quarta-feira, 5 de julho de 2017

Os 4 Pilares do Entretenimento

Como disse na postagem O Que Nos Atrai à Arte?, a arte nos atrai porque ela nos oferece um escape para um universo compreensível, benevolente e com significado - um universo adaptado para se adequar às necessidades psicológicas e emocionais do espectador. Queria agora pegar essas características ainda vagas ("compreensível", "benevolente", "com significado") e concretizá-las no que vou chamar de Os 4 Pilares do Entretenimento.

Na minha visão de arte e entretenimento, os grandes filmes (e isso vale pra qualquer arte) são aqueles que melhor satisfazem essas 4 necessidades humanas (indispensáveis para a felicidade):

1. Objetividade
2. Autoestima
3. Benevolência
4. Diversão

Vou expandir um pouco cada um desses itens pra gente compreendê-los melhor.

(Para mais ilustrações e exemplos relacionados a esse tópico, recomendo que vejam também minhas postagens: O Que Nos Atrai à Arte?, Senso de VidaVirtudes e Tipos de Filmes e O Que o Cinema Pode Aprender com o Futebol)

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1. OBJETIVIDADE

É a necessidade de entender a realidade, de ver ordem no universo, estabilidade, coerência, de ter confiança em nossas capacidades cognitivas, de saber da verdade por trás das coisas (o que nos dá um senso de controle e segurança). É a atitude de nunca aceitar a ignorância, a confusão e a incomunicabilidade como o estado natural das coisas. De nunca aceitar o subjetivismo como uma resposta. De ter respeito pela razão.

Uma obra de arte pode satisfazer essa necessidade através de seu conteúdo, mostrando uma trama clara, lógica, criando um universo crível, com regras bem estabelecidas, personagens que agem de maneira consistente - mas principalmente através de seu estilo, na maneira como o artista comunica suas ideias, conduz a atenção do espectador, demonstra seu talento, na clareza com que ele apresenta conceitos em sua obra, na objetividade das técnicas que ele usa pra expressar valores e criar emoções, na maneira como ele retrata a realidade, o ser humano, tornando claro e compreensível aquilo que muitas vezes é caótico e confuso na vida real.

Esse conceito de Objetividade é uma pré-condição pra expressão de todos os outros valores nessa lista. É o que torna os outros 3 possíveis e reais. Se você tentar projetar Autoestima, por exemplo, mas não tiver respeito pela realidade (as ações dos personagens não forem convincentes, ou não forem comunicadas com clareza), a emoção não será real para o espectador. É um valor mais epistemológico, enquanto os outros 3 são mais emocionais. É algo que tende a ser respeitado por obras comerciais, sendo desafiado principalmente por filmes mais alternativos (ou por cineastas que simplesmente não tenham inteligência o bastante pra se comunicarem objetivamente).

É por isso que eu valorizo tanto a clareza na direção cinematográfica, na condução da trama, e por que sou crítico em relação a filmes Naturalistas, niilistas (arte moderna, etc), que pretendem retratar a realidade de maneira ambígua, inconsistente, ou pior, criar um estado de caos na mente do espectador, diminuindo (em vez de aumentar) a confiança dele no poder de sua mente.


2. AUTOESTIMA

É a necessidade de se sentir importante, especial, capaz, orgulhoso, de obter respeito e ser reconhecido por suas virtudes, de ser o melhor em algo, de acreditar no seu potencial individual, de acreditar que a vida deve ser grandiosa, significativa. É a atitude de não aceitar a impotência e incapacidade como a verdadeira essência do ser humano. A banalidade como a essência da vida. Não aceitar os próprios defeitos como coisas naturais, inevitáveis. De sempre desejar virtude, progresso, sucesso - de nunca se orgulhar ou ser condescendente com as próprias falhas.

Uma obra de arte não consegue de fato dar autoestima a uma pessoa, mas pode simular / incentivar essa emoção, e lhe dar estímulo e confiança para conquistá-la em sua vida pessoal. Como sempre, a obra pode satisfazer essa necessidade através do conteúdo (retratando indivíduos admiráveis, contando uma história de superação, mostrando eventos grandiosos, etc), mas principalmente através do estilo - das virtudes demonstradas pelo artista na realização da obra em si (virtudes como domínio técnico, originalidade, inteligência, profundidade, etc), provocando a admiração do espectador pelo trabalho em sua frente (ou seja, mesmo uma obra que retrate personagens maus pode ser inspiradora nesse sentido).

É por isso que sou crítico em relação a filmes Naturalistas, que não só costumam retratar personagens comuns, sem grandes virtudes, com vidas simples, como também não demonstram grandes virtudes técnicas por parte do cineasta, que estão mais focados no retrato da realidade, na mensagem social, etc. E é por isso também que eu critico certas tendências atuais que vão contra a autoestima, como o fenômeno do Herói Envergonhado ou Romantismo Reprimido.


3. BENEVOLÊNCIA

É a necessidade de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores possam ser atingidos. Que os homens devem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas para serem combatidas e superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia e deveria ser (mesmo um filme com final trágico ou um filme sobre um personagem decadente pode ter o valor da Benevolência, desde que ele culpe os resultados trágicos nas irracionalidades dos personagens, e não na vida em si, na natureza humana, etc).

