sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Agosto 2026 - outros filmes vistos

A Última Casa (The Last House / 2026 / Louis Leterrier) ★★

O Fim da Rua (The End of Oak Street / 2026 / David Robert Mitchell) ★★½

A Última Casa e O Fim da Rua são dois lançamentos desse início de agosto que tentam emular os filmes do Spielberg dos anos 80 e 90. A história de ambos envolve uma família normal, vivendo tranquila em uma casa no subúrbio, até que um fenômeno sobrenatural acontece e o bairro é invadido por criaturas de outro mundo.

As cenas abaixo homenageiam (ou copiam?) E.T.: nas três, durante a refeição, algum membro da família relata ter visto algo estranho no dia anterior, e os outros comentam de maneira cética, tentando dar explicações mais plausíveis.


Nenhum dos dois filmes é muito bem-sucedido na tentativa. A Última Casa é mal dirigido e mais "corrompido" em tom (se torna um filme sobre confinamento, sobrevivência e dramas familiares). O Fim da Rua é melhor realizado e mais focado na diversão. Mas o roteiro de ambos deixa a desejar — não só quando comparados aos clássicos de Spielberg, mas até em relação aos blockbusters mais rotineiros daquele período.

O bom sinal é que isso reforça a impressão de que a indústria voltou a flertar com o Idealismo em 2026. Referências a sucessos dos anos 80/90 nunca morreram, mas antes havia sempre uma tentativa de reformá-los, tornando-os mais cínicos para os tempos modernos. Agora, tenho visto alguns artistas atenuando o cinismo, a subversão, e tentando voltar a uma forma mais honesta de diversão.

O desafio é que uma mudança em intenção e tom emocional ainda não é o bastante — falta recuperar a técnica e a rede de talentos que foram perdidas nos últimos 15 anos (especialmente os bons escritores).

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Cultura - Agosto 2026

3/8 — Nolan vs. Autoestima

Trecho de uma entrevista recente com Nolan sobre A Odisseia:

Entrevistadora: Vivemos em uma época que exige que a nobreza ("greatness") peça perdão. Quando retratamos a nobreza, nós desviamos dela, a tratamos como privilégio e exigimos que ela peça desculpas. É um fato sobre Hollywood. Me pergunto como você aborda a nobreza. Ainda é uma história de pedido de perdão, que exige arrependimento, reflexão e autocrítica?

Christopher Nolan: Como um contador de histórias, você está sempre em diálogo com as expectativas da plateia. Temos que ter consciência da energia que a plateia traz para a história e da intersecção entre nossa intenção e a maneira como a plateia a recebe. Falando de forma simples: você tem que tornar o personagem gostável. Então nos perguntamos: iremos tratar a nobreza como um absoluto? Ou, vindo do contexto filosófico mais idealizado e democrático em que vivemos hoje, em que queremos ver as pessoas como sendo iguais, precisamos pedir desculpas por essa nobreza? E a resposta é: sim, precisamos, ou então a plateia rejeita a nobreza.

Nolan fala como se esta fosse uma regra universal para qualquer contador de histórias hoje, ignorando que há filmes de sucesso que não corrompem seus heróis como um pedido de perdão (os blockbusters do Tom Cruise, por exemplo). Mais correto seria ele dizer: "Para agradar o tipo de público que eu acho importante e para receber os prêmios da crítica que eu acho importantes, sim, precisamos pedir desculpas pela nobreza."

Para entender como lidar, no Idealismo, com essa relação entre virtudes e vulnerabilidades, recomendo os textos O que torna um personagem gostável?Complementaridade: Por que o herói tem que ser incompleto

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Achei apenas mais um filme-salsicha corporativo feito por comitê. Gostei do Tom Holland, algumas cenas de ação do Homem-Aranha saltando entre os prédios são visualmente empolgantes, mas me parece que os filmes da Marvel considerados bons hoje (como este) não são aqueles que apresentam algo realmente extraordinário, mas aqueles que têm a "virtude" de não terem algo tosco ou controverso que revolte o público — os que parecem normais, bem executados e fieis ao tom/estética esperada. Mas se você ignora esta barra estabelecida pelo estúdio e vai apenas esperando ver uma boa história, o filme é uma bagunça.

