sábado, 3 de fevereiro de 2018

Esperando a Era de Ouro

(Essa é uma espécie de resposta otimista à postagem Como a Cultura Encomenda Seus Ídolos)

Embora eu esteja sempre reclamando aqui dos filmes atuais, elogiando o cinema de 20, 30, 40 anos atrás, atacando o Anti-Idealismo cada vez mais explícito em Hollywood, eu queria colocar as coisas um pouco em perspectiva e discutir a diferença entre variações reais nos valores predominantes de uma cultura, versus um tipo de insatisfação crônica com o presente que é muito comum, e que costuma gerar essa impressão falsa de que a cultura do passado era sempre melhor, que antigamente o público tinha mais bom gosto, etc - um tema elaborado de maneira divertida no filme Meia-Noite em Paris de Woody Allen:



Pra começar quero dizer que sim - acho que existem altos e baixos na cultura, momentos em que valores positivos estão mais em alta, e que valores negativos estão mais em alta, em que padrões estéticos estão mais elevados e menos elevados. E acho que desde o começo dos anos 2000, estamos num desses "baixos", onde as ideias ruins se tornaram muito mais dominantes na cultura popular (e por ideias "ruins" eu quero dizer Anti-Idealistas).

Isso não quer dizer que a realidade em si esteja pior, nem que o Idealismo tenha desaparecido, sido derrotado. Traçando um paralelo com política: se um país elege um presidente conservador ou um liberal, isso pode indicar que mais de 50% da população esteja pensando de um jeito, mas não faz desaparecer a parcela da população que pensa de outro jeito e continuará pensando de outro jeito independente das ideias mais populares no momento.

Creio que o conflito entre Idealismo vs. Anti-Idealismo (assim como o conflito entre Capitalismo vs. Socialismo, Individualismo vs. Coletivismo, Egoísmo vs. Altruísmo) sempre existiu na sociedade e sempre irá existir, pois essas coisas estão ligadas a questões emocionais como autoestima, felicidade - e enquanto o mundo for mundo, sempre existirá uma divisão equilibrada na sociedade entre pessoas com mais autoestima, menos autoestima, pessoas mais otimistas, menos otimistas, mais felizes, menos felizes, mais independentes, menos independentes, etc. E por isso, enquanto houver liberdade, sempre teremos na cultura coisas sendo produzidas pra agradar a todos esses públicos (e todas as misturas e graus entre os extremos).

Não acho que possa existir uma "era de ouro" de fato como às vezes podemos fantasiar, onde determinados valores passem a dominar totalmente uma cultura, e derrotem definitivamente os valores opostos. No máximo certos valores podem se tornar mais fortes numa época, mais influentes, conquistarem uma parcela maior da população, mas não irão eliminar a pressão constante vinda do lado oposto.

Mesmo na época que pra mim foi o auge do entretenimento, nos anos que produziram os melhores filmes, as melhores músicas, o mundo era tão dividido e complexo quanto ele é hoje - a diferença é que haviam mais coisas sendo produzidas de acordo com as minhas preferências, e meus valores estavam mais em alta - mas ao mesmo tempo, continuava existindo uma forte oposição a eles e coisas indo contra essas ideias (no Oscar 98, meu filme favorito era o Titanic, que era a maior bilheteria de todos os tempos e acabou levando 11 prêmios - ainda assim não era uma unanimidade: Arnaldo Jabor e José Wilker estavam lá em rede nacional atacando o filme, e certamente tinha muita gente que pensava como eles).

Então acho importante abandonar a noção enganosa de um passado mágico onde a cultura estava em plena harmonia, onde tudo era melhor, as pessoas tinham o mesmo gosto que você, e o mundo não estava em conflito.

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Então por que muitas vezes temos a sensação de que o passado era melhor? Que a cada década as coisas pioram na cultura? Vou listar abaixo algumas das minhas hipóteses:

1. Uma insatisfação natural com o presente e com a realidade imediata. Dificuldade de aceitar que o "agora" é tão especial quanto sempre foi, e que podemos ser tão felizes nesse instante quanto podíamos no passado.

