sábado, 18 de fevereiro de 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar

NOTAS DA SESSÃO:

- Início decepcionante, o filme é totalmente Naturalista. Um retrato da periferia, de uma realidade dura, sem uma narrativa envolvente, personagens bem construídos (o menino é totalmente passivo, uma vítima genérica da sociedade sem nenhuma característica interessante que o filme saiba destacar).

- Senso de Vida negativo. A vida aqui parece conflituosa por natureza - não porque alguém foi mau ou agiu de forma errada. No universo do filme simplesmente ninguém se entende, ninguém se comunica direito, mesmo quando está tudo normal (compare com Lion, que também é sobre pessoas vivendo em uma realidade difícil).

- Por que o menino sofre bullying? O filme não mostra de que forma ele destoa dos demais da escola. Ele é nerd, afeminado ou algo do tipo? Não vemos nada disso. Não é um retrato feito com inteligência emocional. O público acha que o filme faz um retrato "íntimo" do personagem, mas isso é porque o garoto é tão silencioso que as pessoas projetam o que quiserem nele.

- Não há história. O filme só quer expor a realidade dessas pessoas... Vemos os problemas do menino na escola, a mãe drogada, a rotina na casa (como ele tem que ferver água pra ter um banho quente), etc. É a ideia Naturalista de que, se você está retratando pessoas menos privilegiadas, o espectador não pode esperar uma narrativa envolvente, estimulante... É o dever moral dele sacrificar algumas horas de sua vida pra dar atenção a questões mais "sérias" que cinema.

- O comportamento dos personagens é artificial, como se o cineasta não entendesse de natureza humana ou não conhecesse bem a realidade dessas pessoas. O menino é tão tímido que mal abre a boca; até parece que ele iria perguntar no meio do jantar "o que é uma bicha?" pra pessoas que ele mal conhece. Ele é chamado de bicha na escola? Isso é um drama pra ele? Não vimos nada disso.

- Quando ele se torna adolescente ele continua totalmente enrustido, sem personalidade, mesmo tendo sido parcialmente criado por um casal saudável, feliz, que estimulava a autoestima dele. Não é muito convincente essa caracterização, o garoto se comporta como se fosse um bicho do mato. O filme quer insistir na ideia da vitimização. De que negros pobres não têm chance na vida, são vítimas do sistema (o que pode até ser uma verdade em partes, mas não por esses motivos que estou vendo aqui).

-  O personagem da mãe é odioso (roubando o dinheiro dele pra comprar drogas)! E unidimensional, caricato.

- O fato do menino ter impulsos homossexuais é apenas mais uma informação jogada na história... não cria um novo rumo pro filme. Não sabemos nada sobre o mundo interno do personagem. Seus desejos, receios. Uma hora ele diz "às vezes eu choro tanto que sinto que vou me afogar". Em nenhum momento vimos o personagem chorando no filme! É tudo artificial. O filme está apenas se divertindo com a ideia de subverter o estereótipo do "gangster", do "negão"... Mostrando o lado feminino e delicado dessas figuras - mais para o deleite da plateia "progressista" do que pra fazer uma observação psicológica interessante.

- Pelo menos o ator da versão adulta do protagonista é melhor, mais expressivo. Mas continua não acontecendo nada nesse terceiro ato todo do filme. Apenas 1 tipo de público deve estar tendo algum interesse genuíno na história: o público gay que tem fetiche de ver homens héteros se pegando (claro, os progressistas também devem estar gostando de ver a subversão do machão, etc). O filme quer prender a atenção num nível sexual, não num nível dramático, narrativo (imagine se fosse um romance comum entre um homem e uma mulher... não haveria nenhum interesse, pois os personagens não têm uma relação significativa, um histórico, um universo interno, etc). Eu por ser gay acho interessante a química entre eles, mas tento separar isso dos méritos reais do filme.

