - ele foi só contratado pra trabalhar no problema, mas não é algo pelo qual ele se importa pessoalmente. Nem intelectualmente o filme está comunicando algo até agora. Por que o protagonista se chama de "nós"?

- Atriz que faz Bainsley é linda e tem muita personalidade. Pelo menos há 1 personagem mais humano no filme, com reações naturais, compreensíveis (Bob também traz um pouco de vida pra história).

- Cineasta sem dúvida quer fazer grandes afirmações a respeito do homem e da existência, o problema é que ele não consegue (ou não quer) comunicar essas ideias pra plateia claramente. Tudo é muito bagunçado, subjetivo, desintegrado - parece a mente de uma pessoa louca mesmo (algumas cenas são tão lunáticas que parecem as animações que o diretor fazia no Monty Python, só que sem o humor). Pelo menos é uma pessoa louca criativa e original, o que torna o filme no mínimo curioso de ver (não é um desses cineastas que apenas imitam o estilo excêntrico de outros, mas não são de fato).

CONCLUSÃO: Filme coloca a própria loucura e excentricidade acima das ideias que quer comunicar, alienando o espectador.

(The Zero Theorem / EUA, Romênia, Reino Unido, França / 2013 / Terry Gilliam)]

FILMES PARECIDOS: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, Brazil: O Filme.

NOTA: 4.5

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Espelho (anotações)

- Não gosto quando o espírito existe pra trazer conflitos banais pras pessoas, gerar desentendimentos, brigas entre marido e mulher, tornar a rotina desagradável. Prefiro espíritos quando eles vêm pra trazer espanto, ação, surpresa - unir os personagens (e a plateia) numa aventura divertida (ainda que assustadora).

- Os personagens são sofredores, vítimas do universo - há todo um tom sério de drama psicológico que me soa inapropriado (num filme que não tem uma premissa séria).

- Nada de notável em termos de direção, música, elenco, diálogos, etc. Produção é bastante comum.

- Muitos clichês: o cachorro que percebe os espíritos, o cético teimoso, etc. Pouca originalidade.

- Gostei até dos atores, a única coisa que não convence muito é a menina ter armado esse circo todo sozinha (amarrado uma âncora no teto, etc).

- Um espelho é um vilão muito fraco e pouco assustador. Como derrotá-lo também não fica muito claro.

- Nunca sabemos se o que estamos vendo é real ou se é o espelho brincando com a mente dos personagens. Filmes com alucinações precisam tomar muito cuidado, pois essa dúvida constante torna o filme entediante. Mais pro fim, além de não sabermos o que é real ou imaginação, também não sabemos direito o que é presente ou passado, pois o filme começa a misturar flashbacks com cenas reais!

CONCLUSÃO: Filme comum sobre espíritos com cenas e vilões menos assustadores que a média.

(Oculus / EUA / 2013 / Mike Flanagan)

FILMES PARECIDOS: Mama, Os Escolhidos, A Entidade, A Mulher de Preto, etc.

NOTA: 4.0

terça-feira, 8 de julho de 2014

Coisas que o Cinema Pode Aprender com o Futebol

Uma discussão sobre o que há em comum entre o futebol e os filmes de sucesso.

 


segunda-feira, 7 de julho de 2014

Vizinhos (anotações)

- Pessoalmente, não sou fã do humor vulgar (excesso de piadas sexuais, etc). Elas meio que ofendem os protagonistas, que são boas pessoas (não tenho problemas com piadas vulgares num filme como Pink Flamingos, onde os protagonistas são aberrações sem nenhuma dignidade pra ser manchada).

- Elenco bom e com ótima química. Muito boa a Rose Byrne que faz a esposa.

- Premissa divertida mas um pouco irreal. Não acredito que essa situação com os vizinhos escalaria pra esse nível. Não parece algo tão sério (a polícia provavelmente resolveria esse problema).

- SPOILERS: Nível das piadas é um pouco irregular. Não chega ao nível trash das comédias do Adam Sandler, mas ainda assim há muitas piadas forçadas que destoam do resto do filme (como a do roubo dos air-bags ou mesmo a do Seth Rogen ordenhando a mulher).

- Acho que o maior problema do filme é o fato da situação não ser tão urgente assim. Por mais que seja uma comédia, precisa haver envolvimento com a história... Coisas sérias em jogo, com que a plateia se identifique. Vizinhos barulhentos são péssimos, mas não algo a ponto de arruinar a vida de uma família. Depois de 1 hora a história começa a cansar um pouco. Seria melhor se houvesse uma rivalidade pessoal mais forte entre o casal e o personagem do Zac Efron (se eles fossem rivais no emprego, por exemplo, ou ex-amigos que brigaram - algo que tornasse mais interessante esse duelo entre eles, que fizesse eles passarem por uma transformação pessoal, etc).

CONCLUSÃO: Atores divertidos e boas piadas fazem valer o ingresso, apesar de alguns momentos mais apelativos ou forçados.

