quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Nomadland

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.) 

ANOTAÇÕES:

- Logo na primeira cena já há um ar de vitimização e busca por piedade que é típica do Naturalismo. Pegamos a história do meio, a protagonista parece estar em algum tipo de dificuldade financeira, deixa sua casa chorando, e o filme espera que a gente se comova imediatamente, sem oferecer nenhum tipo de informação sobre quem ela é, o que houve, qual o contexto, etc.

- E antes de apresentar qualquer aspecto positivo da protagonista, o filme mostra ela parando o carro na estrada e indo urinar no mato. Logo após essa imagem "poética", surge o título Nomadland sobre um fundo preto. Cenas de introdução antes do título são como a capa de um livro, ou o pôster de um filme — algo que deveria resumir o tom geral da obra, tentar focar num elemento significativo que capte a essência da história. O fato da autora usar esse espaço privilegiado do filme pra mostrar a protagonista mijando no mato certamente diz algo sobre sua visão do ser humano.

- Fern consegue um trabalho na Amazon, mas óbvio que isso é só pra ilustrar que a Amazon não paga bem o bastante, não garante um mínimo de qualidade de vida para os funcionários. Aliás, todos os problemas dela parecem ter começado quando a empresa de sua cidade original fechou as portas, obrigando todo mundo a ir embora da cidade atrás de emprego. É mais um dos inúmeros filmes com temática anticapitalista na corrida pelo Oscar — só que em vez de demonizar o capitalismo de maneira explícita e raivosa como a maioria dos filmes, este prefere passar a mensagem de maneira mais sutil, passivo-agressiva. A protagonista não se queixa, não culpa ninguém, diz até que a Amazon paga bem. É pelas entrelinhas que o filme vai passando a ideia de que é uma injustiça terrível uma mulher com uma alma tão "profunda" quanto esta precisar trabalhar para sobreviver, que a culpa é sim das grandes corporações, do sistema capitalista, quem sabe até do governo por não fazer algo a respeito (por trás de todos esses filmes podemos ouvir a súplica silenciosa: "o governo precisa fazer algo sobre isso!").

- Diferente de Minari, aqui já temos um Naturalismo mais puro, onde não há trama, os personagens não têm propósito, são retrados de forma superficial, não há intenção alguma de entreter. Vemos apenas "fatias da vida", cenas do cotidiano de determinado grupo social (os críticos que dizem que filmes como esse ou Never Rarely Sometimes Always deveriam ganhar prêmios de roteiro só podem estar insanos). Podia muito bem ter sido um documentário — inclusive a diretora escalou vários não-atores para o filme, nômades de verdade, pra deixar tudo ainda mais real, menos "manipulado".

- Fern até que consegue vários bicos, mostra que poderia ter um emprego mais estável se quisesse, chega a ter a oportunidade de largar a vida de nômade e ir morar na casa do amigo, mas parece que ela mesma não quer isso; que é uma escolha dela ter essa vida sem raízes, sem rumo, viver fora da civilização, como os personagens de Na Natureza Selvagem ou Capitão Fantástico. A mensagem se torna ambígua... Por um lado, o filme faz uma crítica às grandes corporações por não cuidarem dos trabalhadores, mas daí sugere que é a própria Fern que não quer uma vida estruturada. Mas se ela quer ser nômade, por que retratá-la como vítima, como uma pessoa prejudicada, infeliz? O que ela de fato quer, então? Claro que definir o desejo central do protagonista é um recurso do cinema mais narrativo/comercial... Nesse caso, quanto mais a mensagem é ambígua, contraditória e aberta a interpretações, mais o filme agradará à crítica.

- Em Soul, vimos os "males" de termos um propósito, de perseguirmos nossos sonhos... A história de Nomadland parece ser a realização daquele aprendizado do final de Soul. Fern jogou fora o "sonho americano" (não quer casa, carreira, família), e agora vive por aí sem rumo, sem propósito, apenas apreciando a paisagem, curtindo os pequenos momentos. Claro que ela está deprimida na maior parte do tempo, precisa defecar em baldes, passar frio, limpar privadas vomitadas pra ganhar uns trocados. O filme é honesto o bastante pra não glamourizar totalmente esse estilo de vida (nada pode ser ideal no Naturalismo, nem o sonho americano, nem a rejeição do sonho americano). Mas o filme parece achar que há algo de poético e superior na existência dela, mesmo reconhecendo os pontos negativos. É como se a alternativa (fazer parte do "sistema") fosse tão deplorável que fugir disso justificasse qualquer sacrifício.

Nomadland / EUA, Alemanha / 2020 / Chloé Zhao

NOTA: 4.0

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