sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Passageiros

NOTAS DA SESSÃO:

- Não é uma nave muito original (lembra coisas de Alien, 2001 e outros filmes), mas é um ambiente atraente visualmente.

- Embora o Chris Pratt fique muito tempo sozinho, o filme não fica entediante pois sabemos que a Jennifer Lawrence irá aparecer e queremos descobrir por que ele foram acordados antes dos outros (algo já antecipado pelo trailer).

- Estranho quando ele sai da nave e chora olhando pro espaço a lágrima escorrer pra baixo como se tivesse gravidade.

- O filme tem um tom um pouco tolo, como se fosse apenas uma desculpa pra colocar um casal pop no espaço, e não um filme que se leva a sério enquanto ficção-científica. Não faz muito sentido ele não poder voltar a hibernar (até porque já vimos muitos filmes com câmaras de hibernação idênticas a essas, e sempre é possível voltar a dormir - só aqui que não dá, pois se desse a história não iria existir). Faltou uma desculpa mais convincente. Outra coisa: se a nave passaria um século vazia, e as pessoas só acordariam pouco antes da chegada, por que ela seria construída como um cruzeiro de luxo, cheia de opções de entretenimento, bartenders robôs que ficam funcionando o tempo todo, alertas que avisam os passageiros quando estão passando por algum astro bonito, etc?

- SPOILER: Muito questionável o Chris Pratt acordar a Jennifer Lawrence! Parece um conflito de um filme mais sério, sombrio, com personagens ambíguos moralmente, e não de um romance água-com-açúcar. Pelo menos isso cria mais um interesse pra trama (queremos saber se ela irá descobrir a mentira e como irá reagir).

- O romance não é empolgante. É tudo muito óbvio e fácil. Eles são as 2 últimas pessoas do mundo, são lindos, solteiros, saudáveis, compatíveis em todos os aspectos, não têm concorrência de outras pessoas, não têm grandes conflitos. E é uma relação meio superficial. Não sentimos que há uma conexão única entre eles. Principalmente da Jennifer Lawrence em relação ao Chris Pratt. Ela foi escolhida por ele (praticamente 'colhida' numa plantação), mas por que ele é o cara ideal pra ela também? Depois que ela descobre que foi acordada e os dois brigam, eles fazem as pazes de maneira meio fácil.

- Não faz sentido ele danificar o piso da nave pra plantar uma árvore! Ele cavou um buraco enorme e encheu de terra? De onde ele tirou essa árvore adulta? A nave não está numa viagem de 1 século sem ninguém acordado? Também não faz sentido a gravidade "parar de funcionar" de um segundo pro outro, afinal ela é gerada através da força centrífuga pelo fato da nave estar rodando, não seria assim que aconteceria (são detalhes como esse que vão se somando e dando um clima tolo pro filme, como se tudo fosse apenas uma desculpa pra mostrar o casal sexy).

- SPOILER: O roteiro explora muito mal os personagens. Só tem 4 personagens o filme inteiro, e 2 deles parecem totalmente inúteis: o robô, e o Laurence Fishburne, que mal aparece e já morre sem muita explicação.

- Por que tudo na nave começaria a quebrar? Coisas que não têm a menor conexão: os robôs da limpeza, a gravidade, etc? Se a situação é tão catastrófica assim, não seria esperado que muitas das câmaras de hibernação também quebrariam? Uma nave nesse estado será que irá funcionar por mais 90 anos? Os buracos provocados pelos meteoritos não acabariam com o oxigênio? Um mecânico que não entende nada sobre a nave irá conseguir consertá-la sozinho? Se ele for tão genial a ponto de fazer isso, não faria sentido ele conseguir dar um jeito de voltar a hibernar também? O roteiro é muito "nas coxas".

- Me incomoda a atitude romântica dos dois, como se fosse Jack e Rose no Titanic. Não há suporte o suficiente nessa relação pra justificar essa atitude de "amor perfeito". O cara praticamente acabou com a vida dela só pra ele ter com quem fazer sexo. Muita coisa teria que ter acontecido depois até a gente acreditar nessa poesia toda.

- SPOILER: Forçados os "sacrifícios" no final: ele ter que quase morrer pra salvar a nave, ela resolver abandonar todo seu futuro, sua carreira, seus planos, pra ficar com ele na nave fazendo nada.

- SPOILER: O trailer dizia que eles tinham sido acordados por uma razão, mas isso foi uma mentira pra intrigar os espectadores! No fim parece ter sido apenas um acidente aleatório, que por sorte acabou salvando a vida de todos (afinal o herói consertou a nave milagrosamente).

- De onde surgiram todas essas plantas no final? Tem até galinha na nave! É como se fosse pra ser uma evolução natural da árvore que ele plantou (o que é um absurdo), mas obviamente isso só pode ter vindo de uma outra parte da nave onde já haviam todas essas coisas vivas (o que também é um absurdo - as galinhas não deviam estar hibernando também? Rs).

------------------

CONCLUSÃO: O filme tem um senso benevolente de entretenimento, mas falta o cérebro pra fazer a coisa toda funcionar direito.

Passengers / EUA / 2016 / Morten Tyldum

FILMES PARECIDOS: Gravidade (2013) / Oblivion (2013) / Poseidon (2006) / Armageddon (1998)

NOTA: 6.0

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

É Apenas o Fim do Mundo

NOTAS DA SESSÃO:

- Intrigante a primeira cena onde o protagonista anuncia que irá se matar. Há algo de atraente e misterioso nele.

- Estilo acima de conteúdo: quando ele chega na casa da família, as pessoas todas se comportam de maneira excêntrica sem nenhuma explicação ou contexto. O Louis e a Marion Cotillard ficam se encarando por minutos sem motivo, o Vincent Cassel fica reclamando de tudo de maneira forçada, há pausas bizarras no meio dos diálogos. Isso tudo é apenas pra dar um clima "cult" pro filme.

- Por que ele quer se matar? Por que ele ficou tanto tempo afastado da família? Por que ele se tornou famoso? O filme não desenvolve essas questões importantes e fica apenas focando em conversas banais sobre nada. O protagonista é distante, suas motivações são obscuras, o público não sabe o que se passa em sua mente (Naturalismo).

- Horrível essa cena com a música original da "Festa no Apê". O que tem a ver colocar uma música pop animada numa história como essa? É apenas uma "marca registrada" do diretor (Xavier Dolan já fez coisas do tipo em seus outros filmes) colocada de qualquer jeito pros críticos se sentirem inteligentes, mas que nada tem a ver com o resto do filme.

-Por que a premissa dramática de anunciar que o protagonista irá se matar, se o filme inteiro é sobre diálogos tediosos, momentos comuns do cotidiano? Dá a impressão que é apenas algo que foi dito no começo pra prender a atenção do espectador desonestamente - tipo esses programas de TV que ficam enrolando o espectador por horas sem nenhum conteúdo, sob o pretexto de que alguma revelação dramática será feita no último bloco.

- O personagem é pretensioso. A família fica o tempo todo bajulando ele como se fosse o messias, enquanto pra plateia ele parece apenas um garoto que ficou famoso recentemente sem muita explicação. Nada que ele faz na prática parece justificar essa pompa toda.

