segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Kubo e as Cordas Mágicas

História péssima, valores péssimos, personagens péssimos. Uma celebração sem talento do altruísmo, dos "heróis envergonhados". Não tive paciência de fazer anotações - só vou postar a nota aqui pra fazer um balanço dos indicados ao Oscar (continuo achando Moana o melhorzinho da categoria Animação).

Kubo and the Two Strings / EUA / 2016 / Travis Knight

FILMES PARECIDOS: A Canção do Oceano (2014) / Festa no Céu (2014) / Coraline e o Mundo Secreto (2009)

NOTA: 3.0

domingo, 29 de janeiro de 2017

Quatro Vidas de um Cachorro

NOTAS DA SESSÃO:

- Uma graça o garotinho que faz o Ethan criança. A ideia da narração ilustrando os pensamentos do cachorro é bem fofa também (a amizade com o garoto, o cachorro buscando o sentido da vida, reagindo às situações do dia a dia, etc). A produção é bonita visualmente e os animais bem dirigidos.

- A história é um pouco episódica. Apesar do cachorro ter pensamentos, ele não é humanizado totalmente pelo filme - ele não age em direção a um objetivo a longo prazo, etc, o que impede a história de desenvolver uma narrativa forte. Ficamos apenas assistindo "pedaços da vida" que o cachorro presencia: o namoro de Ethan, as brigas de família, o incêndio - o que depois de meia hora vai deixando o filme um pouco monótono.

- Como todo filme de cachorro, há a inevitável cena da morte pra fazer a plateia chorar. A grande sacada aqui é que como o cachorro tem várias vidas, o filme pode usar esse recurso diversas vezes - a cada meia hora o cachorro morre de novo pra entreter a plateia.

- SPOILER: Depois que o Retriever morre fica um pouco distante a história. O pensamento do cachorro continua com a mesma voz, mas mesmo assim perdemos um pouco do envolvimento com o personagem. Os novos donos não são tão legais quanto o primeiro. O filme só vai voltar a ter interesse mais pro final, quando há o reencontro com o Ethan.

- Filmes de cachorro sempre me parecem um pouco como filmes religiosos (tipo Nosso Lar) ou filmes sobre gravidez. Eles assumem que o espectador já está automaticamente encantado pelo tema por razões pessoais, pré-disposto a exaltar aquele universo, então não se preocupam em narrar a história de maneira universal, prendendo o interesse através de recursos narrativos sólidos, drama, etc. Funcionam melhor para os "fieis".

- É um pouco incômodo que ao longo da história vamos ficando com a impressão de que o "propósito" real do cão é apenas servir o humano: entretê-lo, fazer companhia, ajudá-lo a achar um par romântico - como se fossem os brinquedos do Toy Story. Em nenhum momento o filme mostra que a vida do cão tem um propósito em si independente do que ele faz pro humano.

- SPOILER: É legal a ideia do reencontro com o Ethan no final. Só acho meio suspeita a guinada mística que o filme dá, levando a sério a ideia de que cachorros reencarnam, etc (mais um paralelo com os filmes religiosos).

- SPOILER: Nada empolgante o retorno no final entre o Ethan e a ex-namorada de adolescência. O filme não dá um bom motivo pra gente torcer pra eles ficarem juntos. A não ser as noções conservadoras de que términos são sempre ruins (portanto a plateia sempre irá torcer por um casal separado) e que estar num relacionamento é sinônimo de felicidade e portanto é sempre melhor do que estar solteiro.

- SPOILER: O propósito da vida que o cachorro encontra no final é um pouco frustrante (não é um pay off satisfatório após tanto questionamento). Também não gosto do tom coletivista da história. O filme não é sobre 1 cão específico, com uma personalidade única, um propósito único, individual. Ele é sobre todos os cães em geral, sobre o propósito da espécie, etc.

------------------

CONCLUSÃO: Fofo e agradável visualmente, mas a história sofre dos mesmos problemas que a maioria dos filmes sobre animais de estimação.

A Dog's Purpose / EUA / 2017 / Lasse Hallström

FILMES PARECIDOS: Cavalo de Guerra (2011) / Marley & Eu (2008)

NOTA: 5.0

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Até o Último Homem

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção é de qualidade e a história começa bem contada (a infância do protagonista, o que o fez se tornar não-violento, depois a apresentação dos soldados no exército, cada um com uma característica marcante, etc). Andrew Garfield tem uma aura inocente que o torna perfeito pra esse tipo de papel.