- Muito ruim a maquiagem da mãe. Quando o filho está adulto, ele parece da mesma idade dela. E a personagem continua desagradável, falando coisas genéricas. A relação dos dois não se torna mais interessante, não passa por uma transformação, ela não participa da descoberta sexual dele (nem contribui pra sua repressão), é como se fizesse parte de outro filme. O filme quer passar a ideia de que descobrir sua sexualidade foi especialmente difícil pro personagem nessa comunidade. Mas ele nunca foi reprimido pela mãe, e o Mahershala Ali parecia lidar com o assunto de maneira bem liberal. Só na escola que ele sofria bullying, mas isso até crianças brancas e ricas sofrem.

- Qual o sentido de dar destaque pra essa música do Caetano Veloso em espanhol? É um elemento aleatório pra mostrar que o filme, além de representar os negros e os gays, também representa os latinos. Moonlight não está focado em coerência estética, ele quer apenas ser o filme "anti-Trump" definitivo concorrendo ao Oscar.

- Todo o final é apenas uma longa cena quase documental, com um ritmo lento, sem novas ideias, que pretende prender o espectador em cima da pergunta: que horas o protagonista e o amigo vão se pegar? Não há um desenvolvimento interessante no roteiro. Nem é algo que deve envolver o espectador comum, que não tenha o perfil sexual que favoreça o filme. E no final o filme ainda se nega a entregar a cena de sexo que estava prometendo. A plateia sai do cinema em silêncio, meio entediada - mas com medo de falar mal do filme, por ele ser tão "relevante" socialmente.

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CONCLUSÃO: Filme naturalista superficial que ganhou relevância mais por causa do conteúdo sócio-político da história do que por méritos cinematográficos reais.

Moonlight / EUA / 2016 / Barry Jenkins

FILMES PARECIDOS: 12 Anos de Escravidão (2013) / Preciosa: Uma História de Esperança (2009)

NOTA: 4.0

22 comentários:

Anônimo disse...

Vi comentários dizendo que mesmo que o filme seja ruim, é dever da academia premiá-lo pelas suas questões sociais da mesma forma que Spotlight foi ruim mas era dever ser premiado. Esse pensamento me assusta O_O

Caio Amaral disse...

Não concordo que Spotlight seja um filme ruim e tenha sido premiado apenas por tocar numa questão social importante... meus comentários estão aqui se quiser saber pq:

http://profissaocinefilo.blogspot.com.br/2016/01/spotlight-segredos-revelados.html

Agora se Moonlight ganhar.. aí sim acho que terá sido esse o caso. Abs.

Anônimo disse...

Não vi spotligh. Eu me referi aos comentários de pessoas que mesmo que tenham achado determinado filme ruim, acham que o oscar é obrigatorio nesses casos pelas questões sociais mesmo que tenham achado o filme ruim na opinião delas.

Caio Amaral disse...

Se estivessem falando da categoria Documentário eu concordaria.. que a questão social fala mais alto do que a qualidade.. Mas não vejo tanto essa tendência na categoria Melhor Filme (de ganhar sempre o filme 'ativista', etc).. A grande dúvida na categoria Melhor Filme pra mim costuma ser: será que eles vão dar pro filme que tem mais cara de "Oscar"; aquele filme mais conservador que tem qualidades estéticas já reconhecidas pela Academia -- ou será que eles vão dar pro filme mais "cool" do momento.. aquele que capturou o zeitgeist daquele ano e que as pessoas descoladas estão comentando.. rs.

Caio Amaral disse...

O Spotlight, apesar de criticar a igreja, na verdade foi a escolha conservadora do ano passado.. se eles tivessem premiado O Regresso ou Mad Max, daí teria sido o prêmio 'cool'... Esse ano a escolha conservadora seria Estrelas Além do Tempo / Manchester à Beira Mar.. e o prêmio cool seria pra Moonlight ou La La Land (embora La La Land tenha elementos que agradem tb os conservadores da Academia, por homenagear clássicos, etc, mesmo não compartilhando dos mesmos valores).. rs.

Anônimo disse...

acho que as pessoas que pensam que spotlight ganhou por ativismo não entendem de cinema, oscar, critérios, etc daí acabam pensando que a academia está premiando por ativismo mesmo e que tem o dever social de continuar assim.

