sexta-feira, 31 de março de 2017

T2 Trainspotting

NOTAS DA SESSÃO:

- Difícil simpatizar pelos personagens e pelo universo do filme. Somos apresentados a uma série de criminosos, pessoas decadentes, e o filme parece achar graça nisso - retrata os personagens como se eles fossem pessoas divertidas e do bem.

- Danny Boyle chama muita atenção pro próprio estilo, mas não é um estilo que favorece a narrativa ou demonstra domínio da linguagem - é apenas uma maneira de reafirmar o arquétipo rebelde que o filme vende: o desejo de quebrar as regras apenas pelo prazer de ser "do contra", rebeldia pela rebeldia, sem oferecer algo de positivo em troca. Sem falar que o tipo de rebeldia estética que vemos aqui hoje em dia já soa ultrapassada, quase mainstream, pois o que era ousado nos anos 90 já não é mais surpresa.

- Não é muito claro o objetivo do protagonista. Ewan McGregor volta pra cidade aparentemente pra consertar o passado, com a atitude de quem quer se desintoxicar, tirar os amigos do buraco. Mas logo em seguida já está cometendo crimes, roubando carteiras, etc. O filme quer apenas fazer um retrato positivo de delinquentes, mostrar os amigos se reunindo pra mais uma aventura em homenagem aos "velhos tempos" - é como se fosse um Laranja Mecânica, mas sem o conteúdo intelectual nem o valor estético do filme do Kubrick.

- O discurso "Choose Life" é uma chatice. De uma hora pra outra o Ewan McGregor vira um filósofo de boteco pretensioso que critica o mundo moderno, sendo que em nenhum outro momento o personagem demonstrou ter esse tipo intelecto e lucidez.

- Divertido o encontro acidental entre o Ewan McGregor e o Begbie no banheiro. A partir daí o filme ganha certa energia pois se transforma numa grande perseguição - Ewan está correndo risco de ser morto e nesse contexto é possível torcer por ele.

- Mas as negociações entre os amigos, a sauna que eles querem abrir, etc, isso pouco interessa. Sabemos que um está querendo passar a perna no outro; são todos tão assumidamente imorais que nenhuma traição será surpresa pro espectador. Não há uma amizade real entre ninguém no filme.

- Divertida a cena em que o Begbie descobre as anotações do Spud sobre o passado deles.

- Interessante a luta final entre Mark e Begbie. As luzes do trem passando dão um ar meio fantástico pra sequência e nos lembram do título "Trainspotting", apesar de eu não ter a menor ideia do que trens têm a ver com isso tudo (só vi o primeiro filme 1 vez quando foi lançado).

- SPOILER: Begbie sendo preso, Spud virando escritor, Mark voltando pra casa do pai - isso tudo faz o filme terminar numa nota positiva e tira parte da impressão de que ele estava celebrando a delinquência.

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CONCLUSÃO: Feito com energia, com alguns momentos divertidos, embora seja difícil de simpatizar totalmente pelos personagens e o filme soe um pouco datado em sua forma de quebrar as regras.

T2 Trainspotting / Reino Unido / 2017 / Danny Boyle

FILMES PARECIDOS: Os Oito Odiados (2015) / Em Transe (2013) / Clube da Luta (1999)

NOTA: 5.5

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fragmentado

NOTAS DA SESSÃO:

- A cena inicial do sequestro no estacionamento não chega a ser um grande prólogo, mas prende a atenção. Incomoda um pouco o comportamento artificial dos personagens - Shyamalan às vezes dirige as cenas de forma um pouco forçada pra torná-las mais "cinemáticas". A intenção é boa, mas às vezes destrói o realismo do que está acontecendo.

- A personagem / atriz principal (Casey) não é das melhores. Faltam aspectos positivos e atraentes nela, além do fato dela ser meio perturbada e "pronta pra guerra". A personagem da Dra. Karen é mais gostável, embora ela pareça só estar no filme como um mecanismo de exposição meio preguiçoso (explicar pra plateia as teorias por trás das personalidades, etc). O show mesmo é do James McAvoy. Nosso interesse na trama nem é tanto o de saber se a mocinha vai escapar ou não, e sim o de descobrir as diversas personalidades do Kevin e ver o que ele é capaz de fazer.

