sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Passageiros

NOTAS DA SESSÃO:

- Não é uma nave muito original (lembra coisas de Alien, 2001 e outros filmes), mas é um ambiente atraente visualmente.

- Embora o Chris Pratt fique muito tempo sozinho, o filme não fica entediante pois sabemos que a Jennifer Lawrence irá aparecer e queremos descobrir por que ele foram acordados antes dos outros (algo já antecipado pelo trailer).

- Estranho quando ele sai da nave e chora olhando pro espaço a lágrima escorrer pra baixo como se tivesse gravidade.

- O filme tem um tom um pouco tolo, como se fosse apenas uma desculpa pra colocar um casal pop no espaço, e não um filme que se leva a sério enquanto ficção-científica. Não faz muito sentido ele não poder voltar a hibernar (até porque já vimos muitos filmes com câmaras de hibernação idênticas a essas, e sempre é possível voltar a dormir - só aqui que não dá, pois se desse a história não iria existir). Faltou uma desculpa mais convincente. Outra coisa: se a nave passaria um século vazia, e as pessoas só acordariam pouco antes da chegada, por que ela seria construída como um cruzeiro de luxo, cheia de opções de entretenimento, bartenders robôs que ficam funcionando o tempo todo, alertas que avisam os passageiros quando estão passando por algum astro bonito, etc?

- SPOILER: Muito questionável o Chris Pratt acordar a Jennifer Lawrence! Parece um conflito de um filme mais sério, sombrio, com personagens ambíguos moralmente, e não de um romance água-com-açúcar. Pelo menos isso cria mais um interesse pra trama (queremos saber se ela irá descobrir a mentira e como irá reagir).

- O romance não é empolgante. É tudo muito óbvio e fácil. Eles são as 2 últimas pessoas do mundo, são lindos, solteiros, saudáveis, compatíveis em todos os aspectos, não têm concorrência de outras pessoas, não têm grandes conflitos. E é uma relação meio superficial. Não sentimos que há uma conexão única entre eles. Principalmente da Jennifer Lawrence em relação ao Chris Pratt. Ela foi escolhida por ele (praticamente 'colhida' numa plantação), mas por que ele é o cara ideal pra ela também? Depois que ela descobre que foi acordada e os dois brigam, eles fazem as pazes de maneira meio fácil.

- Não faz sentido ele danificar o piso da nave pra plantar uma árvore! Ele cavou um buraco enorme e encheu de terra? De onde ele tirou essa árvore adulta? A nave não está numa viagem de 1 século sem ninguém acordado? Também não faz sentido a gravidade "parar de funcionar" de um segundo pro outro, afinal ela é gerada através da força centrífuga pelo fato da nave estar rodando, não seria assim que aconteceria (são detalhes como esse que vão se somando e dando um clima tolo pro filme, como se tudo fosse apenas uma desculpa pra mostrar o casal sexy).

- SPOILER: O roteiro explora muito mal os personagens. Só tem 4 personagens o filme inteiro, e 2 deles parecem totalmente inúteis: o robô, e o Laurence Fishburne, que mal aparece e já morre sem muita explicação.

- Por que tudo na nave começaria a quebrar? Coisas que não têm a menor conexão: os robôs da limpeza, a gravidade, etc? Se a situação é tão catastrófica assim, não seria esperado que muitas das câmaras de hibernação também quebrariam? Uma nave nesse estado será que irá funcionar por mais 90 anos? Os buracos provocados pelos meteoritos não acabariam com o oxigênio? Um mecânico que não entende nada sobre a nave irá conseguir consertá-la sozinho? Se ele for tão genial a ponto de fazer isso, não faria sentido ele conseguir dar um jeito de voltar a hibernar também? O roteiro é muito "nas coxas".

- Me incomoda a atitude romântica dos dois, como se fosse Jack e Rose no Titanic. Não há suporte o suficiente nessa relação pra justificar essa atitude de "amor perfeito". O cara praticamente acabou com a vida dela só pra ele ter com quem fazer sexo. Muita coisa teria que ter acontecido depois até a gente acreditar nessa poesia toda.

- SPOILER: Forçados os "sacrifícios" no final: ele ter que quase morrer pra salvar a nave, ela resolver abandonar todo seu futuro, sua carreira, seus planos, pra ficar com ele na nave fazendo nada.

- SPOILER: O trailer dizia que eles tinham sido acordados por uma razão, mas isso foi uma mentira pra intrigar os espectadores! No fim parece ter sido apenas um acidente aleatório, que por sorte acabou salvando a vida de todos (afinal o herói consertou a nave milagrosamente).

