quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Um Contratempo

NOTAS DA SESSÃO:

- Bem produzido, locações bonitas. Um pouco clichê essa ideia do cara inocente acusado de matar a esposa, e aos poucos o filme ir revelando os detalhes em flashbacks, etc. Mas pelo menos é algo que sempre prende a atenção.

- A cena do acidente é envolvente, cria suspense (lembra um pouco A Negociação com o Richard Gere). Ver personagens mentindo e se enfiando em complicações cada vez maiores é sempre uma narrativa envolvente. Mas há vários detalhes forçados. Por que o carro deles não está amassado? Não chegou a bater em nada? Mas se não bateu em nada, por que ele não dá mais partida? A atitude da amante (Laura) também é muito forçada. Eles começam a agir como criminosos, colocam o cadáver no porta-malas, roubam o celular e a carteira da vítima, etc. Eles não foram responsáveis pelo acidente! Foi só um cervo que atravessou a pista. Eles fazem tudo isso só pra ninguém descobrir que o cara estava no carro com a amante? A Laura não podia ir embora de táxi e deixar o Doria chamar a polícia e explicar o acidente sozinho?

- SPOILER: Forçado passar um cara especialista em consertar esse tipo de carro (numa estrada que não passa quase ninguém) e se oferecer pra guinchar o veículo, etc. Pior ainda é a coincidência de ser justamente o pai do garoto que morreu no acidente. E depois a Laura estar com o celular do garoto, e o celular tocar enquanto ela está na casa dos pais dele, etc. A intenção do filme de criar um suspense meio hitchcockiano é boa, mas o roteiro depende de muitas ideias forçadas pra funcionar.

- Forçado o pai da vítima sacar que a Laura estava mentindo que era dona do carro, por ter ajustado o banco do motorista, ou então reconhecer o isqueiro do Doria, etc. É como se eles tivessem matado o filho do Sherlock Holmes!

- O filme é uma série de flashbacks expositivos. Não está querendo levar o espectador numa narrativa prazerosa, criando cenas interessantes de se ver, revelando as surpresas de maneira compreensível, deixando o espectador digerir um dado de cada vez - está apenas querendo provar a própria engenhosidade, provar que o cineasta é mais esperto que a plateia. É uma espécie de racionalismo - o prazer do autor é criar um quebra-cabeça altamente complexo, ficar brincando com ideias e com as conexões entre essas ideias. Mas não está nem aí se os eventos fazem qualquer sentido, se seriam prováveis, se a narrativa é compreensível pro espectador, etc.

- Outro problema é que não sabemos se o que vimos ao longo do filme é real, ou se eram flashbacks falsos. O próprio protagonista parece estar mentindo. O filme exige que a gente faça um enorme esforço mental pra tentar entender a trama, conectar todos os pontos, ao mesmo tempo em que sugere que pode ser tudo em vão. A cada meia hora, temos uma nova versão da história que invalida o que sabíamos antes. Qual a motivação do espectador então pra prestar atenção nos detalhes? O filme desrespeita a plateia. O diretor sabe que nenhum espectador pode reter tantas informações, considerar tantas variáveis ao mesmo tempo, e conta com esse fato pra funcionar. Ele sabe que em algum momento o espectador irá desistir de verificar todas as informações, e vai apenas se render à "genialidade" do autor (como se esse fosse o propósito de se ver um filme).

- SPOILER: A situação no apartamento entre Doria e a advogada começa a ficar cada vez mais sem sentido (ela tentando convencer o cara a incriminar a amante, etc). Todo o final é ridículo (a advogada tirando a máscara, etc). Depois que o filme abandona a realidade, nada mais parece "engenhoso" ou "surpreendente".

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CONCLUSÃO: Suspense desonesto, irracional e desagradável de acompanhar.

Contratiempo / Espanha / 2016 / Oriol Paulo

FILMES PARECIDOS: A Garota no Trem (2016) / Garota Exemplar (2014) / A Negociação (2012) / A Origem (2010)

NOTA: 3.0

6 comentários:

Anônimo disse...

Algumas pessoas tem uma queixa similar de "Os Suspeitos", que o filme todo é a narrativa do personagem do Kevin Spacey, e quando no final se revela que ele estava mentindo, não sobraria nada da história. Foi um bom filme, mas talvez tenha estimulado esse uso abusivo de truques para enganar o espectador.
Pedro.

Caio Amaral disse...

Oi Pedro.. olha, deve ter uns 15 anos que não vejo Os Suspeitos.. então prefiro não comparar.. Não lembro se era o caso, mas se o filme reserva 1 única surpresa pro final, mas a experiência em si de assistir o filme foi agradável, fácil de acompanhar, e só no fim ele "puxa o tapete", daí nem sempre é ruim.. o problema aqui é que em meia hora de filme nada mais soa plausível, e vc não consegue mais acompanhar a trama.. abs!

Anônimo disse...

Só pra esclarecer um pouco mais, aqui está a crítica a Os Suspeitos feita pelo Roger Ebert, que não gostou muito do filme:
http://www.rogerebert.com/reviews/the-usual-suspects-1995

Caio Amaral disse...

Ah sim... pela crítica, parece exatamente o que estou falando aqui... Eu tenho uma lembrança muito particular de Os Suspeitos... Vi a primeira vez assim que saiu em VHS... lembro de ver com a minha mãe (eu devia ter uns 13 anos) e de ao longo do filme começar a questionar minha inteligência... por não estar entendendo nada do que via na tela... como se eu tivesse algum tipo de limitação, ou fosse muito inculto ainda... tenho uma lembrança muito específica desse dia, eu vendo o filme pensando no dia em que eu virasse adulto e pudesse ver um filme como esse entendendo tudo, assim como minha mãe estava entendendo (supostamente). A outra vez que senti isso foi quando vi A Lista de Schindler.. eu tinha apenas uns 11 ou 12 anos.. só que A Lista de Schindler, quando eu revi adulto, o filme fez bastante sentido.. e percebi que realmente não era material pra um garoto.. o filme exigia certo contexto.. Os Suspeitos eu só vi 1 vez depois.. quando ainda era adolescente.. e mesmo assim lembro de poucos detalhes da história.. continuei com a impressão de que tinha uma inteligência limitada, rssss..

Marcela Farias disse...

Depois de indicações de que esse seria um ótimo filme, resolvi assistir Contratempo e concordo com tudo que você disse,logo no início quis abandonar porque achei muito absurdo todos os eventos na estrada, eles atuam como se fossem criminosos mesmo, quando se sabe que teriam outras formas de escapar daquilo. Achei um enredo bem forçado.
Com plost twist em cima de plost twist fiquei na dúvida qual a realidade dos fatos. Parecem suposições em cima de suposições.

Caio Amaral disse...

oi Marcela.. eu também me desconecto da história quando sinto q o cineasta fica forçando o comportamento dos personagens só pra conseguir mais e mais conflitos, etc.. isso acontece o filme todo. Abs!