sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Odisseia

História mal contada, diálogos sem inteligência, ação sem lógica, mas tudo apresentado através de imagens imponentes e uma mixagem de som que faz você descobrir que é possível ser estuprado pelos ouvidos. Há 20 anos que acho Nolan um mau cineasta — especialmente um mau roteirista — mas essa é a primeira vez que ele adapta uma história clássica com a qual eu já tinha certa familiaridade, e ver como ele lida com uma trama conhecida só me fez ter uma visão mais clara de suas inaptidões: a maneira como a não-linearidade e a fragmentação da história são usadas para camuflar falta de domínio narrativo e temático, como o realismo e o tom sombrio viram muletas para fazer um roteiro tolo soar sério, etc. A ruindade dos diálogos (cheios de exposições forçadas e toques anacrônicos) pra mim pareceu ainda mais gritante, pois acabei de rever Troia (2004), que é cheio de falas brilhantes e fica parecendo Shakespeare em comparação.

Pra ilustrar algumas dessas minhas críticas, pegue os set pieces de ação, por exemplo. Em outras versões de A Odisseia que assisti, não tive problema nenhum em aceitar a lógica das táticas de Odisseu para superar os monstros e obstáculos da jornada. Mas agora, detalhes estranhos tornaram muitas das cenas forçadas, ilógicas ou simplesmente confusas: a fuga da gruta do ciclope não parece mais baseada em uma série de sacadas brilhantes de Odisseu; o Cavalo de Troia não tem mais rodas, ficando inconveniente de transportar e perigoso para quem está dentro; parece haver outros caminhos para o navio evitar o redemoinho, em vez de uma geografia que os força a escolher entre o redemoinho de um lado e a Cila do outro... Outros detalhes também tiram credibilidade: Atena (que não tem muito mais utilidade na história) não transforma Odisseu em mendigo quando ele chega em Ítaca, o que torna forçado Matt Damon dialogar por horas com as pessoas com o rosto coberto para não ser reconhecido. Depois, quando ele tem que lutar contra os pretendentes de Penelope, há tantos adversários que a luta se torna inacreditável, até porque Matt Damon não está com um grande porte físico e a má coreografia o torna meio ridículo em alguns momentos. Em Ulysses (1954) e na minissérie A Odisseia de 1997, essa sequência é dirigida de forma que não parece absurdo o herói derrotar os homens sozinho. Quanto a Helena de Troia — meu problema com o casting da Lupita Nyong'o não é o fato dela ser negra, mas o fato de não ter o tipo de beleza óbvia e lendária que "lança mil navios", criando mais um toque de artificialidade.

Embora A Odisseia tenha um formato episódico, que normalmente torna filmes arrastados, algumas adaptações anteriores conseguiram contornar isso criando um enorme suspense em relação a Penelope e os pretendentes. Víamos primeiro como era a vida do casal antes da partida de Odisseu, como eles tinham um lar ideal em Ítaca, e como tudo vai sendo degradado com o tempo pelos pretendentes (como quando Scar sobe ao poder em O Rei Leão). Isso criava um gancho que tornava a jornada de Odisseu super envolvente. Aqui, não vemos como as coisas eram antes para poder comparar, portanto não há mais a mesma sede de vingança nem senso de urgência pelo retorno de Odisseu (a narrativa não-linear também ajuda a diluir a tensão, minando este gancho da história).

Outro atrativo de uma obra como A Odisseia é o potencial de escapismo — aquilo que torna os clássicos do Ray Harryhausen encantadores de ver. Mas o estilo de Nolan é incompatível com esse tipo de escapismo — sua seriedade não combina com os ingredientes mais fantasiosos da história, que exigiriam uma abordagem mais leve. Na tentativa de tornar bruxas e gigantes coisas sérias, adultas, ele acaba eliminando muito da magia. O resultado é aquele meio do caminho entre o naturalista e o fantasioso que tornava certas cenas da trilogia Batman esquisitas — quando estávamos numa sala realista, cheia de homens comuns, e de repente um adulto fantasiado de morcego entrava pela porta.