- A Casey tem uma sacadas muito forçadas às vezes. Por exemplo quando ela manda a amiga fazer xixi na calça pra não ser estuprada. Ou quando tenta manipular o Hedwig dizendo que a "fera" está vindo pra pegar ele. Ou quando as meninas descobrem a saída secreta pelo teto do quarto. É boa a intenção do filme de criar essas pequenas reviravoltas pra tornar a trama mais movimentada, porém as ideias quase nunca são muito inteligentes ou plausíveis. Não faz sentido por exemplo o cara levar as 2 meninas pra comer na cozinha. Óbvio que elas tentariam atacá-lo, fugir ou algo do tipo.

- De qualquer forma o filme prende a atenção, principalmente por anunciar a existência de um "monstro". Os flashbacks mostrando a infância da Casey também dão uma sensação de que há algo importante ainda a ser revelado.

- A premissa não é muito bem explorada. A ideia de 3 meninas raptadas por um cara com 23 personalidades poderia ter rendido um roteiro muito mais engenhoso que esse. A única coisa que a protagonista faz é tentar se aproveitar quando o Kevin vira criança e se torna uma personalidade mais vulnerável. Mas essa sacada é repetida várias vezes ao longo do filme. A gente fica imaginando as dezenas de outras possibilidades que foram desperdiçadas.

- Bons os momentos do James McAvoy quando ele muda de expressão e se torna uma outra personalidade.

- Essas diversas sessões de terapia não fazem muito sentido (como disse, é apenas um mecanismo de exposição do roteiro). Se as outras personalidades do Kevin estão pedindo socorro pra doutora, por que elas não dizem no e-mail qual é o problema? Ou ligam pra polícia de uma vez?

- Forçado a doutora ir até a casa do Kevin no meio da noite - e ainda por cima ele deixá-la entrar, sabendo que as meninas estão lá sequestradas, etc. Por que ela coloca aquele lenço branco na porta?!

- As outras 2 meninas raptadas parecem não servir pra nada no filme. Ridícula a cena delas tentando destravar a porta com um cabide! Como o arame entortou pra baixo depois que passou pela fresta? A Casey também consegue destravar a porta facilmente com um prego, daí acha um computador que convenientemente está sem internet, daí acha um molho de chaves que convenientemente permite que ela fuja... É essa falta generalizada de inteligência que vai tornando o filme frustrante.

- Quando a doutora desmaia, por que o Kevin sai da casa, vai até o metrô, se transforma na fera e depois volta? Parece só pra dar tempo da doutora acordar e deixa aquele recado no papel pra Casey que também não faz o menor sentido.

- Shyamalan parece funcionar de maneira puramente emocional. Tem ideias pra cenas que ele acha interessantes e as coloca no roteiro sem se perguntar se aquilo faz qualquer sentido. Por que a fera sobe pelas paredes, por exemplo? Por que o Shyamalan achou que seria uma imagem meio assustadora. Por que a técnica de chamar o Kevin pelo nome pra fazê-lo "acordar" só funciona 1 vez? Porque o Shyamalan não queria que o filme acabasse tão cedo, etc.

- SPOILER: Os flashbacks da Casey dão a sensação pra plateia de que a personagem passou por uma espécie de "arco" ao longo do filme. Mas na prática isso não ocorreu. Ela começou e acabou o filme do mesmo jeito, a única diferença é que a plateia ficou sabendo sobre seus traumas do passado. E no fim não foi nem ela que se salvou ou fez algo que mostrasse superação - o Kevin apenas descobriu que ela era uma sofredora como ele e resolveu poupá-la. Nem dos abusos do tio fica claro que ela irá se livrar após essa experiência.

- SPOILER: Divertido o final com o Bruce Willis. O conceito de um final supresa envolvendo a própria filmografia do Shyamalan é excelente - só que foi mal executado. Não fica clara qual a conexão do Kevin com os personagens de Corpo Fechado. Por que a mulher no balcão associou as múltiplas personalidades do Kevin com o personagem do Samuel L. Jackson?

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CONCLUSÃO: História divertida, com um bom senso de entretenimento, uma ótima performance do James McAvoy - mas o roteiro é sub-aproveitado e pouco inteligente.