- De onde surgiram todas essas plantas no final? Tem até galinha na nave! É como se fosse pra ser uma evolução natural da árvore que ele plantou (o que é um absurdo), mas obviamente isso só pode ter vindo de uma outra parte da nave onde já haviam todas essas coisas vivas (o que também é um absurdo - as galinhas não deviam estar hibernando também? Rs).

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CONCLUSÃO: O filme tem um senso benevolente de entretenimento, mas falta o cérebro pra fazer a coisa toda funcionar direito.

Passengers / EUA / 2016 / Morten Tyldum

FILMES PARECIDOS: Gravidade (2013) / Oblivion (2013) / Poseidon (2006) / Armageddon (1998)

NOTA: 6.0

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

É Apenas o Fim do Mundo

NOTAS DA SESSÃO:

- Intrigante a primeira cena onde o protagonista anuncia que irá se matar. Há algo de atraente e misterioso nele.

- Estilo acima de conteúdo: quando ele chega na casa da família, as pessoas todas se comportam de maneira excêntrica sem nenhuma explicação ou contexto. O Louis e a Marion Cotillard ficam se encarando por minutos sem motivo, o Vincent Cassel fica reclamando de tudo de maneira forçada, há pausas bizarras no meio dos diálogos. Isso tudo é apenas pra dar um clima "cult" pro filme.

- Por que ele quer se matar? Por que ele ficou tanto tempo afastado da família? Por que ele se tornou famoso? O filme não desenvolve essas questões importantes e fica apenas focando em conversas banais sobre nada. O protagonista é distante, suas motivações são obscuras, o público não sabe o que se passa em sua mente (Naturalismo).

- Horrível essa cena com a música original da "Festa no Apê". O que tem a ver colocar uma música pop animada numa história como essa? É apenas uma "marca registrada" do diretor (Xavier Dolan já fez coisas do tipo em seus outros filmes) colocada de qualquer jeito pros críticos se sentirem inteligentes, mas que nada tem a ver com o resto do filme.

-Por que a premissa dramática de anunciar que o protagonista irá se matar, se o filme inteiro é sobre diálogos tediosos, momentos comuns do cotidiano? Dá a impressão que é apenas algo que foi dito no começo pra prender a atenção do espectador desonestamente - tipo esses programas de TV que ficam enrolando o espectador por horas sem nenhum conteúdo, sob o pretexto de que alguma revelação dramática será feita no último bloco.

- O personagem é pretensioso. A família fica o tempo todo bajulando ele como se fosse o messias, enquanto pra plateia ele parece apenas um garoto que ficou famoso recentemente sem muita explicação. Nada que ele faz na prática parece justificar essa pompa toda.

- O filme é uma fraude. Não é sobre nada, não mostra nada de valor em termos de cinema. É apenas uma série de cenas sem sentido, diálogos nonsense (pegue por exemplo a sequência em que o protagonista e o Vincent Cassel saem pra andar de carro e ficam horas falando sobre o café do aeroporto!), só que como o protagonista fica sempre com uma expressão triste, melancólica, desconectada, dá a impressão que o filme é "profundo" por algum motivo.

- Desintegração: Em alguns momentos a câmera faz movimentos chamativos, a trilha sonora fica dramática, tudo sem nenhum motivo (exceto os impulsos subjetivos do cineasta, claro).

- Qual o sentido dessa briga no final sobre quem irá levar o Louis ao aeroporto? Por que o Antoine está expulsando ele da casa com tanta brutalidade? E esse pássaro no fim? O filme parece obra de um adolescente pretensioso tentando imitar filmes de "arte", sendo que a única observação que ele fez a respeito de tais filmes é de que eles são "estranhos", "melancólicos" e "difíceis de entender".

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CONCLUSÃO: Besteirol subjetivista.

Juste la Fin du Monde / Canadá, França / 2016 / Xavier Dolan

FILMES PARECIDOS: Amor Pleno (2012)

NOTA: 1.5

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Capitão Fantástico

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme prende a atenção afinal é uma situação extrema, queremos entender por que essa família vive de maneira tão selvagem no meio da floresta.

- Alerta Vermelho (anti-capitalismo). Esse pai é totalmente irracional por fazer isso com os filhos. E o problema é que o filme o retrata positivamente. Não há nenhuma coerência no fato dele condenar o "consumismo", ir morar na selva, mas daí na hora do aperto (quando precisa de hospital, comida) pegar o carro e ir usufruir das maravilhas do capitalismo.

- Alguns elementos na maneira como ele cria os filhos são interessantes, como o realismo, a honestidade na hora de abordar temas sérios (embora em muitos momentos ele passe do ponto, esquecendo que crianças não têm contexto psicológico pra absorver certas coisas). Mas em geral ele é um pai irresponsável, desagradável, insensível, que está arruinando a vida dos filhos.

