domingo, 22 de fevereiro de 2026

IA e o Criador

Venho discutindo os perigos da IA para o entretenimento, focando mais no lado do espectador e em como os filmes podem se tornar menos impactantes para o público, mas a IA pode ser igualmente destrutiva do lado do criador.

A arte é uma das expressões máximas da potência criativa do homem. Há poucas coisas mais satisfatórias e que trazem mais plenitude do que criar uma obra da qual você se orgulhe. E o processo criativo é tão gratificante quanto o resultado final. Ter uma grande ideia é uma das experiências mais prazerosas que um homem pode ter. Por essa ótica, pense no absurdo que é delegar o processo criativo à IA. Seria tão bizarro quanto ficar feliz com uma nova tecnologia que permita que um robô brinque com seus filhos por você ou faça sexo com sua esposa, já que ele pode fazer isso de maneira muito mais eficiente e lhe poupar esforço.

A autoestima é uma necessidade psicológica fundamental para o ser humano, e o trabalho criativo é onde o homem consegue a maior parte de sua autoestima. Mas autoestima vem da avaliação que você faz de si mesmo, não do que os outros acham de você. Por isso, pra ter uma autoestima autêntica, você tem que saber que é o autor do seu trabalho, que se superou, que realmente desenvolveu as capacidades que admira e está demonstrando. Senão, você está tentando obter uma autoestima falsa, baseada em uma ilusão na mente de outras pessoas.

Meu temor é que obter esse tipo de “autoestima” seja a motivação principal daqueles mais empolgados com os avanços da IA. Por que será que a IA generativa parece tão focada em Hollywood, em se desenvolver a ponto de poder imitar a arte perfeitamente? Eu não tenho nada contra a tecnologia em si. Mas há vários usos para ela fora do campo da arte que me interessam muito mais. Imagine como aplicativos de mapas podem evoluir. Imagine como vai ser mais fácil planejar um corte de cabelo, uma cirurgia plástica, visualizar uma reforma. Imagine aulas de história para crianças acompanhadas de vídeos realistas mostrando como era a Grécia Antiga etc. Tudo isso eu acharia fantástico, mas por algum motivo, estão todos obcecados em fazer filmes com IA, músicas com IA, escrever livros com IA — ou seja, fazer arte, aquilo que serve para expressar a potência criativa do homem e que, historicamente, sempre foi uma das fontes mais elevadas de autoestima e de prestígio na sociedade. É um senso de orgulho e valor pessoal que as pessoas estão buscando na IA — porém, de forma desonesta.

Vamos traçar um paralelo com as Olimpíadas. Imagine que inventem uma espécie de perna mecânica que permita que uma pessoa sedentária possa correr tão rápido quanto um atleta profissional. Eu não teria nada contra a tecnologia em si, que poderia ser usada para vários fins práticos fora do esporte — chegar mais rápido ao trabalho, passear pela cidade sem se cansar etc. Pra isso, a perna não precisaria ser ultrarrealista e se parecer exatamente com uma perna humana. Agora imagine que o usuário não esteja interessado nessas funções práticas, mas queira usar a perna mecânica para competir nas Olimpíadas. Qual é seu objetivo, nesse caso? Obter o tipo de admiração e prestígio que apenas atletas profissionais antes conseguiam. E, como ele deseja fazer o público acreditar que as capacidades da perna são suas capacidades naturais, ele precisa que a perna seja realista, indistinguível de uma perna humana.

Pense no quão ridícula é essa atitude. Não só esse homem está sendo desonesto com o público, como está confessando que a única coisa que lhe importa na vida é o que os outros acham dele. Ele sabe que não tem as virtudes que está exibindo, mas isso não importa, desde que receba os aplausos, as medalhas, os créditos sociais. Ele confessa também que não tem nenhum prazer no esporte em si. Que treinar, atingir metas, superar seus limites não lhe interessa. Que o esporte é apenas um meio para obter aplausos — e, se uma máquina puder eliminar toda a parte “chata”, melhor.

Minha esperança é que essa confusão a respeito da função da arte, tanto para o artista quanto para o espectador, leve a um cenário caótico apenas nos primeiros anos de IA, mas que, com o tempo, as pessoas comecem a cair em si e a limitar o uso da IA apenas a funções mais técnicas, “braçais”, que não destruam a dimensão criativa da arte. Veremos.


