sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Moana: Um Mar de Aventuras

NOTAS DA SESSÃO:

- Será que já vai começar a chatice politicamente correta? A heroína tem um padrão de beleza mais realista, é "eco-friendly", salva tartarugas, tem certa culpa por não ser vegetariana, etc.

- Pelo menos o filme não fica celebrando a vida na tribo - logo na segunda música, Moana mostra que quer conhecer o oceano, quebrar com tradições antiquadas, o que já é um tema mais "Disney" (lembra Valente, etc).

- A canção "How Far I'll Go" é ótima! Cena linda.

- Sentimentos mistos em relação à Moana. Não chega a ser uma "heroína envergonhada", mas ainda assim não é o que eu consideraria uma princesa ideal. O que mais me incomoda aqui é o uso frequente de humor às custas da personagem - mas pelo menos ela não tem um caráter duvidoso tipo a Elsa, etc, então já é um bom avanço.

- SPOILER: Gosto bastante da personagem da avó que é considerada a "louca" da vila - ela motivando Moana, revelando os segredos do passado, etc. Muito triste quando ela morre!

- A viagem de Moana parece um pouco precipitada - ela vai pro mar sem nenhum planejamento, experiência, nem avisa os pais. Senti falta de um preparo maior pra essa etapa da história. Um dos problemas é que a ilha em que eles vivem parece um lugar alegre, em paz, não parece estar sob uma grande ameaça que justifique essa atitude toda.

- Curioso os animais não falarem nesse filme. O galo é divertido, mas é um mascote muito unidimensional - uma piada única sem grande necessidade pra história.

- O filme quer tornar o Maui um coadjuvante divertido, mas ele tem um caráter muito duvidoso pra ser gostável. Ele não se mostra arrependido ou preocupado com o mal que causou a todos ao roubar o coração.

- Essa sequência dos cocos piratas é desnecessária. Eles surgem do nada, não parecem fazer parte da história, só atrapalham um pouco a missão e logo vão embora sem maiores consequências.

- Falta um vilão pro filme. O vilão teoricamente é o próprio Maui, mas em vez de um grande antagonista, ele é apenas um chato que fica meio relutante em ajudar a Moana - mas acaba ajudando. Sem falar que ele parece ter destruído o mundo meio que por acidente. Ele não tem objetivos maléficos que vão contra a heroína, etc. E o monstro de lava não é um vilão, é apenas um obstáculo físico que deve ser superado pra completar a missão, não é um personagem.

- Fraca toda essa sequência do siri gigante. Ele é basicamente o único animal que fala, o que destoa do resto do filme. Fazer dessa cena uma sequência musical cantada pelo siri também não faz sentido. Não é uma cena importante pra história, um personagem relevante que mereça uma canção.

- O roteiro em geral é muito fraco, sem bons conflitos, eventos... Eles ficam inventando coisas aleatórias só pros personagens terem o que fazer. Por exemplo: sem muita explicação, o anzol de Maui está com defeito - daí há toda uma sequência de treinamento onde ele aprende a dominar o anzol de novo. Depois o anzol quase quebra e o Maui desiste de tudo e vai embora, só pra ter o momento "crise" antes do clímax, etc.

- Bonito o reprise de "How Far I'll Go". Começa com uma outra música, e aos poucos a melodia vai surgindo na composição conforme Moana se empolga. A música é a melhor coisa do filme.

- SPOILER: Como digo na postagem do herói envergonhado, a vitória sobre o monstro não é convincente. Moana recebe todo tipo de ajuda sobrenatural, e no fim derrota o monstro simplesmente cantando uma canção. Sem falar que não é bem explicado por que de uma hora pra outra ela tinha que colocar o coração no peito do monstro, como ela sacou que o monstro na verdade era a Te Fiti, etc.

- No fim Maui pede desculpa e tudo o que ele fez é perdoado muito facilmente. O filme quer ser tão politicamente correto que nem um vilão de verdade ele quis criar. É como se a mensagem fosse: temos que entender o lado de todos, inclusive de nossos inimigos, no fundo todos têm boas intenções quando vemos de perto, etc.

- A volta de Moana à ilha não é tão triunfante pelo motivo que já disse antes: a ilha e os moradores da vila não pareciam estar sofrendo muito, precisando de algo. Então não dá tanto essa sensação de que ela salvou a todos, transformou tudo pra melhor. Mas pelo menos ela conquistou seu objetivo pessoal de ir além dos recifes, cumprir a profecia, etc. Apesar dos problemas de roteiro, há uma estrutura de "jornada do herói" vagamente satisfatória.

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CONCLUSÃO: A história é fraca, mas o visual bonito, a trilha sonora, e o tom um pouco mais romântico que a média o tornam um entretenimento agradável.

Moana / EUA / 2016 / Ron Clements, John Musker

FILMES PARECIDOS: Procurando Dory (2016) / Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) / Valente (2012)

NOTA: 7.0

21 comentários:

Dood disse...

