sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dunkirk

NOTAS DA SESSÃO:

- Produção excelente. A imersão audio-visual que o filme proporciona é incrível. Parece que estamos num simulador da Disney (especialmente em IMAX).

- A trilha sonora é uma das piores que já ouvi. Em vez de uma composição musical com melodia, estrutura, diversos climas que acompanham a narrativa e se integram à imagem, temos apenas um zumbido constante dando um clima de gravidade, e eventualmente barulhos pulsantes irritantes que soam como um alarme pra deixar a plateia tensa.

- A ideia do filme se passar em 3 tempos (1 semana, 1 dia, 1 hora) é um mecanismo tolo. Não cria nenhum tipo de ordem na cabeça do espectador, não acrescenta nada à história, não vemos nenhuma conexão especial entre as 3 histórias. É apenas um daqueles truques de Nolan pra narrativa parecer mais elaborada do que é (o "sonho dentro do sonho", etc).

- Um pouco mal explicada a ideia do Mark Rylance partir de barco sozinho pra Dunkirk, arriscar a vida de seus filhos junto. Falta uma motivação melhor, uma explicação mais convincente.

- O filme não tem nenhum desenvolvimento de personagem, não tem protagonista, não estabelece a motivação de ninguém, não cria empatia por ninguém. Fica apenas mostrando homens em situações de perigo, esperando o resgate sem ter muito o que fazer, intercalando eventuais ataques aéreos com outras situações menores de tensão do tipo: soldado quase é esmagado, soldado quase morre afogado, soldado quase é baleado, soldado quase pega fogo, soldado quase explode, etc. Literalmente não há nenhuma história ou conteúdo no filme. É apenas um simulador de parque de diversões como disse acima, pra gente sentir como é estar no meio da guerra...

- O garoto tropeça dentro do barco e fica cego? É um incidente totalmente desnecessário pra história. E de repente ele começa a falar em tom poético, como se tivesse vivendo um drama grandioso, sendo que ele só teve um acidente idiota! O cineasta busca qualquer oportunidade pra mostrar tragédia, personagens "contemplativos" diante da morte, glamourizando o sofrimento humano (não em contraste com valores positivos na história, mas como um fim em si mesmo). Há uma série de acidentes banais (portas que emperram, trens de pouso que enguiçam, etc) só pra mostrar atores com expressões de desespero. (Minha postagem Emoções Irracionais resume bem o filme.)

- Não temos a menor noção de onde estão os inimigos, de quanto tempo falta pra eles chegarem, em quantos eles estão, por onde chegarão, etc... Imagina assistir Titanic sem ter uma ideia de quanto tempo demora pro navio afundar, quanto tempo falta pro resgate chegar, o quão letal é a temperatura da água, etc.

- Todo esse "respeito" que Nolan tenta demonstrar pelo cinema, pela tradição, no fim parece uma grande farsa. Ele grava o filme em 70mm, se apresenta como um defensor da verdadeira experiência cinematográfica, se coloca contra Netflix, ver filme em telas pequenas, etc, mas ao mesmo tempo ele joga no lixo aquilo que é o principal de tudo: a arte de contar histórias. Ele só quer que as pessoas vejam o filme dele em IMAX porque ele sabe que ele não tem nada a oferecer além de imagens e sons impactantes. Se você vê um filme do Kubrick em casa numa VHS velha, ainda é um ótimo filme. O que sobraria de Dunkirk? As pessoas acham que Nolan é o diretor que trouxe de volta a inteligência pros blockbusters, que ele representa uma união entre o cinema comercial e o cinema de arte, entre "corpo e mente", mas no fundo ele é apenas "corpo". Apenas experiência sensorial, sem conteúdo. Não é muito diferente de um Transformers, uma experiência audio-visual desmiolada - a diferença é que Transformers não finge ser algo mais sofisticado do que é.

- Toda essa sub-trama dos soldados escondidos no casco do barco é muito mal desenvolvida: os inimigos praticando tiro ao alvo justo onde eles estão, a ideia deles esperarem a maré subir pra poderem fugir, depois tentando tampar os buracos de bala com as mão pra água não entrar - é tudo muito forçado e mal conduzido. O diretor inventou que não pode mostrar nenhum inimigo no filme, mas isso acaba tornando cenas como essa confusas e irreais.

- SPOILER: Quando chegam os barcos no fim pra resgatar os soldados, eles surgem como um milagre. Não é um "pay-off" pra algo que já estava sendo desenvolvido na trama, é apenas uma solução mágica que cai no colo deles. Não é um resultado satisfatório pra decisões tomadas pelos protagonistas ao longo do filme. E esses barquinhos vão conseguir resgatar 400.000 homens?!

- Mal dirigida a sequência do avião sem combustível no fim que consegue abater o outro avião. E por que todo mundo começa a aplaudir, a musica fica épica? O filme quer dar a sensação de que esse foi o "ataque final", o mais perigoso do filme, e que agora todos estão a salvo e o filme pode acabar. Mas na realidade foi apenas mais 1 ataque como dezenas de outros que ocorreram. Não há nenhuma dinâmica, nenhuma construção ao longo do filme... Ele começa mostrando soldados sendo atacados, e 1 hora e meia depois ainda está mostrando soldados sendo atacados nas mesmas condições. Não houve uma "vitória" especial agora, um senso real de desfecho.

- Péssima toda essa música triunfante no fim, o discurso emotivo, tentando criar uma emoção artificial no espectador, sendo que o filme não se importou em fazer a gente se envolver com ninguém desde o início.

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CONCLUSÃO: O nada mais grandioso do ano.

Dunkirk / Reino Unido, Países Baixos, França, EUA / 2017 / Christopher Nolan

FILMES PARECIDOS: O Regresso (2015) / Interestelar (2014) / Gravidade (2013) / A Árvore da Vida (2011)

NOTA: 3.5

2 comentários:

Anônimo disse...

Segundo o 'Honest Trailer' do filme "Memento", Nolan é o Michael Bay das pessoas que chegaram a ler algum livro na vida. Nesse caso, acho que eles acertaram.
Pedro.

Caio Amaral disse...

Haha.. talvez Pedro.. mas que leram o livro não pelo interesse no conteúdo, e sim pra se sentirem inteligentes segurando o objeto kk. abs.