Split / EUA / 2016 / M. Night Shyamalan

FILMES PARECIDOS: O Homem nas Trevas (2016) / Rua Cloverfield, 10 (2016) / A Visita (2015)

NOTA: 6.0

terça-feira, 28 de março de 2017

Power Rangers

Assim como a série da TV, esse é um típico caso de "guilty pleasure" - aquelas coisas que a gente sabe que são ruins mas a gente gosta mesmo assim. Se eu postasse as anotações que fiz no cinema aqui, 90% delas seriam reclamando da má qualidade do filme - da maneira tola como os personagens se conhecem e vão se transformando em heróis, de como o filme é mal dirigido e cenas importantes são mal encenadas, etc. Mas por baixo disso tudo havia um espectador entretido, se divertindo com as caras da Rita Repulsa (Elizabeth Banks está ótima e parece ter a melhor arcada dentária pra risadas maléficas) e aguardando com interesse o momento em que aqueles 5 adolescentes se transformariam nos Power Rangers e lutariam contra algum tipo de monstro gigante. Demora quase 1 hora e meia pra isso acontecer, mas o filme entrega o prometido na sequência final, com direito a Megazord e tudo mais. 

Essa aliás é uma das virtudes do filme que provavelmente a maioria dos críticos ignoraria - ele respeita perfeitamente o Princípio da Ascensão (uma das postagens mais importantes que eu ainda não fiz aqui no blog, mas que basicamente diz que os bons filmes reservam o melhor pro final; criam uma linha ascendente onde a energia vai se acumulando ao longo da narrativa, em vez de se manter igual ou ir decaindo como de costume).

Outro ponto positivo é a natureza idealista da transformação dos personagens. Todos os filmes de super-heróis de certa forma falam com esse nosso lado que deseja força, auto-aperfeiçoamento (e magia, é claro), porém hoje em dia a tendência é sempre focar nas fragilidades dos heróis - a armadura do Homem de Ferro tem que ter problemas técnicos, as garras do Wolverine enguiçam e têm que ser puxadas à mão, etc - e isso rouba do espectador a satisfação de ver aquele momento "Popeye pós-espinafre" onde o herói finalmente atinge seu estado de excelência e parece imbatível. 

Claro, o filme não está totalmente livre dos valores irritantes da atualidade: o momento-chave do treinamento que leva os adolescentes a finalmente se transformarem em Power Rangers é uma grande ode ao coletivismo, ao auto-sacrifício - um momento de negação do ego que contradiz a experiência que o filme está tentando provocar no espectador. Ainda assim, há o bastante pra se divertir depois. É um entretenimento bem intencionado, mas que precisaria de mais cérebro pra tirar o "guilty" tão frequentemente associado aos melhores "pleasures".

Power Rangers / Canadá, EUA / 2017 / Dean Israelite

FILMES PARECIDOS: As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras (2016) / G.I. Joe - Retaliação (2013)

NOTA: 6.5

quarta-feira, 22 de março de 2017

Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

NOTAS DA SESSÃO:

- A apresentação dos personagens tem alguns detalhes interessantes de caracterização - é um pouco menos genérica do que se espera pra esse tipo de filme. Legal a ideia da latinha de Coca-Cola em "erupção" anunciando o que está por vir.

- O maior problema do filme é a falta de uma história humana forte por trás do desastre. O fato de um grande acidente ter ocorrido não é razão o bastante pra se fazer um filme. Se não vira apenas uma reconstituição de telejornal mega-produzida, como se o prazer de ver um acidente em detalhes fosse um fim em si. Quando James Cameron fez o famoso "pitch" pra vender seu conceito de um filme sobre o Titanic pros produtores, ele não disse: "Titanic afunda". Ele disse "Romeu e Julieta no Titanic".

- Visualmente o filme é muito bem feito; as imagens da plataforma são bonitas, os efeitos especiais são ótimos, realmente acreditamos estar nesse lugar testemunhando cada detalhe do evento.

- Apesar da narrativa não ser muito interessante na primeira metade do filme, dos conflitos serem clichês (o empresário ganancioso vilão que coloca dinheiro acima de segurança, etc), o filme não se torna tedioso pois sabemos que os personagens estão sentados em cima de uma bomba que pode explodir a qualquer momento.

- A sequência toda da erupção é bastante tensa e bem feita. Detalhes como o Mark Wahlberg conversando com a mulher pelo computador dão um senso de realismo pro momento, e os efeitos especiais, o som, dão uma dimensão da violência física do que está pra acontecer.

- Outro clichê cansativo é esse da esposa que fica em casa preocupada com o marido e não serve pra mais nada na história. O filme tem os mesmos problemas de Horas Decisivas, aliás parece um remake do mesmo filme (um pouco melhorado).

