sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

- Filme já começa muito ousado, original, cheio de surpresas a cada minuto: as auto-referências à indústria do entretenimento, os "poderes" que Riggan tem quando está sozinho no camarim, a câmera que parece nunca cortar, os diálogos frenéticos e bem humorados, a trilha sonora só de bateria. Tudo cria um clima de estranheza e emergência apropriado pro universo do teatro e a agitação desses últimos dias de ensaio.

- Qualidade técnica notável (fotografia, efeitos especiais, etc). O elenco é provavelmente o melhor "ensemble" do ano. Personagens muito convincentes. O show é do Michael Keaton, mas os atores coadjuvantes também têm vários momentos onde roubam a cena (discurso da Emma Stone onde ela diz que o pai "não é importante" é fantástico - embora a filosofia dela seja horrorosa).

- Aliás, a filosofia do filme todo é horrorosa. No fundo é um ataque cínico à ambição, à autoestima, ao sucesso. O filme zomba do Riggan por ele querer se superar, fazer algo importante de sua vida, zomba do fato dele querer ser reconhecido e amado pelo público, como se fosse uma bizarrice humana - atitude típica dos pseudo-intelectuais. Só seria ridículo se ele não tivesse competência nenhuma e tivesse tentando fazer algo muito além de sua alçada, mas aparentemente ele é um cara experiente que tem alguma noção do que está fazendo.

- De qualquer forma o filme tem um tema interessante, discute carreira, autoconfiança, coisas de interesse universal, e ilustra esses temas muito bem através da história e dos diálogos.

- Sei que é difícil pro artista não se importar com a opinião do público, mas o Riggan parece depender totalmente disso. É como se a peça só pudesse ter valor se ela fosse sucesso de bilheteria ou se a crítica do New York Times aprovasse. Pra ele não se trata de expressar algo, e sim de ser aprovado - em nenhum momento ele demonstra ter algum tipo de critério pessoal.

- Espetacular o Michael Keaton quando ele finge estar em crise na frente do Edward Norton! Cena digna de um Oscar.

- Comentários sarcásticos em relação a celebridades (Justin Bieber, Farrah Fawcett, etc): é o que eu comento na postagem Romantismo Reprimido sobre os "cínicos convictos". Combina com a atitude geral do filme.

- SPOILER: Roteiro bem escrito, original, cheio de momentos interessantes: Riggan atravessando a Broadway de cueca, a cena do vôo, a tentativa (ou não) de suicídio no final, etc.

CONCLUSÃO: Filme cínico, com valores questionáveis, mas ainda assim feito com energia, criatividade e virtuosismo técnico.

(Birdman / EUA, Canadá / 2014 / Alejandro González Iñárritu)

FILMES PARECIDOS: Whiplash: Em Busca da Perfeição / Cisne Negro / Adaptação

NOTA: 7.5

5 comentários:

Anônimo disse...

E o que você achou da cena onde ele conversa com a crítica no bar? Sobre a diferença de pensamentos e o ponto de vista dele com relação à própria crítica.

Caio Amaral disse...

Achei uma boa cena.. pq ajuda a história, intensifica a insegurança dele, cria mais expectativa em relação à estreia, os atores estão bem, etc.. Mas em relação ao conteúdo do diálogo.. não concordo nem com ela e nem com ele.. Ela pq já está disposta a destruir a peça antes mesmo de assistir.. e não gosto dessa atitude esnobe do tipo: "você faz coisas comerciais, você não sabe o que é arte", etc. Mas tb não concordo com a visão dele.. Ele chama o crítico de "preguiçoso", como se a ambição do crítico fosse sempre criar arte, mas por preguiça ele apenas escreve a respeito.. e com isso não se esforça, não arrisca nada.. Isso não tem nada a ver.. São dons diferentes que levam as pessoas pra um caminho ou para o outro.. O crítico na minha opinião é um "mini" filósofo ou cientista.. é um trabalho intelectual.. ele expõe suas ideias publicamente e está sujeito a ataques, elogios, sucessos, fracassos, assim como o artista.. tem que se esforçar pq pra criticar algo ele teve que estudar, assistir muita coisa na vida, construir um sistema coerente de ideias.. é uma outra atividade totalmente diferente, que envolve talentos e ambições diferentes..

Ângela disse...

Alguém explica o final desse filme pelo amor de Deus!!!!

Caio Amaral disse...

Não sou de ficar tentando interpretar demais finais misteriosos.. vou pelo mais simples: a filha olha pro céu e sorri.. isso sugere que ele estava voando com os pássaros.. ou seja, estava se sentindo o "birdman".. um final feliz.. ele conseguiu o sucesso que queria com a peça :-P

Thiago P. disse...

Só eu achei esse filme uma bomba? Eu concordo com aquela expressão que diz que a existe uma linha tênue que separa a genialidade da imbecilidade (ou algo do tipo), na primeira parte eu tava achando genial e extremamente original o Edward Norton está impecável, mas com as passagens do tempo comecei a achar tudo muito estranho pois deixou de ser um recurso narrativo e passou a ser apenas um recurso estético, tanto que no final já estava no estilo tradicional sem o plano sequência. O esforço para ser um filme cool parece que se sobressai ao objetivo principal do filme que deveria ser contar uma história.

O Iñarritu poderia fazer as pazes com o Arriaga tá fazendo muita falta os roteiros dele.