terça-feira, 28 de julho de 2015

Acordes e Senso de Vida

Como alguns de vocês sabem, além de cinéfilo eu também tenho interesse por música, e nas "horas vagas" desenvolvo alguns projetos na área. Lendo um livro sobre composição me deparei com esse estudo sobre o uso de acordes na música popular americana que revela algo muito interessante sobre a cultura atual e que tem muito a ver com o que costumo discutir aqui. O livro se chama How [NOT] to Write a Hit Song!:

"Cada acorde tem um tom emocional diferente. Acordes maiores transmitem alegria, entusiasmo ou um sentimento positivo; acordes menores criam um senso de melancolia ou tristeza."

"Em 2012, um estudo acadêmico revelou que o número de hits com acordes menores dobrou desde 1965, e menos canções de sucesso estão sendo escritas agora com acordes maiores."

"O psicólogo musical E. Glenn Schellenberg e o sociólogo Christian von Scheve avaliaram mais de 1000 canções americanas que ficaram no Top 40 entre 1965 e 2012. O estudo mostrou que na segunda metade da década de 60, cerca de 85% das músicas que chegaram ao topo das paradas foram escritas no modo maior, mas no final da década de 2000, este número havia caído para apenas 43.5%. Assim como as letras das canções pop se tornaram mais auto-referenciais e negativas nas últimas décadas, a música também mudou - ela soa mais triste e mais ambivalente emocionalmente."

O autor do livro Brian Oliver não enxerga essa mudança como algo ruim. Ele inclusive incentiva os novos compositores a usarem acordes menores em suas músicas para que elas se tornem mais comerciais pros dias de hoje. Ele diz:

"Compositores que ignoram completamente os acordes menores não apenas estão perdendo a chance de acrescentar mais profundidade e personalidade às suas canções, como estão indo contra uma das maiores tendências de composição dos últimos 50 anos."

Assim como as preferências artísticas de uma pessoa são um reflexo do seu Senso de Vida, as preferências artísticas de uma cultura dizem muito sobre o Senso de Vida predominante de uma determinada época - e estudos como esse são um bom indicativo de que ele se tornou mais negativo nos EUA de umas décadas pra cá, assim como podemos observar no cinema.

Eu não sou contra o uso de acordes menores, da mesma forma que não sou contra momentos de tensão e desconforto em filmes. Mas, na minha visão, os acorde menores devem ser usados apenas como um contraste para os acordes maiores, como um "tempero" - pra tornar as músicas mais dinâmicas, pra adequarem a música aos temas das letras, e principalmente como forma de enfatizar os acordes maiores, realçando seu "sabor". Mas os acordes menores não deveriam ser a meta, o foco principal do compositor. Nas músicas mais positivas, o objetivo final é sempre a harmonia e as emoções satisfatórias produzidas pelos acordes maiores.

Pra quem não está entendendo nada, vou postar abaixo uma versão do hino americano (simbolicamente) cantado numa escala menor:




E agora a versão original na escala maior:


domingo, 26 de julho de 2015

Pixels


- Muito legal o começo nos anos 80! Adoro esse universo. Só 1 erro: a Madonna ainda não era famosa em 1982.

- Meio absurdo o amigo de infância do Adam Sandler virar o presidente, e a Michelle Monaghan por coincidência também trabalhar pro governo. Só dá pra aceitar porque o filme é uma comédia escrachada sem nenhuma pretensão de soar realista. 

- Acho divertida a premissa (a ideia de nerds se tornarem a última esperança da Terra) e a história é razoavelmente bem contada. 

- Primeiras aparições dos aliens podiam ser melhores. Não há muito impacto.

- Demais a Madonna falando pelos aliens no vídeo, rs. O engraçado é que de fato ela falou que queria dominar o mundo nos anos 80! Ótimo também os soldados jogando fliperama pra se prepararem pro combate. 

- A população está vendo tudo isso acontecer? O filme não mostra o impacto da invasão no resto do mundo. Uma das coisas mais legais em filmes de invasão extraterrestre é a reação das pessoas comuns, da mídia, etc. 

