domingo, 22 de maio de 2016

Nise - O Coração da Loucura

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme retrata os médicos de maneira caricata, irreal, como se fossem todos torturadores sádicos, pra que dessa forma Nise fique parecendo uma santa salvando os pacientes das mãos de pessoas monstruosas, e a metodologia dela fique parecendo positiva em comparação.

- Apesar da produção simples o filme é realizado de maneira competente. O elenco está bem, e os pacientes em particular são muito convincentes.

- Nise é gentil com os pacientes mas bastante grossa com os outros funcionários do hospital (me lembra o que falei recentemente no filme O Dono do Jogo, sobre o personagem usar seu poder numa certa área como motivo pra tratar mal os outros).

- Difícil se identificar com Nise, pois ela já é "completa" desde o começo - não tem nenhum conflito pessoal interessante, não sabemos suas motivações, não sabemos nada sobre sua vida, etc. Apenas chega pra ser a salvadora da pátria e mostrar que está todo mundo errado no hospital.

- Ela parece se importar pelos pacientes, mas será que essa estratégia dela está certa? Ela está tratando os pacientes como se fossem crianças: ensinando eles a jogarem bola, a mexerem com tinta, etc... Mas a mente de um esquizofrênico é muito diferente da de uma criança. Será que faz sentido esse tipo de lazer "mundano" pra eles? Será que a cirurgia não seria de fato uma opção melhor? O filme não explica direito quais os riscos da lobotomia, se ela tem consequências muito negativas, etc. Nise parece considerar errado o procedimento apenas por ser algo "agressivo", que fará os pacientes sofrerem por alguns momentos. Mas o que é melhor? Passar por isso e ficar melhor depois, ou viver a vida inteira num eterno estado de perturbação?

- O roteiro é meio arrastado. Fica apenas mostrando Nise cuidando dos loucos, levando eles pra brincarem na chuva, provando o quão altruísta ela é por se dedicar a esse trabalho... Mas falta um arco interessante pra história (mais pra frente melhora um pouco com a história dos pacientes fazerem sucesso com suas pinturas, etc).

- Ridículo!!!! O filme quer sugerir que, como os pacientes loucos são capazes de pintar quadros que lembram arte moderna (rabiscos, formas distorcidas, etc), que isso mostra que eles são artistas brilhantes!! Que têm um dom especial! Só que a arte moderna pra começo de conversa já é uma fraude! Pintar pode até ser algo positivo pro pacientes como terapia ocupacional, e os quadros podem ter grande utilidade pros médicos, mas daí a considerar os pacientes verdadeiros artistas e achar que a loucura deles no fundo é uma dádiva... é abominável. De que adianta conseguir rabiscar uma tela de maneira "artística" segundo críticos pretensiosos, se o autor não consegue funcionar no mundo real, ter uma vida saudável, etc?

- Alerta Vermelho: No fim é mais um filme brasileiro tentando fortalecer a narrativa da esquerda. É tudo sobre política. Os homens brancos "reacionários" são do mal, a razão é do mal, a ciência é do mal, a objetividade é do mal... tudo o que precisamos é de subjetividade e compaixão pelos mais fracos.

- Nise é monstruosa. Em nenhum momento ela diz algo de positivo em relação à razão, à felicidade, à saúde mental. Em vez de lutar por uma cura, ela parece admirar o estado de loucura dos pacientes, como se eles estivessem mais em contato com a natureza, como se o inconsciente fosse superior ao consciente e à razão, mais belo... Então ela acaba lutando pra perpetuar a doença deles.

- "Artista" na filosofia da esquerda não é aquele que realiza uma obra de grande beleza através de virtudes elevadas, e sim alguém que expõe suas fraquezas em uma obra, revela seu subconsciente, para que um crítico pseudo-intelectual possa analisar depois e se sentir superior.

CONCLUSÃO: Realizado com competência, porém com um conteúdo discutível moralmente e que serve principalmente pra propagar ideias de esquerda.

Brasil / 2016 / Roberto Berliner

FILMES PARECIDOS: As Sufragistas / Que Horas Ela Volta?

NOTA: 4.5

3 comentários:

Anônimo disse...

Pra descrição dada ao filme, a nota final ficou até muito alta. É mesmo comum na esquerda uma tendência para romantizar a loucura e até mesmo crime como coisas 'anti-sistema'.
A lobotomia é uma questão polêmica. O português Egas Moniz tinha concebido essa cirurgia para loucos violentos, mas em meados ela foi banalizada por médicos que a realizavam sem muito critério em pessoas que não tinham transtornos mentais graves, e que acabaram inutilizadas.
Olhei na internet e vi uma notícia de que americanos que tiveram na família casos de pessoas incapacitadas por lobotomias querem cassar o prêmio Nobel de medicina concedido em 1949 a Egas Moniz, o único nobel português além do Saramago.
Pedro.

Anônimo disse...

No comentário anterior quis dizer "em meados do séc. XX".

Caio Amaral disse...

Em termos cinematográficos não achei o filme péssimo.. é meio que nem falei de Trumbo, ou As Sufragistas.. apesar de rejeitar o conteúdo político, não achei o filme em si totalmente descartável..
A questão da lobotomia realmente é mal explicada.. pq fica a impressão de que poderia até ser uma solução boa pros pacientes.. e que a Nise não queria simplesmente pq era uma cirurgia muito invasiva.. e que poderia tirar a 'inspiração' artística deles.. abs!!