"Ah, se é tão ruim assim, como Christopher Nolan é o diretor mais bem-sucedido do século 21?". Acho que ele é muito bom em criar uma aura de poder, autoimportância, autoridade, o que parece ser irresistível para muitas pessoas. Meu problema não é com esses valores em si, mas com o fato dele projetar apenas esses valores (ter pouca versatilidade), e projetá-los em um nível sensorial, driblando o cérebro do espectador. Sua autoridade vem muito mais de gimmicks como rodar o filme em IMAX 70mm e escalar 10 dos atores mais bem pagos de Hollywood do que de suas reais competências. Nolan não saberia fazer o coração do espectador disparar no clímax da história com base em seu controle narrativo, mas junto com sua equipe de som, ele consegue desenvolver um batuque atordoante que, por meios fisiológicos, não duvido que acabe provocando uma taquicardia em alguém. É uma forma frágil de poder — e em alguns aspectos, seus filmes recentes têm falhado até em demonstrar o tipo de potência testosterônica superficial que seus fãs respeitam. Assim como a explosão de Oppenheimer foi decepcionante, o herói de A Odisseia nunca parece um guerreiro tão poderoso quanto deveria, e as cenas grandiosas do filme são tímidas se comparadas às multidões de Troia (2004). Admiro grandes feitos, mas Nolan é muito mais sobre uma pretensão de grandiosidade do que sobre grandiosidade de fato (o que por algum motivo me fez sair da sessão pensando em Trump e no dom de ambos de forjar esse tipo de autoestima sem lastro que encanta multidões).

The Odyssey / 2026 / Christopher Nolan

★½

6 comentários:

  1. Olá, Caio.

    Esperava tua crítica para decidir se veria o filme. Mas, percebi que não há modafinila suficiente neste mundo. Não tenho paciência para um filme do Nolan, nem que seja em casa. A vida é muito curta, e as tarefas numerosas. Verei trechos no YouTube futuramente.

    Mesmo sem ver o filme, notei como o conceito de “complementaridade” identificado por ti é algo que deveria ser perene tanto na criação do personagem Odisseu em roteiro quanto nas críticas. Falhas, não de caráter, mas de “temperamento”. As quais a plateia diria: “Eu não deixaria Odisseu dizer seu nome para o Ciclope se estivesse lá”. As demais análises — aquelas com palavras sofisticadas como “culpa” e “reconstrução”, sem definirem ou concretizarem o que são essas coisas, as faz cair em subjetivismo e repetição tão vazios quanto esses debates na internet sobre acuidade histórica, cheios de paixões nas defesas e ataques.

    Certamente uma filosofia do cinema é necessária para identificar e definir tudo o que torna um filme e uma crítica possíveis. Bem como para orientar os criadores de conteúdo, que parecem não saber do que falam, mas que apenas têm uma noção vaga, aproximada, no limiar do subconsciente alguma que falham em identificar e cedem ao aspecto não objetivo de suas emoções – geralmente racionalizações ou associações pessoais.

    Também que enquanto os demais falam sobre o som como “alto demais”, “intenso demais”, tu identifica corretamente a relação entre o sensório-perceptual e o cognitivo e fornece uma base neurocientífica para a crítica estética. Como se Nolan usasse os mesmos artifícios tribal-religiosos de barulhos repetitivos que solapam a cognição da plateia e transformam a experiência numa festa rave que celebra o primitivo e o animalesco no homem (nada poderia estar mais distante da pretensão de Nolan de criar um filme intelectual e refinado rsrs. Lembrei do artigo de Peikoff “A Picture Is Not an Argument”). A identificação e a definição dos elementos está lá: emoções autênticas necessitam da cognição e da inteligência do homem, e apelo ao sensorial é um truque barato que o senso comum de toda pessoa que já passou em frente a uma igreja evangélica deveria reconhecer.

    Porém, ainda quero entender as demais falhas de Nolan do teu ponto de vista: como Odisseu engana o Ciclope e por que isso não funciona? Quais são os toques anacrônicos e por que o anacronismo é ruim como um todo ou ruim neste caso? Quais são os “detalhes estranhos” que “tornaram muitas das cenas forçadas” e por que os aspectos realistas é que são estranhos, e não os mitológicos/fantásticos? (entre outros exemplos).