- O conflito dele querer ir pra guerra mas se recusar a tocar em armas é interessante, gera uma série de obstáculos, embora não faça muito sentido (é fácil entender por que ele acha errado agredir outra pessoa, mas ele não sabe explicar qual o problema na auto-defesa). De qualquer forma, simpatizo pela ideia de que cada um deveria ser livre pra escolher o que quer fazer, e dá pra admirar o senso de integridade do herói.

- Não compartilho dos valores altruístas / cristãos do filme: a ideia de que heroísmo é se sacrificar pelos outros, de que orgulho é pecado, etc - o que tira boa parte do interesse e do impacto da história (pra mim pelo menos). Ainda assim queremos saber se ele irá sobreviver, por que situações irá passar na guerra, etc.

- A primeira batalha é uma sequência bem intensa, embora o apelo pra violência seja de mau gosto.

- O filme funciona um pouco na base da culpa que deseja provocar na plateia, como se dissesse através da história: "Vejam só como o herói arrisca sua própria vida, como ele é muito mais 'corajoso' e altruísta do que vocês jamais serão - isto sim é um ser humano respeitável!". Ele prega valores incompatíveis com a vida e com a natureza humana (algo típico das religiões).

- É bonita a cena dele tentando salvar o Smitty (que era o bully no início). Só acho que isso devia ter sido guardado mais pro final, pois não há uma outra relação / rivalidade à altura na história pra gerar um clímax maior depois.

- Parece que falta mais 1 ato na história. A primeira metade foram eles se preparando pra guerra... E a segunda metade toda é basicamente 1 longa sequência de ação. Em termos de drama a história não ganha uma dimensão mais profunda, um conflito inesperado. O personagem não passa por nenhum arco. Desde o começo ele disse que não tocaria em armas, e que iria pra guerra pra ajudar os feridos - e o que vemos é exatamente isso! Apenas uma confirmação do que já esperávamos. Ele não passa por nenhuma transformação, nenhuma tentação, nenhum obstáculo além do previsto. Se ele fosse um cara fechado e egoísta, e que ao longo da guerra se transformasse nesse santo benevolente, daí haveria um arco mais satisfatório (ou então se ele fosse um covarde que tivesse que superar seus medos pra salvar os amigos, etc).

- 1 cena chave que faltou no filme é um momento onde ele teria que escolher entre usar uma arma pra se salvar / salvar um amigo, ou então ser pego pelo inimigo.

- SPOILER: É um pouco repetitiva a sequência final. No dia seguinte eles voltam de novo pra mesma batalha e apenas acontece mais do mesmo. Um grande videoclipe glamourizando a guerra e a violência. A única coisa nova que acontece com o protagonista é que dessa vez ele é gravemente ferido. O filme trata o ferimento dele como se fosse o clímax - a última coisa que faltava acontecer na história pra provar que o Doss é de fato um herói. Pelo visto até então ele não tinha se sacrificado o bastante pela ética do filme, mas agora sim ele se provou digno e o filme pode acabar (!). No fim da batalha quando ele está sendo abaixado pela corda no despenhadeiro, Gibson fotografa a maca contra o céu, dando mais a impressão de que ele está sendo içado por Deus para o paraíso.

- Acho estranhos os depoimentos no final. Aparecer uma foto ou outra do personagem real é meio que uma convenção do gênero, ainda dá pra aceitar. Mas aqui é praticamente um extra de DVD enfiado antes dos créditos.

------------------

CONCLUSÃO: Energético e bem realizado, mas o terceiro ato é um pouco insatisfatório e os valores cristãos tornam tudo meio enfadonho.

Hacksaw Ridge / Austrália, EUA / 2016 / Mel Gibson

FILMES PARECIDOS: Sniper Americano (2014) / Corações de Ferro (2014) / O Grande Herói (2013) / Cavalo de Guerra (2011) / O Resgate do Soldado Ryan (1998)

NOTA: 7.0

domingo, 22 de janeiro de 2017

Manchester À Beira-Mar


NOTAS DA SESSÃO:

- Amo o ator-personagem. Casey Affleck está perfeito. Ele não é particularmente ambicioso, mas é dedicado ao trabalho, inteligente, parece super capacitado no que faz, e apesar de anti-social tem boa índole (embora às vezes ele passe do ponto ao agredir pessoas em bares, etc). Uma tática que o filme usa é mostrar sempre as pessoas flertando com ele - o que subconscientemente vai tornando o personagem mais atraente pra plateia também.