2. O fato de que memórias e experiências da infância / juventude sempre parecem mais mágicas e intensas, dando um eterno senso de que o passado era melhor. Não só pelo que disse no item anterior, mas pela própria natureza da juventude e da infância:
- Na juventude nós vivemos numa espécie de bolha, nossos pais filtram aquilo que chega até nós, nos mostram apenas coisas adequadas pra alguém da nossa idade, criando uma impressão de um mundo mais benevolente do que de fato é, enquanto na vida adulta nós vemos o mundo sem filtro, com todos os positivos e negativos, somos expostos a mundos diferentes do nosso, etc.
- Quando somos crianças, tudo feito por um adulto (inclusive obras de arte) tem um ar mais grandioso, inatingível - mas quando somos adultos, boa parte do mistério se vai, pois nós entendemos como as coisas são feitas, passamos a ver os defeitos, etc.
- Nossas primeiras experiências são sempre mais impactantes do que aquilo que já vivenciamos centenas de vezes. Nossas primeiras visões de virtude sempre têm um impacto maior do que elas têm mais tarde (um artista que surgiu semana passada dificilmente irá te fascinar como seu ídolo de infância, por mais talento que tenha).
- Na infância nós somos inocentes em relação às coisas ruins e focamos mais nos aspectos positivos das coisas que vemos (não enxergamos mensagens políticas nas obras, por exemplo). Se eu tivesse 5 anos hoje, eu provavelmente acharia a Elsa do Frozen o máximo, e nem me incomodaria com os aspectos menos ideais de sua personalidade. Agora se eu fosse adulto nos anos 70, talvez eu olhasse pros Jackson 5 com certa suspeita ("Ah, eles se vestem como hippies, usam penteado afro, talvez tenham uma agenda marxista oculta"), sendo que criança eu acharia tudo inocente e nem questionaria qualquer coisa.

3. Nós vemos apenas os "melhores momentos" do passado, e comparamos isso com o presente sem filtros (seria como comparar seu cotidiano real com a vida de pessoas que você só vê pelo Instagram). Por exemplo: poderíamos ficar com a impressão de que 1977 foi um ótimo ano pro cinema, pois tivemos Star Wars, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa - e achar que filmes assim eram a norma da época, quando na verdade isso é apenas a "nata" daquele ano, que na maior parte estava lançando coisas fracas como O Exorcista II - O Herege, Orca - A Baleia Assassina, e coisas muito piores.

4. Com o tempo e a tecnologia, tudo vai se "democratizando" - o que era dominado por uma elite no passado, com o tempo vai ficando mais ao alcance das pessoas. Nos anos 40, você só faria um filme se estivesse dentro do sistema de estúdios em Hollywood, o que era muito difícil, restrito a profissionais de altíssimo nível. E o público só podia consumir aquilo que era oferecido por essa elite. Não havia espaço para o amador, para o experimental, então na média as coisas até podiam ser melhores (tanto em nível estético quanto em termos de valores), mas isso por uma falta de oportunidade, não porque a população era de fato mais inteligente e exigia coisas mais sofisticadas. Hoje qualquer um pode fazer um filme, lançar uma música. Então com o tempo, tudo tende a ir se aproximando mais do gosto real do povo, que nunca é muito sofisticado - e as coisas de mais qualidade vão ficando mais reservadas para uma elite. Por exemplo: hoje em dia é muito difícil você construir um prédio, então todos os prédios são construídos por arquitetos profissionais, seguem uma série de princípios sólidos, etc. Agora imagine daqui a 100 anos, com impressoras 3D disponíveis pra todos - qualquer pessoa poderá erguer um prédio por conta própria, e por isso muito mais mediocridade vai existir no mundo da arquitetura... Os estudados então irão sentir falta dos "velhos tempos", irão reclamar das construções modernas, etc. Mas na verdade essa piora talvez seja apenas um efeito colateral de uma coisa boa, como diz o Chico Buarque nesse vídeo:



Coisas bem feitas não deixarão de existir, mas elas se tornarão cada vez mais voltadas para uma minoria, pois para as massas terá surgido uma forma mais barata e menos sofisticada de se fazer as coisas, que será boa o suficiente para elas.

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Essas são apenas algumas explicações que na minha visão trabalham juntas pra criar esse senso constante de decadência cultural, que nem sempre é real.

Não estou sugerindo que nós estamos vivendo numa Era de Ouro agora, mas acho que, se nós estivéssemos, uma pessoa com uma mentalidade saudosista do tipo Meia-Noite em Paris não iria conseguir perceber. Porque o que essa pessoa está esperando - reviver o encanto da infância, o senso de estar num mundo em plena harmonia onde seus valores mandam na cultura e não existe oposição - é algo que nunca existiu de fato; era no máximo um estado de consciência, a maneira mais filtrada como olhamos o mundo na juventude.