- Um absurdo eles roubarem comida do mercado e ainda acharem que estão fazendo algo moralmente defensável.

- A história é um pouco Naturalista, sem uma narrativa muito linear, mas não entedia pois está sempre acontecendo algo diferente e inesperado na tela.

- O filme tem consciência de que o personagem do Viggo Mortensen é questionável moralmente. Não fica apoiando cegamente o personagem - sempre faz questão de mostrar o ponto de vista dos filhos, que às vezes estão contra o pai, ou então de mostrar os argumentos dos outros parentes que acham ele é um louco. E faz isso honestamente, como se estivesse considerando os 2 lados do debate friamente, sem tomar partido. Mas fica sempre a sensação de que o filme quer que a gente simpatize pelo Viggo Mortensen, apesar de tudo que ele faz (da mesma forma que a menina diz que simpatiza pelo protagonista de Lolita apesar dele ser um pedófilo). Eu acho que são 2 casos bem diferentes - que Lolita (julgando pelo filme) retrata o personagem de forma apropriada, e este aqui não.

- O filme se baseia numa falsa dicotomia: é como se a vida fosse uma escolha entre se vender pro sistema e ter uma vida alienada e sem liberdade, ou então romper com toda a civilização, voltar pra selva, e daí ter uma vida digna. Se só existissem essas 2 opções, talvez eu preferisse mesmo ir pra selva. Mas é uma discussão tola, incompleta.

- Ridículo o Viggo Mortensen achar que a filha dele de 7 anos é mais bem informada que os meninos "civilizados" pois ele a forçou a decorar a Declaração dos Direitos dos EUA. No que isso a torna mais bem equipada pra viver do que eles?

- Péssimo o comportamento do pai no funeral da esposa. O filme é basicamente sobre um homem fazendo uma série de coisas erradas, mas querendo que a gente o ache tudo "cool", afinal ele é hippie, de esquerda, se veste de maneira estilosa, então merece o respeito automático da plateia.

- SPOILER: Em certo ponto (quando o Frank Langella consegue levar os netos pra morar com ele), o filme quase convence de que o pai sairá derrotado da história. Que a intenção do filme não era defendê-lo, mas mostrar que ele estava fazendo mal pros filhos. Mas daí há uma reviravolta e fica claro que isso tinha sido apenas pra criar um suspense - que o filme estava defendendo o pai o tempo todo.

- SPOILER: Horrível os filhos jogando as cinzas da mãe na privada e dando risada. Isso não passa a impressão de que as crianças são mais maduras, "livres" dos costumes superficiais da sociedade, e sim que elas são delinquentes.

- Com que dinheiro o filho mais velho vai viajar pro exterior? Com o do avô? E o pai aceita numa boa? Isso mostra o quão "íntegro" ele é.

- SPOILER: Não sei por que o Viggo Mortensen faz a barba, o outro raspa o cabelo. Não ficamos com a impressão de que eles se transformaram essencialmente. Eles simplesmente passaram por um momento difícil, tiveram seus valores questionados, mas no fim voltaram a ser mais ou menos como eram. Com algumas mudanças superficiais. O filme fica em cima do muro - não quer dizer que o pai está certo, nem errado, que ele teve que mudar sua filosofia, nem que continuou fiel à ela. É tudo meio cinza e vago.

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CONCLUSÃO: Filme bem realizado, interessante, autêntico, mas com uma discussão problemática e errada moralmente.

Captain Fantastic / EUA / 2016 / Matt Ross

FILMES PARECIDOS: Moonrise Kingdom (2012) / Na Natureza Selvagem (2007) / Pequena Miss Sunshine (2006)

NOTA: 6.0

domingo, 25 de dezembro de 2016

Minha Mãe É uma Peça 2

Basicamente tem as mesmas qualidades e problemas do primeiro filme. Paulo Gustavo criou um personagem genial, e em termos de humor, frases hilárias da Dona Hermínia, etc, o filme é tão bom quanto o primeiro. Infelizmente o resto do filme (roteiro, direção) não está à altura da personagem, e o filme depende completamente do carisma de Paulo Gustavo e de suas falas pra funcionar.

A história é umas série de sketches sem muito senso de unidade - a história da Dona Hermínia ser uma apresentadora de TV parece não combinar em nada com a parte do filme em que ela é apenas uma dona de casa, sub-tramas parecem ser inseridas sem ter qualquer relação com o resto da história (a visita da irmã, a doença, a tia que morre, etc). Ainda assim, em comédias desse estilo o principal são as risadas, e nesse ponto o filme não decepciona.