    Também não sei argumentar contra a diversidade do elenco, que “me parece” errada, mas não tenho uma filosofia do cinema para identificar os elementos corretos e demonstrar como estão errados de forma objetiva. O máximo a que consigo chegar é à noção de descaracterização (lembro-me de um texto teu — acho que sobre James Bond — que mencionou que, se removêssemos os elementos do Papai Noel até não sobrar mais nada, como cores, barba e presentes, ele ainda seria o Papai Noel?) e à intenção niilista de Nolan (embora eu não saiba dizer se o niilismo e a pseudossofisticação aqui andam em paralelo).

    Enfim. Com isso, gostaria de pedir que tu desenvolvesse melhor, de forma mais concreta, e teorizasse sobre o caso específico de A Odisseia.

    Outra coisa. Tenho estado desaparecido por razões pessoais. Coisas de processos, documentos antigos, cartórios, advogados. Ainda assim, sinto falta de ter mais tempo para ter mais contato com valores positivos. Sempre me lembro sobre que tu me disse em julho do ano passado, sobre procurar aquilo que vai me restaurar (tu mencionou ter ido na Disney com a família na época). Mas Jesus prometeu que os humilhados serão exaltados e eu tenho fé que virá comigo ainda em vida rsrs.

    Abraços, Caio.

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    1. Oi Leonardo, quanto tempo!

      Não sei se entendi exatamente seu ponto no parágrafo sobre complementaridade. Você acha que faltaram essas falhas de temperamento ao Odisseu do Nolan, pelas críticas que tem lido? Ouvi alguns críticos dizendo que Nolan criou um herói mais idealizado do que no livro, onde ele teria mais falhas de caráter. Mas eu não discuti esse aspecto da caracterização na minha crítica, então não entendi direito ao que você estava se referindo.

      Quanto à sequência do ciclope... A única grande sacada que o Odisseu tem de fato é perceber que eles não podem matar a criatura com a pedra bloqueando a entrada, já que depois não conseguiriam removê-la sozinhos. Mas aí corta, e eles já estão furando o olho do ciclope. Foi ideia do Odisseu? Qual era exatamente o plano? Aí corta de novo, a pedra da gruta já foi removida, o ciclope está semi-acordado e mal tenta impedir que alguém saia junto com as ovelhas. Ou seja, não há a sacada do "Ninguém", nem o vinho para embebedá-lo, os homens não precisam se esconder sob as ovelhas... Tudo acontece meio rápido, e não fica a impressão de que o Odisseu elaborou uma estratégia brilhante.

      Só nessa cena há vários desses "toques estranhos" que citei. Por exemplo: logo no início, o ciclope abre a gruta, vários homens conseguem escapar, inclusive o próprio Odisseu. Mas ele resolve voltar porque nem todos saíram, já que um bom líder não abandona seus homens. Só que não fica claro por que os outros não foram ágeis, nem o que exatamente os impediu de escapar. Pro Nolan, parece mais importante mostrar Odisseu como um líder estoico, responsável e disposto a se sacrificar por seus homens do que enfatizar sua astúcia. Clássico "herói envergonhado". Outro detalhe estranho: o ciclope dorme sempre no chão ao lado deles na gruta, o que faz parecer a coisa mais fácil do mundo matá-lo ou cegá-lo. Se todos estão armados com espadas, também não entendo por que precisaram fabricar aquela lança de madeira com a ponta em chamas. E quando finalmente escapam, também não dá para entender por que o ciclope está meio grogue, quase dormindo, sem vigiar direito a saída das ovelhas. Ah, e ele fala inglês, mas ninguém tenta se comunicar verbalmente com ele por alguma razão estranha. Enfim, nas outras adaptações que vi, não havia esse monte de ruído. A cena fluía de forma lógica, a ação era simples, fazia sentido, as pessoas se comportavam de maneira natural, o monstro também... e pronto. Aqui, o Nolan tem o dom de tornar tudo meio confuso. É aquela coisa: "leitura fácil é uma escrita muito difícil".

