segunda-feira, 7 de março de 2016

Kung Fu Panda 3

NOTAS DA SESSÃO:

- Herói Envergonhado: assim como nos outros filmes, não vejo muita graça no conceito do personagem (a mistura de virtudes com características patéticas, cômicas, etc). A emoção por trás do humor do filme é: a sociedade quer que sejamos virtuosos, heroicos, mas na realidade somos todos losers.

- A animação continua bem feita, no nível dos filmes anteriores, a direção de arte é bonita, etc.

- O vilão do filme não é nada assustador. Logo que é apresentado, já tem atitudes cômicas que tiram todo o peso do personagem e do conflito. Isso também é sintoma do Herói Envergonhado / Romantismo Reprimido - nada no filme pode soar dramático, ambicioso, romântico. Se o filme quisesse de fato mostrar o panda como uma figura admirável, ele teria criado obstáculos mais desafiadores pra ele superar.

- As mensagens coletivistas também são chatas. Reparem nas contradições: por um lado, o filme parece dizer que você pode ser tornar o que você quiser, independentemente de sua raça. Que um panda, apesar de gordo e lento, pode ser um mestre do kung fu se praticar o bastante (mensagem "inspiradora" que aqui não funciona - Po nunca convence que poderia ter essas habilidade de fato). Ao mesmo tempo, o filme diz que Po tem que aprender a ser um panda, a viver como um panda, a honrar sua raça, sua tribo, sua genética, e que sua força virá daí. São 2 mensagens opostas, e nenhuma das tentativas de inspirar funciona, pois no fundo o filme não acredita nessas ideias... O que é muito mais convincente aqui é a ideia de que somos todos cômicos, comuns, preguiçosos, dependentes uns dos outros, etc.

- Outra ideia péssima: pra treinar sua equipe pra derrotar o vilão, Po diz que basta que as pessoas sejam "elas mesmas". Não são necessárias técnicas específicas de luta, habilidades especiais. Se você é bom em abraçar, abrace o inimigo até a morte. Se você é bom em ser feio, use sua feiura pra assustar o oponente. E assim, coletivamente, todos serão vitoriosos (!).

- Como todo filme que cai na categoria herói envergonhado, a maneira em que o herói supera o vilão soa falsa e artificial. A ideia do Po dar o golpe fatal nele mesmo enquanto abraça o touro, e assim levá-lo junto pro mundo dos espíritos é um absurdo (além de não fazer sentido, vemos de novo o elemento de auto-sacrifício presente em muitos desses filmes). E pra piorar isso não é o bastante pra derrotá-lo - afinal, teria sido uma sacada "genial" de Po e isso traria a ideia de individualismo. Portanto, o filme precisa de uma segunda etapa, onde o vilão é eliminado não por Po, mas pelo esforço coletivo de todos os pandas e amigos.

- Quando Po volta vitorioso (flutuando em frente a todos numa pose heroica), isso dura por uns poucos segundos e logo depois ele já e tropeça, faz algo ridículo pra quebrar o clima (estratégia 2 que cito na postagem Romantismo Reprimido).

CONCLUSÃO: No mesmo nível dos anteriores, bem produzido e eficiente como diversão pra crianças, mas o roteiro não é dos mais inteligentes e o filme é permeado de ideias que subvertem o conceito de autoestima.

Kung Fu Panda 3 / EUA, China / 2016 / Alessandro Carloni, Jennifer Yuh

FILMES PARECIDOS: Operação Big Hero / A Era do Gelo (série) / Madagascar (série)

NOTA: 4.5

4 comentários:

Anônimo disse...

Acho que o pessoal da Dreamworks gosta de usar um humor meio rasteiro, que acaba me tirando a paciência de assistir seus desenhos, quando passam na TV.
Me parece que a Dreamworks tem um papel de destaque na criação do "herói envergonhado". Li em algm canto que Jeffrey Kazenberg, na época em que presidiu a Disney, teria chegado à conclusão de que os aívios cômicos e os viôes seriam mais populares que os heróis, e quando foi para a Dreamworks resolveu criar heróis com traços de alívios cômicos e vilões.
Pedro.

Caio Amaral disse...

Oi Pedro... interessante, vc lembra de onde leu isso? Eu só vi uma entrevista com o Katzenberg e não gostei das ideias dele.. Parece que, por orgulho, ele quis criar uma marca que se diferenciasse da Disney.. mas daí jogou fora o bebê junto com a água do banho.. em vez de simplesmente focar em fazer bons filmes, ele queria fazer bons filmes fossem contra o estilo da Disney.. daí já viu.

Anônimo disse...

Infelizmente não lembro, tentei encntrar na internet, e o mais próximo que encontrei foi um comentário de Katzenberg sobre "O Caminho para Eldorado", onde ele diz que sua idéia foi transformar em protagonistas personagens que normalmente seriam considerados alívios cômicos ou perdedores disfuncionais. Esse vem sendo o padrão adotado pela Dreamworks, e agora imitado pela Disney:

http://www.cinemareview.com/production.asp?prodid=923

Caio Amaral disse...

É... é o que eu sempre penso... que o alívio cômico virou o protagonista... acho um erro, e os produtores conseguem ir além: fazer filmes sobre os alívios cômicos dos alívios cômicos... tipo coisas como Pinguins de Madagascar, Minions, etc... rs.