- Ridículo a centopéia parar na frente da TV pra fazer ginástica. Ou o Q*bert urinando. Toda a graça do filme é que os personagens dos games viram criaturas aterrorizantes, assim como o monstro de marshmallow em Os Caça-Fantasmas. Esses toques cômicos destroem o efeito.

- Meio falso as ruas não estarem interditadas na hora do ataque do Pac-Man (as pessoas estarem circulando normalmente pela cidade, etc).

- Por que a Lady Lisa vira uma mulher real e não feita de pixels? Algumas ideias são mal elaboradas.

CONCLUSÃO: A história serve muito bem pra um curta-metragem, mas é boba demais pra sustentar um longa. Não dá pra gente se envolver realmente com a ação do filme, temer pelo fim do mundo, torcer pelos personagens, etc. Pelo menos os atores são divertidos e há algumas boas piadas.

(Pixels / EUA / 2015 / Chris Columbus)

FILMES PARECIDOS: Transformers / Click / Evolução / Homens de Preto / Os Caça-Fantasmas

NOTA: 5.5

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Homem-Formiga

ANOTAÇÕES:

- Pra começar, acho um pouco bobo o conceito de um homem que fica do tamanho de uma formiga e ainda assim tem mais força do que um homem de tamanho normal. Mas vamos lá... 

- Personagens simpáticos. Paul Rudd está bem no papel e a presença de Michael Douglas é legal.

- Só é questionável o fato do herói ser um assaltante! O filme tenta limpar a barra dele mostrando que ele está arrependido, e que ele só roubava milionários (!) mas ainda fica parecendo algo injustificável. Scott parece inocente e "bonzinho" demais pra ser um ladrão.

- Por que Scott rouba o traje de dentro do cofre? Parece forçado ele fazer isso e depois ainda vestir a roupa.

- Sequência em que ele encolhe pela primeira vez é muito caótica. Como é que do banheiro ele vai parar na pista de uma balada? E depois no meio da faxina de uma casa? Não acreditamos em nada do que está acontecendo.

- Falso o Paul Rudd invadir a casa do Michael Douglas de novo só pra devolver o traje. Ainda mais quando eles já estavam em contato via rádio. 

- O roteiro não faz nenhum sentido. Todo o plano do Michael Douglas de atrair o Paul Rudd até sua casa pra arrombar o cofre, etc. Por que ele precisa de um ladrão experiente pra realizar o serviço? Do tamanho de uma formiga, qualquer um conseguiria invadir a empresa. Pior ainda é a justificativa de que o Michael Douglas está fazendo isso pra reaproximar o Paul Rudd da filha. A filha já admira o pai. É a ex-mulher que é o obstáculo. E por que essa missão iria resolver os problemas familiares dele? 

- Os dramas familiares são todos muito fracos. A história da mãe da Evangeline Lilly, que virou subatômica e se sacrificou pra desativar um míssil (!). Como é que ela desativaria o míssil estando menor do que um átomo? 

- Eles conseguem controlar formigas comuns com o pensamento??? Conceito ruim. Com uma tecnologia absurdamente avançada, o cara iria depender da ajuda de formiguinhas pra se locomover?

- Como "heist movie" o filme não é bom pois não entendemos muito bem o passo a passo do roubo. É tudo muito mal explicado (a história de mudar a pressão da água, etc). Sem falar que  a missão não parece ser tão perigosa assim, algo que gere tensão na plateia. Faltam obstáculos maiores. 

- SPOILER: Por que o treinamento pro roubo envolve o Paul Rudd saltar de um avião? Ou invadir o prédio dos Vingadores? Isso tudo parece mais difícil do que o que ele vai ter que fazer no final. É certamente um dos roteiros mais tolos dos últimos tempos. 

- Cenas de ação ridículas. Homem-Formiga lutando contra o Yellowjacket dentro de uma maleta caindo de um helicóptero, e um iPhone tocando "Disintegration" do The Cure. Ou então a luta no trenzinho de brinquedo. É tudo muito ridículo pra ficar comentando cena a cena.

- O filme está ridicularizando o herói, o conflito entre bem e mal (não conscientemente, imagino eu - provavelmente está apenas tentando repetir o sucesso de Guardiões da Galáxia). 