- Demora até surgir um conflito mais envolvente no filme. É um começo meio Naturalista, porém interessante, pois os personagens são positivos, escritos com sensibilidade psicológica, bem atuados, e também porque há certa curiosidade em descobrir o que aconteceu no passado do Casey Affleck pra todos se referirem a ele como "o" Lee Chandler. Depois de uns 50 minutos, surge a questão dele se tornar o guardião do sobrinho, daí o filme ganha uma direção mais clara, pois ele fica dividido entre o senso de responsabilidade que sente pelo sobrinho e os traumas que teria que superar pra voltar a morar na cidade, etc.

- Fortíssima a sequência de flashback que revela o acidente com os filhos. O filme ganha uma nova dimensão a partir disso.

- Recentemente falei mal de Sete Minutos Depois da Meia-Noite por ser um filme sobre pessoas sofrendo - a grande diferença entre aquele filme e um filme como Manchester À Beira-Mar (que me faz ter antipatia por um mas não por outro) é o fato de que aqui não existe o sentimento de auto-piedade. O Casey Affleck passa por diversas dificuldades, mas ele se mantém independente, responsável, em nenhum momento se coloca como uma vítima injustiçada do universo (uma técnica infalível pra me fazer perder simpatia por um personagem).

- Geralmente também reclamo de filmes onde predominam relações negativas e conflituosas. Aqui, o Casey Affleck e o sobrinho parecem a primeira vista estarem sempre discutindo - a diferença é que fica sempre claro que no fundo eles se gostam, e que essa atitude provocadora é apenas uma maneira deles fortalecerem os laços e a intimidade (desde a primeira cena no barco, quando Patrick é pequeno e está pescando com o tio, fica claro que essas "brigas" são uma forma de expressar afeto). A relação entre os dois é o que sustenta e prende a gente à história - em particular a relutância do Casey Affleck em se responsabilizar pelo Patrick. É uma história de amor familiar, e o filme é bem sucedido em fazer a gente torcer pelos 2. 

- É interessante como o filme, mesmo contando uma história triste, consegue criar um universo atraente do qual gostaríamos de fazer parte (gosto até do visual - apesar da fotografia e das paisagens não serem especialmente belas, há algo de atraente na maneira como o filme retrata o universo de Manchester - os temas visuais que se repetem como a água sempre rodeando as locações, as garrafas de cerveja, o frio - da neve, do frango no freezer, do corpo congelado do pai, etc). É o que digo na postagem O Que Nos Atrai à Arte? - na vida real, essas situações de perda, problemas familiares, geralmente parecem deprimentes, confusas, sem sentido. Mas aqui, o filme transforma isso num período cheio de beleza, significado, transformações pessoais, etc.

------------------

CONCLUSÃO: História tocante sobre relações familiares com uma performance impecável de Casey Affleck.

Manchester by the Sea / EUA / 2016 / Kenneth Lonergan

FILMES PARECIDOS: Tudo por Justiça (2013) / Álbum de Família (2013) / A Lula e a Baleia (2005) / O Segredo de Brokeback Mountain (2005) / Conte Comigo (2000) / Gente Como a Gente (1980)

NOTA: 8.5

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sing Street


Foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme - Musical ou Comédia esse filme irlandês escrito e dirigido por John Carney (de Apenas Uma Vez e Mesmo Se Nada Der Certo) sobre um grupo de garotos de Dublin formando uma banda nos anos 80 pra impressionar uma garota. 

É tipo um Superbad mas mais inocente, sem os palavrões, que mostra de forma divertida as tolices que os garotos fazem pra conquistarem garotas na adolescência (e confirma uma velha impressão minha de que a maioria dos músicos entram no ramo não por uma paixão específica pela arte, mas apenas como uma estratégia pra se tornarem mais atraentes pro sexo desejado - e tomam todas as suas decisões artísticas não baseados em preferências estéticas pessoais, mas no quão "sexy" eles irão parecer pros outros, rs).

Em termos de execução o filme não tem nada de muito virtuoso - é apenas bem feito, simples (como comédias em geral devem ser), e funciona pelo carisma dos atores, personagens, pela premissa divertida e o ótimo senso de humor (que vem sempre acompanhado de diálogos e insights inteligentes que revelam uma camada surpreendente de maturidade no roteiro).