- O filme é uma fraude. Não é sobre nada, não mostra nada de valor em termos de cinema. É apenas uma série de cenas sem sentido, diálogos nonsense (pegue por exemplo a sequência em que o protagonista e o Vincent Cassel saem pra andar de carro e ficam horas falando sobre o café do aeroporto!), só que como o protagonista fica sempre com uma expressão triste, melancólica, desconectada, dá a impressão que o filme é "profundo" por algum motivo.

- Desintegração: Em alguns momentos a câmera faz movimentos chamativos, a trilha sonora fica dramática, tudo sem nenhum motivo (exceto os impulsos subjetivos do cineasta, claro).

- Qual o sentido dessa briga no final sobre quem irá levar o Louis ao aeroporto? Por que o Antoine está expulsando ele da casa com tanta brutalidade? E esse pássaro no fim? O filme parece obra de um adolescente pretensioso tentando imitar filmes de "arte", sendo que a única observação que ele fez a respeito de tais filmes é de que eles são "estranhos", "melancólicos" e "difíceis de entender".

------------------

CONCLUSÃO: Besteirol subjetivista.

Juste la Fin du Monde / Canadá, França / 2016 / Xavier Dolan

FILMES PARECIDOS: Amor Pleno (2012)

NOTA: 1.5

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Capitão Fantástico

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme prende a atenção afinal é uma situação extrema, queremos entender por que essa família vive de maneira tão selvagem no meio da floresta.

- Alerta Vermelho (anti-capitalismo). Esse pai é totalmente irracional por fazer isso com os filhos. E o problema é que o filme o retrata positivamente. Não há nenhuma coerência no fato dele condenar o "consumismo", ir morar na selva, mas daí na hora do aperto (quando precisa de hospital, comida) pegar o carro e ir usufruir das maravilhas do capitalismo.

- Alguns elementos na maneira como ele cria os filhos são interessantes, como o realismo, a honestidade na hora de abordar temas sérios (embora em muitos momentos ele passe do ponto, esquecendo que crianças não têm contexto psicológico pra absorver certas coisas). Mas em geral ele é um pai irresponsável, desagradável, insensível, que está arruinando a vida dos filhos.

- Um absurdo eles roubarem comida do mercado e ainda acharem que estão fazendo algo moralmente defensável.

- A história é um pouco Naturalista, sem uma narrativa muito linear, mas não entedia pois está sempre acontecendo algo diferente e inesperado na tela.

- O filme tem consciência de que o personagem do Viggo Mortensen é questionável moralmente. Não fica apoiando cegamente o personagem - sempre faz questão de mostrar o ponto de vista dos filhos, que às vezes estão contra o pai, ou então de mostrar os argumentos dos outros parentes que acham ele é um louco. E faz isso honestamente, como se estivesse considerando os 2 lados do debate friamente, sem tomar partido. Mas fica sempre a sensação de que o filme quer que a gente simpatize pelo Viggo Mortensen, apesar de tudo que ele faz (da mesma forma que a menina diz que simpatiza pelo protagonista de Lolita apesar dele ser um pedófilo). Eu acho que são 2 casos bem diferentes - que Lolita (julgando pelo filme) retrata o personagem de forma apropriada, e este aqui não.

- O filme se baseia numa falsa dicotomia: é como se a vida fosse uma escolha entre se vender pro sistema e ter uma vida alienada e sem liberdade, ou então romper com toda a civilização, voltar pra selva, e daí ter uma vida digna. Se só existissem essas 2 opções, talvez eu preferisse mesmo ir pra selva. Mas é uma discussão tola, incompleta.

- Ridículo o Viggo Mortensen achar que a filha dele de 7 anos é mais bem informada que os meninos "civilizados" pois ele a forçou a decorar a Declaração dos Direitos dos EUA. No que isso a torna mais bem equipada pra viver do que eles?

- Péssimo o comportamento do pai no funeral da esposa. O filme é basicamente sobre um homem fazendo uma série de coisas erradas, mas querendo que a gente o ache tudo "cool", afinal ele é hippie, de esquerda, se veste de maneira estilosa, então merece o respeito automático da plateia.

- SPOILER: Em certo ponto (quando o Frank Langella consegue levar os netos pra morar com ele), o filme quase convence de que o pai sairá derrotado da história. Que a intenção do filme não era defendê-lo, mas mostrar que ele estava fazendo mal pros filhos. Mas daí há uma reviravolta e fica claro que isso tinha sido apenas pra criar um suspense - que o filme estava defendendo o pai o tempo todo.

- SPOILER: Horrível os filhos jogando as cinzas da mãe na privada e dando risada. Isso não passa a impressão de que as crianças são mais maduras, "livres" dos costumes superficiais da sociedade, e sim que elas são delinquentes.

- Com que dinheiro o filho mais velho vai viajar pro exterior? Com o do avô? E o pai aceita numa boa? Isso mostra o quão "íntegro" ele é.

- SPOILER: Não sei por que o Viggo Mortensen faz a barba, o outro raspa o cabelo. Não ficamos com a impressão de que eles se transformaram essencialmente. Eles simplesmente passaram por um momento difícil, tiveram seus valores questionados, mas no fim voltaram a ser mais ou menos como eram. Com algumas mudanças superficiais. O filme fica em cima do muro - não quer dizer que o pai está certo, nem errado, que ele teve que mudar sua filosofia, nem que continuou fiel à ela. É tudo meio cinza e vago.

------------------

CONCLUSÃO: Filme bem realizado, interessante, autêntico, mas com uma discussão problemática e errada moralmente.

Captain Fantastic / EUA / 2016 / Matt Ross

FILMES PARECIDOS: Moonrise Kingdom (2012) / Na Natureza Selvagem (2007) / Pequena Miss Sunshine (2006)

NOTA: 6.0

domingo, 25 de dezembro de 2016

Minha Mãe É uma Peça 2

Basicamente tem as mesmas qualidades e problemas do primeiro filme. Paulo Gustavo criou um personagem genial, e em termos de humor, frases hilárias da Dona Hermínia, etc, o filme é tão bom quanto o primeiro. Infelizmente o resto do filme (roteiro, direção) não está à altura da personagem, e o filme depende completamente do carisma de Paulo Gustavo e de suas falas pra funcionar.

A história é umas série de sketches sem muito senso de unidade - a história da Dona Hermínia ser uma apresentadora de TV parece não combinar em nada com a parte do filme em que ela é apenas uma dona de casa, sub-tramas parecem ser inseridas sem ter qualquer relação com o resto da história (a visita da irmã, a doença, a tia que morre, etc). Ainda assim, em comédias desse estilo o principal são as risadas, e nesse ponto o filme não decepciona.



Minha Mãe É uma Peça 2 / Brasil / 2016 / César Rodrigues

FILMES PARECIDOS: Minha Mãe É uma Peça - O Filme (2012) / De Pernas pro Ar (2010)

NOTA: 6.5

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Sing: Quem Canta Seus Males Espanta

NOTAS DA SESSÃO:

- Herói Envergonhado: os personagens são todos comuns, losers, não há um protagonista forte. O produtor (coala) não é um personagem interessante ou carismático pelo qual a gente torce.

- Competições de canto na vida real já são um pouco deprimentes, pois sabemos que ninguém que sai dali vira de fato um astro. Um filme sobre uma competição de canto consegue ser ainda menos interessante.