No caso o que quis dizer com meu primeiro comentário é que essa forma de pensar, essa tendencia ativista me assusta de uma forma meio subconsciente. Como se estivesse em meio a pessoas que forçam sua forma de pensar ao mesmo tempo que se fazem de cegas. É um exemplo estranho mas ilustra: tipo tudo bem matar o cinema se for pra beneficio de minorias, e eu vejo isso se estendendo de cinema pra sociedade no geral. Ou isso ou o publico perdeu completamente a capacidade analitica de julgamento.

Caio Amaral disse...

Pois é.. mas tem que pensar que tem muita gente que se sente parte das minorias.. e que gostaria que um filme como Moonlight ganhasse por razões "egoístas".. porque ela realmente se sentiu representada pelo filme e se emocionou assistindo.. nesse caso acho que o que falta é um pouco de objetividade pra não se deixar levar por esses sentimentos.. e colocar os méritos reais do filme na balança..

Dood disse...

Engraçado que esse Moonlight ganhou uma avaliação melhor no cineclik do que o Lion que disseram que pecou pela trama perder a força na metade do filme.

Eu sou tipo meio avesso a esses filmes assim com temática racismo acho que eles exageram demais uma realidade em certo ponto, talvez por isso nunca me simpatizei com filmes do Spike Lee. Aquele outro que você fez uma resenha me pareceu mais honesto.

Caio Amaral disse...

Oi Dood.. Lion é um filme que o público gosta mais q a crítica.. Moonlight é o contrário..
Tb não sou fã do Spike Lee.. gosto quando o racismo é abordado como em Estrelas Além do Tempo.. sem a necessidade de um discurso esquerdista, etc.

Mah disse...

Concordo, Moonlight é horrivel

Caio Amaral disse...

Pois é.. até agora não ouvi ninguém conseguir explicar por que o filme é bom.. sem apelar pro argumento de que ele é "socialmente importante"...

Anônimo disse...

Provavelmente a academia receou uma nova grita na mídia, como quando Brokeback Mountain perdeu, isso embora Crash també, pretendesse ser um filme 'socialmente importante'. Aliás, que palhaçada na cerimônia, provavelmente feita de propósito, para chamar a atenção.

Caio Amaral disse...

É... Brokeback (um filme que eu acho mto bom) falava só dos gays... esse aqui já fala dos gays E dos negros E dos pobres e marginalizados... Daí não resistiram e tiveram que dar o Oscar, kkkk.

Marcus Aurelius disse...

Sabe-se que o mundo está perdido quando "Esquadrão Suicida" leva Oscar de melhor cabelo e maquiagem. Se fizesse sentido como "Rambo 2" que foi indicado a melhores efeitos sonoros e a "Framboesas de ouro" (eu gosto de Rambo 2), até relevava.

Mas quando li "Esqu.." (não apareceu tudo rs), eu fiquei pensando "onde? quando? como? porque? eu ainda existo? esta é a vida real? eu sou o produto da consciência de alguém?". Enfim, eu fiquei chocado:
http://leninja.com.br/wp-content/uploads/2017/02/MAQUIAGEM-768x466.jpg

Pude prever o "Moonlight", e quando teve aquela gafe, no fundo eu sabia que era para chamara atenção, tava tão óbvio. (Acho que depois dessa o Trump renuncia, não tem mais escolha, cabou pra ele).

Lembro que ano passado tu fez o especial em vídeo do Oscar que coincidia com o aniversário do blog. Eu tenho uma leve desconfiança que vídeo não vai rolar.... mas vai ter especial?

Nanda A disse...

a sua critica é exatamente o q eu penso do filme! um cara que é pobre, tem uma mãe drogada, ta no meio do trafico e sofre bullying tem coisa mais cliche q essa? Nada de novo sob a luz do luar esse deveria ser o nome desse filme " É a ideia Naturalista de que, se você está retratando pessoas menos privilegiadas, o espectador não pode esperar uma narrativa envolvente, estimulante... É o dever moral dele sacrificar algumas horas de sua vida pra dar atenção a questões mais "sérias" que cinema" isso é exatamente o q eu penso raramente vc vê um filme de negros alegres que cantam e q a vida é um mar de rosas! Sempre relacionam eles a negatividade da vida e pessoas pobres também, onde já se viu um pobre feliz? Não temos que retratar ele todo ferrado na vida e infeliz!