É um filme despretensioso sobre pessoas adoráveis se juntando em busca de um objetivo positivo e se divertindo no processo. Destaque pra seleção de músicas dos anos 80 e pras canções originais que em geral são muito boas. (Já está disponível no Netflix.)

----------------

Sing Street / Irlanda, Reino Unido, EUA / 2016 / John Carney

FILMES PARECIDOS: Mesmo Se Nada Der Certo (2013) / Superbad: É Hoje (2007) / Pequena Miss Sunshine (2006) / A Garota de Rosa Shocking (1986)

NOTA: 7.5

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

NOTAS DA SESSÃO:

- Muito bonita a fotografia. Lembra filmes dos anos 80.

- O monstro aparece muito rápido no filme, sem preparo. Não é nada realista, fica claro que é tudo uma fantasia na cabeça do garoto - e isso tira o sentido das cenas em que o filme tenta criar suspense em cima da presença física da árvore (o portão que abre sozinho, a árvore mudando o centro de gravidade e puxando as coisas pra ela, etc). Achei que fosse ser um filme real de monstro, mas claramente ele está indo mais pra um lado psicológico.

- A relação com a avó é mal construída. Por que ele detesta tanto ela? Ela parece uma pessoa perfeitamente razoável com o neto. Parece que é só pra mostrar que ele tem uma infância difícil.

- A primeira história que o monstro conta é horrorosa. Ele quer ensinar relativismo moral pro garoto: que ninguém é perfeitamente bom ou mau, que há sempre algo de imoral por trás de uma fachada inocente, etc.

- O filme não tem uma trama interessante - o propósito todo é fazer a gente ter pena do garoto por ele ser tão sofredor (como se isso em si fosse uma virtude). Ele não tem nenhum objetivo positivo, não há nada pra plateia desejar na história - apenas assistir uma vítima reagindo a eventos desagradáveis. A única coisa que ele "quer" é não sofrer - não ficar totalmente arrasado na hora que a mãe morrer.

- A segunda história do monstro também é péssima: um conflito desagradável entre 2 homens de caráter duvidoso, e que ainda fica promovendo misticismo. Eles destruírem a casa do pai que acabou de perder as 2 filhas é de uma maldade abominável. O que o garoto irá tirar de útil desses contos?

- Odioso o garoto quebrar o relógio antigo da avó! O filme quer glamourizar o fato dele ser perturbado emocionalmente, confuso. Mas quando a confusão dele começa a prejudicar pessoas inocentes não dá mais pra simpatizar pelo personagem.

- Todas as relações do filme são conflituosas, desagradáveis. O protagonista com a avó, com o monstro, com o pai, com os bullies, com a diretora da escola...

- SPOILER: Pavorosa a moral da quarta história, quando o monstro faz o menino acreditar que ele queria que a mãe morresse pra ele parar de sofrer. Pensamento típico de quem tem um Senso de Vida malevolente - a ideia de que há um certo alívio em perder as coisas que mais gostamos. Em nenhum momento ao longo do filme foi sugerido que ele tinha sentimentos mistos em relação à mãe, que isso era um conflito interno dele. A mãe era a única pessoa que ele parecia gostar de fato na história.

- SPOILER: O filme gosta tanto de sofrimento que não criou 1, mas 2 cenas de leito de morte com a mãe. A segunda quando ela finalmente morre claro que é comovente, até pela reação mais amadurecida do garoto, etc. Mas ainda não sei o que as histórias todas do monstro serviram pra isso, e o que esse reconhecimento (de que ele "queria" que a mãe morresse) ajudou no luto.

------------------

CONCLUSÃO: Visualmente bonito e com uma cena emocionante no final, mas a história não tem muita coerência psicológica e é totalmente focada no negativo.

A Monster Calls / EUA, Espanha / 2016 / J.A. Bayona

FILMES PARECIDOS: O Bom Gigante Amigo (2016) / Onde Vivem os Monstros (2009) / Um Olhar do Paraíso (2009) / O Labirinto do Fauno (2006)

NOTA: 5.0

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

La La Land: Cantando Estações

NOTAS DA SESSÃO:

- Não me empolga muito a cena inicial no trânsito. O plano sequência parece apenas pra chamar atenção pro diretor, não pra criar uma cena melhor. A música não é muito boa, nem a coreografia. Só se destaca pelo simples fato de ser uma sequência musical nos dias de hoje - não por apresentar uma série de boas ideias ou algo de especialmente criativo ou bonito.