Minha Mãe É uma Peça 2 / Brasil / 2016 / César Rodrigues

FILMES PARECIDOS: Minha Mãe É uma Peça - O Filme (2012) / De Pernas pro Ar (2010)

NOTA: 6.5

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Sing: Quem Canta Seus Males Espanta

NOTAS DA SESSÃO:

- Herói Envergonhado: os personagens são todos comuns, losers, não há um protagonista forte. O produtor (coala) não é um personagem interessante ou carismático pelo qual a gente torce.

- Competições de canto na vida real já são um pouco deprimentes, pois sabemos que ninguém que sai dali vira de fato um astro. Um filme sobre uma competição de canto consegue ser ainda menos interessante.

- O coala claramente não tem paixão pelo entretenimento, por performance, por música. Só está pensando em ganhar dinheiro com esse show (todos os espetáculos que ele tentou fazer antes foram um fracasso, pois ele provavelmente não tem talento, então agora ele resolveu apelar pra reality shows e coisas mais clichês apenas pra lucrar). Esse personagem é a representação perfeita do que eu penso sobre produtores de filmes como Sing. O filme não é de fato sobre canto. Ele é muito mais sobre como levantar dinheiro sendo desonesto, inescrupuloso, não tendo valores.

- É uma competição tediosa, você não torce por ninguém (é óbvio que a elefanta vai ser a grande revelação no final, simplesmente por ela ser a que tem menos autoestima). Nenhum dos participantes é admirável. Ou são losers completamente inseguros, ou então são desses que são excessivamente metidos, se acham, e a autoconfiança deles é retratada de forma cômica, como se eles fossem "sem-noção" (me pergunto também por que todos os personagens são feios, se os animadores podiam desenha-los como quisessem). Os dramas naturalistas que eles vivem fora da competição pouco vão interessar o público mais jovem (a mãe de família que não é valorizada pelo marido, etc).

- Mentalidade clichê. O filme todo é feito ao redor de clichês, de cenas clichê.

- O macaco e a família são claramente criminosos e o filme não condena isso. O ratinho também é desonesto e o filme quer que a gente simpatize por ele.

- Assim como o produtor, os cantores também parecem muito mais preocupados com o dinheiro que vão ganhar na competição do que com as próprias carreiras, com a música. Se você for pensar, na maioria dos casos a história é uma competição por dinheiro onde o entretenimento é apenas uma ferramenta, um meio de se chegar a ele (assim como o próprio filme Sing). O filme tem muitos conflitos relacionados a dinheiro (Será que o produtor conseguirá patrocínio da madame? Será que ele perderá o imóvel pro banco? Será que ele será processado por fraude?) e muito pouco se discute das ambições pessoais dos personagens.

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CONCLUSÃO: Mais uma produção sem alma feita pra ganhar dinheiro em cima da inocência do público infantil.

Sing / EUA, Reino Unido / 2016 / Christophe Lourdelet, Garth Jennings

FILMES PARECIDOS: Pets: A Vida Secreta dos Bichos (2016) / A Era do Gelo: O Big Bang (2016) / Zootopia (2016) / Minions (2015)

NOTA: 3.5

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Neruda

NOTAS DA SESSÃO:

- Estilo acima de conteúdo: o filme cria um tom excêntrico, cortes absurdos, uma atitude cínica em relação aos personagens, mas nada disso tem justificativa (a história e os personagens em si não são cômicos). É só o diretor tentando dar uma cara "cool" pra produção. O filme zomba dos 2 protagonistas: tanto Neruda quanto o policial parecem ridículos. O filme não está do lado de um, nem de outro, e também não explica por que devemos despreza-los ou por que esse conflito é relevante. Apenas fica mostrando 2 personagens superficiais, mal escritos, um contra o outro. Se o próprio diretor não admira os personagens em algum nível, qual minha motivação pra acompanhar o filme? Curiosidade histórica?

- E o filme é vazio intelectualmente. Ele pega um tema cheio de carga política, mas não se posiciona em relação a nada, não discute as ideias claramente, não explica qual a essência do conflito no país, qual o erro dos personagens, então nem por esse ângulo intelectual ele é interessante.

- A fotografia é feia (essa cópia em particular está sem nenhuma nitidez), a correção de cor é de mau gosto, não há um senso de composição, há quebras estranhas de eixo, etc.

- Como "perseguição" o filme também é péssimo. Quando estamos do ponto de vista do policial, não há suspense, uma evolução interessante, pistas pra ele ir seguindo pra capturar o Neruda, etc. Nem sabemos como ele chega em certos lugares.

