quinta-feira, 16 de março de 2017

A Bela e a Fera

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção é magnífica e me lembra algo que o Walt Disney disse na época em que estava idealizando seus parques - algo que ilustra bem o respeito que ele tinha pelo entretenimento e pelo espectador de todas as idades e classes: "Eu quero que o convidado entre num prédio de 1 milhão de dólares e possa comer um hambúrguer de 1 dólar".

- A sequência musical inicial no vilarejo é ótima, faz a gente lembrar de como eram os musicais de verdade. 

- O elenco está impecável. Emma Watson como Bela foi um acerto total do casting. Ela tem aquela mistura perfeita de beleza, inocência, força e sofisticação que não se vê mais nos personagens Disney. Não vejo 1 toque do que chamo de herói envergonhado ou das outras tendências que vêm contaminando o entretenimento atual. Pra mim é a experiência rara de entrar num filme onde todos os problemas básicos parecem já ter sido tirados do caminho - os problemas de narrativa, de identificação com os personagens, dos valores malignos que se revelam nas entrelinhas - e eu simplesmente pudesse tirar a "armadura" de crítico e deixar ser tocado pela beleza do que está na tela de forma puramente sensorial.

- O romance é interessante e convincente. A gente entende o valor que um traz pra vida do outro, por que eles formam um bom par, e ao mesmo tempo entendemos os obstáculos. 

- A Fera está muito bem... Há uma seriedade genuína e meio assustadora na performance que faz a gente até esquecer que esse é um filme "pra criança". A própria ideia do casal se aproximar por causa de afinidades intelectuais já é um elemento que torna esse conto mais adulto que o normal.

- Eu sempre sinto uma certa "barriga" no roteiro na porção central - algo que já vinha do desenho e do musical. A narrativa dá uma estacionada e a gente apenas tem apenas que ficar esperando os 2 se apaixonarem, o único obstáculo sendo o fato da Fera ainda não ser um homem. Os conflitos criados pra manter a história movimentada não são dos mais envolventes (Gaston amarrar o pai da Bela na floresta, etc).

- Mas isso tudo deixa de importar na cena do baile, que é uma das coisas mais lindas que vi nos últimos anos!

- O Gaston era tão divertido e charmoso no começo do filme. A transformação dele em vilão não é das mais convincentes. Ele não parece o tipo de homem com um complexo de inferioridade tão grande que o faria virar um monstro assassino só por causa de uma rejeição amorosa já esperada.

- SPOILER: O final é lindo (a quase morte da Fera e dos outros personagens, e depois a restauração de tudo). Já sabemos o que vai acontecer, mas o filme cria uma experiência visual tão bonita que queremos saber como irá acontecer. E há detalhes novos o bastante pra dar a sensação de estarmos vendo algo novo (a presença da feiticeira, o "piano" ganhar a forma humana sem dentes por ter cuspido as teclas, as brincadeiras com os personagens gays, etc).

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CONCLUSÃO: Um acerto da Disney e de Bill Condon que dá vida ao desenho de forma exuberante, mantendo o mesmo espírito da produção original.

Beauty and the Beast / EUA / 2017 / Bill Condon

FILMES PARECIDOS: Mogli: O Menino Lobo (2016) / Cinderela (2015)

NOTA: 8.5

16 comentários:

Anônimo disse...

No desenho, achei o Gaston meio decepcionante. Ele não existe na história original, nem no filme do Jean Cocteau que é a principal referência cinematográfica da história, foi um personagem inventado pela Disney, e para mim ficou bastante evidente que ele era uma coisa postiça, sobrando na história. Se ele não existisse a única diferença é que seria necessária uma outra razão para Bela retornar ao castelo. Outra problema é o que o ponto do personagem não ficou muito claro. Antes de assistir o desenho, pensava que Gaston fosse ser o oposto da fera, no sentido de contrastar aparência e caráter. Só que a Fera, pelo menos na primeira metade do filme, não é uma criatura bela por dentro e feia por fora. Durante muito tempo, ela era muito cruel com bela, enquanto Gaston era só grosso e desagradável. Então para que existe o Gaston na história? Mesmo as motivações dele não combinavam com um sujeito tão rústico. Talvez fossem mais convincentes se a Disney tivesse optado pela versão original do personagem, como era num roteiro anterior, de Richard Purdum, em que Gaston era um nobre rico, muito esnobe e muito fútil. Nesse roteiro, a vilã maior seria uma tia da bela, que queria casar a sobrinha, para tirar a família da falência.
É assim que “A Bela e A Fera” poderia ter sido:
https://www.youtube.com/watch?v=heAlxJsjAgI

Pedro

Marcus Aurelius disse...