Isso pode ser visto no conteúdo - em histórias onde o bem é retratado positivamente e o mal negativamente, em histórias onde os personagens têm livre arbítrio e o poder de atingir seus objetivos, onde vemos relacionamentos positivos e harmoniosos entre os personagens, onde os heróis são puros moralmente (não aceitam o mal e a corrupção em si mesmos) - mas Benevolência também pode ser vista na forma, na atitude geral do artista em relação ao público: na escolha de mostrar beleza, de se comunicar com o espectador, falar de assuntos que lhe interessam, no desejo de provocar emoções prazerosas e inspiradoras, agradar seus sentidos, se adequar às suas necessidades, etc.

É por isso que sou crítico em relação a filmes com um Senso de Vida malevolente, valores destrutivos, filmes que cultuam a violência de forma inapropriada, glamourizam o sofrimento, que focam apenas em relacionamentos conflituosos, que enaltecem personagens cínicos e imorais, que sugerem que o ser humano é perverso, que a vida é trágica, filmes que são feitos pra expressar os sentimentos agressivos do artista em relação à plateia, etc.


4. DIVERSÃO

É a necessidade por estímulo, excitação, prazer, felicidade, emoções intensas, o desejo de fugir do tédio, da monotonia do dia a dia e dos estados normais de consciência, das regras e dos deveres chatos impostos pelos outros e pela sociedade. É o desejo de tornar a vida interessante e prazerosa. É o que nos faz buscar risada, aventura, catarse, fantasia, êxtase, adrenalina, terror, lágrimas, surpresas, etc. É a atitude de não aceitar o tédio, a monotonia ou a melancolia como os estados naturais e inescapáveis do ser humano. De considerar a felicidade o estado de consciência mais elevado e desejável. De não achar uma virtude a habilidade de reprimir seus desejos, de sacrificar seus prazeres, de praticar estoicismo, etc.

Isso pode ser visto no conteúdo de uma obra - por exemplo, em filmes onde os personagens passam por grandes aventuras, situações divertidas, vivem momentos emocionantes, etc, mas principalmente no estilo, no método em que a história é contada: se há suspense, envolvimento, surpresas, emoções intensas, se o ritmo da história é estimulante, se os eventos apresentados são incomuns, falam sobre assuntos de grande interesse pro espectador, etc (ou seja, mesmo um filme sobre uma história trágica ou um monólogo podem ser "divertidos" nesse sentido).

É por causa do pilar da Diversão que enfatizo tanto a questão da narrativa, do envolvimento na história, do clímax, o Princípio da Ascensão, os Set Pieces, e é por isso também que critico filmes Naturalistas, sem trama, ou filmes que colocam a função social / educativa / cultural / jornalística da obra acima da experiência emocional da plateia.

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Ou seja, todo filme que eu avalio negativamente aqui no blog, é porque de alguma forma ele desrespeitou ou não foi bem sucedido em erguer esses 4 pilares, todos eles indispensáveis. É aceitável alguns desses pilares serem mais dominantes, e outros menos dominantes num filme em particular, mas todos eles precisam estar presentes em algum nível. Se algum pilar for totalmente derrubado, subvertido, os outros pilares começarão a desmoronar também.

Notem que em muitos pontos essas ideias começam a se sobrepor, e que é impossível expressar 1 desses valores sem começar a expressar alguns dos outros também. Por exemplo: pra demonstrar virtudes e inspirar Autoestima no espectador, é preciso primeiro que exista o valor da Objetividade em algum nível (você só pode se sentir inspirado por ações e valores que você possa observar, acreditar, e que estejam sendo comunicados racionalmente pelo artista). E ao estimular esse sentimento de Autoestima na plateia, haverá também um senso de Benevolência envolvido na experiência.

Em postagens futuras posso explorar melhor algumas questões que possam surgir a partir daqui, como por exemplo o princípio do contraste. Pensem comigo: pra expressar o senso de Benevolência de maneira satisfatória, é preciso incluir uma certa dose do oposto disso na obra (medo, pessimismo, rejeição, etc), pois a mente percebe valores através de contrastes e comparações. Ou seja: pra ficarmos felizes que o casal fica junto no final, é preciso antes sentirmos o medo da perda. Pra ficarmos admirados com a superação do herói, é preciso antes sabermos de suas vulnerabilidades e temermos uma possível derrota. Ou seja, um filme não pode ser literalmente positivo do começo ao fim em todos os seus aspectos - mas há maneiras apropriadas de incluir esses elementos "negativos" necessários, e maneiras inapropriadas, que acabam comprometendo os valores positivos.

Outra questão importante pra ser discutida é a do relativismo moral. Por exemplo: se uma pessoa acha que a razão é algo destrutivo e opressor, e sente um grande prazer vendo uma obra niilista pós-moderna, isso significa que a obra gerou um senso Benevolência? Diversão? Se uma pessoa frustrada com a própria vida sente satisfação ao ver a derrota de personagens virtuosos, isso torna a obra Benevolente? Ou se um artista pouco confiante vê uma obra mediana e sente um certo alívio por não se sentir inferior, isso gerou Autoestima?

Minha resposta é não, pois acredito num padrão racional de ética - ou seja, que aquilo que é bom, é bom porque de fato promove a vida, torna o ser humano mais apto pra lidar com a realidade, viver bem, etc. Claro que no meio disso tudo há muito espaço para discussão, gostos individuais, diferenças perfeitamente aceitáveis entre as pessoas, o que não invalida a objetividade de certos princípios morais básicos. Mas o propósito dessa postagem não é o de discutir essas possíveis distorções psicológicas que possam erguer "falsos pilares", apenas o de esclarecer a natureza das emoções indispensáveis para os grandes entretenimentos.

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