- O filme só tem um mínimo interesse por, supostamente, ser uma história verídica, porém da metade pra frente, tudo começa a virar obviamente uma fantasia. Já não sabemos se o policial existe, se é uma criação do Neruda, se é tudo uma "metáfora". Então nem como curiosidade histórica o filme serve mais.

- A narração do policial é ruim, pretensiosa, cheia de frases nonsense que tentam criar profundidade pelo simples fato de serem incoerentes.

- Final péssimo, vazio. O cineasta parece não ter certeza do que está fazendo, do que quer dizer pra plateia. Então torna tudo vago, "simbólico", e deixa o espectador confuso com a sensação (equivocada) de que o filme está tratando de temas importantes, e que ele que não entendeu direito.

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CONCLUSÃO: Desinteressante, vazio e pretensioso.

Neruda / Chile, Argentina, França, Espanha, EUA / 2016 / Pablo Larraín

FILMES PARECIDOS: O Clã (2015) / Chatô - O Rei do Brasil (2015) / Getúlio (2014)

NOTA: 1.5

sábado, 17 de dezembro de 2016

Sully: O Herói do Rio Hudson

NOTAS DA SESSÃO:

- A história é muito parecida com a de O Voo (2012), o que dá um senso de déjà-vu.

- Não é uma performance muito dinâmica, chamativa, mas Tom Hanks está bem e o personagem é respeitável.

- A narrativa é um pouco frouxa. Pensei que o filme fosse focar no conflito entre o piloto e a seguradora, cada lado tentando provar seu argumento, mas o filme não segue tanto essa linha. Não ficamos realmente preocupados que o Sully possa ser responsabilizado pelo acidente. E como o maior evento da história já aconteceu (a queda do avião, que é apenas mostrada em flashbacks), não há muito o que aguardar da história. Só assistimos o filme com certa curiosidade pois queremos assistir o acidente completo do começo ao fim (o filme não mostra tudo de cara logo no primeiro flashback, vai reservando algumas coisas pra mostrar mais pra frente).

- Bonito o momento quando Sully recebe a informação de que todos os 155 passageiros sobreviveram.

- O filme não faz uma abordagem interessante da história. Apenas registra o óbvio. Quando entramos na sala, já sabemos que o avião pousou no rio e que todo mundo sobreviveu. Daí quando vamos ver o filme, e o que acontece é apenas isso! O avião cai no rio e todos sobrevivem! Não há uma boa história além disso, o que deixa o filme com cara de uma reportagem de luxo (por exemplo: Titanic não é apenas sobre um navio afundando, tem o romance, o drama familiar, o conflito de classes, os pesquisadores em busca do colar, etc, etc).

- SPOILER: A única tentativa de se desenvolver uma trama aqui é o lance da seguradora querendo culpar o Sully pelo pouso no rio. Mas isso é resolvido de maneira muito simples. Bastou ele argumentar que levariam 35 segundos a mais na simulação pra fazer o retorno pra ficar claro que não teria dado tempo de chegar ao aeroporto. Não é uma sacada surpreendente, uma reviravolta satisfatória após um grande embate, etc. É até meio forçada a maneira como o filme tenta vilanizar os caras da seguradora, só pra depois provar na frente de todos que eles estavam errados. Não foi um conflito bem desenvolvido.

- Eles repetem a cena da queda muitas vezes! A última já parece desnecessária. Já vimos o avião caindo por diversos pontos de vista. O filme usa esses flashbacks do acidente pra tentar gerar mais clímax e acordar a plateia (pois a história em si é meio fraca), mas fica parecendo mais uma encheção de linguiça.

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CONCLUSÃO: Produção decente, mas o material não é forte o bastante pra sustentar um bom filme.

Sully / EUA / 2016 / Clint Eastwood

FILMES PARECIDOS: Ponte dos Espiões (2015) / A Travessia (2015) / Capitão Phillips (2013) / O Voo (2012) / As Torres Gêmeas (2006)

NOTA: 6.0

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Rogue One: Uma História Star Wars


NOTAS DA SESSÃO:

- Começo um pouco parecido demais com o Guerra nas Estrelas original (a heroína está tranquila em casa, daí chega o Império e de repente ela se torna órfã - ou praticamente - e no futuro vira uma rebelde).

- A história é acompanhável, mas é muito burocrática, desinteressante, o foco todo é em táticas de guerra. Me sinto muito mais vendo filmes como Syriana ou algo da série Bourne do que Star Wars, que costumava valorizar o escapismo, a diversão.

- Divertido o robô que não tem "filtro" pra falar, embora seja apenas uma variação do C-3PO.

- Visualmente a produção é bonita; gosto das locações, dos efeitos meio retrô pra ser fiel aos originais (O Despertar da Força já tinha acertado nisso).