- A coisa mais divertida do filme são esses flashbacks onde as pessoas todas parecem dublar o que o Michael Peña está narrando. Mas parece uma ideia enfiada no roteiro, que originalmente não devia fazer parte dessa história.

CONCLUSÃO: Tem um clima leve e diferente dos outros filmes da Marvel, os personagens são gostáveis, mas o roteiro é demente e parece estar mais preocupado em provar que não se leva a sério do que em contar uma boa história.

(Ant-Man / EUA / 2015 / Peyton Reed)

FILMES PARECIDOS: Guardiões da Galáxia / Thor: O Mundo Sombrio / Círculo de Fogo / Homem de Ferro 3 / Lanterna Verde

NOTA: 5.0

domingo, 12 de julho de 2015

100 Grandes Filmes

Aí vai uma lista de 100 dos filmes que mais me impressionaram ou me entreteram/inspiraram até hoje (e que muitas vezes fizeram tudo isso ao mesmo tempo). A lista está por ordem de ano e não de preferência:

- Em Busca do Ouro (1925)
- Os Galhofeiros (1930)
- Levada da Breca (1938)
- O Mágico de Oz (1939)
- ...E o Vento Levou (1939)
- A Mulher Faz o Homem (1939)
- Dumbo (1941)
- Cidadão Kane (1941)
- Ser ou Não Ser (1942)
- Casablanca (1942)
- Coronel Blimp - Vida e Morte (1943)
- Agora Seremos Felizes (1944)
- A Felicidade Não Se Compra (1946)
- Neste Mundo e no Outro (1946)
- Os Sapatinhos Vermelhos (1948)
- Crepúsculo dos Deuses (1950)
- A Malvada (1950)
- Cantando na Chuva (1952)
- O Salário do Medo (1953)
- Janela Indiscreta (1954)
- Rastros de Ódio (1956)
- A Ponte do Rio Kwai (1957)
- Testemunha de Acusação (1957)
- 12 Homens e Uma Sentença (1957)
- Um Corpo que Cai (1958)
- Intriga Internacional (1959)
- Ben-Hur (1959)
- Psicose (1960)
- Amor, Sublime Amor (1961)
- Lawrence da Arábia (1962)
- O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962)
- Os Pássaros (1963)
- A Noviça Rebelde (1965)
- Doutor Jivago (1965)
- Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)
- A Primeira Noite de um Homem (1967)
- 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968)
- Primavera para Hitler (1968)
- Era uma Vez no Oeste (1968)
- A Filha de Ryan (1970)
- Encurralado (1971)
- Pink Flamingos (1972)
- O Poderoso Chefão (1972 e sequência: 1974)
- O Homem de Palha (1973)
- O Exorcista (1973)
- Tubarão (1975)
- Barry Lyndon (1975)
- Rocky Horror Picture Show (1975)
- Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975)
- Rede de Intrigas (1976)
- Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)
- Guerra nas Estrelas (1977 e sequência: 1980)
- Desperate Living (1977)
- Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)
- Halloween: A Noite do Terror (1978)
- Alien, o Oitavo Passageiro (1979 e sequência: 1986)
- A Vida de Brian (1979)
- Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu (1980)
- Xanadu (1980)
- O Iluminado (1980)
- Sexta-Feira 13 (1980 e sequências: 1981, 1982)
- Os Caçadores da Arca Perdida (1981 e sequências: 1984, 1989)
- Mamãezinha Querida (1981)
- Meu Jantar com André (1981)
- E.T. - O Extraterrestre (1982)
- Poltergeist: O Fenômeno (1982)
- A Escolha de Sofia (1982)
- Férias Frustradas (1983)
- Laços de Ternura (1983)
- Uma História de Natal (1983)
- A Hora do Pesadelo (1984)
- O Exterminador do Futuro (1984 e sequência: 1991)
- Amadeus (1984)
- Ran (1985)
- De Volta para o Futuro (1985 e sequências: 1989, 1990)
- Veludo Azul (1986)
- Dirty Dancing: Ritmo Quente (1987)
- Corra que a Polícia Vem Aí! (1988)
- Curtindo a Vida Adoidado (1988)
- Esqueceram de Mim (1990 e sequência: 1992)
- Louca Obsessão (1990)
- O Silêncio dos Inocentes (1991)
- Thelma e Louise (1991)
- Mudança de Hábito (1992)
- Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993 e sequência: 1997)
- A Lista de Schindler (1993)
- O Rei Leão (1994)
- Um Sonho de Liberdade (1994)
- Twister (1996)
- Independence Day (1996)
- Titanic (1997)
- Contato (1997)
- Matrix (1999)
- O Sexto Sentido (1999)
- Cidade dos Sonhos (2001)
- Adaptação (2002)
- Dogville (2003)
- O Segredo de Brokeback Mountain (2005)
- High School Musical (2006 e sequências: 2007, 2008)
- Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)


