sexta-feira, 3 de março de 2017

Logan

NOTAS DA SESSÃO:

- O começo parece uma ilustração de tudo o que eu escrevi em textos como Romantismo Reprimido, Herói Envergonhado, 10 Tendências Irritantes em Hollywood... Como força e autoestima estão fora de moda nos tempos atuais, o filme agora pretende ganhar o respeito da plateia mostrando um super-herói num estado tão decadente e miserável que nós ficamos até aliviados de não sermos como ele. Em vez de inspirar, o cinema agora nos habituou a sentir pena dos heróis.

- Logan (nesse filme pelo menos) é um protagonista antipático, sem nenhum valor de caráter positivo que faça a gente se importar por ele. A garotinha Laura também não tem o menor apelo, a atriz é fraca... Os relacionamentos são todos conflituosos (pra mostrar que o filme é "adulto").

- A história não é mal contada - é legal por exemplo o "ponto de virada" quando a garotinha se revela uma mutante e sai matando geral (essa sequência de ação é a mais divertida do filme). Ainda assim é uma história fraca. O herói é deprimido, não tem nenhuma motivação envolvente... Ele resolve ajudar a "filha" por um senso de dever e responsabilidade, não por um verdadeiro interesse. Por que nós como espectadores deveríamos nos importar então? Fugir dos vilões não é um interesse forte o bastante se não temos algo de positivo pra esperar (Logan está deprimido, suicida, mas o que ele deseja pra sair desse estado?). Os protagonistas não são gostáveis - não consigo torcer por uma aproximação entre os 2 simplesmente por eles terem uma ligação genética.

- Por que esse acidente de carro? Esse encontro com a família negra? Eles vão passar a noite aí? Em que isso progride a trama? De repente o Wolverine está ajudando um estranho a consertar vazamentos, se metendo em brigas tolas entre fazendeiros... É uma sub-trama totalmente desnecessária. A ideia do filme é transformar X-Men num road-movie despretensioso que revela o lado "humano" e "sensível" do herói.

- SPOILER: Horrível matarem o Xavier sem ele ter feito nada de útil ou admirável no filme. Foi mostrado apenas como um velho agonizante que só serviu pra atrapalhar o Logan (claro, a grande "utilidade" dele aqui é criar uma oportunidade pro Logan mostrar como ele é altruísta, alguém que ajuda um senhor cadeirante a se sentar na privada, etc).

- Quando eles chegam no Éden, os mutantes parecem mais um comercial da Benetton Kids... Tem crianças de todas as raças, nacionalidades, sem dar destaque pra nenhum grupo em particular... O filme parece preocupadíssimo em se enquadrar em todas tendências culturais do momento.

- Meio forçado o último ato. Por que as crianças acabam dependendo da ajuda do Logan pra fugir? É como se elas fossem indefesas, mas na prática elas juntas parecem bem mais fortes que os vilões. E não fica claro por que elas estarão protegidas ao cruzarem a fronteira. Se era tão perto, por que elas já não ficaram do lado de lá da fronteira aguardando?

- Detesto esse culto à porradaria... A ideia de que a plateia ficará empolgada ao ver um cara raivoso triturando dezenas de homens. Não há nenhum prazer nessas cenas enquanto ação, cinema... É apenas um show de violência grotesca. Mas faz sentido de certa forma. Desde o começo o filme mostra que valoriza a dor, o conflito, a destruição... Pra quem compartilha desses mesmos valores, uma cena como essa deve ser um grande ecstasy.

- SPOILER (MESMO!): Realizado mais uma vez o grande fetiche do público atual: o desejo de matar os heróis. E tenho que reconhecer que é genial a simbologia da imagem final: o "X" dos X-Men sendo formado por uma cruz sobre o túmulo do Logan. Isso é melhor ainda do que o "Supercaixão" do Superman em Batman vs Superman.

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CONCLUSÃO: Não mal realizado, mas a história é desinteressante e reflete todo o esgoto em que se transformou a cultura atual.

Logan / EUA / 2017 / James Mangold

FILMES PARECIDOS: Jason Bourne (2016) / Deadpool (2016) / Perdido em Marte (2015)

NOTA: 4.0

14 comentários:

Dood disse...

Fico desapontado da maneira como trataram o personagem nesse longa, mas vejo que até mesmo na Fonte inspiradora (quadrinhos ) segue esse tom. Uma pena porque gostei de Immortal que fez algo muito melhor que Origins. Mas pra uma indústria que quer humanizar até heróis clássicos como Superman a gente acaba nem se espantando mais. Só se lamenta que a mentalidade geral não muda.

Caio Amaral disse...

O Wolverine: Imortal eu tinha achado legal tb.. e curiosamente o diretor de Logan é o mesmo.. e um dos roteiristas também.. ou seja.. o talento não mudou.. o que mudou foram os valores inseridos no filme.. esse aqui resolveu abraçar o espírito da cultura atual.. e pelo visto "deu certo".. a nota no IMDb e as críticas estão bem melhores que as de Imortal..

