quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Beleza Oculta

NOTAS DA SESSÃO:

- Já acho uma bobagem essa teoria inicial do Will Smith (a ideia de que amor, tempo e morte são a essência de qualquer coisa).

- O elenco é espetacular. Mas me incomoda ver pessoas como Kate Winslet e Edward Norton em papeis tão fracos. Parece um insulto à carreira deles.

- A situação inicial é envolvente (o Will em crise, os amigos precisando que ele se recupere, etc). O filme foca em temas grandes, valores importantes. E gosto da direção - as coisas são retratadas de maneira meio teatral, exagerada, o que faz com que ações comuns ganhem um significado abstrato.

- O filme às vezes parece confuso, perdido em várias tramas paralelas, sem um personagem central forte (Kate Winslet procurando doador de esperma, o Edward Norton com problemas familiares, o outro com doença terminal - sobre o que é essa história? Não dá a impressão de que é um filme sobre várias tramas que se cruzam, tipo Crash: No Limite, e sim que ele é mal escrito). E em cima disso há a trama principal do filme, que já seria difícil de digerir por si só. A ideia deles de contratarem atores pra enganar o Will Smith é meio tola. Seria uma ótima ideia pra uma comédia screwball, mas não pra um filme que se leva a sério. O Will Smith não é um esquizofrênico, nem alguém que tem visões sobrenaturais. Sem falar que ele é publicitário e sabe que vive rodeado de pessoas criativas que seriam bem capazes de pregar uma peça como essa. É ridículo ele realmente acreditar que está conversando com a Morte, com o Tempo, etc. Não dá pra embarcar na história direito (a própria maneira como o Edward Norton encontrou os atores no teatro - é tudo meio irreal).

- Há certa diversão em ver a Helen Mirren aparecendo pro Will Smith como se fosse a Morte (uma coisa meio Ruth Romcy), ainda assim a ideia é tão impossível que não dá pra acreditar. As coisas que os atores falam pra ele são muito clichês - não são reflexões inteligentes que iriam realmente transformar a vida dele (ainda mais ele sendo um "guru" que a princípio já é um homem sábio).

- Eu já estava achando meio imoral essa ideia dos 3 enganarem o Will Smith, mas até aqui dava a impressão de que era pro bem dele, pra ele superar a crise - uma mentirinha inocente. Mas quando os amigos têm a ideia de filmá-lo e usar as imagens contra ele, eles se revelam verdadeiros vilões! Só que o filme continua como se eles estivessem fazendo algo aceitável!

- Que bagunça de roteiro! O filme quer discutir tanta coisa ao mesmo tempo, provocar emoções tão profundas, reflexões tão grandiosas, que acaba se afundando na própria pretensão. Fica parecendo mais um adolescente estúpido que acabou de fumar maconha e está tentando explicar o sentido da vida pra alguém. O Will Smith está nessa onda agora de querer exibir sua sabedoria superior em todo filme que faz, mas acaba só falando bobagem. Em vez do filme gerar significado através dos eventos da história, os personagens ficam vomitando o sentido do filme diretamente na tela, cena após cena, através de frases sem sentido como "Nada está realmente morto quando você olha direito". Filmes que valorizam a inteligência do espectador deixam espaço pra ele mesmo entender o significado da história. Além disso, detesto também toda essa glamourização do sofrimento.

- SPOILER: É realmente odiosa essa ideia dos amigos fazerem o Will Smith acreditar que ele está ficando louco, só pra ele assinar os documentos e entregar o controle da empresa. Se esses 3 não saírem derrotados no final, o filme será revoltante.

- SPOILER: A revelação de que o Will Smith era o pai da Olivia não funciona. Esse não é o clímax do filme,  a conclusão correta pra essa história. Ele não era o protagonista do filme na prática. Sabíamos muito pouco sobre ele, sobre seu passado, sobre a relação dele com a filha, com a esposa. Não dá pra querer fazer a gente chorar agora só porque já vimos uns flashbacks cafonas dele brincando com a filha. E a história da agência? Os 3 amigos sairão impunes? Ele nunca irá descobrir que foi feito de idiota?

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CONCLUSÃO: Bem produzido, com bons atores e uma premissa diferente - mas que se desenvolve num dos roteiros mais estranhos e defeituosos que já vi.

Collateral Beauty / EUA / 2016 / David Frankel

FILMES PARECIDOS: Sete Vidas (2008) / Crash: No Limite (2004) / A Corrente do Bem (2000)

NOTA: 4.5

4 comentários:

Anônimo disse...

Pela descrição do filme, parece uma versão da história do Ebenezer Scrooge na qual faltou o aspecto principal, o da redenção do personagem.

Caio Amaral disse...

Hmm, não saberia comparar, só vi o filme do Zemeckis do Scrooge.. acho que o problema aqui é que o filme começa como uma história sobre 3 pessoas pregando uma peça no colega de trabalho pra salvar uma empresa.. gera uma série de perguntas.. mas daí muda totalmente o foco e resolve que a história mais importante é uma outra que surge mais pro fim do filme.. e deixa a primeira história com as pontas soltas..

Anônimo disse...

O filme do Zemeckis é o suficiente para conhecer a história. A semelhança é apenas o fato de que o protagonista é visitado por três personagens simbólicos. Mas no caso de Scrooge, ele é uma pessoa mesquinha que é levada a questionar o tipo de vida que levou, e aqui parece não ter havido esse tipo de desenvolvimento.
Algumas críticas em inglês tem feito a comparação desse filme com a história de Scrooge:
http://www.npr.org/2016/12/15/504851906/in-collateral-beauty-will-smith-meets-love-time-death-and-a-terrible-script

O trecho em questão é: "When they hear he's been writing letters to the abstract concepts of Love, Time, and Death, they hire three out-of-work actors to embody those roles and harangue him like Ebenezer Scrooge's ghosts."

Caio Amaral disse...

Ah entendi.. eu não gosto da história do Scrooge, mas ali não dava essa sensação da história ser um caos por alguns motivos..

1) O Scrooge é claramente o protagonista do filme e fica claro desde o começo que a história será sobre a transformação / superação dele.. então quando isso acontece no fim, há um senso de que a história pode acabar. No caso do Will Smith, ele é um personagem meio distante.. o filme não desenvolve a história dele direito, nós vemos tudo de fora. Estamos mais envolvidos com a "pegadinha" dos amigos. Então quando há a superação do Will Smith no fim, não há o mesmo senso de conclusão.. Pq a história era mais complexa, tinha mais coisa pra resolver. Não podia acabar assim simplesmente.

2) No Scrooge, são fantasmas de verdade que aparecem pra ele, né? Então não há a necessidade de explicar pro personagem no fim que ele foi enganado, fez parte de uma armação, foi feito de idiota pelos amigos.. já no Beleza Oculta fica sobrando esse "elefante" no fim.. rsss. Abs.