- O coala claramente não tem paixão pelo entretenimento, por performance, por música. Só está pensando em ganhar dinheiro com esse show (todos os espetáculos que ele tentou fazer antes foram um fracasso, pois ele provavelmente não tem talento, então agora ele resolveu apelar pra reality shows e coisas mais clichês apenas pra lucrar). Esse personagem é a representação perfeita do que eu penso sobre produtores de filmes como Sing. O filme não é de fato sobre canto. Ele é muito mais sobre como levantar dinheiro sendo desonesto, inescrupuloso, não tendo valores.

- É uma competição tediosa, você não torce por ninguém (é óbvio que a elefanta vai ser a grande revelação no final, simplesmente por ela ser a que tem menos autoestima). Nenhum dos participantes é admirável. Ou são losers completamente inseguros, ou então são desses que são excessivamente metidos, se acham, e a autoconfiança deles é retratada de forma cômica, como se eles fossem "sem-noção" (me pergunto também por que todos os personagens são feios, se os animadores podiam desenha-los como quisessem). Os dramas naturalistas que eles vivem fora da competição pouco vão interessar o público mais jovem (a mãe de família que não é valorizada pelo marido, etc).

- Mentalidade clichê. O filme todo é feito ao redor de clichês, de cenas clichê.

- O macaco e a família são claramente criminosos e o filme não condena isso. O ratinho também é desonesto e o filme quer que a gente simpatize por ele.

- Assim como o produtor, os cantores também parecem muito mais preocupados com o dinheiro que vão ganhar na competição do que com as próprias carreiras, com a música. Se você for pensar, na maioria dos casos a história é uma competição por dinheiro onde o entretenimento é apenas uma ferramenta, um meio de se chegar a ele (assim como o próprio filme Sing). O filme tem muitos conflitos relacionados a dinheiro (Será que o produtor conseguirá patrocínio da madame? Será que ele perderá o imóvel pro banco? Será que ele será processado por fraude?) e muito pouco se discute das ambições pessoais dos personagens.

------------------

CONCLUSÃO: Mais uma produção sem alma feita pra ganhar dinheiro em cima da inocência do público infantil.

Sing / EUA, Reino Unido / 2016 / Christophe Lourdelet, Garth Jennings

FILMES PARECIDOS: Pets: A Vida Secreta dos Bichos (2016) / A Era do Gelo: O Big Bang (2016) / Zootopia (2016) / Minions (2015)

NOTA: 3.5

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Neruda

NOTAS DA SESSÃO:

- Estilo acima de conteúdo: o filme cria um tom excêntrico, cortes absurdos, uma atitude cínica em relação aos personagens, mas nada disso tem justificativa (a história e os personagens em si não são cômicos). É só o diretor tentando dar uma cara "cool" pra produção. O filme zomba dos 2 protagonistas: tanto Neruda quanto o policial parecem ridículos. O filme não está do lado de um, nem de outro, e também não explica por que devemos despreza-los ou por que esse conflito é relevante. Apenas fica mostrando 2 personagens superficiais, mal escritos, um contra o outro. Se o próprio diretor não admira os personagens em algum nível, qual minha motivação pra acompanhar o filme? Curiosidade histórica?

- E o filme é vazio intelectualmente. Ele pega um tema cheio de carga política, mas não se posiciona em relação a nada, não discute as ideias claramente, não explica qual a essência do conflito no país, qual o erro dos personagens, então nem por esse ângulo intelectual ele é interessante.

- A fotografia é feia (essa cópia em particular está sem nenhuma nitidez), a correção de cor é de mau gosto, não há um senso de composição, há quebras estranhas de eixo, etc.

- Como "perseguição" o filme também é péssimo. Quando estamos do ponto de vista do policial, não há suspense, uma evolução interessante, pistas pra ele ir seguindo pra capturar o Neruda, etc. Nem sabemos como ele chega em certos lugares.

- O filme só tem um mínimo interesse por, supostamente, ser uma história verídica, porém da metade pra frente, tudo começa a virar obviamente uma fantasia. Já não sabemos se o policial existe, se é uma criação do Neruda, se é tudo uma "metáfora". Então nem como curiosidade histórica o filme serve mais.

- A narração do policial é ruim, pretensiosa, cheia de frases nonsense que tentam criar profundidade pelo simples fato de serem incoerentes.

- Final péssimo, vazio. O cineasta parece não ter certeza do que está fazendo, do que quer dizer pra plateia. Então torna tudo vago, "simbólico", e deixa o espectador confuso com a sensação (equivocada) de que o filme está tratando de temas importantes, e que ele que não entendeu direito.

------------------

CONCLUSÃO: Desinteressante, vazio e pretensioso.

Neruda / Chile, Argentina, França, Espanha, EUA / 2016 / Pablo Larraín

FILMES PARECIDOS: O Clã (2015) / Chatô - O Rei do Brasil (2015) / Getúlio (2014)

NOTA: 1.5

sábado, 17 de dezembro de 2016

Sully: O Herói do Rio Hudson

NOTAS DA SESSÃO:

- A história é muito parecida com a de O Voo (2012), o que dá um senso de déjà-vu.

- Não é uma performance muito dinâmica, chamativa, mas Tom Hanks está bem e o personagem é respeitável.

- A narrativa é um pouco frouxa. Pensei que o filme fosse focar no conflito entre o piloto e a seguradora, cada lado tentando provar seu argumento, mas o filme não segue tanto essa linha. Não ficamos realmente preocupados que o Sully possa ser responsabilizado pelo acidente. E como o maior evento da história já aconteceu (a queda do avião, que é apenas mostrada em flashbacks), não há muito o que aguardar da história. Só assistimos o filme com certa curiosidade pois queremos assistir o acidente completo do começo ao fim (o filme não mostra tudo de cara logo no primeiro flashback, vai reservando algumas coisas pra mostrar mais pra frente).

- Bonito o momento quando Sully recebe a informação de que todos os 155 passageiros sobreviveram.

- O filme não faz uma abordagem interessante da história. Apenas registra o óbvio. Quando entramos na sala, já sabemos que o avião pousou no rio e que todo mundo sobreviveu. Daí quando vamos ver o filme, e o que acontece é apenas isso! O avião cai no rio e todos sobrevivem! Não há uma boa história além disso, o que deixa o filme com cara de uma reportagem de luxo (por exemplo: Titanic não é apenas sobre um navio afundando, tem o romance, o drama familiar, o conflito de classes, os pesquisadores em busca do colar, etc, etc).

- SPOILER: A única tentativa de se desenvolver uma trama aqui é o lance da seguradora querendo culpar o Sully pelo pouso no rio. Mas isso é resolvido de maneira muito simples. Bastou ele argumentar que levariam 35 segundos a mais na simulação pra fazer o retorno pra ficar claro que não teria dado tempo de chegar ao aeroporto. Não é uma sacada surpreendente, uma reviravolta satisfatória após um grande embate, etc. É até meio forçada a maneira como o filme tenta vilanizar os caras da seguradora, só pra depois provar na frente de todos que eles estavam errados. Não foi um conflito bem desenvolvido.

- Eles repetem a cena da queda muitas vezes! A última já parece desnecessária. Já vimos o avião caindo por diversos pontos de vista. O filme usa esses flashbacks do acidente pra tentar gerar mais clímax e acordar a plateia (pois a história em si é meio fraca), mas fica parecendo mais uma encheção de linguiça.

