quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Bright


Fiquei surpreso com a qualidade da produção, da narrativa (considerando que o filme é feito pra TV e é do mesmo cara que fez Esquadrão Suicida, que eu não gostei nada), acho que o Will Smith e o parceiro orc formam uma dupla divertida, os diálogos do filme são mais sensatos que o de costume pro gênero, o filme tem algumas cenas e reviravoltas interessantes, uma premissa criativa... O que tirou boa parte do prazer pra mim foi o excesso de elementos Não-Idealistas e Anti-Idealistas misturados na história pra tornar o filme mais "moderno", "socialmente relevante", etc. Eu colocaria o filme na categoria de Idealismo Reprimido - no fundo acho que ele é mais idealista, bem intencionado do que aparenta, e que os elementos desagradáveis da história foram inseridos por influência dos tempos atuais (já um filme como Distrito 9, por exemplo, acho que é o oposto: que o autor é profundamente anti-idealista e fez um filme de gênero justamente porque queria subvertê-lo).

Então é uma experiência meio bipolar. Por um lado, nós temos uma trama estimulante, conflitos morais claros, personagens heróicos, vários elementos Idealistas - ao mesmo tempo em que o filme nos transporta pra um ambiente decadente, cheio de figuras repulsivas, pesa a mão na violência, na sujeira, no realismo, como se ele tivesse vergonha de ser uma espécie de conto de fadas, e precisasse a cada minuto mostrar algo "anti-conto-de-fadas" pra provar que é respeitável. Will Smith literalmente esmaga fadas no filme, diz frases como "foda-se a magia", há toda uma atitude anti-ricos desnecessária na história pra apelar pra esquerda... Então você tem a experiência bizarra de estar olhando pra imagens realistas, pessoas discutindo questões sociais deprimentes, uma violência pesada digna de filmes de guerra - ao mesmo tempo em que o personagem está dizendo coisas do tipo "me entregue a varinha mágica!". É a tentativa de unir o idealismo e o anti-idealismo, o pop e o hip hop (o filme termina com uma dessas músicas híbridas) na intenção de atingir todo tipo de público. Há certos méritos no filme, mas essa mistura é contraditória e definitivamente não funciona pra mim.


------------

Bright / EUA / 2017 / David Ayer

FILMES PARECIDOS: Chappie (2015) / RoboCop (2014) / Dredd: O Juiz do Apocalipse (2012)

NOTA: 5.5


4 comentários:

Anônimo disse...

OI, respeito sua opinião, mas não concordo. Como vc dá nota zero a um filme bem montado, produzido como "A forma da água" (apesar de pequenos deslizes, deixando de lado a ideologia por trás da história) e concede um 5.5 ao Bright? Não é porque o primeiro filme foi indicado ao Oscar, mas se vê que, apesar de alguns clichês ele tem um roteiro decente, mas Bright? Uma confusão de elementos e personagens, com histórias inexplicadas (por que os elfos são ricos? Todos esses seres sempre 'existiram' nesse mundo (vide as diversas citações das guerras passadas), o clichê de bom e mau policial, piadas manjadas e sem graça, e interpretações medianas... Mesmo os efeitos especiais me desagradaram (achei bem incômoda a luz azul e a imagem levemente distorcida que a varinha gerava quando exposta). Enfim, o que 'chama' para o filme é o Will Smith, aliás, único motivo pelo qual assisti e me decepcionei depois... Filme longo, mal explicado, motivações forçadas, roteiro mal construído, nem ao menos posso dizer que me diverti, pois foi entediante. Minha opinião como estudante de cinema, em processo constante de aprendizagem. Sem puxar seu saco, adorei o blog.

Caio Amaral disse...

Oi tudo bem..? Então, 5.5 não é nenhum grande elogio ao Bright.. eu começo a achar um filme bom só depois da nota 7.0 mais ou menos, etc. O zero pro A Forma da Água foi principalmente por causa da ideologia (isso pra mim conta muito; não acho q faz sentido ignorar a ideologia ou a mensagem/intenção de um filme e julgá-lo apenas por questões técnicas). E apesar de ambos serem fantasias, são 2 filmes extremamente diferentes.. Não acho bom compará-los nos mesmos termos. Enfim, q bom q ainda curtiu o blog, apesar das discordâncias, hehe, abs!

Anônimo disse...

Que bom que entendeu meu comentário. Ainda tocando nessa questão, acho que um filme deve, primeiramente encantar o coração, seja qual for a história; a narrativa deve te cativar. Isso merece uma análise em separado. Mas não se pode desconsiderar as questões técnicas que estão envolvidas, todo o trabalho audiovisual (fotografia, direção de arte, edição etc.), pois juntas ela compõem o filme e ajudam a construí-lo. Assim, podemos ter um filme com um roteiro ruim, mas uma ótima fotografia (nesse caso, desperdiçada num roteiro fraco), e também podemos ter ótimas histórias com atores ruins, edição pobre, direção capenga. Considero o roteiro 80% do filme, pois se a história for ruim, não há técnica que salve, mas a parte técnica também faz parte do conjunto, então, deve ser levada em consideração. Novamente, minha opinião. Vejo que vc analisa bastante as ideologias, acho que isso é até mais complexo (entender o que está por trás, todas as referências e inter-relações de uma obra), mas se vc entrasse um pouco nessa parte técnica, suas críticas seriam melhores ainda.
Abraço e continue escrevendo!
Vanessa G.

Caio Amaral disse...

Sim.. as primeiras coisas que olho são o roteiro.. a direção.. os personagens/interpretações centrais.. daí vou apreciando outros aspectos como fotografia, edição, direção de arte, trilha sonora, etc.. no caso de A Forma da Água eu expliquei nos comentários por que não cheguei a considerar os méritos técnicos do filme, vou copiar aqui:

"se fôssemos dar uma nota pro Nazismo de 0 a 10 (assumindo que o Nazismo era aquilo mesmo que as pessoas acham), você daria uns pontos a mais pro movimento por causa da beleza dos uniformes, o design da suástica, a precisão dos discursos de Hitler? "Ah, este homem estuprou minha filha, mas ele demonstrou tanta habilidade física no ato, que eu vou dar pelo menos uma nota 3.5 pra ele pela performance..", rs. Pra mim existe um limite que, abaixo dele, eu simplesmente deixo de considerar méritos técnicos como efeitos especiais, maquiagem (mesmo em bons filmes não dou crédito demais pra isso).. Se vc olhar minhas postagens Filmes Bem vs. Mal Intencionados, ou Virtudes e Tipos de Filmes, vai ver que dentro dos meus critérios, VIRTUDE e PRAZER são 2 coisas que precisam andar juntas pra terem valor.. apenas na medida em que as virtudes do artista estão sendo usadas pra proporcionar algo positivo pro espectador é que elas devem ser consideradas... Virtudes que servem apenas como exibicionismo, mas não resultam numa experiência cinematográfica melhor, ou virtudes que são usadas em favor de uma mensagem destrutiva (como nesse caso) são irrelevantes ou até tiram pontos do filme na minha visão."

Valeu, abs!!