- Boa parte do motivo da história soar burocrática é que a personagem principal é fraca, impessoal, não tem conflitos interessantes, é meio fria, só pensa na missão, não desenvolve relações interessantes com ninguém (mais ou menos como a Daisy Ridley no último). Nos antigos, os heróis tinham espírito de príncipes, princesas, eram personagens divertidos, agora, os heróis têm espírito de revolucionários, ativistas ("a feminista e os amigos multiculturais contra o homem branco opressor!").

- Os personagens coadjuvantes e a trilha sonora tentam dar um tom mais leve pra história, alívio cômico, mas não funciona pois a essência do filme não é divertida - a história e os protagonistas.

- As relações em geral são conflituosas, pouco atraentes (o Diego Luna tem caráter duvidoso, o Forest Whitaker às vezes parece mais vilão do que mocinho, o robô e a Jyn não se entendem direito, etc).

- SPOILER: Chatíssimo o pai da Jyn morrer logo que os dois se reencontram depois de tantos anos! É uma morte banal, uma cena esquecível, não pareceu necessária.

- Não é porque o Diego Luna resolveu ajudar a Jyn que de uma hora pra outra ele é um cara do bem. Os dois fizeram as pazes, porém já vimos desde o começo que ele é um assassino, capaz de trair qualquer um em nome da rebelião.

- Embora exista uma trama, um passo a passo pra ser acompanhado, isso não basta pra envolver a plateia, pra ser uma narrativa legítima. Pra interessar, a trama tem que ser construída em cima de valores que sejam interessantes pro espectador, em cima das expectativas que ele tem em relação à história. Não basta inventar qualquer sequência lógica de ações: "invadir o prédio", "roubar os planos da Estrela da Morte", "conseguir um sinal", "enviar uma mensagem pra Aliança", etc. Isso é uma chatice.

- Resumindo de maneira tosca, a heroína só precisa roubar um pen drive e mandar um e-mail pra cumprir a missão. Fim. Só que daí, pra tornar a coisa um pouco menos chata, eles colocam o "pen drive" à beira de um precipício, e a antena pra transmitir o "e-mail" no alto de uma torre de onde a mocinha pode despencar... daí fica menos parado. E intercalando com isso, o filme corta pra naves no espaço onde rebeldes anônimos estão lutando contra inimigos desconhecidos, assim parece que é tudo uma grande cena de ação, quando na essência é apenas alguém mandando um e-mail.

- SPOILERS: Forest Whitaker escolhe morrer sem nenhuma explicação. Depois o robô também escolhe se sacrificar pela causa e morre. O cego também morre. O piloto morre de forma banal. O cabeludo também. O pai da mocinha também. Parece Game of Thrones... O roteirista não sabe o que fazer, então inventa uma morte de tempos em tempos criar certo drama. Mas nenhuma dessas mortes tem qualquer impacto emocional.

- É interessante a ideia da Estrela da Morte ter sido construída pelo pai da Jyn (alguém que criou um ponto fraco nela de propósito); isso explica por que foi tão fácil destrui-la em Uma Nova Esperança. Por outro lado, se o Darth Vader e todo mundo do Império está sabendo que a Estrela tem um ponto fraco, eles não mandariam corrigir isso rapidamente? Apenas o pai da Jyn tinha inteligência pra programar a Estrela da Morte?

- As 2 aparições do Darth Vader parecem forçadas, mais pra agradar os fãs - não são cenas que estão bem integradas à história. Por que no final ele iria pessoalmente tentar recuperar o "pen drive", sem nenhuma ajuda? É como se ele precisasse ser o grande vilão do filme de qualquer jeito, só por ser mais famoso, mesmo que nessa história em particular ele não tenha nem cruzado o caminho da protagonista.

- SPOILER: Divertida a aparição da Leia no final (O Despertar da Força abusou muito desse truque de mostrar elementos nostálgicos pra arrancar aplausos da plateia - esse aqui soube dosar melhor).

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CONCLUSÃO: Bem produzido, mas a história é chata e não tem o espírito que fez da série um fenômeno.

Rogue One / EUA / 2016 / Gareth Edwards

FILMES PARECIDOS: Star Trek: Sem Fronteiras (2016) / Star Wars: O Despertar da Força (2015) / Jogos Vorazes (2012)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Melhores de 2016

Já começou a temporada de prêmios, então vou deixar aqui uma lista aberta dos meus favoritos de 2016 (em geral filmes que dei notas de 7.5 pra cima). Até Março vão estrear mais dezenas de "premiáveis" que são de 2016 mas que só estreiam no Brasil em 2017 (ou seja, estou considerando o ano de lançamento no país de origem, não o lançamento no Brasil, até por isso não vão entrar aqui filmes como Spotlight, O Quarto de Jack, etc); conforme novos filmes forem sendo lançados, vou aumentando a lista, que só deve ficar completa lá pra Março.