É parece que o pessoal que fez Alladdin ajudou a fazer uma animação ao menos não tão irritante dessa vez pelo visto.

Caio Amaral disse...

Não sabia quem eram os envolvidos.. no poster diz "dos criadores de Frozen e Zootopia", então entrei bem cético, rs.

Dood disse...

Engraçado que eu tbm vi a chamada, mas pesquisando as informações vi algo bem diferente. Acho que quem faz a divulgação faz com base nos últimos "sucessos".

Caio Amaral disse...

É.. talvez um dos acertos tenha sido trazer o Lin-Manuel Miranda (criador do musical Hamilton) pra colaborar na trilha sonora.. pra mim foi a música que deu um "up" no filme em geral..

Anônimo disse...

A ausência de vilões no decorrer da trama é uma grande falha das produções recentes da Disney. Sem vilões, não um há perigo real, um desafio real para os protagonistas. Filmes como Enrolados e A Princesa e o Sapo tinham seus defeitos, mas ao menos tinham seus vilões que representavam perigo para o protagonista, e justificavam a história. Talvez essa mudança de estilo seja para agradar alguns críticos de internet que dizem não gostar de vilões óbvios, mas representa uma perda de qualidade, ainda mais para a Disney que produziu uma galeria tão notável de vilôes:
https://www.youtube.com/watch?v=Rbh1LNQxgkk

Pedro.

Caio Amaral disse...

Verdade Pedro, fica difícil imaginar essas histórias sem os vilões..! abs!

Anônimo disse...

Desde o início tinha algum otimismo em relação a Moana, porque a história, desde os primeiros anúncios, parecia mais simples que a das outras produções recentes da Disney. E a mau ver foi um acerto trazer uma adolescente desconhecida do grande público para dublar a protagonista. Isso ajudou a que o personagem e o filme não ficassem sobrecarregados com experiências profissionais anteriores da dubladora, como ocorreu com Idina Menzel em Frozen, que tentou de mau jeito ser um Wicked 2.0. Idina Menzel a meu ver também tinha o inconveniente de ser mais de vinte anos mais velha que sua personagem, fazendo dela uma mulher em crise de meia idade em plena juventude. Talvez tivesse sido melhor que Demi Lovato, que gravou a versão de Let it Go dofinal do filme, também tivesse dublado a personagem.
Pedro.

Anônimo disse...

Com relação aos animais, a Disney caiu numa incoerência semelhante em "Pocahontas". No projeto inicial, esse filme iria ter animais falantes, mas depois os produtores acharam que isso daria ao filme um ar muito infantil; no entanto, mantiveram no filme uma árvore falante.

Caio Amaral disse...

Ah Pedro mas mesmo se a dubladora fosse a Demi Lovato, o comportamento da Elsa seria o mesmo né.. as falas as mesmas.. então não sei se gostaria mais da personagem.. mas enfim.. Moana tem uma narrativa mais simples mesmo..

Anônimo, não lembro dessa árvore falante de Pocahontas! Mas realmente.. não tenho lembrança de animais falantes no filme.. acho que tem que assumir uma coisa ou outra né.. é que nem em musicais que às vezes parecem meio em cima do muro.. tipo o filme do Mogli - que eu gostei, mas que tinham umas sequências musicais que soavam meio estranhas.. pois o tom geral do filme não era de um musical.. e daí do nada alguém começava a cantar.. abs.

Anônimo disse...

Engraçado que esse padrão de beleza mais realista parece só ser lembrado pela Disney quando se trata de mulheres polinésias. A Nani de "Lilo e Stitch" também tinha a cintura mais grossa que o habitual das heroínas da Disney:
https://www.youtube.com/watch?v=p3WZDcpA1Ck

Caio Amaral disse...

Ah sim.. Lilo e Stitch não tinha muita preocupação com beleza né.. talvez até por não estar tentando lançar uma nova princesa de fato.. Mas foi só no começo de Moana que me veio esse alerta.. achei que o filme ia exagerar nessa questão do politicamente correto.. mas no fim até que achei ela bonita no filme, apesar de mais realista, de não usar vestidos bonitos, etc.. meu maior incômodo mesmo foram só os toques de humor em cima da personagem.. pra tentar torná-la mais comum..

Anônimo disse...