- Outra coisa que dá preguiça é esse foco no altruísmo do Mark Wahlberg; a ideia de que um verdadeiro herói sempre estará disposto a se sacrificar pra salvar o "próximo" (não alguém que ele ame pessoalmente, mas qualquer um que precise de ajuda). Acho sempre engraçado o fato desses elementos (altruísmo, ataque a empresários gananciosos) estarem presentes em muitos filmes com valores conservadores / republicanos - é como se fosse resultado de culpa, vinda do lado cristão deles.

- O filme termina de forma previsível e continua com a sensação de que foi uma história vazia, apenas um pretexto pra filmar ação.

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CONCLUSÃO: Bem realizado e com alguns momentos tensos, mas sem uma história interessante por trás da ação que dê um sentido maior ao filme.

Deepwater Horizon / Hong Kong, EUA / 2016 / Peter Berg

FILMES PARECIDOS: Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) / Horas Decisivas (2016) / Evereste (2015) / Capitão Phillips (2013)

NOTA: 6.0

segunda-feira, 20 de março de 2017

Destino Especial

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme estranhamente começa já no segundo ato. Só depois de uns 20 minutos é que o espectador entende o que está acontecendo. Mas pelo menos é um começo intrigante: queremos entender por que os 2 homens raptaram o menino, por que o garoto age como se eles fossem conhecidos, o que ele tem de especial pro governo estar atrás dele, etc.

- A premissa é divertida - a narrativa lembra Contatos Imediatos do Terceiro Grau, porém numa versão "romantismo reprimido". O filme flerta com esse universo Spielbergiano do cinema, porém nega pra plateia alguns dos prazeres mais elementares que esse tipo de filme proporciona (jogou fora todas as surpresas que teríamos tido no primeiro ato, não tenta criar um senso de encantamento pelo sobrenatural, não apresenta heróis muito atraentes e sim personalidades mais comuns, etc). Romantismo Reprimido às vezes funciona mais ou menos como uma pessoa que não sabe contar a piada, mas gosta tanto da piada que decide apenas explicar a sacada pros ouvintes de maneira fria e casual, sem tentar fazer ninguém gargalhar de fato.

- Ainda assim a história é envolvente e consegue entreter moderadamente (há toda uma expectativa pelo "dia do julgamento", a jornada até o local é cheia de ação e momentos interessantes como a queda do satélite, etc), não é como A Chegada que vai mais longe na tentativa de subverter o gênero.

- O personagem do Adam Driver é interessante. Como ele está de fora da situação, nós nos identificamos mais com ele do que com os protagonistas que já estão por dentro de todo o mistério.

- Legal a reviravolta quando o menino é raptado pelo governo. Cria mais tensão na história, justifica a presença do Adam Driver na trama - embora pareça um pouco fácil / rápida demais a maneira como eles escapam do prédio sem ninguém impedi-los.

- SPOILER: O final é movimentado, o filme não foge de cenas de ação, efeitos especiais, etc. Só não é tão satisfatório pois nós não nos identificamos de fato com os protagonistas, talvez pelo filme ter começado da metade sem nos apresentar direito os personagens, suas motivações, conflitos, sonhos, etc. Eles atingem o objetivo, o menino consegue ir embora, mas isso não resulta num grande impacto emocional pro espectador. Ainda assim, há certa satisfação em poder ver o "lado de lá", solucionar o mistério, etc.

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CONCLUSÃO: Tentativa interessante de fazer uma aventura oitentista. Só é um pouco frustrante porque, em comparação com os filmes da época, esse acaba parecendo tímido demais na tentativa de emocionar e entreter a plateia.

Midnight Special / EUA, Grécia / 2016 / Jeff Nichols

FILMES PARECIDOS: A Chegada (2016) / Stranger Things (TV) (2016) / Corrente do Mal (2014) / Super 8 (2011)

NOTA: 6.5

Fome de Poder

NOTAS DA SESSÃO:

- O filme é bem narrado, envolvente, até por contar uma história de sucesso tão extrema e sobre algo tão familiar pra todos nós. Curioso o filme focar na história do Ray Kroc e não na dos irmãos McDonald que realmente criaram o restaurante. Mas os flashbacks mostrando como eles desenvolveram o conceito do McDonald's são fascinantes (a cena na quadra de tênis, etc)! Eles eram verdadeiros cientistas, inventores, inovadores.

- A comparação que o Michael Keaton faz entre o McDonald's e as igrejas é ótima. Apesar dele ser um personagem meio vulgar, ele realmente tem talento pro marketing. Ótima a sequência em que ele está indo atrás de financiamento, e todos se lembram dele da época em que ele estava vendendo produtos medíocres (o que tira toda sua credibilidade).