Simplesmente magnífico. Um dos maiores espetáculos visuais e sonoros que já vi. Saciou a minha vontade que "La La Land" não foi capaz. Me emocionei em finalmente assistir um excelente musical no cinema.

Caio Amaral disse...

Eu vi o filme do Cocteau há mais de 10 anos, nem lembro mais qual era o conflito principal da história.. o propósito do Gaston acho que é deixar claro que o que importava pra Bela era compatibilidade intelectual, não aparência.. Mesmo a Fera sendo agressiva, ela tinha a cultura e o intelecto que atraiam a Bela.. nesse sentido a Fera era sim "boa" por dentro... no sentido de ter os valores que ela queria, mesmo a Fera tendo um comportamento agressivo..

O que é questionável é o que é mostrado no começo do filme.. que a Fera antes de ser transformada era um rapaz mau caráter, com valores superficiais, etc.. Um cara assim não seria digno da Bela.. A gente supõe que a "lição" que ele recebeu da feiticeira acabou curando isso tudo ao longo do tempo e transformando ele numa pessoa mais madura.. mas é um aspecto mal resolvido da história..

Que bom que curtiu Marcus! Realmente perto do La La Land esse é uma aula de musical, hehe.

Anônimo disse...

Na versão mais conhecida do conto de fadas original, o conflito era entre Bela e suas irmãs invejosas, o que a Disney descartou por se parecer muito com a história de Cinderela. Numa versão mais antiga do conto, a feiticeira era a vilã, o que seria mais óbvio. Corrigindo a informação sobre o filme do Cocteau, que ainda não vi, nele Bela tinha duas irmãs e um irmão maus, além de um pretendente rejeitado que depois, instigado por esses parentes maus da Bela, planeja matar a fera. Esse último personagem foi o modelo remoto do Gaston, sendo que a Disney parece te-lo tornado mais grosseiro, na versão animada.

Caio Amaral disse...

Eu achei que só faltou uma motivação mais forte pro Gaston querer matar a Fera, criar toda aquela confusão.. um interesse financeiro, uma rivalidade pessoal, algo assim.. não apenas ciúmes.. afinal ele não parecia um cara tão desequilibrado antes ou carente, apenas alguém convencido, mas de um jeito normal, ingênuo.. Mas foi um detalhe pequeno que não tirou muito da experiência do filme pra mim.. não chegou a ficar ilógico, etc.

Anônimo disse...

No desenho, Gaston era mais uma enciclopédia ambulante de defeitos masculinos do que uma personalidade coerente. Dizem que a roteirista final da animação, Linda Woolverton, teria inserido no personagem defeitos que ela via em seus ex-namorados. Gaston acabou fazendo sucesso com o público por ser tão caricatural. Talvez teria sido interessante para a história se ele tivesse sido mantido como o almofadinha esnobe que era na sua versão original, anterior às alterações de Woolverton.
http://3.bp.blogspot.com/-VirTpWi9f4A/UXsYg8CTT2I/AAAAAAAAGOA/OeVJuTlqj1I/s1600/OCBB+10.jpeg

Caio Amaral disse...

Hehe... o problema é que ele parece tão afeminado nessa ilustração que fica difícil imaginá-lo perseguindo a Bela de forma tão agressiva, rss.

Anônimo disse...

Na internet, consta que nessa versão do roteiro, Gaston duelaria com a fera e seria derrotado.
Francamente, o que me desagradou na versão animada é que o esnobismo, que deveria ser o defeito do Gaston original, de certa forma foi repassado para Bela e para a própria narrativa da história. Aliás, essa é a crítica mais comum à protagonista da história, que na sua canção de apresentação trata a gente da vila como 'pequena', por não ler e sonhar o dia todo. E ao longo do filme, a própria história se encarrega de tratar todos os aldeãos como estúpidos e maldosos, cega e idiotamente solidários a Gaston. Nesse sentido, pelo que li, a versão live-action parece ter corrigido alguns excessos, tendo cortado a versão final da canção de Gaston, na qual a gente da vila aplaude o plano de Gaston para prender Maurice. O filme de 1991 parece expressar alguns preconceitos de intelectuais que veem a gente simples como broncos ignorantes que nunca abriram um livro na vida.

Anônimo disse...

Um dos problemas com o Gaston é que, na vida real, homens não costumam ser exatamente ansiosos para casar.

Caio Amaral disse...