Temos que pensar que quando chegar a próxima Era de Ouro, a realidade não será muito diferente do que ela é agora - ela nunca será igual às lembranças de 50 anos atrás. De repente, em vez de 2 filmes excelentes no ano, talvez sejam lançados 5 ou 6, e isso já configure uma nova Era de Ouro. E em vez de 2 ou 3 novos artistas que você admire, talvez existam 6 ou 7. Tudo isso no meio de uma maioria de coisas de baixa qualidade, e de artistas com valores opostos aos seus continuando a produzir e a ter seu público.

A reflexão que fica é: se o melhor que podemos esperar da cultura é um punhado de coisas admiráveis em meio a uma maioria de coisas necessariamente mais medíocres; se grandes obras sempre representarão uma pequena porcentagem de tudo o que é produzido; se coisas antagônicas aos seus valores sempre estarão sendo produzidas pra atender a uma parte da população que pensa diferente, será que precisamos esperar uma "Era de Ouro" chegar pra começarmos a aproveitar o presente como se já vivêssemos em uma? É realmente importante convencer a maior parte da população de que você está certo? Faz diferença pra sua felicidade pessoal se seus valores são os mais populares no momento, ou estão em 2º lugar, ou em 10º? Se o seu filme favorito ganha vários Oscars ou não é indicado a nenhum? Se seu músico favorito é o que fica mais tempo no topo das paradas? Se o povão tem bom gosto?

Antes essas coisas me incomodavam mais, mas com o passar do tempo, tenho ligado cada vez menos para o que pensa a sociedade como um todo, e visto até certa graça em não compartilhar dos mesmos valores das massas, ou mesmo da "elite intelectual" (pelo menos no que diz respeito à arte - em questões políticas o problema é maior, pois a opinião das pessoas de fato pode representar uma ameaça à sua liberdade).

Mesmo nos piores anos, bons filmes são lançados, boas músicas são produzidas... Podemos sempre continuar consumindo as coisas do passado pra reabastecermos nossos espíritos... E pra quem produz cultura, é bom lembrar que há sempre público pra coisas bem feitas, há sempre uma maneira de comunicar sua mensagem, mesmo que ela vá contra os modismos atuais.

2 comentários:

Anônimo disse...

É certo que em todas as épocas foram produzidas coisas boas e ruins no campo da cultura. Mas um aspecto ruim dos tempos atuais é que se desenvolveu uma tendência de tratar como valiosa qualquer coisa que faça sucesso. Paulo Coelho vende bem, por isso é tratado por alguns como grande escritor e até eleito pra Academia Brasileira de Letras, a Anitta recebe um prestígio que nunca dariam a Rita Cadillac em seu tempo, etc.. O próprio caso do Mudbound no Oscar é um exemplo, também. O filme mais sério foi preterido em favor do mais popularesco A Forma da Água.

Falando da Elsa, parece que seu reinando está em declínio. No pré-carnaval do colégio do meu filho, só vi uma menina de Elsa e duas de Anna (que seria um personagem superior, se não fosse tão burra e irritante). Havia muito mais Moanas e Ladybugs. Às vezes, algumas coisas mudam pra melhor. A Elsa foi uma música e um vestido, não tem um conteúdo que a faça perdurar.
Pedro.

Caio Amaral disse...

Oi Pedro.. no caso do Paulo Coelho.. não sei dizer se ele é bom ou ruim como escritor, pois só li O Alquimista há muitos anos... mas na época não me pareceu um sucesso imerecido... Engraçado que pra mim o caso dele parecia ser o oposto do que você está falando... Vc está dizendo que, simplesmente pelo fato dele ser um sucesso comercial, o consideram automaticamente um bom escritor... Quando minha impressão é que ele sempre foi menosprezado justamente pelo fato dele ser popular - como uma espécie de Romero Britto da literatura, algo que vende mas que é visto pela elite como vulgar, sem qualidade, etc. Pelo menos nos meus círculos, menções ao Paulo Coelho sempre vieram acompanhadas de um tom de deboche, etc. Mas não saberia julgar direito esse caso...

Sobre Rita Cadillac não sei muito, hehe, mas não vejo nada de mau no sucesso da Anitta, acho que ela se destacou por criar um produto diferente e acima da média no cenário do pop, etc.

Minha sobrinha de 4 anos tá numa fase Frozen agora.. tive que assistir a 2 performances seguidas de Let It Go outro dia.. só que ela tava vestida de Branca de Neve, kkk... então acho que o lance mesmo é a música e aquela cena, não a Elsa necessariamente, rsss. abs!