sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

- Antes de falar do novo, é bom dizer que não sou exatamente um fã ardoroso de Blade Runner, o Caçador de Andróides. Acho que é uma das produções visualmente mais espetaculares já feitas, uma verdadeira obra-prima em termos de design de produção, direção de arte, fotografia, etc - mas sempre achei a história sem força dramática, a investigação pouco envolvente, o protagonista meio distante e impessoal, além de não gostar do clima melancólico, da visão deprimente do futuro, etc. Ainda assim, há tanto talento e originalidade na produção (a trilha sonora icônica de Vangelis, por exemplo) que eu ainda tenho bastante respeito pelo filme.

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NOTAS DA SESSÃO:

- Visualmente o filme impressiona se comparado a filmes atuais em geral. Mas comparado com o Blade Runner original, ele é menos sofisticado. No antigo, cada centímetro de cada cenário parecia cuidadosamente planejado, criado especialmente pro filme e nos transportava pra um mundo jamais visto. Todos os cenários eram deslumbrantes. Aqui, você tem algumas cenas pontuais com enquadramentos espetaculares (a maioria está no trailer), mas no decorrer do filme você tem um visual mais casual e realista do que o primeiro, com menos cor e algumas sequências em ambientes que parecem ser até aqui do nosso mundo.

- No começo a história é um pouco parada. 'K' (Ryan Gosling) não age por uma motivação pessoal, está apenas cumprindo seu dever de forma apática (nós não torcemos pra ele matar replicantes, a descoberta de que replicantes podem ter filhos não parece impacta-lo especialmente, etc).

- As cenas envolvendo aquela "esposa" de holograma não são muito fortes (o sexo a 3 mais pro meio do filme), afinal o 'K' também é um robô. Toda essa discussão sobre inteligência artificial só ganha uma dimensão moral interessante quando se trata de um relacionamento entre um humano e uma máquina, e a máquina começa a se parecer demais com um humano (como em Ela, 2001: Uma Odisséia no Espaço, etc). Mas se 'K' também é uma pessoa artificial, fica estranho o filme retratar essa relação com esse tom de cinismo - mostrando o "vazio" moderno de uma pessoa real se relacionar com uma máquina, etc.

- A trilha sonora é impactante, mas não chega a ser boa música (pelo visto Hans Zimmer não precisa de Christopher Nolan pra abraçar essa tendência). São efeitos sonoros agressivos e diferentes - e um monte de BAUM.

- Em termos de narrativa, esse filme tem uma dose bem maior de névoa e subjetivismo do que o primeiro (outra influência de Nolan?). No primeiro, seguíamos uma trama totalmente clara e compreensível. Os elementos subjetivos (sonhos, origamis, etc), eram claramente destacados da trama principal. Aqui, há uma série de cenas mal explicadas, tecnologias incompreensíveis, detalhes confusos propositais que vão tirando o espectador do comando da história, dando um clima intangível pra tudo.

- SPOILER: Quando 'K' começa a desconfiar que é o filho perdido da Rachael, isso cria um drama mais pessoal pra história que não havia antes, o que é bom.

- SPOILER: Faz sentido o 'K' encontrar o cavalinho de madeira no lugar que ele lembrava ter escondido? Afinal, mesmo que a memória não seja dele, por que a pessoa que escondeu o cavalo ali não teria ido buscá-lo depois que se livrou dos bullies? Sendo que era algo tão precioso pra ela? E se essa é uma memória pessoal da Dra. Stelline distribuída pra vários replicantes, um outro replicante antes de 'K' já não o teria encontrado ali nesses anos todos? É o tipo de toque confuso que vai deixando o filme meio "Nolanesco".

- Uma coisa é fato, o filme tem diálogos bem ruins e superficiais. Algumas frases beiram o trash. Se fosse um filme de ação despretensioso eu não ligaria, mas pra um filme que pretende discutir temas filosóficos, profundos, isso é algo que prejudica.

- SPOILER: Por que o 'K' tem essa reação dramática quando descobre que o cavalinho é uma memória real? Ele ainda não sabe se é uma memória dele. E 'K' é um cara distante, frio, não combina com ele explodir assim. Não há contexto psicológico. Parece que isso é só porque o cineasta quis 1 momento mais visceral pro Ryan Gosling poder competir ao Oscar. Mas torna a cena meio confusa... Eu por exemplo comecei a pensar na teoria de que o Ryan Gosling poderia ser uma pessoa real, e que a empresa do Wallace estava secretamente sequestrando seres humanos, fazendo uma espécie de lavagem cerebral pra eles pensarem que eram replicantes (aquele teste que 'K' passa na empresa diariamente na sala branca), e usando os humanos como escravos - o que faria muito mais sentido no contexto da história, já que o grande problema de Wallace é não conseguir fabricar tantos replicantes quanto gostaria para o seu projeto (o que é bem improvável considerando a tecnologia da época). Aliás, toda essa meta do Wallace de querer engravidar replicantes é muito ruim. Até parece que isso seria mais prático e produtivo do que simplesmente fabricar mais.