Caio Amaral disse...

Kkkk... Marcus, nem achei tão absurdo ganhar o Esquadrão Suicida nessa categoria... o visual da Arlequina virou febre com esse filme né... e às vezes eles dão preferência pra trabalhos de maquiagem mais "maquiagem" mesmo... do que esses filmes de monstros que são mais fantasias / efeitos especiais do que maquiagem mesmo... sempre achei meio inadequado esses 2 tipos de filme concorrerem na mesma categoria...

Não tinha achado q foi armação o erro do Oscar... pegou mal pra Academia, pros atores, pra todo mundo envolvido... seria irracional demais causar esse mal todo só por umas manchetes a mais... eu assisto o Oscar há uns 25 anos... eles nunca tiveram um perfil sensacionalista até hj pelo menos... rs.

Pois é, hoje é o aniversário do blog, hehe... 9 anos...! Não pensei em fazer um especial do Oscar não... Escrevi sobre todos os 9 filmes, fiz a postagem dos meus favoritos de 2016... Já dá pra ter uma boa noção do que achei, hehe. E tem os comentários aqui tb né.. Abs!

Caio Amaral disse...


Oi Nanda... Infelizmente muita gente acha que a função social de um filme é mais importante do que seus méritos reais... Moonlight acho que foi premiado por causa do momento em que os EUA vivem... o apresentador falou como todos países agora odeiam os EUA... por causa do Trump, etc... então premiar o filme sobre minorias marginalizadas parece uma tentativa de equilibrar isso tudo... de anunciar pro mundo: vejam, apesar do nosso presidente, nós da classe artística não somos racistas, homofóbicos, xenófobos, etc, etc.

Pelo menos nesse Oscar tiveram filmes como Lion ou Estrelas Além do Tempo que abordam questões como pobreza, racismo... mas o fazem de maneira saudável e através de uma boa história.

Marcus Aurelius disse...

Tirando a Arlequina que eu detestei o visual, eu não consigo lembrar de algum cabelo e maquiagem que eu tenha achado válido. O Crocodilo eu achei terrível e os inimigos eram todos CGI. De resto acho que era só a cara dos atores normais mesmo. A Cara Delevingne não conta como personagem, ela é "café com leite".

Mas eu parei pra pensar e realmente é inadequado "efeitos práticos de criaturas" concorrer na categoria maquiagem e cabelo.

Antes da cerimônia do Oscar, eu fiquei fantasiando na minha cabeça que seria muito absurdo se anunciassem um vencedor qualquer mas tivessem errado de propósito pra promover justamente "Moonlight". Então quando aconteceu de verdade eu pensei: "ora ora, parece que temos uma mãe Mãe Dináh aqui". Mas acho que não foi armação mesmo, seria de fato irracional, e sim uma coincidência com um pensamento meu, até fiquei assustado.

Caio Amaral disse...

Do Esquadrão marcou muito o visual da Arlequina e do Coringa né.. apesar de eu detestar os personagens.. enfim, como é uma das categorias que menos importam na minha opinião, nem dei muita bola kkk. Mais absurdo pra mim é Moonlight ganhar melhor filme / roteiro.. La La Land ganhar melhor atriz / fotografia.. Mas hj em dia eu nem me revolto mais.. o Oscar não tem o poder de decidir quem é o melhor de fato.. Ele apenas revela a opinião média de um grupo de 6.000 pessoas que não necessariamente entendem mais de arte do que eu e você..

Marcus Aurelius disse...

A é... o Coringa, esqueci dele.

Raquel de carvalho disse...

Considerando que a arte tem uma função social. Qual seria a função social deasa produção artistica?

Caio Amaral disse...

A maioria desses filmes querem apenas "conscientizar" o espectador a respeito de parte da população.. a ideia é dizer: "Olhe pra essas pessoas, veja como elas sofrem injustamente" e sugerir que é nossa responsabilidade ou a do governo fazer algo pra mudar isso. Eu sou contra filmes cuja principal função é social. abs.