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    2. Quanto ao anacronismo, foi uma queixa pequena que tive do filme. Achei muito mais problemáticas a artificialidade das falas expositivas e a pobreza dos textos que tentam soar poéticos. Sim, há toques modernos que às vezes quebram a ilusão de estarmos vendo uma aventura passada em tempos remotos. Não só o Tom Holland falando "dad" e outras coisas que a internet já apontou (o que dá uma sensação de série de streaming, não de um épico ambicioso) mas também alguns discursos de empoderamento feminino que só fariam sentido na sociedade moderna. Podemos discutir que tipo de anacronismo, inautenticidade histórica ou diversidade forçada é ou não prejudicial no entretenimento, mas não foi isso que me fez desgostar de A Odisseia (até por ser uma fantasia).

      Sobre o realismo versus o fantástico: o Nolan traz um estilo mais realista pra um universo essencialmente fantástico. O problema é a justaposição, o choque de estilos. Como sua linguagem tende ao realismo, ele acaba precisando atenuar tudo o que é fantasioso demais pra evitar estranhamento. Só que isso gera uma tensão constante, porque A Odisseia é super fantástica. É como decidir fazer um musical, mas adotar uma linguagem realista que torna esquisito todo momento em que os personagens começam a cantar e dançar. Você passa o filme inteiro tentando minimizar justamente aquilo que define a obra. Acho que o Nolan se daria melhor com um épico mais pé no chão tipo Ben-Hur ou Gladiador. Já A Odisseia pede um "mago" visual.

      Sempre muito bom receber seus comentários. E fique tranquilo porque já sei como funciona sua rotina, hehe. Espero que esteja tudo sob controle por aí! Abraços!

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    3. É que o limite de caracteres trucidou meu comentário

      O que eu quis dizer: ao acompanhar críticas de A Odisseia, senti falta de profundidade e objetividade. Mesmo sem ver o filme, discordei dos critérios que fundamentavam as avaliações, positivas ou negativas. Ao refletir sobre o que faltava nessas análises, percebi conceitos deficientes, como complementaridade. Concluí que uma filosofia do cinema é necessária para orientar tanto os cineastas quanto os críticos

      Percebi que, subconscientemente, eu filtrava as críticas pelo Idealismo como sistema filosófico de cinema. Eu pensava, por exemplo, que, se cineastas e críticos empregassem um conceito já identificado e definido, como complementaridade, teriam maior manejo sobre Odisseu. Em vez de recorrer a termos freudianos abstratos ou de apenas criticar a atuação, esse conceito permitiria identificar, de modo objetivo, se Odisseu apresenta verdadeiras falhas de caráter ou apenas falhas de temperamento. Esse seria um critério melhor para avaliar o que alguém apreciou ou não no filme, em vez de apenas apontar alguma associação aleatória e subjetiva

      Em seguida, validei outra aplicação do Idealismo. Como o uso da neurociência para fundamentar porque as emoções irracionais que os tambores produzem são um recurso clandestino mais próximo de um ritual tribal-religioso, e menos como arte temporal. Nolan usa isso e “escapa”, pois a audiência e a crítica não têm base para perceberem e só dizem que o som incomoda, sem alcançarem a dicotomia sensório-perceptualXcognitivo

      Depois, pedi que tu aprofundasses outros pontos, pois não encontro em nenhum outro lugar textos e ideias com a mesma profundidade e qualidade dos teus, tampouco consigo produzir algo semelhante de forma autônoma. Então apresentei algumas dúvidas. Uma sobre a diversidade: falta-me uma filosofia mais clara que me permita formular um contra-argumento. Não quero cair na falácia de afirmar que Helena era branca, pois essa não é minha premissa inicial

      Não sei se a premissa a seguir está correta, mas parto da ideia de que um filme deve ser avaliado como filme, independentemente da fidelidade ao material original. Essa premissa, portanto, permitiria universalização: que existam amplas diferenças entre o filme e os eventos originais, reais ou fictícios, sem prejuízo para a obra — de Amadeus às adaptações de quadrinhos. Nunca concordei com a ideia de que adaptações devam ser fiéis às HQs, mas sim filmes independentes. Essa, porém, não parece ser a premissa das demais pessoas

      Foi por isso que pedi a tua ajuda para pensar melhor sobre o problema. De qual premissa devo partir e qual raciocínio devo seguir para chegar a uma conclusão objetiva de que a diversidade do elenco é ruim? Devo começar pela premissa da obra original ou pela do cinema independente?