- Interessante o conflito entre os irmãos McDonald e o Ray Kroc. Os irmãos eram quase artistas, estavam preocupados com qualidade, valores, integridade, não queriam colocar propaganda nos menus, etc. E o Ray Kroc só pensando em expandir o negócio, mesmo às custas da qualidade. É um conflito entre 2 extremos - talvez nenhum dos 2 lados esteja 100% certo sozinho, mas o equilíbrio que surgiu dessa tensão foi o que permitiu o sucesso estrondoso da rede.

- Não fica muito claro como o Ray resolveu o problema do controle de qualidade quando começaram a surgir novos restaurantes. No começo ele estava selecionando os franqueados a dedo, mas e depois?

- O roteiro é bem estruturado. Mantém o interesse mesmo depois do sucesso dos restaurantes, pois o Ray ainda está com problemas financeiros, tem conflitos com os irmãos McDonald, ainda não teve a sacada do mercado imobiliário, etc. É uma aula de empreendedorismo.

- SPOILER: Odioso o Michael Keaton passar a perna nos sócios e colocar o sorvete instantâneo, quebrando o contrato. O personagem vai ficando cada vez mais desprezível e assustador. O filme acaba confirmando a noção que as pessoas têm de que o capitalismo desperta o pior nas pessoas, recompensa a desonestidade, a ganância, a falta de escrúpulos, etc. Isso só não prejudica o filme porque o personagem não é retratado como se fosse um herói; a performance do Michael Keaton não tenta romantizá-lo, etc (mas acho que o filme peca por não exaltar o bastante os irmãos McDonald - eles acabam parecendo meio que 2 losers).

- Legal a noção de que o nome "McDonald's" foi um fator importante pro sucesso do negócio. Mas uma coisa ainda mais básica que o filme não explica é em relação às receitas e ao sabor dos lanches. Dá a impressão que o McDonald's fez sucesso simplesmente pela velocidade do atendimento, pelo novo conceito de fast-food, por ter um nome catchy, etc. Mas e a comida? Eu sempre achei que o grande diferencial do Mc é que eles realmente têm um sabor único, um ingrediente secreto que atrai as pessoas que nem formiga ao açúcar.

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CONCLUSÃO: História de sucesso interessante e bem contada, embora o protagonista seja um tanto desprezível.

The Founder / EUA / 2016 / John Lee Hancock

FILMES PARECIDOS: Joy: O Nome do Sucesso (2015) / Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013) / Jobs (2013) / A Rede Social (2010)

NOTA: 7.3

quinta-feira, 16 de março de 2017

A Bela e a Fera

NOTAS DA SESSÃO:

- A produção é magnífica e me lembra algo que o Walt Disney disse na época em que estava idealizando seus parques - algo que ilustra bem o respeito que ele tinha pelo entretenimento e pelo espectador de todas as idades e classes: "Eu quero que o convidado entre num prédio de 1 milhão de dólares e possa comer um hambúrguer de 1 dólar".

- A sequência musical inicial no vilarejo é ótima, faz a gente lembrar de como eram os musicais de verdade. 

- O elenco está impecável. Emma Watson como Bela foi um acerto total do casting. Ela tem aquela mistura perfeita de beleza, inocência, força e sofisticação que não se vê mais nos personagens Disney. Não vejo 1 toque do que chamo de herói envergonhado ou das outras tendências que vêm contaminando o entretenimento atual. Pra mim é a experiência rara de entrar num filme onde todos os problemas básicos parecem já ter sido tirados do caminho - os problemas de narrativa, de identificação com os personagens, dos valores malignos que se revelam nas entrelinhas - e eu simplesmente pudesse tirar a "armadura" de crítico e deixar ser tocado pela beleza do que está na tela de forma puramente sensorial.

- O romance é interessante e convincente. A gente entende o valor que um traz pra vida do outro, por que eles formam um bom par, e ao mesmo tempo entendemos os obstáculos. 

- A Fera está muito bem... Há uma seriedade genuína e meio assustadora na performance que faz a gente até esquecer que esse é um filme "pra criança". A própria ideia do casal se aproximar por causa de afinidades intelectuais já é um elemento que torna esse conto mais adulto que o normal.

- Eu sempre sinto uma certa "barriga" no roteiro na porção central - algo que já vinha do desenho e do musical. A narrativa dá uma estacionada e a gente apenas tem apenas que ficar esperando os 2 se apaixonarem, o único obstáculo sendo o fato da Fera ainda não ser um homem. Os conflitos criados pra manter a história movimentada não são dos mais envolventes (Gaston amarrar o pai da Bela na floresta, etc).