Pra começar, a narrativa é conturbada e confusa para quem não tem um guia do lado com tudo o que já aconteceu antes no universo Marvel. Pros espectadores mais apegados a lógica e causalidade, como eu, o universo amorfo, sem identidade, onde esses filmes costumam se passar, também torna tudo frustrante de acompanhar. Além dessas coisas que tipicamente me incomodam no gênero — como o protagonista altruísta que não tem motivações convincentes para trabalhar de segurança da cidade — algumas coisas desse capítulo não funcionaram direito pra mim. Por exemplo: em um filme solo do Homem-Aranha, acho fácil comprar o conceito de sua identidade precisar ser secreta (assim como a de Superman). Mas quando você está em um universo onde existem diversos outros super-heróis, nenhum deles com essa mesma questão, essa necessidade de guardar segredo parece menos vital — e todo o drama central de Um Novo Dia se baseia nisso. Outro atrativo do roteiro envolve os "novos poderes" do Homem-Aranha, que agora começa a soltar teias orgânicas do próprio braço e a ter instintos aguçados de aranha... Mas isso é apenas um upgrade nos poderes que ele sempre teve. No 4º filme, não há mais como repetir o senso de novidade de uma história de origem. Fica a sensação de uma franquia que já foi explorada à exaustão e agora não tem mais o que fazer, a não ser apagar a memória de personagens estratégicos e dar um reset em coisas que já aconteceram antes pra poder recontar a mesma história de sempre. Uma tática do filme pra tentar fugir da mesmice é introduzir um personagem surpresa do universo Marvel, só que esta sub-trama fica parecendo o primeiro ato de um filme separado que resolveram enfiar em Um Novo Dia, não algo que enriquece o próprio filme do Homem-Aranha.

Pra nós "antiquados", que, em um filme de super-herói, esperamos ver habilidades admiráveis, indivíduos evoluídos, há muito pouco aqui também que deixe um senso de inspiração: Homem-Aranha está sempre em conflito com seus parceiros (bem e mal estão sempre se misturando, trocando de posição) e passa o filme inteiro caindo, falhando, ganhando hematomas, agindo como um aprendiz, dando a impressão de que a única coisa que o torna "super" mesmo é o acidente genético.

Spider-Man: Brand New Day / 2026 / Destin Daniel Cretton

★★

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Benevolência como valor fundamental

Recentemente vi um influenciador exaltando A Odisseia (2026), e dizendo que ficou embasbacado com Agamemnon. Achei estranho, pois o personagem não faz nada de memorável na história. Fiquei com a impressão que a armadura e sua presença visualmente imponente foram suficientes para encantá-lo. Esse influenciador em particular é fascinado por tudo que projeta masculinidade, força física e poder — ele provavelmente tem o arquétipo do Guerreiro como seu mais essencial. Pessoas assim me intrigam porque o Guerreiro é um dos arquétipos menos importantes pra mim enquanto espectador. Se eu pegar a lista dos filmes mais populares de todos os tempos, terei visto a maioria, mas os maiores buracos no meu repertório (consequência da minha preguiça de vê-los) serão filmes como os do Bruce Lee, Jackie Chan ou mesmo a série James Bond — ou seja, filmes de tiro, luta, cheios de testosterona, que não são famosos por serem bons como filmes, mas que atendem às necessidades de seu público-alvo.

Ter consciência desse tipo de espectador é útil pra mim, pois me ajuda a refletir sobre os meus vieses e a evitar ser totalmente cegado por eles.

No meu caso pessoal, o valor da Benevolência, representado pelo arquétipo do Idealista/Inocente, é o mais fundamental emocionalmente, pelo menos como espectador (o que eu projeto como cidadão ou criador não é necessariamente a mesma coisa). Se você quiser realmente me entender, e entender minha relação com a cultura atual, esta é a qualidade-chave. Posso gostar de uma variedade de coisas, mas aquelas pelas quais sou mais atraído terão sempre um toque de inocência. Admiro Kubrick imensamente, mas meus heróis do entretenimento são figuras como Walt Disney, Steven Spielberg e Michael Jackson, por terem celebrado a "criança interior" de forma épica na nossa cultura.