Melhores Filmes (ordem alfabética):

Aliados - 8.0
Animais Noturnos - 7.5
Caça-Fantasmas - 8.5
Café Society - 7.5
O Contador - 7.8
Elle - 7.5
Estrelas Além do Tempo - 8.0
Florence: Quem É Essa Mulher? - 8.0
Lion: Uma Jornada Para Casa - 8.0
Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo - 7.8
Manchester À Beira-Mar - 8.5
Mogli: O Menino Lobo - 7.5
Mulheres do Século 20 - 8.0
Sing Street - 7.5
Snowden: Herói ou Traidor - 8.0
Toni Erdmann - 9.0

Melhores Atores:

Caça-Fantasmas (conjunto): Melissa McCarthy / Kristen Wiig / Kate McKinnon / Leslie Jones / Chris Hemsworth
Casey Affleck (Manchester À Beira-Mar)
Estrelas Além do Tempo (conjunto): Taraji P. Henson / Octavia Spencer
Isabelle Huppert (Elle)
José Loreto (Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo)
Joseph Gordon-Levitt (Snowden: Herói ou Traidor)
Meryl Streep (Florence: Quem É Essa Mulher?)
Sonia Braga (Aquarius)
Toni Erdmann: Peter Simonischek / Sandra Hüller
Um Limite Entre Nós: Denzel Washington / Viola Davis

Não sigo muito as séries de TV, mas esse ano preciso fazer uma menção honrosa pra 2 delas que na minha opinião estão à altura dos melhores filmes lançados: Stranger Things (1ª temporada) e Black Mirror (3ª temporada, com destaque também pra performance de Bryce Dallas Howard no episódio Nosedive).

sábado, 10 de dezembro de 2016

Jack Reacher: Sem Retorno

NOTAS DA SESSÃO:

- Fraca a primeira cena. O xerife não estava mal intencionado, apenas usou o senso comum e achou que o Tom Cruise era o agressor. Ele não é um vilão, então não é um grande prazer ver o Tom Cruise virar o jogo e humilhá-lo. Nem sabemos direito por que Cruise bateu nessas pessoas. O filme quer apenas dizer pra plateia: "vejam como Jack Reacher é f***", mas não criou cena inteligente pra ilustrar isso.

- O personagem não é muito carismático. Ele é invulnerável, sem conflitos, não tem um lado humano, está certo o tempo todo, tem habilidades impossíveis, está sempre rodeado de pessoas estúpidas, não tem relações atraentes com outros personagens, e o grande prazer dele é derrotar todo mundo, dar porrada, provar que estão todos errados, que ele é um semi-deus e por isso está acima da ética, da lei, pode roubar carros, agredir os outros que está tudo certo (pra um defensor da Cientologia, dá pra entender por que esse tipo de coisa soa atraente).

- Cenas de ação genéricas, esquecíveis, não muito espetaculares (como costumam ser nos filmes de Cruise). O filme todo tem um tom ultrapassado. Ele quer ser atual, mas suas referências são de filmes ruins dos anos 90.

- Péssima a história de quererem raptar a filha dele. Reacher nem sabia que tinha uma filha. Por que todo esse senso de responsabilidade agora? A personagem da filha é detestável e toda essa aproximação entre os dois é pavorosa, um clichê atrás do outro (ele demonstrando interesse pela "arte" dela, etc).

- FUI EMBORA NO MEIO DA SESSÃO

Jack Reacher: Never Go Back / China, EUA / 2016 / Edward Zwick

FILMES PARECIDOS: De Volta ao Jogo (2014) / Operação Sombra - Jack Ryan (2014) / Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer (2013) / Busca Implacável 2 (2012)

NOTA: 2.0 ~ 3.5

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Elle

NOTAS DA SESSÃO:

- Isabelle Huppert está ótima e a personagem é divertidíssima. A maneira como ela reage ao estupro, se relaciona com o filho - é tudo muito anti-convencional e de certa forma libertador. É engraçado ela ser uma mulher séria, sofisticada e ao mesmo tempo produzir video games vulgares, levando esse trabalho a sério (é meio como o diretor Paul Verhoeven, que dirigiu Showgirls, Tropas Estelares, mas parece ser um artista com mais peso que isso).

- O flashback mostrando a cena do estupro com mais detalhes é ótimo, chega a dar susto o cara na janela.