- Visualmente o filme também não sabe falar a língua dos musicais. Planos-sequência dão um senso de improviso, realismo, deixam momentos de vazio e silêncio - o que é o oposto da atitude do gênero musical. Detalhes como a cena em que a câmera fica no centro da piscina girando enquanto as pessoas dançam em volta revelam a falta de tato do cineasta. Pra que colocar "Cinemascope" no início do filme, ficar fazendo referências saudosistas à Hollywood, se a intenção do filme na verdade era a de desconstruir os musicais? Minha postagem Romantismo Reprimido resume bem o filme.

- A personagem da Emma Stone não é apresentada como alguém especialmente interessante, carismática. Não sabemos se ela tem qualquer talento. O filme quer que a gente se identifique com ela apenas pelo fato dela não ter sucesso e se sentir "injustiçada".

- A direção é ruim. O diretor fica exibindo seu estilo às custas da história. Está tão preocupado com seus planos-sequência que mal registra o rosto do Ryan Gosling quando o personagem é apresentado (em compensação, não hesita em fazer pequenas sequências com cortes rápidos, closes em objetos aleatórios, instrumentos musicais, pra dar a impressão de que o filme é "bem editado").

- Romantismo Reprimido: o filme não é um musical de fato. Não é feito pra quem gosta e entende de musicais. Ele é feito por alguém que considera musicais (e entretenimento popular em geral) algo superficial (veja como eles zombam de forma horrível do pop dos anos 80). A própria expressão "La La Land" já é carregada de cinismo, e a tagline do pôster diz "Para os tolos que sonham"! Musicais de verdade inspiram sonhos - são sobre beleza, espetáculo, talento, diversão, otimismo - criam um mundo ideal na tela pro deleite do espectador. Esse aqui é um filme (mediano) sobre realismo, frustrações da vida adulta, que apenas faz referências aos musicais como maneira de enfatizar a frustração dos personagens. Ele é sobre a incapacidade de chegarmos naquele ideal. É um "musical" muito mais como Once (Apenas Uma Vez) ou One From the Heart - mas que age como se estivesse honrando os musicais da MGM - e é essa contradição que torna tudo meio hipócrita.

- O romance não é envolvente. Não há conflitos interessantes que os impedem de ficar juntos, não ficamos torcendo por eles. Mal entendemos direito que a Emma Stone já tem um namorado. O filme não desenvolve em nada esse conflito. Se o filme tivesse diálogos inteligentes, personagens bem escritos, profundidade psicológica, eu poderia perdoar o fato dele fracassar como musical e curtir como se fosse um filme do Woody Allen. Mas ele também não é bom dessa forma.

- É sintomático que o personagem do Ryan Gosling seja um amante de jazz - alguém que provavelmente despreza os musicais (pelas coisas que ele diz). O discurso dele em defesa do jazz é muito mais energético do que qualquer coisa que o filme diga a respeito de Los Angeles, Hollywood, etc (embora seus argumentos a favor do jazz sejam terríveis - o fato de um artista sofrer não torna sua arte necessariamente melhor).

- Não gostei de nenhuma música até agora (um piano calmo e uma voz aerada não tornam uma música automaticamente sofisticada - sou bem mais a canção da Moana). E as sequências musicais não são bem integradas à narrativa, motivadas por mudanças significativas na história, nas emoções dos personagens. Quando o Ryan Gosling canta "City of Stars", é uma cena sem nenhuma relevância que poderia ter sido cortada. Não é como se ele tivesse acabado de conhecer a Emma Stone e estivesse encantado (tipo "Maria" de West Side Story). Eles já se viram várias vezes.

- A cena do vôo no planetário representa bem o que digo em Romantismo Reprimido (faz o romance parecer uma coisa meio fútil, fantasiosa, um sonho distante). E não faz sentido eles criarem um grande momento na cena do beijo, como se fosse um grande acontecimento no roteiro. Foi a primeira vez que eles se beijaram? O que os estava impedindo antes? Que mudança interna ocorreu em algum deles pra eles se beijarem só agora?