- Mas isso tudo deixa de importar na cena do baile, que é uma das coisas mais lindas que vi nos últimos anos!

- O Gaston era tão divertido e charmoso no começo do filme. A transformação dele em vilão não é das mais convincentes. Ele não parece o tipo de homem com um complexo de inferioridade tão grande que o faria virar um monstro assassino só por causa de uma rejeição amorosa já esperada.

- SPOILER: O final é lindo (a quase morte da Fera e dos outros personagens, e depois a restauração de tudo). Já sabemos o que vai acontecer, mas o filme cria uma experiência visual tão bonita que queremos saber como irá acontecer. E há detalhes novos o bastante pra dar a sensação de estarmos vendo algo novo (a presença da feiticeira, o "piano" ganhar a forma humana sem dentes por ter cuspido as teclas, as brincadeiras com os personagens gays, etc).

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CONCLUSÃO: Um acerto da Disney e de Bill Condon que dá vida ao desenho de forma exuberante, mantendo o mesmo espírito da produção original.

Beauty and the Beast / EUA / 2017 / Bill Condon

FILMES PARECIDOS: Mogli: O Menino Lobo (2016) / Cinderela (2015)

NOTA: 8.5

segunda-feira, 13 de março de 2017

Silêncio

NOTAS DA SESSÃO:

- Como já se espera do Scorsese, o filme é muito bem realizado tecnicamente, a fotografia e as locações são muito bonitas, os atores estão bem, porém a história não é das mais interessantes. O grande problema aqui é que o filme assume que o espectador se importa por fé, religião, em particular pelo cristianismo, e portanto pelos dramas dos protagonistas. Mas pra quem não é religioso, o filme é sobre um conflito sem sentido e tedioso. A história não é contada de maneira universal, para todo tipo de público.

- O protagonista não tem nada de admirável além da fidelidade dele aos valores cristãos - mas fidelidade não é uma virtude em si, ela depende da pergunta "fidelidade a que?". O Andrew Garfield só vai ser admirável pro espectador cristão - os outros ficarão o filme todo querendo que ele deixe de ser fiel e salve a própria vida. Será difícil pro espectador não religioso simpatizar por uma crença que glamourize o martírio, a fé cega, o sofrimento, que diga que auto-sacrifício é uma virtude - e uma virtude maior ainda se for auto-sacrifício em nome dos miseráveis e corruptos, etc.

- A discussão ética parece tola pra quem está de fora. Por exemplo: o personagem se sente culpado por não conseguir amar os torturadores (assim como Jesus manda). Pra qualquer não religioso, é claro que ele não deveria amá-los! E qual o problema de pisar na imagem de Jesus? É apenas um pedaço de matéria. Seria apenas um ato físico sem verdadeiro significado. Os vilões estão forçando eles a fazerem isso. Se eles não pisarem, serão mortos! Será que o cristianismo diz que, numa situação dessa, o correto é desobedecer os criminosos e ser assassinado? Só isso já deveria ser motivo o bastante pra eles questionarem a religião.

- A narrativa é monótona e pouco prazerosa. O filme tem 2h40 e basicamente é a repetição de uma mesma cena: um cristão em conflito entre "renunciar" sua fé ou ser morto pelos japoneses. Os protagonistas não têm nenhum objetivo interessante, nenhum plano, são apenas vítimas que ficam sofrendo e sendo agredidas pelos vilões.

- Intelectualmente o filme é raso. Os debates que tentam provar a superioridade do cristianismo não são muito lógicos ou bem argumentados.

- É bem questionável o desejo dos protagonistas de disseminarem sua fé num outro país que não os quer lá. Claro que os japoneses estão errados em matar os cristãos, mas também não dá pra simpatizar muito pelos "mocinhos". O filme mostra um conflito entre 2 grupos duvidoso - você não pode defender nenhum dos lados 100%.

- SPOILER: O final é uma celebração da fé cega. Apesar do Andrew Garfield nunca ter tido 1 sinal de Deus, de ter vivido uma vida miserável, de saber das incoerências da religião e da impraticabilidade de muitos de seus ideais, o filme parece achar nobre o fato dele ignorar isso tudo e morrer agarrado ao crucifixo.

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CONCLUSÃO: Produção bem feita, mas com uma narrativa chata que não se esforça pra se comunicar com os não religiosos.