GRANDES DIRETORES

Steven Spielberg
Alfred Hitchcock
Stanley Kubrick
James Cameron
David Lean

Woody Allen
Frank Capra
Charles Chaplin
George Cukor
John Ford
Howard Hawks
Akira Kurosawa
Fritz Lang
Sidney Lumet
David Lynch
Vincente Minnelli
Michael Powell e Emeric Pressburger
Lars von Trier
John Waters
Billy Wilder
Robert Wise
William Wyler
Robert Zemeckis

E aí, o que acharam? Algum dos seus favoritos entrou na lista?

CONFIRA OUTRAS LISTAS:

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Os melhores filmes de comédia
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100 Grandes Filmes
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sábado, 11 de julho de 2015

Cidades de Papel

ANOTAÇÕES:

- Nat Wolff está muito bem e carismático no papel. Aliás, os amigos deles também são muito fofos e divertidos, principalmente o Austin Abrams que faz o Ben. Bom trabalho de casting.

- Só a menina que faz a Margo que eu acho que não funciona tão bem. Ela não passa essa força toda a ponto de fazer sentido ela ser um mito na escola. Às vezes ela chega a soar um pouco chata e pretensiosa.

- Não faz sentido a história das pistas que a Margo deixa. Até parece que o vizinho com o qual ela mal fala iria saber da história das pistas (um hábito que ela tem desde criança), e a família não iria ter a mesma ideia pra procurá-la. É divertida a ideia dele ter que seguir pistas pra encontrá-la, mas isso poderia ter sido melhor elaborado.

- O sumiço da Margo também poderia ter sido algo mais grave pra dar mais peso pra história. A mãe fala que ela já fugiu de casa 5 vezes, então acaba parecendo algo normal e pouco urgente. Pra um filme que logo no começo mostra crianças encontrando um cadáver, a história assume um tom leve demais depois. Por que ela está fazendo esse teste com o Quentin? Por que ela bolaria pistas geniais tipo Código Da Vinci só pra uma fugidinha rotineira?

- De qualquer forma, o filme não é tanto sobre o romance e o sumiço da Margo, quanto sobre a jornada e sobre os amigos vivendo uma aventura e curtindo o último ano de colegial - e essa parte do filme é muito bem feita. O relacionamento entre os personagens é delicioso de assistir. Lembra os filmes do John Hughes dos anos 80 como A Garota de Rosa-Shocking e Curtindo a Vida Adoidado.

- Vários momentos divertidos entre os personagens: Radar se explicando pra namorada no quarto e depois contando a história dos papais noéis negros, o Ben flertando com a Lacey, urinando na latinha de cerveja, etc.

- SPOILER: Dá peninha do Quentin quando ele descobre que a Margo não tinha deixado as pistas pra ele, mas ao mesmo tempo não é uma grande frustração pro espectador. Como disse, o filme é muito mais sobre os amigos e a aventura do que sobre Quentin e Margo. E a paixão dele pela Margo era platônica, uma fantasia, não sentimos que havia uma expectativa real de um relacionamento. Ela apenas simbolizava algo que ele queria pra vida dele. No fim ele parece entender a situação de forma madura, não é um evento trágico.