Ter esse tipo de qualidade como um valor essencial pode trazer vários desafios hoje. Não só por este ser um valor tradicionalmente associado às crianças e, às vezes, às mulheres, sendo frequentemente desvalorizado quando suas características se manifestam em homens ou adultos, mas também por ser um valor renegado pela cultura atual (o que não era o caso nos anos 80 ou 90, por exemplo). Como discuti no texto sobre Arquétipos, toda era escolhe alguns arquétipos que irá respeitar, e coloca outros de "castigo". Atualmente, o Idealista/Inocente está de castigo. Isso cria a impressão de que esses valores só são apropriados para crianças, mulheres tolas, tempos remotos ou para a fantasia. Nunca para homens, adultos, capazes, hoje. Se minha "incompatibilidade" com o entretenimento atual parece estranha, mais radical até do que seria razoável, parte disso tem a ver com o fato de eu ter a Benevolência como um valor indispensável.

Sim, o Idealismo (teoria estética) depende de uma combinação dos quatro Pilares para ser completo e, quando algo projeta Benevolência isoladamente, mas não Autoestima, Objetividade etc., eu não me sinto realmente inspirado, ainda que possa haver uma leve identificação. Ainda assim, é um fato que existe uma preferência pessoal, um "viés" emocional na direção da Benevolência, que pode ser útil que vocês que me acompanham entendam. Quando os quatro Pilares estão presentes, posso apreciar cada um deles. A Objetividade é a ponte que me permite compreender e respeitar necessidades diferentes da minha. Mas, quando os outros valores unem forças para enfatizar Benevolência em particular, é quando eu me sinto mais inspirado. Por outro lado, sua ausência é praticamente garantia de distanciamento emocional.

Da mesma forma que o influenciador que citei anteriormente pode cair no erro de aclamar algo simplesmente por projetar o Guerreiro em um nível superficial, eu, se não tomasse cuidado, poderia cometer o erro de aclamar algo que projete o Idealista/Inocente de forma superficial e desequilibrada. Da mesma forma que posso menosprezar "filmes de lutinha" quando são pobres artisticamente e oferecem apenas testosterona de forma irracional, tenho que ter consciência de que, para uma pessoa com necessidades diferentes das minhas, as coisas que me encantam podem soar infantis, ingênuas e refletir uma "Síndrome de Peter Pan", se não estiverem equilibradas com outras qualidades. (Geralmente, o que se chama de guilty pleasure é algo que satisfaz apenas uma necessidade arquetípica básica, mas de forma pobre, desequilibrada, ignorando outras virtudes indispensáveis — o Chuck Norris de uns vira o meu High School Musical.)

A diferença é que a sociedade não rejeita igualmente todas as necessidades arquetípicas em cada época. No momento, por exemplo, o Guerreiro (assim como o Realista, o Governante ou o Revolucionário) é mais respeitado do que o Idealista/Inocente. O Guerreiro, até em suas versões desequilibradas, tóxicas (pense em líderes da "machosfera"), consegue ter impacto cultural e receber aplausos. Portanto, alguns arquétipos têm mais incentivo para se expressar desavergonhadamente do que outros. Claro, a versão imatura de qualquer arquétipo será sempre um alvo fácil e se sentirá frequentemente rejeitada. E a versão mais evoluída sempre terá caminhos mais abertos e espaço para ser celebrada. Ainda assim, cada época tem suas preferências, que aumentam ou diminuem resistências.