(Neighbors / EUA / 2014 / Nicholas Stoller)

FILMES PARECIDOS: É o Fim, Missão Madrinha de Casamento, Se Beber, Não Case!, As Loucuras de Dick & Jane

NOTA: 6.5

domingo, 6 de julho de 2014

Transformers: A Era da Extinção (anotações)

- EXPECTATIVA: Muito baixa, pois não gostei nada dos 2 últimos filmes da série (o primeiro ainda achei divertido).

- "Filmes de hoje é que são o problema: sequências, remakes..." - engraçado o filme brincar consigo mesmo.

- Fotografia e direção de arte muito bonitas (cores vivas, contraste alto, reflexos na lente, faíscas, cenários cheios de objetos, bandeiras dos EUA - Michael Bay tem uma identidade visual muito forte). Fato do filme ter sido filmado em 3D (e não apenas convertido na pós-produção) também dá pra notar (esse foi o primeiro filme rodado com uma câmera IMAX 3D digital).

- Cadê os personagens dos outros filmes?!? Estranho fazer um "reboot" da série, sendo que a equipe continua a mesma - diretor, roteirista, etc). Só mostra o quão insignificantes são os personagens pra história; que o foco mesmo são os efeitos especiais.

- Filme até que não começa mal. Gosto dessa primeira parte mais "simples" que se passa no interior, etc. Personagem do Mark Wahlberg tem conflitos com a filha, suas invenções não funcionam direito - tudo isso é um bom preparo pra descoberta do Optimus Prime.

- Por que inserir a extinção dos dinossauros nessa trama? Parece tão tolo e fora de contexto. Aliás, todo o filme tem um clima tolo... Desde a premissa, até o comportamento dos personagens, dos Transformers, os diálogos... Sinto falta de pelo menos 1 personagem central mais sério e admirável (filme não tem um interesse humano forte - relação entre Wahlberg, filha e namorado da filha é muito monótona e banal).

- Objetivo dos personagens na história é vago e mal explicado. No meio das cenas de ação fico tentando lembrar: "mas o que eles precisam fazer mesmo?".

- Atores no fundo são coadjuvantes pros robôs e pros efeitos especiais. É incrível o quão pouco vemos os ROSTOS dos atores. 2% das imagens do filme devem ser de rostos de pessoas.. 98% são de robôs, efeitos especiais, planos gerais, imagens de cidades sendo destruídas, etc. Diretor parece evitar ao máximo a situação de estar com a câmera apontada para os personagens e ter que fazer uma cena interessante apenas com isso. Ele não sabe nada sobre drama, caracterização, relacionamentos, etc.

- Lembra um pouco Velozes e Furiosos - um filme com zero de intelecto, feito pra quem fica satisfeito apenas em olhar máquinas incríveis e mulheres atraentes.

- Algumas cenas de ação são tão sem sentido que são um insulto pra nossa inteligência. Por que existem esses cabos amarrados entre os prédios? E quem teria a ideia de atravessar de um prédio pro outro por ali?

- Depois de 1 hora e pouco o filme se torna inassistível! 80 minutos disso ainda daria pra aguentar, mas 2 horas e 45???? Filme não tem envolvimento emocional pra durar isso tudo... Não há nem uma curiosidade pela história. Diretor claramente não se importa por narrativa, e não se esforça nem um pouco pra fazer a gente entender a trama (ou pra criar uma interessante).

- Apesar do visual impecável, o filme tem uma falha grave: a câmera sempre tremendo e os cortes rápidos vão te dando dor de cabeça depois de 1 hora e meia. E olha que eu sou forte pra essas coisas!!

- Meu Deus... O ser alienígena robô que se transforma em carros agora virou um robô-Tiranossauro!!! E ainda entra uma música emocionante como se isso fosse levar o público ao delírio! É uma mentalidade meio Sharknado: "Ah, aliens são maneiros, robôs são maneiros, dinossauros são maneiros... Por que não juntar isso tudo numa coisa só?".

- Lembrei por que odiei tanto os outros filmes! Estou há 1 hora vendo efeitos especiais sem um enredo envolvente, sem interesse pelos personagens, sem ideias inteligentes... E ainda com a vista doendo. É como entrar numa câmara de tortura!! E por que essa obsessão atual por destruir PRÉDIOS em tudo que é filme?

CONCLUSÃO: Não tenho nada contra a aparente intenção do filme (assim como a de outros filmes do Michael Bay), o problema é que ele é feito por pessoas tão insensíveis, tão sem-noção do que é que emociona e diverte uma plateia, que você começa a questionar se essa era realmente a intenção delas.

(Transformers: Age of Extinction / EUA / 2014 / Michael Bay)

FILMES PARECIDOS: Transformers: O Lado Oculto da Lua, Velozes e Furiosos, Pearl Harbor, Armageddon.

NOTA: 2.0

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Jersey Boys: Em Busca da Música





CONCLUSÃO: Direção desajeitada de Clint Eastwood e foco excessivo no lado negativo e desinteressante da história (e dos personagens) desperdiçam história que tinha potencial.

FILMES PARECIDOS: Invictus, Dreamgirls, Ray.

(Jersey Boys / EUA / 2014 / Clint Eastwood)

NOTA: 3.0