- Falso o 'K' mentir pra Joshi (Robin Wright) dizendo que matou a tal criança replicante, e ela acreditar sem nenhuma evidência, só porque ele disse. Não há nenhum protocolo básico quando se "aposenta" um replicante?

- Veja a insanidade desse roteiro: o 'K' descobre uma radiação no cavalinho, e segundo o expert essa radiação por algum motivo só poderia ter vindo de Las Vegas (isso já seria forçado o bastante). Daí 'K' vai até lá, décadas depois do cavalinho ter sido feito, e encontra facilmente o Harrison Ford, justamente a pessoa que ele procurava.

- Todo esse encontro entre os 2 é péssimo. O diretor usa lentidão pra dar criar um clima épico e cerimonioso pra tudo, sendo que na história em si não há nada de épico acontecendo. Harrison começa a atirar no Ryan Gosling sem nenhuma necessidade, os 2 começam a lutar de forma estúpida... É uma tentativa artificial de acrescentar drama a um filme que não tem nenhum (oh, Deckard aparece pela primeira vez desde 1982, precisamos fazer qualquer coisa pra tornar esse momento intenso!).

- SPOILER: Tem alguma lógica a Dra. Stelline que fabrica as memórias (e que estava ajudando o 'K' na investigação) ser justamente a filha do Harrison Ford? Ou é só mais uma coincidência pra dar aquela sensação de que o universo é um lugar misterioso com uma ordem mística que não devemos tentar entender (e que permite o roteirista se safar com qualquer ideia que passe por sua cabeça)?

- SPOILER: O clímax é simplesmente fraco. A ação é ruim, visualmente não há nada de épico nesse carro meio afundado na água, a vilã morre de forma esquecível, a trilha é um zumbido constante que nem se pode chamar de música, a ideia do 'K' resolver se sacrificar por uma causa maior é clichê e tediosa... E o reencontro do Deckard com a filha não emociona (a personagem é meio sinistra, o filme não cria nenhuma empatia por ela).

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CONCLUSÃO: As "táticas Nolan" tornam a produção imponente num nível superficial, mas na realidade é um filme mal escrito, mal dirigido, feito sem 1/5 do talento e do bom gosto do primeiro.

Blade Runner 2049 / EUA, Reino Unido, Canadá / 2017 / Denis Villeneuve

FILMES PARECIDOS: Alien: Covenant (2017) / A Chegada (2016) / Mad Max: A Estrada da Fúria (2015) / Interestelar (2014)

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NOTA: 4.5

6 comentários:

Sérgio Buchholz Sottili disse...

Caramba! Eu esperei tanto a análise pra ver se era unânime a qualidade desse filme. hehehe
Agora fiquei mais curioso para ver o filme, visto que as tuas dissertações são as mais sensatas.

Caio Amaral disse...

Oi Sérgio...! Ainda não li nenhuma crítica, mas sei que o filme vem sendo muito bem recebido.. As "unanimidades" de hoje em dia quase sempre me desagradam, hehe.. mas se você gostou desses outros filmes que eu listei no fim (A Chegada, Interestelar, etc) pode ser que curta... abs!

Daniela Cristina Arengui disse...

Oi Caio! Bem, eu entendi que a Dra Stelline nem sempre colocava as mesmas memórias nos replicantes é mesmo que a história do cavalinho tivesse na mente de outros, não acharam revelante, pois sabiam que não tinham sido criança. Acho que ela não pôde buscar o cavalinho, pois precisava ficar isolada devido imunodepressão, o que vamos saber se era real se houver continuidade...

Caio Amaral disse...

Oi Daniela, mas daí a dúvida que fica é: se todos os replicantes têm plena consciência de que suas memórias são artificiais.. qual a utilidade de implantá-las? Como ter "memórias" assim os tornarão mais humanos, empáticos, etc? abs.

Mariana Soto disse...

O que eu mais gostei foi fotografia, uma experiência visual.

Caio Amaral disse...

Ah sim.. nisso o filme realmente se destaca..