Quando você sente que vive na época errada, a ânsia por uma transformação cultural não é só o desejo de ter coisas melhores para consumir, é também a ânsia de viver em uma sociedade que acolha e celebre, em vez de condenar, aquele valor essencial que você carrega dentro de si. Por isso é importante para esse perfil de pessoa ("kids at heart") ter consciência da origem de seu senso de inadequação. Quando ela não tem consciência, a tendência será reprimir suas necessidades, ou distorcer sua própria identidade para poder expressá-la de maneira socialmente adequada (ou menos condenável): se refugiando na infância, no feminino, no passado ou na fantasia.

Na postagem sobre os 4 Pilares do Idealismo, descrevo Benevolência da seguinte forma:

"A experiência de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. De acreditar que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas a serem combatidas e superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia ser..."

Vendo por esta ótica, não há nenhuma razão pela qual este sentimento deva ser relegado a crianças ou à fantasia. Ele não ignora que a vida tem dificuldades, ou que a vida adulta envolve responsabilidades. Pode não ser uma necessidade fundamental para todas as pessoas, mas é tão natural quanto qualquer outra necessidade arquetípica básica, e deve ser honrada por aqueles que se identificam com ela.

Por isso, convido vocês a refletirem sobre suas necessidades arquetípicas fundamentais. Elas são aceitas pela cultura atual? Você consegue expressá-las livremente? Que estratégias talvez esteja adotando para não ser julgado? E você está satisfazendo suas necessidades de forma equilibrada, evitando a sombra do arquétipo? De que formas você pode tornar suas necessidades mais maduras e menos incompatíveis com as de pessoas diferentes de você?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cultura - Julho 2026

23/7 — Eu Sou o Rocky

Gosto mais da história por trás de Rocky - Um Lutador do que do filme em si. Eis que resolveram fazer um filme sobre a gênese do longa e, pelo trailer, Eu Sou o Rocky promete ser um hit de viés Idealista no fim do ano. Stallone foi explícito na época ao dizer que seu filme era uma resposta ao estado do cinema dos anos 60 e 70, o que pode tornar a mensagem do filme oportuna hoje.


23/7 — O público quer filmes "reais"

Parece que estamos em um momento em que as sequências, reboots e filmes industrializados carregados de CGI estão finalmente dando prejuízo, enquanto filmes que vão na direção oposta têm se destacado justamente por isso. Por um lado, é bom ver que as forças do mercado funcionam. Por outro, é frustrante notar que elas costumam estar sempre pelo menos uma década atrasadas. O que essa matéria da Hollywood Reporter diz sobre o público é o que o espectador mais criterioso já sentia lá no meio dos anos 2010. Mas esse espectador parece não contar muito. É só quando as grandes massas mudam de comportamento — quando o incômodo chega àqueles espectadores que deixam o filme passando na TV enquanto lavam a louça — que o mercado responde, o que pode criar a impressão de que a mediocridade está sempre prevalecendo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Odisseia

História mal contada, diálogos sem inteligência, ação sem lógica, mas tudo apresentado através de imagens imponentes e uma mixagem de som que faz você descobrir que é possível ser estuprado pelos ouvidos. Há 20 anos que acho Nolan um mau cineasta — especialmente um mau roteirista — mas essa é a primeira vez que ele adapta uma história clássica com a qual eu já tinha certa familiaridade, e ver como ele lida com uma trama conhecida só me fez ter uma visão mais clara de suas inaptidões: a maneira como a não-linearidade e a fragmentação da história são usadas para camuflar falta de domínio narrativo e temático, como o realismo e o tom sombrio viram muletas para fazer um roteiro tolo soar sério, etc. A ruindade dos diálogos (cheios de exposições forçadas e toques anacrônicos) pra mim pareceu ainda mais gritante, pois acabei de rever Troia (2004), que é cheio de falas brilhantes e fica parecendo Shakespeare em comparação.