------------------

CONCLUSÃO: Produção decente, mas o material não é forte o bastante pra sustentar um bom filme.

Sully / EUA / 2016 / Clint Eastwood

FILMES PARECIDOS: Ponte dos Espiões (2015) / A Travessia (2015) / Capitão Phillips (2013) / O Voo (2012) / As Torres Gêmeas (2006)

NOTA: 6.0

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Rogue One: Uma História Star Wars


NOTAS DA SESSÃO:

- Começo um pouco parecido demais com o Guerra nas Estrelas original (a heroína está tranquila em casa, daí chega o Império e de repente ela se torna órfã - ou praticamente - e no futuro vira uma rebelde).

- A história é acompanhável, mas é muito burocrática, desinteressante, o foco todo é em táticas de guerra. Me sinto muito mais vendo filmes como Syriana ou algo da série Bourne do que Star Wars, que costumava valorizar o escapismo, a diversão.

- Divertido o robô que não tem "filtro" pra falar, embora seja apenas uma variação do C-3PO.

- Visualmente a produção é bonita; gosto das locações, dos efeitos meio retrô pra ser fiel aos originais (O Despertar da Força já tinha acertado nisso).

- Boa parte do motivo da história soar burocrática é que a personagem principal é fraca, impessoal, não tem conflitos interessantes, é meio fria, só pensa na missão, não desenvolve relações interessantes com ninguém (mais ou menos como a Daisy Ridley no último). Nos antigos, os heróis tinham espírito de príncipes, princesas, eram personagens divertidos, agora, os heróis têm espírito de revolucionários, ativistas ("a feminista e os amigos multiculturais contra o homem branco opressor!").

- Os personagens coadjuvantes e a trilha sonora tentam dar um tom mais leve pra história, alívio cômico, mas não funciona pois a essência do filme não é divertida - a história e os protagonistas.

- As relações em geral são conflituosas, pouco atraentes (o Diego Luna tem caráter duvidoso, o Forest Whitaker às vezes parece mais vilão do que mocinho, o robô e a Jyn não se entendem direito, etc).

- SPOILER: Chatíssimo o pai da Jyn morrer logo que os dois se reencontram depois de tantos anos! É uma morte banal, uma cena esquecível, não pareceu necessária.

- Não é porque o Diego Luna resolveu ajudar a Jyn que de uma hora pra outra ele é um cara do bem. Os dois fizeram as pazes, porém já vimos desde o começo que ele é um assassino, capaz de trair qualquer um em nome da rebelião.

- Embora exista uma trama, um passo a passo pra ser acompanhado, isso não basta pra envolver a plateia, pra ser uma narrativa legítima. Pra interessar, a trama tem que ser construída em cima de valores que sejam interessantes pro espectador, em cima das expectativas que ele tem em relação à história. Não basta inventar qualquer sequência lógica de ações: "invadir o prédio", "roubar os planos da Estrela da Morte", "conseguir um sinal", "enviar uma mensagem pra Aliança", etc. Isso é uma chatice.

- Resumindo de maneira tosca, a heroína só precisa roubar um pen drive e mandar um e-mail pra cumprir a missão. Fim. Só que daí, pra tornar a coisa um pouco menos chata, eles colocam o "pen drive" à beira de um precipício, e a antena pra transmitir o "e-mail" no alto de uma torre de onde a mocinha pode despencar... daí fica menos parado. E intercalando com isso, o filme corta pra naves no espaço onde rebeldes anônimos estão lutando contra inimigos desconhecidos, assim parece que é tudo uma grande cena de ação, quando na essência é apenas alguém mandando um e-mail.

- SPOILERS: Forest Whitaker escolhe morrer sem nenhuma explicação. Depois o robô também escolhe se sacrificar pela causa e morre. O cego também morre. O piloto morre de forma banal. O cabeludo também. O pai da mocinha também. Parece Game of Thrones... O roteirista não sabe o que fazer, então inventa uma morte de tempos em tempos criar certo drama. Mas nenhuma dessas mortes tem qualquer impacto emocional.

- É interessante a ideia da Estrela da Morte ter sido construída pelo pai da Jyn (alguém que criou um ponto fraco nela de propósito); isso explica por que foi tão fácil destrui-la em Uma Nova Esperança. Por outro lado, se o Darth Vader e todo mundo do Império está sabendo que a Estrela tem um ponto fraco, eles não mandariam corrigir isso rapidamente? Apenas o pai da Jyn tinha inteligência pra programar a Estrela da Morte?

- As 2 aparições do Darth Vader parecem forçadas, mais pra agradar os fãs - não são cenas que estão bem integradas à história. Por que no final ele iria pessoalmente tentar recuperar o "pen drive", sem nenhuma ajuda? É como se ele precisasse ser o grande vilão do filme de qualquer jeito, só por ser mais famoso, mesmo que nessa história em particular ele não tenha nem cruzado o caminho da protagonista.

- SPOILER: Divertida a aparição da Leia no final (O Despertar da Força abusou muito desse truque de mostrar elementos nostálgicos pra arrancar aplausos da plateia - esse aqui soube dosar melhor).

------------------

CONCLUSÃO: Bem produzido, mas a história é chata e não tem o espírito que fez da série um fenômeno.

Rogue One / EUA / 2016 / Gareth Edwards

FILMES PARECIDOS: Star Trek: Sem Fronteiras (2016) / Star Wars: O Despertar da Força (2015) / Jogos Vorazes (2012)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Melhores de 2016

Já começou a temporada de prêmios, então vou deixar aqui uma lista aberta dos meus favoritos de 2016 (em geral filmes que dei notas de 7.5 pra cima). Até Março vão estrear mais dezenas de "premiáveis" que são de 2016 mas que só estreiam no Brasil em 2017 (ou seja, estou considerando o ano de lançamento no país de origem, não o lançamento no Brasil, até por isso não vão entrar aqui filmes como Spotlight, O Quarto de Jack, etc); conforme novos filmes forem sendo lançados, vou aumentando a lista, que só deve ficar completa lá pra Março.

Melhores Filmes (ordem alfabética):

Aliados - 8.0
Animais Noturnos - 7.5
Caça-Fantasmas - 8.5
Café Society - 7.5
O Contador - 7.8
Elle - 7.5
Estrelas Além do Tempo - 8.0
Florence: Quem É Essa Mulher? - 8.0
Lion: Uma Jornada Para Casa - 8.0
Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo - 7.8
Manchester À Beira-Mar - 8.5
Mogli: O Menino Lobo - 7.5
Mulheres do Século 20 - 8.0
Sing Street - 7.5
Snowden: Herói ou Traidor - 8.0
Toni Erdmann - 9.0

Melhores Atores:

Caça-Fantasmas (conjunto): Melissa McCarthy / Kristen Wiig / Kate McKinnon / Leslie Jones / Chris Hemsworth
Casey Affleck (Manchester À Beira-Mar)
Estrelas Além do Tempo (conjunto): Taraji P. Henson / Octavia Spencer
Isabelle Huppert (Elle)
José Loreto (Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo)
Joseph Gordon-Levitt (Snowden: Herói ou Traidor)
Meryl Streep (Florence: Quem É Essa Mulher?)
Sonia Braga (Aquarius)
Toni Erdmann: Peter Simonischek / Sandra Hüller
Um Limite Entre Nós: Denzel Washington / Viola Davis

Não sigo muito as séries de TV, mas esse ano preciso fazer uma menção honrosa pra 2 delas que na minha opinião estão à altura dos melhores filmes lançados: Stranger Things (1ª temporada) e Black Mirror (3ª temporada, com destaque também pra performance de Bryce Dallas Howard no episódio Nosedive).

sábado, 10 de dezembro de 2016

Jack Reacher: Sem Retorno

NOTAS DA SESSÃO:

- Fraca a primeira cena. O xerife não estava mal intencionado, apenas usou o senso comum e achou que o Tom Cruise era o agressor. Ele não é um vilão, então não é um grande prazer ver o Tom Cruise virar o jogo e humilhá-lo. Nem sabemos direito por que Cruise bateu nessas pessoas. O filme quer apenas dizer pra plateia: "vejam como Jack Reacher é f***", mas não criou cena inteligente pra ilustrar isso.