- Roteiro ruim, cheio de sub-tramas mal desenvolvidas. A banda do John Legend virou um sucesso? A peça que a Emma Stone escreveu já está pra estrear? Sobre o que é? Quem ajudou ela a montar? São acontecimentos importantes no filme e não participamos de nada disso. Essas pessoas têm amigos? Família? Os personagens são meio artificiais.

- SPOILER: No fim a Emma Stone consegue o papel justamente pra um filme que não tem roteiro, e onde ela não tem que atuar no teste de elenco. Apenas conta uma história triste de sua infância e é escalada! Em vez de mostrar ela fazendo algo realmente memorável, provando seu talento, o filme quer que o público torça pela mocinha por ela ser meio frágil e desiludida (é o que digo em Herói Envergonhado: toda a ênfase está nas fragilidades da protagonista, e pouco vemos do que ela tem de interessante).

- A sequência de sonho no final tenta homenagear musicais como Sinfonia de Paris, etc, mas acaba sendo triste ver que mais de 50 anos depois não conseguem fazer algo à altura em termos de dança, visual, etc.

- SPOILER: Muito mal explicada a ideia de que os 2 tiveram que terminar o relacionamento por causa do trabalho. Ela só ia ficar uns meses em Paris gravando o filme. A impressão que fica é que o vínculo entre os dois não devia ser tão forte assim. Mas se o Ryan colocou o nome do bar de "Seb's", quer dizer que ele gostava dela de fato. Então por que eles ficaram 5 anos sem se ver? Ninguém tem telefone nesse filme? Houve algum outro conflito que não foi mostrado? Dá a impressão que o filme é puro estilo, "conceito", não tem nenhuma preocupação com conteúdo, narrativa, coerência emocional (e ainda ousa sugerir que os musicais antigos é que eram superficiais!). É um final triste forçado, enfiado no roteiro de forma pouco convincente, só porque o cineasta deve achar que finais tristes são mais profundos que finais felizes.

------------------

CONCLUSÃO: Não tem nem o espírito nem o talento dos musicais que finge homenagear, mas também não satisfaz como romance para o público adulto.

La La Land / EUA / 2016 / Damien Chazelle

FILMES PARECIDOS: Apenas Uma Vez (2007) / Across the Universe (2007) / Todos Dizem Eu Te Amo (1996) / O Fundo do Coração (1981)

NOTA: 4.5

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A Criada

NOTAS DA SESSÃO:

- Começo promissor. Diálogos criativos, boa fotografia, premissa envolvente, a locação da casa é interessante...

- É uma típica trama de "impostor".. As 2 mulheres formam uma amizade aparentemente genuína, porém sabemos que 1 delas está mentindo e está traindo a outra, o que cria um interesse automático na história (queremos saber quando a outra irá descobrir e o que irá acontecer - se o crime compensa ou não).

- O filme é divertido e é cheio de momentos inesperados, o que torna a narrativa estimulante: a cobra na entrada da sala do velho com a língua preta, o professor de pintura fazendo elogios forçados à aluna, a cena lésbica da banheira onde uma lixa o dente da outra, etc.

- Boa a primeira cena de sexo das duas (a ideia delas ficarem supondo o que o conde faria na cama).

- SPOILER: A reviravolta no final da parte 1 me pareceu um pouco forçada (Sook-Hee sendo internada), e a parte 2 começa um pouco confusa - mas pelo menos isso revitaliza a trama e faz a gente questionar o que está acontecendo (são interessantes os reprises das cenas vistos por outro ângulo).

- SPOILER: Muito sem sentido a cena em que a Hideko tenta se enforcar na árvore - e a revelação forçada de que ela já sabia do plano da Sook-Hee. O filme deixou de ser uma história envolvente e passou a ser apenas um desses filmes onde o diretor tem 25 reviravoltas na manga e fica tentando se provar mais esperto que o espectador.

- SPOILER: Me desconectei totalmente da história. Até porque agora, o filme passou a ser sobre um grupo de pessoas imorais, mentirosas, tentando passar a perna uma na outra. No começo, sabíamos que a Sook-Hee era mentirosa, mas achávamos que a Hideko era uma vítima inocente. Agora que todos são vilões, por quem eu vou me importar? O que eu posso esperar de satisfatório dessa história?

- Ainda assim o filme não se torna monótono - a cena do vinho envenenado por exemplo é um bom momento.