Pra ilustrar algumas dessas minhas críticas, pegue os set pieces de ação, por exemplo. Em outras versões de A Odisseia que assisti, não tive problema nenhum em aceitar a lógica das táticas de Odisseu para superar os monstros e obstáculos da jornada. Mas agora, detalhes estranhos tornaram muitas das cenas forçadas, ilógicas ou simplesmente confusas: a fuga da gruta do ciclope não parece mais baseada em uma série de sacadas brilhantes de Odisseu; o Cavalo de Troia não tem mais rodas, ficando inconveniente de transportar e perigoso para quem está dentro; parece haver outros caminhos para o navio evitar o redemoinho, em vez de uma geografia que os força a escolher entre o redemoinho de um lado e a Cila do outro... Outros detalhes também tiram credibilidade: Atena (que não tem muito mais utilidade na história) não transforma Odisseu em mendigo quando ele chega em Ítaca, o que torna forçado Matt Damon dialogar por horas com as pessoas com o rosto coberto para não ser reconhecido. Depois, quando ele tem que lutar contra os pretendentes de Penelope, há tantos adversários que a luta se torna inacreditável, até porque Matt Damon não está com um grande porte físico e a má coreografia o torna meio ridículo em alguns momentos. Em Ulysses (1954) e na minissérie A Odisseia de 1997, essa sequência é dirigida de forma que não parece absurdo o herói derrotar os homens sozinho. Quanto a Helena de Troia — meu problema com o casting da Lupita Nyong'o não é o fato dela ser negra, mas o fato de não ter o tipo de beleza óbvia e lendária que "lança mil navios", criando mais um toque de artificialidade.

Embora A Odisseia tenha um formato episódico, que normalmente torna filmes arrastados, algumas adaptações anteriores conseguiram contornar isso criando um enorme suspense em relação a Penelope e os pretendentes. Víamos primeiro como era a vida do casal antes da partida de Odisseu, como eles tinham um lar ideal em Ítaca, e como tudo vai sendo degradado com o tempo pelos pretendentes (como quando Scar sobe ao poder em O Rei Leão). Isso criava um gancho que tornava a jornada de Odisseu super envolvente. Aqui, não vemos como as coisas eram antes para poder comparar, portanto não há mais a mesma sede de vingança nem senso de urgência pelo retorno de Odisseu (a narrativa não-linear também ajuda a diluir a tensão, minando este gancho da história).

Outro atrativo de uma obra como A Odisseia é o potencial de escapismo — aquilo que torna os clássicos do Ray Harryhausen encantadores de ver. Mas o estilo de Nolan é incompatível com esse tipo de escapismo — sua seriedade não combina com os ingredientes mais fantasiosos da história, que exigiriam uma abordagem mais leve. Na tentativa de tornar bruxas e gigantes coisas sérias, adultas, ele acaba eliminando muito da magia. O resultado é aquele meio do caminho entre o naturalista e o fantasioso que tornava certas cenas da trilogia Batman esquisitas — quando estávamos numa sala realista, cheia de homens comuns, e de repente um adulto fantasiado de morcego entrava pela porta.

"Ah, se é tão ruim assim, como Christopher Nolan é o diretor mais bem-sucedido do século 21?". Acho que ele é muito bom em criar uma aura de poder, autoimportância, autoridade, o que parece ser irresistível para muitas pessoas. Meu problema não é com esses valores em si, mas com o fato dele projetar apenas esses valores (ter pouca versatilidade), e projetá-los em um nível sensorial, driblando o cérebro do espectador. Sua autoridade vem muito mais de gimmicks como rodar o filme em IMAX 70mm e escalar 10 dos atores mais bem pagos de Hollywood do que de suas reais competências. Nolan não saberia fazer o coração do espectador disparar no clímax da história com base em seu controle narrativo, mas junto com sua equipe de som, ele consegue desenvolver um batuque atordoante que, por meios fisiológicos, não duvido que acabe provocando uma taquicardia em alguém. É uma forma frágil de poder — e em alguns aspectos, seus filmes recentes têm falhado até em demonstrar o tipo de potência testosterônica superficial que seus fãs respeitam. Assim como a explosão de Oppenheimer foi decepcionante, o herói de A Odisseia nunca parece um guerreiro tão poderoso quanto deveria, e as cenas grandiosas do filme são tímidas se comparadas às multidões de Troia (2004). Admiro grandes feitos, mas Nolan é muito mais sobre uma pretensão de grandiosidade do que sobre grandiosidade de fato (o que por algum motivo me fez sair da sessão pensando em Trump e no dom de ambos de forjar esse tipo de autoestima sem lastro que encanta multidões).