Dood disse...

Se foi o mesmo diretor provavelmente o quadrinho deve ter influenciado no tom do filme, já que passa a saga Old Man Logan.

Caio Amaral disse...

De repente a própria ideia de adaptar esse quadrinho onde ele tá velho e acabado já veio sob influência das tendências atuais né..

Dood disse...

O quadrinho realmente é bem depressivo pelo menos o que aparenta na análise:

http://www.universohq.com/reviews/wolverine-o-velho-logan/

Caio Amaral disse...

O cara fala que a história é horrível.. que só piora, piora.. e ao mesmo tempo diz que é impossível parar de ler.. Só que ele não consegue explicar essa aparente contradição.. Se ele não conseguia parar de ler, então há algo na história que ele considera positivo, atraente.. Mas o que? E por que? abs.

Marcus Aurelius disse...

Caio, nada a ver com o assunto do filme: o que significa aquele símbolo que tem na foto do seu canal do YouTube?. É um quadrado preto com riscos brancos e uns quadrados brancos:
https://yt3.ggpht.com/-pon_RAAE1CM/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/C5n3njM5_88/s100-c-k-no-mo-rj-c0xffffff/photo.jpg

Caio Amaral disse...

Oi Marcus.. foi um logotipo que eu criei pra mim na época q comecei a gravar músicas... Acaba sendo meio óbvio depois q eu explico, mas percebi que quase ninguém saca antes, hehe:

https://youtu.be/x8VhpEkSqyQ

Marcus Aurelius disse...

Hahaha fantástico, adorei. Muito criativo mesmo. Eu pensei que fosse algo relacionado a teclas de piano, partitura e cordas de violão.

Caio Amaral disse...

Remete sim a piano, etc.. aliás isso me incentivou a defini-lo como logo, hehe.

Dood disse...

Caio nem eu entendi a resenha do cara, parece que querem forçar o lance dos heróis com situações depressivas para dar humanidade o que contradiz o que esperamos do que é ser um herói. Isso que vemos em demasia na cultura atual. O pior que não é uma decisão do diretor e sim uma história que foi escrita assim.

Caio Amaral disse...

Pois é.. a história pelo visto já era assim.. mas essa série Old Man Logan pelo que vi foi lançada em 2008.. então as tendências da cultura já estavam nessa onda de tornar tudo mais deprimente, etc.. abs.

Marcus Aurelius disse...

Assisti recentemente o "Logan" e percebi algo que nunca tinha me tocado antes. Essa tendência negativa é pura preguiça e em certos aspectos até ingenuidade, pois quando o personagem tem a "síndrome do idoso que gosta de conversar com outros idosos sobre quem tem mais doenças", não há muito trabalho em desenvolver abstrações dos personagens. Fica algo como: "ele sofre, o sistema é mau. Pronto, cabou. Aceite".

Quando eu era um pirralhinho ranhento, eu sonhava em fazer filmes, mas sempre me perguntei como seria apropriado um filme 100% adulto. E cheguei a conclusão que adultos gostam de falar sobre doenças, contas a pagar, dificuldades financeiras, cicatrizes do passado, dura realidade da vida, etc. Daí escrevi um pequeno conto muito similar ao "A Estrada" de 2009. Era um "road movie" também sobre duas pessoas sofridas atravessando o país e que se sacrificavam no final como ato de maior valor na vida. Durante sua jornada, cruzavam com criminosos, empresários (eu era meio soça), pessoas deformadas e velhos com o rosto mais enrugado do que o próprio saco que olhavam poeticamente pro horizonte consentindo com a cabeça e dizendo "é".

Hoje eu vejo filmes como "Logan", os "Batman" do Nolan, e outros parecidos mais como filmes infanto-juvenis do que como filmes adultos. E eu acho que Zack Snyder nunca saiu da adolescência.

Caio Amaral disse...

Incrível essa sua história Marcus, hahaha... É bem o que falei naquela postagem O Declínio de Originalidade em Hollywood:

"É interessante que, apesar de eu estar sempre reclamando que os filmes estão mais sombrios, mais violentos, se você for ver, no fundo há uma certa infantilização do cinema. Muita coisa hoje em dia é voltada pro público infantil e adolescente (ou adulto com mentalidade adolescente). Isso apoia minha noção de que todo esse tom dark no fundo é pra tentar disfarçar e "compensar" a natureza juvenil dos filmes, assim como um adolescente às vezes apela pra um visual agressivo pra que ninguém perceba que ele mal saiu da infância."

Outro tipo de compensação desse tipo é quando o cineasta quer parecer mais intelectual e artístico do que ele é, e daí apela pro subjetivismo (como o Nolan por exemplo): faz um final incompreensível, abstrato, que o lembra daqueles filmes adultos que ele via na infância e não conseguia entender nada mas todo mundo achava genial, rs. Abs.