- O personagem não é muito carismático. Ele é invulnerável, sem conflitos, não tem um lado humano, está certo o tempo todo, tem habilidades impossíveis, está sempre rodeado de pessoas estúpidas, não tem relações atraentes com outros personagens, e o grande prazer dele é derrotar todo mundo, dar porrada, provar que estão todos errados, que ele é um semi-deus e por isso está acima da ética, da lei, pode roubar carros, agredir os outros que está tudo certo (pra um defensor da Cientologia, dá pra entender por que esse tipo de coisa soa atraente).

- Cenas de ação genéricas, esquecíveis, não muito espetaculares (como costumam ser nos filmes de Cruise). O filme todo tem um tom ultrapassado. Ele quer ser atual, mas suas referências são de filmes ruins dos anos 90.

- Péssima a história de quererem raptar a filha dele. Reacher nem sabia que tinha uma filha. Por que todo esse senso de responsabilidade agora? A personagem da filha é detestável e toda essa aproximação entre os dois é pavorosa, um clichê atrás do outro (ele demonstrando interesse pela "arte" dela, etc).

- FUI EMBORA NO MEIO DA SESSÃO

Jack Reacher: Never Go Back / China, EUA / 2016 / Edward Zwick

FILMES PARECIDOS: De Volta ao Jogo (2014) / Operação Sombra - Jack Ryan (2014) / Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer (2013) / Busca Implacável 2 (2012)

NOTA: 2.0 ~ 3.5

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Elle

NOTAS DA SESSÃO:

- Isabelle Huppert está ótima e a personagem é divertidíssima. A maneira como ela reage ao estupro, se relaciona com o filho - é tudo muito anti-convencional e de certa forma libertador. É engraçado ela ser uma mulher séria, sofisticada e ao mesmo tempo produzir video games vulgares, levando esse trabalho a sério (é meio como o diretor Paul Verhoeven, que dirigiu Showgirls, Tropas Estelares, mas parece ser um artista com mais peso que isso).

- O flashback mostrando a cena do estupro com mais detalhes é ótimo, chega a dar susto o cara na janela.

- Hilário ela indo comprar armas, depois batendo no carro pra fazer a baliza. O comportamento dela é sempre inesperado, beirando o absurdo. Só não parece ilógico porque há certa justificativa psicológica pra ela ser assim. Aos poucos vamos entendendo o passado da família dela, a história do pai, etc. Não é apenas o diretor fazendo bizarrices pra divertir a plateia. Ela sente que é uma pessoa má, culpada pelo que houve, portanto acha quase compreensível alguém violentá-la, a mulher jogar a bandeja em cima dela, etc.

- O filme não tem uma narrativa forte (é mais focado em caracterização), mas tem mistério o suficiente pra deixar a gente interessado na história (queremos saber quem é o estuprador, se é alguém do trabalho, quais segredos ela guarda, etc). Sem falar que o filme é uma cena inesperada após a outra, como a história do bebê negro, o acidente de carro, etc. Não é um filme naturalista monótono (como disse sobre Aquarius, onde haviam muitas cenas de rotina meio arrastadas).

- SPOILERS: O público conservador irá detestar, mas eu me divirto com o tom subversivo do filme, a desconstrução dos conceitos de família, maternidade, religião, tradição (o jantar de natal surreal, a mãe dela namorando o garoto de programa, a Isabelle Huppert se masturbando enquanto os vizinhos montam o presépio, etc).

- Ótima a cena quando ela conta pro vizinho a história completa de como ocorreram os assassinatos.

- SPOILERS: Depois que descobrimos quem é o estuprador a história perde um pouco o pique, pois não temos muito mais expectativas (até a relação dela com o pai que era outro ponto de interesse se perde pois ele se mata na prisão).

- SPOILER: Faz sentido o filho estar ali pra salvá-la quando ela está sendo atacada pela última vez? O final não é ruim, mas não há muito senso de conclusão, afinal a história era mais uma exploração do personagem do que um enredo estruturado. Mas a imagem final é forte e simbólica - ela e a amiga andando pelo cemitério descontraídas, planejando morar juntas (apesar de uma ter traído a outra recentemente). Ou seja, no meio de mortes, traições, relações destrutivas (visualmente representadas pelo cemitério), a protagonista segue em frente tranquila, pensando no futuro, sem se deixar abalar.

------------------

CONCLUSÃO: Estudo de personagem interessante, divertidamente subversivo, com uma performance memorável de Isabelle Huppert.

Elle / França, Alemanha, Bélgica / 2016 / Paul Verhoeven

FILMES PARECIDOS: Aquarius (2016) / Mommy (2014) / Ninfomaníaca (2013) / Anticristo (2009) / Caché (2005) / A Professora de Piano (2001)

NOTA: 7.5

sábado, 3 de dezembro de 2016

Elis

Achei melhor não postar minhas anotações pois na primeira hora de filme eu fiquei basicamente reclamando da atriz, que estava achando forçada, antipática, sorrindo de forma inautêntica pra lembrar a Elis Regina - mas que até o final do filme conseguiu virar o jogo e me conquistar. Andréia Horta tem uma personalidade forte dessas que leva um tempo até a gente se acostumar (é a cara da Anitta), e além disso a personagem da Elis vai se tornando mais humana ao longo da narrativa, menos caricata como na primeira parte, ajudando nessa questão da empatia. É uma performance memorável. Visualmente e em termos de produção é um dos filmes brasileiros mais redondos e bonitos que vi nos últimos tempos (fotografia extremamente elegante, ótimo figurino, cenografia, etc), não perdendo em nada pras produções de fora.

Pra mim o grande problema do filme é o roteiro, que segue a estrutura clichê da maioria das cinebiografias. E o problema não é nem o fato de ser um clichê, e sim o fato de ser uma estrutura previsível, tediosa, sem imaginação. Começamos com ela jovem, determinada, antes da fama, acompanhamos sua escalada ao sucesso, ouvimos seus maiores hits, vemos seus dramas pessoais, sua decadência, e o filme termina em morte. É uma abordagem jornalística, não cinematográfica. Quando o filme termina, até o espectador mais casual se pergunta: E daí? Qual o sentido da história? Que mensagem levamos pra casa? Nenhuma. Fica uma sensação de vazio. O filme é apenas um belo registro da vida de Elis e uma forma de apresentá-la pras novas gerações. Nesse ponto, ele é bem sucedido (eu não gosto de MPB mas saí com uma impressão melhor da artista do que entrei; no filme do Tim Maia, por outro lado, eu saí com uma impressão pior do artista, sendo que gostava da música dele).