Sobre meu comentário de anteontem, vou tentar explicar um pouco melhor meu ponto de vista. Nas animações, tem se tornado muito comum que os personagens sejam construídos com base nas pessoas de seus dubladores. Isso é particularmente comum na Dreamworks, que fez filmes com personagens que são caricaturas óbvias dos atores que dublaram, como em ₺Shark Tale₺ e ₺Antz₺, mas isso também ocorre na Disney. Idina Menzel parece ter sido escolhida na época em que sua personagem seria vilã, para o que talvez sua voz rouca assentasse bem. Quando tentaram mudar o perfil da personagem, talvez tivesse ajudado se tivessem mudado a dubladora, para ter alguém que pudesse fornecer um modelo diferente.
Houve quem elogiasse a Elsa de Frozen como muito ₺madura₺ para sua idade. Não sei se isso teria sido influência de Idina, mas me pareceu muito ruim, e não calhava absolutamente no personagem, por conta de sua idade. Na impressão, jovens, mesmo quando infelizes, são mais inconformados, desejosos de mudança, o que não ocorre na Elsa. Compare-a com a Rapunzel, mesmo sendo ela tão atrapalhada e desgraciosa. A canção dela, ₺When My Life Will Begin₺, deixa clara sua irresignação, seu desejo de uma vida diferente. Não há isso em Elsa, que parece uma dessas pessoas que quebraram demais a cara, e simplesmente se deixam levar pela vida, porque qualquer tentativa de mudar piorará as coisas. A meu ver, são as pessoas de meia-idade que gostam de achar que as coisas não tem jeito, não os jovens, ceros ou não.
Pedro.

Anônimo disse...

hoje as animações mostram o que se poderia chamar de Jornada do Herói segundo a Dreamworks. Li isso num site em inglês e estou fazendo uma adaptação. A meu ver serve muito bem para todas as animações recentes:

- Em primeiro lugar, há um loser, que é incompetente, mas com alguma habilidade que lhe será mais ou menos útil até o fim da história;
- No decorrer da história, ele conhecerá outros losers que lhe ajudarão um tanto, e lhe atrapalharão outro tanto, enquanto toods se metem numa série de confusões;
- Se houver um interesse amoroso, será uma garota forte e independente que não precisa de um homem, mas no final se tornará convenientemente fraca e indefesa, para precisar ser salva pelo protagonista;
- Há um momento de aparente fracasso, em que todos ficam tristes.
- No final, e por algum milagre, o protagonista acaba derrotando o vilão e todos ficam felizes, enquanto o espectador nem tanto.
Fonte:
http://www.thewebsiteofdoom.com/articles/dreamworks-animated-movies/

Pode-se acrescentar que, na versão feminina da jornada, a protagonista ou ficará solteirona para mostrar o quanto é independente e empoderada, ou, se houver um interesse amoroso, deverá ser um tipo de caráter algo duvidoso, que deverá ser supostamente redimido pelo amor da protagonista. Se fosse o contrário, uma mulher sem-vergonha redimida pelo homem, provavelmente todo acharia ridículo.
Pedro.

Anônimo disse...

Outra coisa boa foi que ao menos não deram à protagonista poderes mágicos, contrariando alguns rumores que saíram na época da produção. Ficaria muito irritante se agora toda heoína, além de ser princesa, precisasse ter poderes mágicos para apelar ao público.

Caio Amaral disse...

Pessoal, estou viajando sem computador, por isso andei meio sumido aqui.. amanhã tô de volta, abs!

Caio Amaral disse...

AH entendi Pedro, vc não estava culpando a Idina, e sim a decisão da Disney de moldar a personagem a ela em primeiro lugar.. Pois é.. Mas é sempre bom lembrar que Frozen e a Elsa são um sucesso fenomenal né.. Independente disso tudo.. Nossas reclamações em relação ao filme acho que têm a ver com questões mais profundas que essa (a personagem parecer mais ou menos adulta).. coisas que as crianças e o público leigo não enxergam..

Quanto à jornada do herói.. produtores sem sensibilidade vão sempre se agarrar à fórmulas concretas que prometem sucesso financeiro.. há 20 anos atrás também existiam as fórmulas, mas elas eram baseadas em um senso de vida melhor acho..

Dood disse...

Assim, Elsa é um sucesso devido a meu ver a maneira como ela foi vendida mais do que como personagem desenvolvido. E também porque deu ênfase ao amor entre irmãs, apesar do desenvolvimento de Elsa e Ana ser bem precário no quesito relacionamento.

Anônimo disse...

Em matéria de relacionamento entre irmãs, "Lilo e Stitch" continua sendo o melhor e mais credível filme da Disney.

Anônimo disse...

No mais, concordo com Dood. Elsa foi um mais um produto de marketing que um personagem, que nunca teve qualquer desenvolvimento. Mesmo no curta que veio depois, e agora nos curtas do Lego Frozen, Elsa apenas fica se atrapalhando com seus poderes e repetindo seu bordão de que o frio não a incomoda. Dá impressão de que os roteiristas estão meio cansados dela.

Caio Amaral disse...

Dá pra dizer que a maioria dos personagens de desenhos são "produtos de marketing"... o que realmente me irritou na Elsa nem foi isso, e sim os valores vieram carregados juntos com a personagem... Moana também é um produto tanto quanto Elsa... mas me irritou menos... pois não veio com a vitimização, etc. Abs.

Dood disse...

A relação de Lilo e Nane de Lilo e Stitch era muito mais sólida. A Elsa tem um problema grave de desenvolvimento, como o Caio citou, valores.