      A premissa da independência do cinema me leva, então, ao problema do anacronismo. Meu conflito é este: por um lado, quanto maior a fidelidade à época histórica, mais o filme favorece a imersão; por outro, quanto mais o filme se aproxima do espectador, mais favorece a identificação com os próprios valores. Penso que Titanic resolveu esse problema ao começar no presente e criar uma ponte para o passado. Outro exemplo é West Side Story cujo “anacronismo” vejo como necessidade

      Mas como contar, por exemplo, uma história bíblica sob a premissa do cinema como obra independente — e não sob a premissa da adaptação fiel — sem recorrer ao anacronismo? Ao mesmo tempo, o anacronismo poderia prejudicar a história? É esse conflito que não consigo resolver.

      Há o caso de Mel Gibson e as línguas mortas em Apocalypto e A Paixão de Cristo: com qual conceito de uma filosofia do cinema avalio essas escolhas? Por onde começo, como estruturo o raciocínio e a que conclusão chego? Se eu partir da premissa do espectador, reduzo a importância das outras duas — cinema×adaptação?

      Por fim, foi como um desabafo de que tem sido frustrante tentar acompanhar o cinema e a crítica e tudo ser tão superficial e oco, como o próprio Cavalo de Tróia.

      Espero que tenha dado para entender agora rsrs. Abraços.

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    4. Oi, Leonardo!

      Também faço isso de ler críticas imprecisas e passá-las por um filtro Idealista pra tentar chegar aos reais princípios do crítico hehe.

      Pelo que entendi, você quer saber quando é certo ou errado ir contra algum aspecto da obra original no processo de adaptação, ou ser historicamente impreciso ao representar uma cultura, uma época etc.

      Acho que o artista não tem uma obrigação moral de ser fiel ou historicamente preciso. Arte não é história, documentário… Também vejo a adaptação como uma obra independente. O cineasta só deve ser honesto com o público: se sua ideia é fazer uma releitura, subverter uma obra aclamada, deixe isso bem claro no título, no pôster, pra não atrair o público errado.

      Fora essa honestidade básica, só dá pra dizer que infidelidade ou imprecisão histórica são objetivamente erradas dentro do contexto de um sistema de valores… No Idealismo, a arte tem a função de expressar a visão, o talento e a potência criativa do artista, além de proporcionar uma experiência prazerosa e inspiradora para o espectador.

      Se um artista escala um elenco diverso só por pressões externas, pra se classificar pro Oscar, mas isso não reflete seu gosto, seu universo, aquilo que expressa sua sensibilidade e que ele genuinamente gostaria de ver enquanto espectador… então a diversidade é uma decisão errada, torna a obra menos autêntica.

      Como espectadores, não temos como saber ao certo o que motivou o artista… Mas sentimos pelas entrelinhas quando é algo forçado… como um merchandising no meio de uma novela, que não parece pertencer à obra.

      Se o artista retrata uma época de forma imprecisa sem querer… isso é ruim porque faz o artista parecer ignorante, desleixado — tipo um filme americano em que os personagens chegam ao Brasil e todos falam espanhol etc.

      Agora, se o artista faz alterações intencionais, conscientes, por vontade genuína, e é honesto com o público (não vende autenticidade pra depois entregar subversão), ele está dentro de seu direito e preserva sua estatura enquanto criador.

      O que não quer dizer que a alteração será sempre positiva filosoficamente… O que tornaria a alteração "objetivamente errada" no Idealismo seria a inclusão de valores negativos. Se a obra original tinha elementos irracionais, e o artista os modifica, tornando a história melhor… a alteração é certa para o Idealismo. Se a obra original era inspiradora, mas o artista corrompe os heróis, torna a narrativa confusa… isso se torna errado.