Silence / EUA, Taiwan, México / 2016 / Martin Scorsese

FILMES PARECIDOS: Até o Último Homem (2016) / Invencível (2014) / 12 Anos de Escravidão (2013) / A Conquista da Honra (2006) / Além da Linha Vermelha (1998)

NOTA: 5.0

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kong: A Ilha da Caveira

NOTAS DA SESSÃO:

- Má ideia eles mostrarem o King Kong (parcialmente) logo na primeira sequência, o que estraga um pouco da expectativa. De qualquer forma, o filme começa bem. Visualmente é um dos filmes mais estilizados e ocupados desde Mad Max: Estrada da Fúria (a quantidade de detalhes e ideias visuais é realmente anormal). Os personagens são divertidos, a missão interessante, a chegada de helicóptero na ilha é legal apesar de lembrar muito Jurassic Park...

- Brochante de novo o King Kong aparecer logo de cara na chegada na ilha! A imagem com o sol se pondo é fantástica, mas emocionalmente a cena é fraca, as reações dos personagens não são convincentes, falta realismo, seriedade... O roteiro não soube construir um grande momento. Além disso é muito falso todos os helicópteros chegarem perto do King Kong e serem destruídos! Se sobrasse pelo menos 1 pra eles fugirem ou chamarem resgate, todo o resto do filme deixaria de existir. Ficou tudo falso agora. O diretor parece mais interessado em criar imagens atraentes do que em fazer um bom entretenimento.

- Romantismo Reprimido: o filme é cheio de toques de humor inapropriados que destroem a seriedade da aventura. O personagem do John C. Reilly quando surge com os índios é ridículo, parece que estamos vendo Saturday Night Live. Todo o propósito desse tipo de história deveria ser fazer você acreditar na fantasia, e não torná-la obviamente um faz-de-conta.

- A ação toda do filme não tem o menor realismo. Por exemplo: a cena em que a Brie Larson tenta levantar um helicóptero sozinha (!) pra ajudar o animal preso, e subitamente o King Kong aparece do lado dela pra ajudar. Ela não percebeu que um macaco de 300 metros estava se aproximando?

- Péssima essa sub-trama do Samuel L. Jackson. Não faz sentido ele querer se "vingar" do King Kong e matá-lo. A trama toda é ruim. O motivo deles estarem presos na ilha já é forçado (a queda de todos os helicópteros), e agora esse conflito prendendo eles aí também.

- SPOILER: A sequência de ação no clímax é absurda. Pra que a Brie Larson subiu em cima daquela montanha sozinha? Como ela não morreu quando o King Kong pegou ela na mão e lutou contra o lagarto? O filme lembra um pouco Círculo de Fogo, no sentido de que ele exagera de propósito a falta de realismo da aventura pro diretor exibir pra plateia que ele está se "divertindo" e não se leva a sério (Romantismo Reprimido também).

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CONCLUSÃO: Visualmente impressionante, mas o tom frívolo e a falta de sentido da história destroem a diversão.

Kong: Skull Island / EUA / 2017 / Jordan Vogt-Roberts

FILMES PARECIDOS: A Lenda de Tarzan (2016) / Godzilla (2014) / Círculo de Fogo (2013)

NOTA: 5.5

sexta-feira, 3 de março de 2017

Logan

NOTAS DA SESSÃO:

- O começo parece uma ilustração de tudo o que eu escrevi em textos como Romantismo Reprimido, Herói Envergonhado, 10 Tendências Irritantes em Hollywood... Como força e autoestima estão fora de moda nos tempos atuais, o filme agora pretende ganhar o respeito da plateia mostrando um super-herói num estado tão decadente e miserável que nós ficamos até aliviados de não sermos como ele. Em vez de inspirar, o cinema agora nos habituou a sentir pena dos heróis.

- Logan (nesse filme pelo menos) é um protagonista antipático, sem nenhum valor de caráter positivo que faça a gente se importar por ele. A garotinha Laura também não tem o menor apelo, a atriz é fraca... Os relacionamentos são todos conflituosos (pra mostrar que o filme é "adulto").

- A história não é mal contada - é legal por exemplo o "ponto de virada" quando a garotinha se revela uma mutante e sai matando geral (essa sequência de ação é a mais divertida do filme). Ainda assim é uma história fraca. O herói é deprimido, não tem nenhuma motivação envolvente... Ele resolve ajudar a "filha" por um senso de dever e responsabilidade, não por um verdadeiro interesse. Por que nós como espectadores deveríamos nos importar então? Fugir dos vilões não é um interesse forte o bastante se não temos algo de positivo pra esperar (Logan está deprimido, suicida, mas o que ele deseja pra sair desse estado?). Os protagonistas não são gostáveis - não consigo torcer por uma aproximação entre os 2 simplesmente por eles terem uma ligação genética.