- Hilário ela indo comprar armas, depois batendo no carro pra fazer a baliza. O comportamento dela é sempre inesperado, beirando o absurdo. Só não parece ilógico porque há certa justificativa psicológica pra ela ser assim. Aos poucos vamos entendendo o passado da família dela, a história do pai, etc. Não é apenas o diretor fazendo bizarrices pra divertir a plateia. Ela sente que é uma pessoa má, culpada pelo que houve, portanto acha quase compreensível alguém violentá-la, a mulher jogar a bandeja em cima dela, etc.

- O filme não tem uma narrativa forte (é mais focado em caracterização), mas tem mistério o suficiente pra deixar a gente interessado na história (queremos saber quem é o estuprador, se é alguém do trabalho, quais segredos ela guarda, etc). Sem falar que o filme é uma cena inesperada após a outra, como a história do bebê negro, o acidente de carro, etc. Não é um filme naturalista monótono (como disse sobre Aquarius, onde haviam muitas cenas de rotina meio arrastadas).

- SPOILERS: O público conservador irá detestar, mas eu me divirto com o tom subversivo do filme, a desconstrução dos conceitos de família, maternidade, religião, tradição (o jantar de natal surreal, a mãe dela namorando o garoto de programa, a Isabelle Huppert se masturbando enquanto os vizinhos montam o presépio, etc).

- Ótima a cena quando ela conta pro vizinho a história completa de como ocorreram os assassinatos.

- SPOILERS: Depois que descobrimos quem é o estuprador a história perde um pouco o pique, pois não temos muito mais expectativas (até a relação dela com o pai que era outro ponto de interesse se perde pois ele se mata na prisão).

- SPOILER: Faz sentido o filho estar ali pra salvá-la quando ela está sendo atacada pela última vez? O final não é ruim, mas não há muito senso de conclusão, afinal a história era mais uma exploração do personagem do que um enredo estruturado. Mas a imagem final é forte e simbólica - ela e a amiga andando pelo cemitério descontraídas, planejando morar juntas (apesar de uma ter traído a outra recentemente). Ou seja, no meio de mortes, traições, relações destrutivas (visualmente representadas pelo cemitério), a protagonista segue em frente tranquila, pensando no futuro, sem se deixar abalar.

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CONCLUSÃO: Estudo de personagem interessante, divertidamente subversivo, com uma performance memorável de Isabelle Huppert.

Elle / França, Alemanha, Bélgica / 2016 / Paul Verhoeven

FILMES PARECIDOS: Aquarius (2016) / Mommy (2014) / Ninfomaníaca (2013) / Anticristo (2009) / Caché (2005) / A Professora de Piano (2001)

NOTA: 7.5

sábado, 3 de dezembro de 2016

Elis

Achei melhor não postar minhas anotações pois na primeira hora de filme eu fiquei basicamente reclamando da atriz, que estava achando forçada, antipática, sorrindo de forma inautêntica pra lembrar a Elis Regina - mas que até o final do filme conseguiu virar o jogo e me conquistar. Andréia Horta tem uma personalidade forte dessas que leva um tempo até a gente se acostumar (é a cara da Anitta), e além disso a personagem da Elis vai se tornando mais humana ao longo da narrativa, menos caricata como na primeira parte, ajudando nessa questão da empatia. É uma performance memorável. Visualmente e em termos de produção é um dos filmes brasileiros mais redondos e bonitos que vi nos últimos tempos (fotografia extremamente elegante, ótimo figurino, cenografia, etc), não perdendo em nada pras produções de fora.

Pra mim o grande problema do filme é o roteiro, que segue a estrutura clichê da maioria das cinebiografias. E o problema não é nem o fato de ser um clichê, e sim o fato de ser uma estrutura previsível, tediosa, sem imaginação. Começamos com ela jovem, determinada, antes da fama, acompanhamos sua escalada ao sucesso, ouvimos seus maiores hits, vemos seus dramas pessoais, sua decadência, e o filme termina em morte. É uma abordagem jornalística, não cinematográfica. Quando o filme termina, até o espectador mais casual se pergunta: E daí? Qual o sentido da história? Que mensagem levamos pra casa? Nenhuma. Fica uma sensação de vazio. O filme é apenas um belo registro da vida de Elis e uma forma de apresentá-la pras novas gerações. Nesse ponto, ele é bem sucedido (eu não gosto de MPB mas saí com uma impressão melhor da artista do que entrei; no filme do Tim Maia, por outro lado, eu saí com uma impressão pior do artista, sendo que gostava da música dele).

Elis / Brasil / 2016 / Hugo Prata

FILMES PARECIDOS: Tim Maia (2014) / Gonzaga - De Pai pra Filho (2012) / Cazuza - O Tempo Não Pára (2004)

NOTA: 6.5