Elis / Brasil / 2016 / Hugo Prata

FILMES PARECIDOS: Tim Maia (2014) / Gonzaga - De Pai pra Filho (2012) / Cazuza - O Tempo Não Pára (2004)

NOTA: 6.5

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Pequeno Segredo

Já vi há algumas semanas o filme mas acabei não comentando pois estava ocupado (esse foi o filme que tirou Aquarius da disputa pelo Oscar de filme estrangeiro).

A produção tem alguns planos bonitos visualmente, tem certa autenticidade por não ter os vícios do cinema nacional, mas é problemática em termos de roteiro. Demoramos tempo demais (praticamente até o final) até entender a estrutura da família, o que fazem os protagonistas, qual o propósito da história, qual a relação entre os vários personagens e dramas que o filme apresenta, tornando tudo um pouco episódico, naturalista e sem direção - às vezes parece mais um álbum de luxo pra família Schurmann registrar suas recordações do que uma história escrita pra ser um filme e envolver o espectador.

As atuações são irregulares. Fionnula Flanagan faz um personagem desagradável e seu estilo caricato de interpretação não combina com o do resto do elenco. Por outro lado, a garotinha que faz a Kat (Mariana Goulart) é um achado e tem uma aura muito especial. Há um foco excessivo em temas pesados, deprimentes, como se o filme quisesse provar que tem profundidade, mas que acabam não funcionando; não tornam o filme mais profundo, apenas meio desagradável - o diretor parece mais em casa nos momentos em que o filme assume um tom mais "comercial de margarina".

Não acho um filme muito bom, mas é difícil não se emocionar nos momentos finais (fazia tempo que eu não voltava pra casa chorando no caminho!), ainda mais se tratando de um projeto tão pessoal pra família. Não acho que tenha grandes chances de ir pro Oscar, mas também não acho que Aquarius teria sido uma aposta muito mais inteligente.

-------------------

Pequeno Segredo / Brasil / 2016 / David Schürmann

FILMES PARECIDOS: Uma Prova de Amor (2009)

NOTA: 5.5

domingo, 27 de novembro de 2016

A Chegada

NOTAS DA SESSÃO:

- Bem fotografado, direção cheia de estilo. Há um toque de Romantismo Reprimido que me incomoda nessa coisa de pegar uma história de invasão alienígena, mas abordar tudo de uma maneira anti-blockbuster, como se o diretor tivesse querendo ganhar prestígio simplesmente pelo fato dele não ser estimulante, divertido, como os filmes do gênero costumam ser. Ainda assim a premissa é interessante, os diálogos têm certa sofisticação, a Amy Adams está bem, etc.

- Linda a imagem quando vemos a nave pela primeira vez.

- O filme impressiona mais pelo estilo da direção do que pelo conteúdo, pela história em si. O Denis Villeneuve tem uma tendência de dirigir todos os filmes da mesma forma, com o mesmo ritmo, independentemente do gênero e do que está acontecendo na tela. O filme parece sempre ligeiramente desconectado dos acontecimentos, contemplativo. Não dá pra saber exatamente se Villeneuve entende de cinema, de narrativa, ou se simplesmente descobriu um jeito de dirigir que soa sofisticado.

- As discussões do filme sobre linguagem são bem interessantes, parece que o roteirista pesquisou bastante o tema.

- Depois que os aliens começam a se comunicar, o filme perde um pouco o interesse. A protagonista fica sem um objetivo forte, só tem que continuar se comunicando com eles, descobrir o que eles querem. Mas não há uma grande expectativa em relação ao que vai acontecer. Não há muita ação, o mundo não parece estar em perigo, ela não parece ter grandes desejos ou coisas importantes em jogo. E intelectualmente, filosoficamente, politicamente, o filme não tem muito a dizer.

- Por que esse monte de lembranças da filha? Não parece ter nada a ver com a história. Sem falar que já se tornou um pouco clichê isso dos aliens no fim se envolverem em questões pessoais / familiares do protagonista ("viram só, não é um filme escapista tolo, ele fala de coisas 'humanas'!").

- Mal explicada essa cena da bomba! Eles quase mataram os protagonistas e depois as pessoas reagem como se nada de sério tivesse acontecido? Parece que só enfiaram essa cena no filme pra ter uma explosão no trailer e dar a impressão de que o filme não é muito parado.

- O diretor vai fazendo aquela coisa meio Christopher Nolan de tornar a narrativa meio confusa pra fazê-la soar inteligente. Não sabemos se a Amy Adams está acordada, sonhando, lembrando do passado, vendo o futuro... E no meio dessa névoa o filme vai parecendo mais sofisticado pra plateia.

- Não faz muito sentido essa ideia das pessoas passarem a ver o futuro simplesmente por usarem o cérebro de uma forma diferente ao aprender uma outra língua. Também não faz muito sentido a cena em que a Amy Adams descobre o que a esposa do chinês disse no leito de morte.

- No fim dá a impressão que o clímax da história é o fato da Amy Adams convencer o general chinês a não atacar. Mas a história não estava caminhando pra essa direção (na verdade ela nem tinha muito uma direção), então o final soa frustrante.

- Quer dizer que os aliens promoveram a paz mundial simplesmente porque a Amy Adams conseguiu ver o futuro e fazer um truque pra sensibilizar o general chinês? Isso não me parece algo que resolve os conflitos mundiais de maneira significativa. Aliás, esses conflitos com a china só começaram porque os aliens invadiram a Terra! Eles apenas trouxeram uma solução pro problema que eles mesmos criaram. E como será o mundo após o "presente" que eles deram pra humanidade? Vai todo mundo começar a prever o futuro? Isso será bom? Ainda existe livre-arbítrio? Por que os aliens precisarão da ajuda dos humanos em 3000 anos? A história simplesmente não é muito bem escrita.

- A ideia da filha é interessante no final, embora seja algo enfiado na trama só pra dar um senso falso de profundidade. Não é um elemento se integra bem ao resto da história.

------------------

CONCLUSÃO: Impacta pelo visual e pelo estilo de direção de Denis Villeneuve, mas não é tão inteligente ou profundo quanto tenta parecer.

Arrival / EUA / 2016 / Denis Villeneuve

FILMES PARECIDOS: Perdido em Marte (2015) / Interestelar (2014) / Looper: Assassinos do Futuro (2012)

NOTA: 5.5

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam

NOTAS DA SESSÃO:

- Confuso o começo. Mal sabemos quem é o personagem, o que ele busca, e já estamos num banco não sei por que, perseguindo um ornitorrinco irritante. O filme tenta descontrair quando a gente ainda nem sabe o que está acontecendo. Pra que servem esses bichos? Não deveríamos entender o contexto do filme antes de partirmos na aventura? Se o ornitorrinco consegue entrar pela fresta de um cofre e sair da mala trancada, como o protagonista pretende capturá-lo? Essas pessoas todas no banco estão vendo a magia? Os bruxos não deveriam ser um segredo? Acho chato que logo nas primeiras cenas já vemos um monte de magia acontecendo de forma gratuita - o filme não devia gastar isso à toa.