Mais sobre IA:

Hollywood vs. IA

IA e Criatividade

Inteligência Artificial: meus pensamentos

2 comentários:

  1. Caio, boa tarde! Estimo que esteja bem.

    Foi uma ótima surpresa encontrar o seu blog novamente, acredito que em 2024 esbarrei com sua resenha sobre algum filme da época e achei excelente, mas por algum motivo, me perdi de seu blog e não me recordava o nome, tudo isso apenas para encontrá-lo novamente dois anos depois. Dessa vez até salvei o nome para acompanhar regulamente visto que gosto bastante do seu conteúdo.

    Sobre essa publicação, eu não poderia concordar mais, é um hiperfoco para que a IA crie arte no lugar do ser humano, uma coisa é ter um auxílio pela IA, sem tirar o processo criativo homem, mas deixar tudo nas mãos da IA, tira todo o processo de pensar e desenvolver das pessoas e até o valor do reconhecimento posterior. Eu vejo isso como um perigo, porque você tira um dos fundamentos do homem, é como se você recebesse uma prova e outra pessoa fizesse em seu lugar apenas para você ter os resultados sem o investimento do trabalho e esforço. Vou um pouco além e digo que hoje me preocupo com as capacidades de criar arte e desenvolvimento intelectual, uma vez que de mãos dadas com a IA (Nesse cenário) nós temos a era dos vídeos curtos (Reels, TikTok e similares), eu noto que as pessoas já desenvolveram uma falta de foco e que se algo demorar mais que 30 segundos é difícil manter-se concentrado. Um número menor de pessoas lê livros, blogs e até vídeos longos com um bom conteúdo em.um documentário ou até mesmo no Youtube. Em contra partida vejo um grupo que resiste a este declínio. Uma última observação, é como mesmo que a IA crie uma "super arte", a beleza nunca é a mesma que vêm de uma criação feita pela mente humana. Você acredita que essa questão dos vídeos curtos tem ligamento com a vontade da IA ter todo o trabalho de pensamento criativo? E qual você acha que é o perigo/impacto real para o futuro?

    ResponderExcluir
  2. Olá, fico feliz com seu retorno!
    Também acho que a IA pode ter um papel legítimo no processo de produção de filmes, sem substituir o processo criativo — da mesma forma que a edição digital substituiu a edição física e facilitou muita coisa. Claro, existe aquele fenômeno de que, quanto mais fáceis as coisas ficam, quanto menos esforço algo exige, mais o padrão geral declina. Mas isso é daquelas coisas inevitáveis que não vale a pena reclamar.

    Eu acharia legal, por exemplo, poder fazer um filme de animação sozinho no meu computador; ter um estúdio virtual onde eu construo cada cenário, escolhendo cada móvel e objeto, criando toda a luz; depois faço o casting, dirijo cada performance — e a IA tornando o processo muito mais rápido e intuitivo do que seria hoje. O problema da atual IA generativa é que a pessoa cria um prompt com algumas orientações, e a cena já sai pronta; a IA preenche todas as lacunas com milhares de decisões próprias.

    Quanto à sua pergunta final... as gerações mais jovens produzem muito conteúdo pra redes sociais, e talvez a IA tenha se desenvolvido pra atender às demandas dessa área primeiro (filtros de Snapchat, ferramentas pra apagar pessoas em fotos...). Facilitar a produção de vídeos para as pessoas postarem mais no TikTok acho ok. É que daí a coisa começou a ficar tão profissional que agora as pessoas querem fazer arte com esses "apps", rs.

    A culpa inicial não acho que seja de artistas preguiçosos, mas uma vez que a tecnologia é criada, artistas preguiçosos serão atraídos para o ramo. Culpo mais o fato de Hollywood ter sido meio que invadida pelo pessoal da tecnologia; os CEOs dos estúdios hoje parecem CEOs de Big Tech, querem produzir “conteúdo” só para aumentar lucros, sem grande respeito pela qualidade artística. Isso pode acelerar a entrada da IA na indústria e levá-la a ser usada com maus critérios.

    O que torço que aconteça é que surjam selos de qualidade na indústria que façam um controle e identifiquem trabalhos criativos autênticos. Aí teremos uma massa enorme de conteúdo barato feito por IA, mas uma nova hierarquia irá se formar. Da mesma forma que o logo de um estúdio dá certa credibilidade hoje, teremos estúdios e distribuidoras dedicados apenas a trabalhos autênticos. Afinal, quando 10 mil longas forem lançados por dia, o público vai precisar de um funil, um critério pra escolher o que merece ser visto. Isso pode tornar a autenticidade um grande diferencial.

    ResponderExcluir