domingo, 4 de janeiro de 2015

Whiplash: Em Busca da Perfeição

- Interessante como a primeira cena já estabelece todo o conflito central da história (o desejo do garoto de ser aprovado pelo instrutor).

- Os 2 atores principais funcionam bem e a situação é interessante. Todo mundo pode se identificar com o desejo do garoto de querer se superar, se tornar excelente no que faz.

- A atitude do professor me parece destrutiva e irracional. É divertido de assistir (assim como o sargento linha-dura de Nascido Para Matar, só que ali o filme não estava dizendo que a atitude do sargento era construtiva). Bons líderes não deviam usar medo pra motivar as pessoas. Além disso, ele parece estar buscando padrões irracionais de perfeição, de forma que a gente na plateia não consegue nem perceber a diferença entre os acertos e os erros dos músicos.

- Acho errada a forma que o filme coloca o Andrew contra sua família e contra o irmão "popular" - é como se ele sugerisse que o desejo de se tornar excelente tornasse uma pessoa anti-social e mal compreendida necessariamente. Da mesma forma, não acho necessário ele terminar o namoro com a garota pra focar na carreira. O filme parece estar dizendo: se você quiser ter sucesso, você precisa sacrificar suas relações pessoais.

- O filme retrata apenas relacionamentos negativos.

- O espectador não participa muito das cenas, pois não sabe quais os critérios do instrutor, quais os erros que Andrew está cometendo de fato (a diferença é tão sutil que não percebemos), e o que ele tem que fazer pra superar esses erros (não sabemos quais as fraquezas, as desvantagens de Andrew, que técnicas ele tem que aprender pra tocar melhor). É tudo muito subjetivo - a gente só sabe se Andrew está indo bem ou mal prestando atenção nas reações do Fletcher - não no que Andrew está tocando. A plateia não vibra com o que Andrew realiza - mas com as reações do instrutor. É uma emoção de segunda mão. O filme se resume a observar expressões faciais e a aguardar a aprovação do instrutor (que não é um personagem muito gostável).

- Mensagem: o sucesso exige sacrifícios horríveis, exige que você derrame o seu sangue, que você sofra até o seu limite. A vida é uma competição cruel! O filme no fundo parece fazer uma crítica à busca pelo sucesso... Pois o retrata de uma maneira tão desagradável que faz a plateia se sentir aliviada por não ser tão ambiciosa.

- Apresentação final muito bem dirigida e editada.

CONCLUSÃO: Filosofia de sucesso do filme é muito questionável, mas ainda assim é uma história contada com energia, eficiência, que faz a plateia refletir sobre as próprias ambições.

(Whiplash / EUA / 2014 / Damien Chazelle)

FILMES PARECIDOS: Rush: No Limite da Emoção / Cisne Negro / Billy Elliot

NOTA: 7.5 

9 comentários:

Rodrigo E. disse...

Caio, não acho que o filme nos faz tentar gostar do instrutor ou da atitude dos personagens em geral. Ele deixa em aberto para nós mesmo julgarmos o que está acontecendo.

É um retrato da busca desenfreada pela perfeição e as consequências que isso pode trazer.

O tom de como histórias desse tipo são contadas pode nos confundir um pouco.

Whiplash passa essa imagem mesmo como você comentou de que a vida é uma competição cruel. Mas compare, por exemplo, com Kon-Tiki (não se se assistiu, mas acredito que você iria gostar, é um filme dinamarquês que concorreu como melhor filme estrangeiro no Oscar 2013), que no fundo também é um filme sobre a ambição: é tudo mais romantizado, mas no fim das contas os resultados são basicamente os mesmos (objetivo alcançado, mas com corações partidos).

Então tirando a emoção de lado, a conclusão que eu chego é uma: a ideia de "dar o próprio sangue" é altamente eficaz para realizar seu sonho, mas se deve estar ciente que algumas coisas podem acabar mudando no meio do caminho.

Enfim, achei o filme bacana! Chegou a ver que o Yaron Brook, presidente da Ayn Rand Institute, elegeu esse filme como o melhor de 2014?

Caio Amaral disse...

Oi Rodrigo..! O filme não quer que a gente "goste" exatamente do instrutor.. mas ele é retratado como alguém muito "foda", respeitável.. Não é que nem o tal do sargento que falei do Nascido Para Matar, que parece mais um cara ignorante, hehe.

Ainda não vi Kon-Tiki, então não saberia comparar..! O que me incomoda um pouco é essa ideia de ter que dar o sangue pra ser bem sucedido.. Acho que temos que dar nosso suor (em caso de atividades físicas como tocar bateria, esportes, etc).. Nosso tempo.. Nossa inteligência.. Mas não sou muito dessa visão de que o caminho pra felicidade e para o sucesso é uma batalha horrível cheia de sacrifícios.. e quanto mais você sofre, mais você tem chance de ser bem sucedido.. Pra mim é muito mais uma questão de descobrir os princípios certos, as técnicas certas.. e praticar, certamente.. Eu estudei um pouco de canto, por exemplo.. mas nunca fiquei rouco ou passei mal por causa disso.. não que eu seja um grande virtuoso, mas tenho a impressão que não tem tanto a ver com se esforçar até o limite.. e sim com descobrir os métodos corretos..