- O Kowalski é um personagem totalmente dispensável. Entra na história por acidente e só permanece pra ficar reagindo e se impressionando com as coisas que os bruxos fazem.

- Nenhum talento, senso de narrativa, linguagem cinematográfica. E a história é ruim, parece apenas uma desculpa pra autora apresentar suas novas ideias pra magias e criaturas.

- Essa sequência do rinoceronte no cio é um horror.

- O filme tem vários personagens e tramas paralelas que não se encaixam, parecem fazer parte de filmes diferentes. A história do senador filho do Jon Voight não parece fazer parte da história do Eddie Redmayne caçando animais perdidos, que não parece fazer parte da história do Colin Farrell e do garoto que sofre abusos da mãe, etc. Muito mal escrito.

- O objetivo do protagonista ao longo do filme é muito bobo, não há grandes conflitos, recompensas. Só quer capturar os bichos que perdeu por acidente numa cena banal no começo do filme. Daí no fim surge o tal do Obscurial e ele resolve salvar a cidade, mas isso não tinha nada a ver com o que ele estava fazendo antes, não é o clímax de um conflito que foi sendo desenvolvido ao longo do filme... É só algo jogado pra ter um final mais agitado... O clichê de ter uma batalha épica no meio da cidade onde prédios são destruídos, feixes de luz do bem se chocam contra feixes de luz do mal, psicologia barata se revela mais forte que qualquer arma... E nós ficamos vendo tudo sem ter a menor noção do que é possível acontecer, de quem é mais forte que quem, do que o herói pode fazer pra derrotar o monstro, quais as regras do jogo, etc.

- SPOILER: Colin Farrell vira o Johnny Depp???? Por que? Quem é essa pessoa? A plateia só vibra por que é um ator famoso fazendo uma participação especial, não porque foi uma reviravolta bem escrita.

- SPOILER: Odeio essa história deles apagarem a memória da cidade inteira pra ninguém saber da existência dos bruxos. É algo muito questionável eticamente. Vai todo mundo acordar sem saber o que houve nas últimas horas? Isso não será um escândalo nacional? Não resolve o problema. E isso deles reconstruírem a cidade num passe de mágica também é muito frustrante. Parece que tudo o que houve no filme foi irrelevante. Um jogo de videogame sem nenhuma consequência no mundo real.

- Química zero entre o protagonista e a Tina. Há algo a respeito do Eddie Redmayne que você não consegue imaginá-lo numa relação amorosa / sexual comum com uma mulher. Por isso ele ficou perfeito em A Garota Dinamarquesa e A Teoria de Tudo. Ele é melhor interpretando criaturas misteriosas, excêntricas, e não pessoas normais com as quais a plateia se identifica.

------------------

CONCLUSÃO: História ruim, direção ruim - o filme só parece ter certa relevância por ser caro e por estar associado à uma mega-franquia de sucesso.

Fantastic Beasts and Where to Find Them / Reino Unido, EUA / 2016 / David Yates

FILMES PARECIDOS: O Lar das Crianças Peculiares (2016) / Alice Através do Espelho (2016) / Harry Potter e as Relíquias da Morte (2010)

NOTA: 4.0

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Snowden: Herói ou Traidor

NOTAS DA SESSÃO:

- Joseph Gordon-Levitt está maravilhoso (mais uma vez). Consegue estar diferente do que ele é, falando com outra voz, mas ao mesmo tempo parecer totalmente natural. E claro que o personagem já me conquista nos primeiros minutos quando ele se diz fã da Ayn Rand (acho que é o primeiro filme que eu vejo onde ela é citada de maneira não-ambígua, sendo abertamente defendida pelo herói). Claro, não é só isso que torna o personagem atraente - ele é extremamente habilidoso, íntegro, e o filme consegue criar empatia sem dificuldades.

- Bem produzido, gosto da direção ágil de Oliver Stone, a maneira como o filme dá saltos ousados no tempo sem perder a linha de interesse e nem atropelar o enredo (há sempre a curiosidade de saber o que irá acontecer com ele depois que ele vazar as informações, e isso é reservado pro final).

- O tema é interessante (o debate "segurança vs. liberdade") e essa história de estarmos sendo espionados pelas webcams, celulares, é algo realmente assustador (coisa que também foi bem explorada recentemente em Black Mirror).

- Shailene Woodley está muito bem como a namorada e a relação dos dois é linda de ver apesar dos conflitos. Outra coisa que cria interessa na história é o fato dela não saber o que o Snowden faz, e isso estar sempre prestes a ser exposto.

- Gosto da cena em que o Snowden está sendo interrogado através do telão, e o rosto do cara fica gigante em comparação ao Snowden, passando visualmente a ideia de ameaça, intimidação (um diretor mais fraco teria filmado a cena como um diálogo comum, com os 2 personagens ocupando um tamanho igual na tela).

- SPOILER: Ótimo suspense na sequência em que ele rouba os dados do computador (o tempo da transferência, a ideia do chip cair no chão, ele se comunicando através de códigos com o amigo depois, o chip escondido no cubo mágico, passando pelo raio-X, etc).

- SPOILER: A fuga dele pra Rússia também é muito interessante e o final é satisfatório (só não teria colocado o Snowden real interpretando a última cena, ficou meio estranho).

------------------

CONCLUSÃO: Melhor filme do Oliver Stone em mais de 20 anos.

Snowden / França, Alemanha, EUA / 2016 / Oliver Stone


FILMES PARECIDOS: Spotlight: Segredos Revelados (2015) / A Travessia (2015) / O Jogo da Imitação (2014) / Jobs (2013)

NOTA: 8.0

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Black Mirror (Série de TV)

Depois de Stranger Things e Black Mirror meu preconceito contra as produções da Netflix diminuiu bastante - essa foi uma das séries de TV mais interessantes que vi até hoje, e apesar de alguns episódios mais fracos, nessas 3 primeiras temporadas ela conseguiu manter um nível surpreendentemente elevado de criatividade, inteligência, ousadia, surpresa, impacto emocional, superando inclusive a maioria dos filmes que vi esse ano. Claro, alguns episódios distorcem bastante a realidade pra poderem fazer suas projeções sombrias de futuro, mas muitos são realistas o suficiente pra fazerem o espectador pensar e servem inclusive como alerta pra todos nós. É basicamente um The Twilight Zone dos anos 2010, muito bem escrito, com premissas intrigantes, ideias originais, finais surpreendentes, o que é muito bem vindo. A maior crítica que eu teria a fazer é o que discuto na postagem Alerta Vermelho: em geral os alvos da série são a tecnologia, o capitalismo, coisas ligadas à cultura ocidental - ou melhor - essas coisas caso fossem empurradas descontroladamente pelo mau caminho. Não há nada de errado com as situações específicas que a série critica (ninguém quer viver num mundo de falsidades, sem privacidade, sem segurança, etc), mas como não há muito esforço da parte dos criadores em mostrar os aspectos positivos e não-assustadores da tecnologia, ou mesmo em retratar de que forma o outro lado também poderia estar errado e ir pelo "mau caminho" (o lado que quer destruir a tecnologia, o capitalismo, etc), a série pode acabar sendo vista como um argumento a favor do pensamento de esquerda, o que seria um erro. Ainda assim, palmas para Charlie Brooker que é o criador da série e pelo que vi escreveu todos os episódios. Um talento em extinção.