- Culto à dor: estava demorando pro Park Chan-Wook fazer o que ele mais gosta - cenas desagradáveis e apelativas de violência e tortura.

- SPOILER: A ideia do Fujiwara matar o Kouzuki com a fumaça dos cigarros também é bem forçada. O filme virou uma coisa desagradável, forçada, apelativa e meio feminista: as lésbicas androfóbicas versus os homens opressores. No fim ela saem vitoriosas e o filme pede que a gente simpatize por 2 personagens desprezíveis.

------------------

CONCLUSÃO: Realizado com talento, mas o conteúdo é podre demais pra maiores considerações.

Ah-ga-ssi / Coréia do Sul / 2016 / Park Chan-Wook

FILMES PARECIDOS: Os Oito Odiados (2015) / Bastardos Inglórios (2009) / Oldboy (2003)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Moana: Um Mar de Aventuras

NOTAS DA SESSÃO:

- Será que já vai começar a chatice politicamente correta? A heroína tem um padrão de beleza mais realista, é "eco-friendly", salva tartarugas, tem certa culpa por não ser vegetariana, etc.

- Pelo menos o filme não fica celebrando a vida na tribo - logo na segunda música, Moana mostra que quer conhecer o oceano, quebrar com tradições antiquadas, o que já é um tema mais "Disney" (lembra Valente, etc).

- A canção "How Far I'll Go" é ótima! Cena linda.

- Sentimentos mistos em relação à Moana. Não chega a ser uma "heroína envergonhada", mas ainda assim não é o que eu consideraria uma princesa ideal. O que mais me incomoda aqui é o uso frequente de humor às custas da personagem - mas pelo menos ela não tem um caráter duvidoso tipo a Elsa, etc, então já é um bom avanço.

- SPOILER: Gosto bastante da personagem da avó que é considerada a "louca" da vila - ela motivando Moana, revelando os segredos do passado, etc. Muito triste quando ela morre!

- A viagem de Moana parece um pouco precipitada - ela vai pro mar sem nenhum planejamento, experiência, nem avisa os pais. Senti falta de um preparo maior pra essa etapa da história. Um dos problemas é que a ilha em que eles vivem parece um lugar alegre, em paz, não parece estar sob uma grande ameaça que justifique essa atitude toda.

- Curioso os animais não falarem nesse filme. O galo é divertido, mas é um mascote muito unidimensional - uma piada única sem grande necessidade pra história.

- O filme quer tornar o Maui um coadjuvante divertido, mas ele tem um caráter muito duvidoso pra ser gostável. Ele não se mostra arrependido ou preocupado com o mal que causou a todos ao roubar o coração.

- Essa sequência dos cocos piratas é desnecessária. Eles surgem do nada, não parecem fazer parte da história, só atrapalham um pouco a missão e logo vão embora sem maiores consequências.

- Falta um vilão pro filme. O vilão teoricamente é o próprio Maui, mas em vez de um grande antagonista, ele é apenas um chato que fica meio relutante em ajudar a Moana - mas acaba ajudando. Sem falar que ele parece ter destruído o mundo meio que por acidente. Ele não tem objetivos maléficos que vão contra a heroína, etc. E o monstro de lava não é um vilão, é apenas um obstáculo físico que deve ser superado pra completar a missão, não é um personagem.

- Fraca toda essa sequência do siri gigante. Ele é basicamente o único animal que fala, o que destoa do resto do filme. Fazer dessa cena uma sequência musical cantada pelo siri também não faz sentido. Não é uma cena importante pra história, um personagem relevante que mereça uma canção.

- O roteiro em geral é muito fraco, sem bons conflitos, eventos... Eles ficam inventando coisas aleatórias só pros personagens terem o que fazer. Por exemplo: sem muita explicação, o anzol de Maui está com defeito - daí há toda uma sequência de treinamento onde ele aprende a dominar o anzol de novo. Depois o anzol quase quebra e o Maui desiste de tudo e vai embora, só pra ter o momento "crise" antes do clímax, etc.

- Bonito o reprise de "How Far I'll Go". Começa com uma outra música, e aos poucos a melodia vai surgindo na composição conforme Moana se empolga. A música é a melhor coisa do filme.

- SPOILER: Como digo na postagem do herói envergonhado, a vitória sobre o monstro não é convincente. Moana recebe todo tipo de ajuda sobrenatural, e no fim derrota o monstro simplesmente cantando uma canção. Sem falar que não é bem explicado por que de uma hora pra outra ela tinha que colocar o coração no peito do monstro, como ela sacou que o monstro na verdade era a Te Fiti, etc.