Ah vi sim que o Yaron adorou.. E o Peikoff fez um podcast em 2 partes sobre o filme, vc ouviu? Disse que viu várias vezes.. que nunca tinha ficado tão empolgado com um filme, hehe. Sei lá, acho um bom filme sem dúvida.. mas acho que meu "sense of life" é um pouco diferente do deles..

Rodrigo E. disse...

Eu não consigo pensar nas duas coisas em separado. Digamos que o esforço até o limite é justamente para descobrir o método correto, dominá-lo... Se alguma vez isso foi realizável sem o esforço máximo, melhor ainda! Porque a ideia não é chegar no limite simplesmente pelo sofrimento, mas para conquistar alguma coisa.

Escutei agora o podcast do Peikoff. Bacana! Pelo o que pude entender, ele também não é 100% a favor da filosofia do filme, não gosta da postura do instrutor, mas simpatiza com o que ele estava tentando realizar. Mais ou menos como eu, haha.

Caio Amaral disse...

Sim.. a ideia é conquistar alguma coisa, e não necessariamente sofrer.. e eu achei que a mensagem desse filme era que, pra ser muito bom em algo, você tem que sofrer.. que sofrimento, dor, stress e sacrifício levam à excelência.. acho que esse foi o diferencial de Whiplash, comparando com outras histórias de superação.. a glamourização da luta e do sofrimento.. E na minha opinião, quando seu foco está no seu sonho, no que você quer atingir, o esforço não parece algo tão horrível quanto ele é mostrado aqui.. é algo que você faz com uma atitude positiva, com empolgação.. Mas enfim, posso estar errado - talvez por pensar assim eu nunca me torne bom em nada e nunca faça sucesso, heheh. Ainda não posso afirmar... por isso, mesmo não amando o filme, ele me fez parar pra pensar um pouco..

Caio Amaral disse...

Mas não vejo uma relação direta entre sofrimento e aprendizado.. entre prática e aprendizado sim.. repetição.. raciocínio lógico.. observar os outros fazendo.. Sofrimento pra mim dificulta o aprendizado de qq coisa, pois prejudica a concentração.. se eu estou sangrando, exausto, isso vai dificultar meu aprendizado, e não me tornar bom..

Rodrigo E. disse...

Eu tive um certo devaneio durante o filme do porquê das coisas aparentarem ser desagradáveis: se resume ao próprio objetivo do Andrew, que não é assim tão admirável.

Na cena da janta, o garoto fala que não importa se ele se torne um bêbado falido, contanto que falem dele. Aparentemente, ele não luta pelo domínio da técnica, mas pela aprovação das pessoas.

O reconhecimento é necessário e o curso natural das coisas é você buscá-lo. Mas agir apenas pelo reconhecimento é diferente. Se o objetivo central for o domínio da técnica, os desafios e as dificuldades são encarados com empolgação. Mas se o objetivo central é a aprovação das pessoas, os desafios são um entrave horrível, como no filme.

Mas enfim, a principal mensagem que achei que o filme estava querendo passar era aquela sobre a conversa do instrutor com o Andrew, sobre as palavras "Good job".

Sobre o sofrimento e aprendizado, depende. Sim, é muito mais fácil você aprender quando não está exausto, mas a exaustão é uma consequência natural da prática. E as vezes após a exaustão você consiga aprender algumas lições valiosas que venham a lhe ajudar. Mesmo em Wiplash, o Andrew só conseguiu tocar como queria depois que foi expulso da banda e deixou por um bom tempo guardado sua bateria!

Caio Amaral disse...

Exato, o foco do filme está na aprovação.. ele é um baterista nota 9.7 tentando se tornar um baterista nota 10.. mas a plateia nem sabe a diferença.. exceto pelas reações do instrutor, então é nisso que a gente fica prestando atenção..

Pegando um exemplo absurdo.. Em Mudança de Hábito, a gente também torce pela aprovação da Madre Superiora.. Mas muito do prazer vem também de OBSERVAR a evolução das freiras.. A melhora visível delas.. Essas coisas tem que ser um pouco exageradas pra fins dramáticos.. Além disso, continuando nesse exemplo, a aprovação da Madre Superiora só tem um significado emocional pq ela envolve a aceitação de valores maiores.. No fundo ela não aprovava a Whoopi pq ela era apegada às tradições da igreja, pq era uma mulher reprimida, pq achava que a vida devia ser cheia de sacrifícios, deveres.. e não podia haver prazer, etc. Em Whiplash, a aprovação não envolve valores assim, é mais por essa questão técnica mesmo.. essa melhora de 9.7 pra 10.0.. pra mim não é algo tão empolgante..

Mas acho que como a maioria das pessoas sente certa culpa - não acham que são tão dedicadas quanto poderiam ser na vida, acham que não aproveitam todo o seu potencial, se sentem preguiçosas (o que é normal, mesmo pessoas bastante disciplinadas sentem isso) - quando elas assistem a um filme como esse, a tendência é aclamar a mensagem, um pouco com base nessa culpa..

Anônimo disse...

Interessante notar que o filme já teve uma inspiração lusófona, o que tira toda a credibilidade do diretor quanto ao quesito criatividade: https://www.youtube.com/watch?v=0ak-4dK0Yp4

Caio Amaral disse...

Ah sim, como apreciador de música, o cineasta não podia ter ignorado essa referência..