- SPOILER: Não tenho certeza se isso foi intencional ou se é interpretação minha, mas é possível olhar a história das pistas da Margo de uma forma onde tudo faz sentido e torna o filme meio que brilhante de certa forma. Elas no fundo representam as "pistas" que muitas vezes nós enxergamos nas pessoas pelas quais estamos apaixonados, e que muitas vezes são apenas projeções. Os olhares, os gestos, as palavras que são tão reais e no momento parecem provas definitivas de que a outra pessoa está interessada na gente, mas que são coisas que ela pode fazer o tempo todo, pra todo mundo, e não apenas pra gente em particular.

CONCLUSÃO: Road movie divertido, com personagens carismáticos, que inspira um senso de nostalgia e faz você querer curtir mais a vida.

(Paper Towns / EUA / 2015 / Jake Schreier)

FILMES PARECIDOS: A Culpa É das Estrelas / As Vantagens de Ser Invisível / Superbad: É Hoje / A Garota de Rosa-Shocking / Curtindo a Vida Adoidado

NOTA: 7.2

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Enquanto Somos Jovens


ANOTAÇÕES:

- Personagem do Ben Stiller é um loser. Mas não um loser completo... É um cara inteligente, sofisticado, que se acha genial (fica envaidecido com a atenção de Jamie e Darby), mas é desajeitado e não realizou nada de importante na vida. Acaba sendo mais patético do que um personagem que é fracassado mas que não tem grandes pretensões. Isso é típico do Noah Baumbach: retratar personagens que têm certas virtudes, mas que são patéticos em alguns aspectos, de forma que não podemos nem admirá-los totalmente, nem rejeitá-los totalmente. É a ideia Naturalista de que isso é mais "realista", pois a maioria das pessoas de fato têm aspectos admiráveis e patéticos.

- O casal jovem, apesar de ser retratado de maneira mais atraente que Ben Stiller e Naomi Watts, também é alvo de "alfinetadas" do cineasta, que parece se divertir ridicularizando as gerações mais jovens e a cultura hipster (além de sugerir que o Jamie no fundo possa ser um interesseiro). É o tipo de filme onde o cineasta se coloca numa posição superior, como se fosse um crítico zombando das fragilidades humanas - e ao mesmo tempo humanizando essas pessoas, compreendendo suas falhas, como uma confissão de que ele também as tem.

- Apesar da natureza "mista" dos personagens, eles são absurdamente convincentes, interessantes, os diálogos são escritos com inteligência, maturidade e o casting é perfeito. Lembra o Woody Allen em seus melhores momentos.

- É brilhante o retrato dos 2 casais... O contraste entre as duas gerações. O Ben Stiller com a mentalidade individualista, focado no sucesso, e nova geração aparentemente menos ambiciosa, mais "generosa" e "coletiva". O problema é que, como o diretor parece ter uma relação complicada com a própria autoestima, ele tende a retratar os hipsters com um certo fascínio, como se invejasse a mentalidade despretensiosa deles. Realmente, pra quem é um loser como o Ben Stiller, pode soar atraente esse universo onde ninguém tem ego ou ambições. Seria menos humilhante ser um fracassado numa realidade assim.

- Muito bem explorado o tema da crise de idade dos protagonistas, que já não são jovens mas ainda não estão realmente na meia-idade (os amigos que os rejeitam por não ainda não terem filhos, etc). 

- Stiller não tem nenhuma confiança no próprio talento. Ele fica irritado por Jamie fazer sucesso com o filme idiota dele do Facebook, mas uma pessoa mais consciente entenderia por que esse tipo de filme naturalmente seria mais popular na cultura atual, e não se sentiria ameaçado por isso.

- SPOILER: O problema é que o documentário do Stiller também parece ser ruim, e ainda é feito com um talento discutível. Ou seja, o filme coloca de um lado do conflito o Ben Stiller, que não é muito talentoso, faz filmes que não atraem o público, mas que é ético e apaixonado por sua arte - e do outro lado coloca o Jamie, que não tem escrúpulos, é desonesto, mas que tem certo talento e faz filmes que agradam o público. Isso cria uma visão conflituosa das coisas e uma falsa dicotomia, como se não fosse possível ser honesto e bem sucedido ao mesmo tempo. Parece um pouco de recalque e auto-enganação - o diretor sugerindo que a razão de seu insucesso não é falta de talento, mas o fato dele ser íntegro e "purista". Que se ele fosse vulgar como o Jamie, ele também poderia fazer sucesso. Será mesmo??