Alguns dos meus episódios favoritos:

S2, Ep 4: White Christmas
S3, Ep 1: Nosedive
S3, Ep 4: San Junipero
S3, Ep 6: Hated in the Nation

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Doutor Estranho

NOTAS DA SESSÃO:

- Meio desnecessária essa ideia da cidade toda se dobrar. Parece que os cineastas viram A Origem e acharam "cool" o efeito e resolveram enfiar aqui de algum jeito.

- Boa a cena da cirurgia, o nível de precisão do protagonista... Benedict Cumberbatch está ótimo como de costume.

- Interessante as coisas que ele começa a aprender com a Tilda Swinton sobre outras dimensões, etc (embora tudo lembre muito Matrix). Embora o papo seja místico, os diálogos têm mais objetividade que o de costume.

- Os efeitos especiais são ótimos (as viagens "psicodélicas" que ele tem provocadas pela Tilda Swinton). Os túneis lembram bastante Contato, 2001, etc.

- O humor do filme é na medida certa e em geral funciona (a piada da senha do Wi-Fi, etc).

- O filme tem uma estrutura diferente dos filmes de super-heróis. Já passou mais de 1 hora de filme e ele ainda nem se tornou o "Doutor Estranho". O filme foca mais no processo de transformação, na busca dele pela cura (um objetivo pessoal com o qual podemos nos identificar), e não numa missão rotineira de salvar a cidade, etc. E o treinamento é divertido (a cena em que a Tilda larga ele no Everest, ou o momento em que ele usa a capa pela primeira vez, etc).

- Algumas coisas são meio esquisitas na trama: essa história das pessoas se machucarem e daí terem que ir pro hospital pra serem operadas pela Rachel McAdams através de um método convencional (sendo que elas têm poderes incríveis). A ideia dos espíritos saindo do corpo e lutando também soa estranha e desnecessária pra história.

- A segunda parte do filme tem menos força. Depois que ele já se transformou no herói e o foco passa a ser a destruição do vilão (que é muito pouco marcante), o interesse diminui.

- SPOILER: O duelo final com o Dormammu também é péssimo. Não temos uma referência da força do vilão, qual o tamanho do obstáculo, etc. Essa história do Doutor Estranho manipular o tempo gera uma série de dúvidas, e além disso fica parecendo uma saída fácil. Nada que o herói faz com seus poderes mágicos parece mais impressionante em termos de habilidade do que a primeira cena do filme, por exemplo, onde ele extraiu a bala do cérebro do paciente. O perigo que a Terra está correndo também não é muito claro.

- SPOILER: O filme acaba e o herói continua com a mão machucada, sem atingir seu objetivo principal que era voltar a trabalhar. As coisas que aconteceram no primeiro ato e as expectativas criadas pelo filme parecem ter sido meio esquecidas (inclusive a personagem da Rachel McAdams), então o desfecho é um pouco insatisfatório.

------------------

CONCLUSÃO: Acima da média da Marvel em termos de narrativa, conteúdo, atuação, mas a história vai perdendo o interesse ao longo da narrativa.

Doctor Strange / EUA / 2016 / Scott Derrickson

FILMES PARECIDOS: Thor (2011) / Homem de Ferro (2008)

NOTA: 6.5

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Garota no Trem

NOTAS DA SESSÃO:

- O começo é promissor. Intrigante pelo menos. Emily sonhando no trem, depois a história mudar pro ponto de vista das outras mulheres, etc. Não é óbvio o rumo que a história irá tomar.

- Muitas vezes acho a Emily Blunt inadequada nos papéis que escolhe. Ela não convence como uma stalker alcoólatra desequilibrada. Fica parecendo uma atriz meio "sessão da tarde" tentando se esforçar pra entrar num papel mais complexo.

- Narrativa confusa. Há muitos flashbacks, datas, personagens secundários pouco relevantes, as 2 mulheres loiras se parecem muito uma com a outra, e tudo é misturado com elementos de alucinação.

- O problema do filme é que a protagonista não é gostável. Ela não chega a ser má, mas está longe de ser alguém admirável.. e em vez do filme retratá-la negativamente, ele tenta criar empatia por ela. Então ficamos naquela posição desagradável de termos que defender uma mulher frágil, confusa, que comete uma série de erros, age de forma irracional, etc. Não dá pra torcer por ela, se identificar com a obsessão que ela tem pela loira, esperar um romance com o cara, etc. E os outros personagens do filme também são negativos. A história é sobre um monte de gente desequilibrada fazendo burrice e sofrendo as consequências. E as caracterizações são superficiais, não chega a ser um estudo psicológico fascinante pra compensar.

- SPOILER: Forçada a ideia da mãe dormir na banheira com o bebê. É a cena mais chocante do filme, e qual a importância disso pra trama? Nenhuma. É algo enfiado ali pra tentar tornar o filme mais pesado. O grande deleite do autor parece ser o de mostrar como as pessoas podem ser perturbadas psicologicamente. Há certo prazer aqui em mostrar o ser humano como um saco de traumas, uma vítima de emoções "complexas", etc.

- Os persongens são desprezíveis. Em particular as mulheres. Parece que elas não pensam em nada na vida a não ser em conquistar homens, formar família e procriar. Estão dispostas até a matar por isso. Ninguém tem um mínimo senso de independência.

- A Emily Blunt nunca teria conseguido matar alguém estando bêbada do jeito que estava, desarmada, apenas com um golpe. É criado todo um mistério em cima disso, mas é algo muito improvável. E mesmo que ela tivesse matado a outra, não seria uma revelação tão chocante. Na cena em que a ela rouba o bebê da loira, já fica claro que ela é perturbada e capaz de fazer loucuras. E nós mal conhecemos os outros personagens pra nos importarmos por eles.

- SPOILER: Péssimo o ex-marido de uma hora pra outra ser o vilão. Ela nem suspeitava do caráter dele? Só porque vivia bêbada não percebeu direito que era casada com um completo monstro? Muito forçado o roteiro. O final vai ficando cada vez mais ridículo (a Emily ir até a casa do cara e chamá-lo de assassino, se colocando numa posição de extremo risco). Parece uma versão piorada de Garota Exemplar, que já era problemático. E o fato de surgir um vilão inquestionavelmente mau não inocenta a protagonista das coisas duvidosas que ela fez ao longo do filme. Ela não se torna a "mocinha" de uma hora pra outra.

- Por que a loira chamou o cara até o meio da floresta pra contar que estava grávida e ameaçá-lo? Estava implorando pra ser assassinada? É tudo forçado no filme. Inclusive a premissa da protagonista poder acompanhar a vida dos outros passando de trem em frente às casas.

- SPOILER: Ridícula a cena em que a Emily Blunt golpeia o ex e depois a mulher desce e finaliza o serviço. Sensacionalismo amador. Primeiro o filme retrata mulheres de forma deplorável, depois vilaniza os homens e vira a "revanche das oprimidas". O filme não consegue decidir se é misógino ou misândrico.

-------------------

CONCLUSÃO: Roteiro tolo e confuso tentando se passar por suspense de primeira linha.

The Girl on the Train / EUA / 2016 / Tate Taylor

FILMES PARECIDOS: Garota Exemplar (2014) / Reencontrando a Felicidade (2010)

NOTA: 4.0