Em relação ao penúltimo comentário.. na versão live action não vi nada de inapropriado na maneira em que o povo da vila foi retratado.. o desenho não vejo há muitos anos pra julgar.. mas é meio comum isso em vários filmes da Disney (por refletir provavelmente o sentimento de muitas crianças).. o protagonista estar entediado com o mundo ao seu redor.. e sonhar com uma vida mais especial pra ele, etc.. até Moana tem isso.. O que eu acho inapropriado é por exemplo o que acontece naquele clipe do Avicii, Wake Me Up.. que deixa bem explícito que as protagonistas são especiais simplesmente por serem bonitas.. e o povo da "vila" pequeno por serem feios.. e não por qualquer outro traço de caráter.. acho um absurdo esse vídeo, rs.

Tb acho um pouco estranha essa atitude do Gaston de perseguir a Bela de forma tão neurótica..

Anônimo disse...

O trailer honesto de "A Bela e a Fera", a animação, coincidiu em quase tudo com as minhas opiniões, expostas nos comentários acima:
https://www.youtube.com/watch?v=wwu8XNTGX5o

Pedro

Anônimo disse...

Só pra esclarecer, sim, é comum em filmes da Disney o/a protagonista estar entediado com seu meio, mas em "A Bela e a Fera", de 1991, resolveram justificar isso fazendo dos habitantes da vila em idiotas chapados, como na canção de abertura em que todos dizem o quanto Bela é especial e estranha (excluindo o fato de ser supostamente ser uma beleza única) apenas pelo fato de ler contos de fada. Aliás, os contos de fada eram histórias que foram colhidas por folcloristas a gente pobre e semi-analfabeta como os aldeões que o filme ridiculariza. Chega a ser difícil entender porque Bela e Maurice vivem num lugar onde ninguém gosta deles. Na história de origem, isso é explicado pelo fato da família de Bela estar arruinada, o que foi deixado de fora da versão da Disney. E há o absurdo de toda a aldeia se solidarizar com a prisão de Maurice, e aquela espécie de "anti-revolução francesa" do final, com os servos encantados do príncipe massacrando a plebe revoltada.

Acho que teria sido preferível manter as irmãs de Bela como vilãs, como no conto de origem, sem precisar estereotipar tão negativamente todo o povo da aldeia. Não teria sido tão complicado faze-las diferentes das irmãs de Cinderela.

Caio Amaral disse...

Em geral não gosto nada desses "Honest Trailers"..

Como não vejo há mais de 10 anos o Bela e a Fera de 91, prefiro não opinar sobre essas questões colocadas.. Só digo que não vi esses problemas na versão live-action. Abs!

Anônimo disse...

Nunca tinha ouvido falar desse clipe do Avicii, não vejo o porque de ser tão visto. Mas o povo da vila parece um estereótipo do que os americanos chamam de hillbillies, geralmente retratados no cinema e na literatura como feios, estúpidos, pobretões, preconceituosos e quase sempre violentos e hostis à gente 'moderna'. Talvez seja essa a mensagem do clipe, se é que existe.
Em "A Bela e a Fera", também dá pra dizer que os aldeões são hilbillies, ainda que a história presumivelmente se passe na europa.

Caio Amaral disse...

É que em a Bela e a Fera, a Belle é considerada diferente por ser distraída, sonhadora, gostar de ler, ser solitária, etc.. o filme foca em todo o caráter dela.. há outras mulheres bonitas na cidade além da Belle.. não é só a aparência que a torna diferente.. e as pessoas não têm ódio dela, apenas acham ela peculiar.. o clipe do Avicii já cria uma rivalidade agressiva e irracional, totalmente baseada em aparência física, por isso acho que soa mais grosseiro e preconceituoso..

Anônimo disse...

Falando dos ‘Honest trailers’ saiu agora o da versão live-action, do qual posso também dizer que não gostei. Desculpe se estou sendo chato, apenas queria aproveitar para comentar mais algumas coisas que havia deixado de escrever:

https://www.youtube.com/watch?v=Cw_QBtlryIs

Não concordo quando dizem que a nova versão trouxe sub-tramas desnecessárias, como a história da mãe de Belle. Nesse caso a história serviu para aproximar a trama do filme do conto original, onde Bela havia pedido ao pai que lhe trouxesse uma rosa, o que serviu para motivar o conflito com a fera. No conto original, Bela aceita o cativeiro por um sentimento de culpa. Já na versão animada de 1991, Belle encontra o pai cativo e, sem outra motivação, decide trocar de lugar com o pai, num gesto de altruísmo tão total quanto sem sentido. O desenho devia ter mantido a história de Belle pedindo uma rosa ao pai, para justificar a situação, mas a roteirista Woolverton deve ter pensado que isso não condizia com uma mulher ‘forte’.