- SPOILER: Fantástica a revelação de que Jamie no fundo era um interesseiro! É um ataque brilhante aos valores que essa geração promove, e que muitas vezes são apenas uma fachada pra disfarçar um caráter duvidoso. É o que sempre penso: quem se esforça demais pra esconder a própria ambição é porque sabe que no fundo há algo de mau no que deseja.

- SPOILER: Muito bom o clímax: o discurso do Ben Stiller sobre o fim dos documentários, etc. Mas é horrível ele "perder" no final, sair humilhado do evento, e ainda dizer que Jamie não é mau, é apenas jovem. Baumbach não gosta de nada preto e branco... Apenas expõe os conflitos, mas na última hora tira o corpo fora e evita julgar os personagens de maneira dura.

CONCLUSÃO: Filme incrivelmente sensível, rico em conteúdo, com conflitos elaborados, personagens bem escritos, ótimos diálogos, que peca mais pela posição "moralmente cinza" do cineasta em relação aos personagens.

(While We're Young / EUA / 2014 / Noah Baumbach)

FILMES PARECIDOS: Mesmo Se Nada Der Certo / Antes da Meia-Noite / Frances Ha / A Lula e a Baleia / Maridos e Esposas 

NOTA: 8.0

sábado, 4 de julho de 2015

Timbuktu


Atualmente este é o 2º filme mais aclamado do ano pela crítica, abaixo apenas de Divertida Mente no ranking do Metacritic. Ele se passa na cidade de Tombuctu no centro de Mali, onde a população vive em conflito com extremistas religiosos que tomaram controle da cidade e tentam impor suas regras irracionais aos moradores (obrigam mulheres a usarem luvas, proíbem a música, o futebol, etc).

A intenção de denunciar terroristas é até positiva, mas infelizmente esse é daquele tipo de filme que não diferencia arte de jornalismo, e acha que uma mensagem social relevante justifica sua existência, podendo abrir mão de qualidades cinematográficas básicas como roteiro, direção, caracterização, atuação, etc. E os críticos caem na pegadinha (é o mesmo que falei do filme Ida, que também concorreu ao Oscar de filme estrangeiro este ano junto com Timbuktu): quem ousará dizer que o filme é ruim, tedioso, superficial, sem talento, sem inteligência, sem sensibilidade, quando temos na tela africanos humildes e oprimidos? Todo crítico sabe que africanos oprimidos são muito mais importantes do que cinema, arte, que dirá entretenimento! Que espectador será desumano o bastante pra pensar em seu prazer pessoal quando algo tão sério, urgente e social está sendo retratado na tela? Nós devemos ser altruístas enquanto espectadores e doarmos nossa atenção aos africanos sem pensar em receber nada em troca! Bem, eu tenho uma baixa tolerância ao tédio. Acho que isso faz de mim um péssimo ser humano.


(Timbuktu / França, Mauritânia / 2014 / Abderrahmane Sissako)

FILMES PARECIDOS: Ida / Leviatã / O Sal da Terra / Osama

NOTA: 1.0

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O Exterminador do Futuro: Gênesis

ANOTAÇÕES:

- Coisas muito grandiosas acontecem logo nos primeiros minutos em termos de efeitos especiais (bombas atômicas, etc). Fica difícil de se impressionar com o que vem depois.

- Incrível o efeito do Arnold Schwarzenegger rejuvenescido!!! Divertidas essas cenas do começo que reconstituem o Exterminador de 1984.

- Frustrantes as entradas do Schwarzenegger (velho) e da Sarah Connor. A plateia está confusa demais se perguntando o que eles estão fazendo aí - em vez de uma surpresa empolgante, acaba sendo um anti-clímax.

- Emilia Clarke está errada como Sarah Connor. Ela tem cara de adolescente mimada, e não de uma mulher forte como era a Linda Hamilton. A relação entre o trio principal não é bem construída. 