- No fim Maui pede desculpa e tudo o que ele fez é perdoado muito facilmente. O filme quer ser tão politicamente correto que nem um vilão de verdade ele quis criar. É como se a mensagem fosse: temos que entender o lado de todos, inclusive de nossos inimigos, no fundo todos têm boas intenções quando vemos de perto, etc.

- A volta de Moana à ilha não é tão triunfante pelo motivo que já disse antes: a ilha e os moradores da vila não pareciam estar sofrendo muito, precisando de algo. Então não dá tanto essa sensação de que ela salvou a todos, transformou tudo pra melhor. Mas pelo menos ela conquistou seu objetivo pessoal de ir além dos recifes, cumprir a profecia, etc. Apesar dos problemas de roteiro, há uma estrutura de "jornada do herói" vagamente satisfatória.

------------------

CONCLUSÃO: A história é fraca, mas o visual bonito, a trilha sonora, e o tom um pouco mais romântico que a média o tornam um entretenimento agradável.

Moana / EUA / 2016 / Ron Clements, John Musker

FILMES PARECIDOS: Procurando Dory (2016) / Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) / Valente (2012)

NOTA: 7.0

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Animais Noturnos

NOTAS DA SESSÃO:

- Que coisa horrorosa essas gordas peladas na sequência de créditos! Isso não tem nada a ver com o espírito do resto da história, é só pra parecer "estiloso".

- Que bom pelo menos que a protagonista não gosta do tipo de arte que ela exibe na galeria.

- Produção sofisticada, ótimos atores, diálogos inteligentes, boa fotografia, etc.

- Curioso o detalhe da mulher do livro ser parecida com a Amy Adams, a ponto de você se confundir, mas não ser a mesma atriz. Isso quer dizer que a personagem é apenas inspirada nela? Não é pra ser a própria? Então por que o Jake Gyllenhaal é o ator tanto no livro quanto na vida real?

- Desagradável a cena em que a família é rendida pelos bandidos. Até porque o filme glamouriza o vilão (o personagem do Aaron Taylor-Johnson) e mostra os mocinhos como ineficazes, fracos, tomando decisões ruins e piorando a situação cada vez mais.

- O filme é bem dirigido, há subtexto nas cenas, é interessante os paralelos que são feitos visualmente entre o livro e a vida real, etc.

- Quando vemos pelo flashback o início da relação da Amy Adams com o Jake, o filme fica ainda mais intrigante - queremos saber como uma relação tão positiva deu tão errado, a ponto do Jake escrever esse livro.

- A trama policial dentro do livro também é interessante. Queremos saber o que o Jake irá fazer com os bandidos, se irá capturá-los, etc.

- Tom Ford adora colocar homens bonitos sentados em privadas né? Em Direito de Amar isso me chamou atenção, e aqui o fetiche aparece de novo.

- Qual a razão desse susto na cena da babá eletrônica?!

- SPOILER: É interessante como aos poucos o Jake vai deixando de parecer um ex-marido psicopata e vai se transformando na vítima da história. A cena em que ele descobre a esposa com o Armie Hammer é bem forte! Será que ele escreveu o livro no fim pra se vingar do Armie Hammer? Será que ele é que representa o bandido que "matou" a família dele?

- SPOILER: O final acaba sendo levemente insatisfatório. Teria sido melhor se a revelação de que o Jake é a "vítima" viesse apenas no final. Depois que já sabemos disso, a cena no restaurante se torna um pouco redundante, não é um final muito dramático. O Jake foi apenas consistente com a atitude vingativa que ele já estava tendo desde o começo do filme quando enviou o livro. A única transformação que houve desde o começo na história é que a plateia descobriu o motivo do término dos dois. Mas pros personagens em si, nada parece ter mudado ao longo da narrativa, dando essa sensação de que faltou acontecer algo.

------------------

CONCLUSÃO: Faltam mais acontecimentos na história, mas é um drama bem realizado, com bons atores, conteúdo, e bonito esteticamente.

Nocturnal Animals / EUA / 2016 / Tom Ford

FILMES PARECIDOS: O Abutre (2014) / Grandes Olhos (2014) / Direito de Amar (2009)

NOTA: 7.5