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    5. Normalmente, quando as pessoas ficam revoltadas com alterações ou imprecisões no cinema, é porque os valores delas foram atacados… Não é porque elas realmente acreditam que modificar algo em uma adaptação é intrinsecamente errado. Se a modificação fosse na direção dos valores que elas defendem, elas não reclamariam.

      No caso da diversidade, o problema geralmente não é a cor da pele… é o fato de o artista usar a diversidade de fachada enquanto subverte outros valores também. Se Helena fosse negra, mas a atriz fosse a Naomi Campbell dos anos 90… Nolan teria mexido só na cor da pele, mas não no padrão de beleza, que é o que define a personagem. Aí poderíamos ter uma discussão mais clara sobre o quanto colocar uma pessoa negra na Grécia antiga quebra a ilusão, impede o espectador de ser transportado etc. Mas, no cinema, coisas concretas como a cor da pele do personagem ou a língua que ele fala não costumam impedir a história de ser crível e expressar todos os valores positivos de que ela precisa.

      E nem estou dizendo necessariamente que a Lupita não tem beleza para convencer no papel… Mas teria que ter havido um esforço em termos de luz, maquiagem e figurino pra isso. Outro dia ouvi alguém comentando que nem a Zendaya, que costuma estar belíssima em tapetes vermelhos, estava atraente no filme.

      No caso de mexer em coisas muito icônicas, como o exemplo do Papai Noel… Pode até haver uma quebra de expectativa inicial quando você vai ver uma adaptação esperando uma coisa, mas algo novo, não familiar, é introduzido… Essa quebra pode ser inicialmente incômoda (listo "familiaridade" como um valor positivo dentro da categoria de "Benevolência"). Mas, se esse elemento não familiar for usado pra projetar valores igualmente positivos, após o estranhamento inicial você acaba sendo conquistado pelos personagens, pela história, e a experiência total não é prejudicada.

      Quando você fala de Titanic, West Side Story, histórias bíblicas… não sei se entendi 100% o dilema. Acho que você já aceitou que fidelidade não é obrigação, e que o cinema pode ser independente… mas, dentro disso, está tentando entender qual o valor de ser fiel ao passado, ou qual o valor de ser moderno, falar a língua do público atual. É isso? Uma fórmula pra tomar essa decisão?

      Eu diria que aí é uma questão opcional. Depende do que o artista prefere, do que quer projetar. No caso da Bíblia… pra um autor mais erudito, culto, que quer vender um produto mais intelectual, pode ser melhor ser fiel à época… Outro pode ter uma linguagem mais pop, contemporânea. O que é melhor: usar terno ou moletom? Depende do contexto. O "errado", nesse aspecto, são mais as incongruências, as contradições… tentar ser uma coisa que não é. Um desenho animado bíblico com uma linguagem infantil contemporânea pode ser totalmente válido… assim como uma produção mais pretensiosa e histórica, como as do Scorsese… ou uma paródia do Monty Python. Agora, se você tenta vender erudição, cultura… mas escreve diálogos pobres, juvenis… isso se torna um defeito, algo esteticamente feio.

      No caso da Odisseia, então, o que me incomodou na diversidade foi mais a ideia do Nolan fazendo algo forçado por pressões externas… E também o fato dele ter desglamurizado a Helena no processo. No caso da linguagem mais moderna… incomoda um pouco porque o Nolan é pretensioso intelectualmente, super sério, e esses toques vão na contramão da sofisticação.

      Se eu não tiver chegado ainda ao X da questão, pode continuar insistindo hehe. Me dê um exemplo de uma adaptação fictícia e dos dilemas que você teria na hora de tomar essas decisões. Talvez você esteja querendo chegar a uma fórmula pra algo que tem mais a ver com gosto… ou então pode haver algum dilema filosófico real aí que não captei direito ou sobre o qual nunca parei pra elaborar.

      Abs!

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