- Por que esse acidente de carro? Esse encontro com a família negra? Eles vão passar a noite aí? Em que isso progride a trama? De repente o Wolverine está ajudando um estranho a consertar vazamentos, se metendo em brigas tolas entre fazendeiros... É uma sub-trama totalmente desnecessária. A ideia do filme é transformar X-Men num road-movie despretensioso que revela o lado "humano" e "sensível" do herói.

- SPOILER: Horrível matarem o Xavier sem ele ter feito nada de útil ou admirável no filme. Foi mostrado apenas como um velho agonizante que só serviu pra atrapalhar o Logan (claro, a grande "utilidade" dele aqui é criar uma oportunidade pro Logan mostrar como ele é altruísta, alguém que ajuda um senhor cadeirante a se sentar na privada, etc).

- Quando eles chegam no Éden, os mutantes parecem mais um comercial da Benetton Kids... Tem crianças de todas as raças, nacionalidades, sem dar destaque pra nenhum grupo em particular... O filme parece preocupadíssimo em se enquadrar em todas tendências culturais do momento.

- Meio forçado o último ato. Por que as crianças acabam dependendo da ajuda do Logan pra fugir? É como se elas fossem indefesas, mas na prática elas juntas parecem bem mais fortes que os vilões. E não fica claro por que elas estarão protegidas ao cruzarem a fronteira. Se era tão perto, por que elas já não ficaram do lado de lá da fronteira aguardando?

- Terrível esse culto à porradaria... A ideia de que a plateia fica empolgada ao ver um cara raivoso triturando dezenas de homens. Não há nenhum prazer nessas cenas enquanto ação, coreografia, cinema... É apenas um show de violência grotesca. Mas faz sentido de certa forma. Desde o começo o filme mostra que valoriza a dor, o conflito, a destruição... Pra quem compartilha desses mesmos valores, uma cena como essa deve ser um grande êxtase.

- SPOILER (MESMO!): Realizado mais uma vez o grande fetiche do público atual: o desejo de matar os heróis. E tenho que reconhecer que é genial a simbologia da imagem final: o "X" dos X-Men sendo formado por uma cruz sobre o túmulo do Logan. Isso é melhor ainda do que o "Supercaixão" do Superman em Batman vs Superman.

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CONCLUSÃO: Não mal realizado, mas a história é desinteressante e reflete todo o esgoto em que se transformou a cultura atual.

Logan / EUA / 2017 / James Mangold

FILMES PARECIDOS: Jason Bourne (2016) / Deadpool (2016) / Perdido em Marte (2015)

NOTA: 4.0

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Grande Muralha

Esse é um daqueles filmes cujas falhas acabam o tornando engraçado e relativamente divertido de assistir. O problema no fim é que o diretor Zhang Yimou (do ótimo Herói) tem certo talento, e isso impede o filme de se tornar um verdadeiro entretenimento trash. O filme parte de uma premissa ridícula, mas a execução não é ruim o bastante pra torná-lo um novo Sharknado. A má ideia aqui foi a de apresentar o filme como sendo uma espécie de épico tipo O Último Samurai, e não deixar claro pra plateia (através do título e do pôster pelo menos) que na verdade ele conta a história de uma invasão alienígena. Seria que nem você ir ao cinema assistir um filme chamado O Grande Abraham Lincoln e, uma vez dentro da sala, se deparasse com o filme Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros. Não que A Grande Muralha fosse se tornar muito melhor caso a plateia já tivesse certeza do que ela veria na tela. Independente da premissa, o filme é repleto de clichês, a história e o herói não são interessantes, a ação é irreal, etc. Mas acima de tudo, o choque entre 2 universos tão incompatíveis parece praticamente arruinar a possibilidade de um resultado de bom gosto. Isso me faz lembrar que filmes, assim como pessoas, produtos, empresas, também têm personalidades, projetam arquétipos, e estão sujeitos às mesmas regras que definem se uma marca parecerá coerente, atraente, ou simplesmente uma bagunça.

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The Great Wall / China, EUA / 2016 / Zhang Yimou

FILMES PARECIDOS: Ben-Hur (2016) / Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (2016) / Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012)

NOTA: 4.5