- Ridículo a Sarah chamar o Exterminador de "Pops". O filme é cheio de piadinhas e toques de humor inapropriados que quebram a seriedade do filme. Nos outros filmes existiam toques de humor, mas os atores sempre pareciam pessoas sérias, não personagens bobos de sitcom. Pelo menos o filme não foi pro lado sombrio, o que já é um avanço.   

- Ainda nem estamos entendendo a história, envolvidos com os personagens, e o filme já embarca em várias cenas de ação intensas e cheias de efeitos especiais que acabam soando gratuitas e frustrantes. A ação está desconectada do drama (por exemplo, o T-1000 perseguindo o carro). O diretor está brincando de recriar imagens dos filmes antigos, e não está pensando muito na experiência da plateia. 

- A história é muito confusa, a ponto de não dar pra acompanhar. Tramas que envolvem viagem no tempo precisam ser muito claras e bem apresentadas. Aqui não dá pra saber se o que está acontecendo faz sentido, ou se o roteirista é simplesmente desleixado. O legal de viagem no tempo é você ser transportado pra outras realidades, se surpreender com elementos de uma época surgindo em outra, etc - mas é um tédio ver personagens conversando o tempo todo a respeito de linhas do tempo. 

- É chato não haver protagonistas "normais", que não saibam nada a respeito do futuro, dos exterminadores, etc. Todo mundo aqui já vive num universo de ficção-científica, então não há surpresa.

- Em todos os aspectos o filme demonstra falta de inteligência, de senso de drama... Por exemplo: a cena em que o médico está costurando as costas da Sarah Connor, e ao mesmo tempo está no celular falando com alguém (!), só pra revelar uma informação importante pra história. Ou então o John Connor entrar no hospital do nada e encontrar a mãe: algo totalmente inesperado, um momento mal dirigido, e que à primeira vista não faz sentido... Parece que o filme foi escrito por estagiários. 

- SPOILER: John Connor virar "do mal" nesse filme não é uma reviravolta empolgante como foi a do Schwarzenegger, que era vilão no primeiro filme e se tornou herói no segundo, ou a da Sarah Connor, que era ingênua no primeiro e depois ficou "durona". John Connor se tornou um personagem detestável e sem carisma!

- O ônibus dando piruetas no ar e caindo da ponte é muito artificial (aliás, por que eles estão num ônibus escolar?). As cenas de ação não são nada boas. 

- SPOILER: É interessante a ideia do Schwarzenegger fazer um "upgrade" e virar um T-1000, mas é tudo tão rápido e mal explicado que acaba parecendo uma reviravolta tola.

CONCLUSÃO: Alguns momentos do começo são divertidos pela nostalgia, mas depois o filme se torna uma bagunça mal escrita, com muito pouco do talento e da criatividade que havia nos filmes do James Cameron.

(Terminator Genisys / EUA / 2015 / Alan Taylor)

FILMES PARECIDOS: Godzilla (2014) / Thor: O Mundo Sombrio / O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas / Jurassic Park III

NOTA: 4.5

quarta-feira, 1 de julho de 2015

An Honest Liar


Ótimo documentário sobre a vida de James Randi, que depois de uma longa carreira como mágico se tornou perito em desmascarar videntes e pessoas que afirmam ter poderes sobrenaturais. Como eu já conheço o Randi há um tempo, algumas coisas no documentário não foram novidade. Mas o filme não foca apenas no seu lado "caça-charlatões", que é o mais conhecido atualmente. Além de explorar sua carreira como ilusionista (que foi muito mais bem sucedida do que eu imaginava) o filme revela também aspectos surpreendentes da vida pessoal de Randi e de sua relação com José Alvarez (Randi se assumiu gay publicamente aos 81 anos de idade). Acho que muita coisa ficou de fora (por exemplo, fala-se muito pouco sobre o famoso Desafio Sobrenatural de Um Milhão de Dólares criado por ele), mas ainda vale a pena pra quem não conhece Randi e se interessa pelo tema ciência/misticismo.

Palestra de Randi no TED:

(An Honest Liar / EUA, Espanha, Itália, Canadá / 2014 / Tyler Measom, Justin Weinstein)

FILMES PARECIDOS: Poder Paranormal

NOTA: 7.5