The Odyssey / 2026 / Christopher Nolan

★½

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Julho 2026 - outros filmes vistos

O Convite (The Invite / 2026 / Olivia Wilde) ★★½

Uma "comédia inteligente" que não achei nem engraçada nem particularmente inteligente. O humor é do tipo Naturalista, baseado nos constrangimentos cotidianos das interações sociais (das classes mais altas, pelo menos). E a situação central me pareceu boba demais. Se os personagens do Seth Rogen e da Olivia Wilde fossem mais antiquados ou extremamente religiosos, o contraste com os vizinhos talvez rendesse boas risadas. Mas eles não parecem em nada o tipo de pessoa que ficaria chocada ao ser convidada para uma orgia. Parece o tipo de humor ultrapassado que você veria em uma comédia da Globo Filmes estrelada pela Ingrid Guimarães, e não na comédia sofisticada e cosmopolita que Olivia Wilde aparentemente pensa estar fazendo.


Moana (2026 / Thomas Kail) ★★

Um remake ainda menos necessário que o de costume. Primeiro porque o original não é antigo o bastante pra justificar uma nova versão; segundo porque a história foi mantida praticamente idêntica. O que funcionava na animação continua funcionando aqui, e o que não funcionava continua não funcionando. O frustrante é que há tanto CGI e fundo verde que em muitos momentos você nem sente os benefícios de estar vendo um live-action. Se houvesse um esforço para recontar a história em cenários reais, poderia haver um ganho em termos de fotografia e imersão visual. Mas do jeito como foi feito, é quase como rever o mesmo filme, apenas com gráficos mais realistas.

Se houve alguma melhora, diria que Catherine Laga'aia torna a heroína um pouco mais simpática e atraente do que na animação. Tive essa mesma impressão em Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão — talvez porque live-actions evitam certas tendências da animação moderna que reforçam o fenômeno do "herói envergonhado".

sábado, 27 de junho de 2026

Junho 2026 - outros filmes vistos

Citizen Vigilante (2026 / Uwe Boll)

Nunca tinha visto nada do Uwe Boll e não sei nada sobre ele... Pelo que entendi, sua fama vem do fato dele ser um diretor B muito ruim, desses que apelam para o trash e o sensacionalismo para cultivar um certo público, tipo um Ed Wood ou Roger Corman da direita. Eu nunca gostei desse tipo de coisa. Os filmes "ruins" que eu gosto são aqueles onde muitos elementos da obra são competentes, onde há uma boa intenção, mas alguma falta de noção do diretor gera incongruências e torna tudo meio cômico. Citizen Vigilante já é tosco em quase todas as dimensões, mostra um nível de amadorismo raro em lançamentos comerciais, o que pra mim é simplesmente tedioso e meio deprimente de ver. 

Além da ruindade na forma, o conteúdo do filme é igualmente péssimo... Propaganda ideológica explícita costuma estragar filmes até quando as ideias são boas. Mas aqui, o filme nem finge estar promovendo ideias decentes. Temos um homem revoltado com a sociedade que resolve sair por aí assassinando dezenas de pessoas, algumas das quais ele mesmo sabe que não são culpadas — e tudo isso é mostrado como se ele fosse um visionário, alguém cool, sexy, exemplar. Em muitos filmes ideológicos de esquerda, como Uma Batalha Após a Outra, há pelo menos uma tentativa (ainda que equivocada) de fazer a violência parecer moralmente defensável, e os revolucionários são mostrados de forma moralmente ambígua, evitando uma romantização completa de suas ações. Citizen Vigilante — que apela para a extrema-direita — é pior do que qualquer filme de esquerda que eu já vi: não só ele glamuriza o protagonista, como parece ter orgulho de seus atos não serem moralmente justificáveis.

Não acho que Uwe Boll de fato defenda tiroteios em massa ou anarquia completa. O mais provável é que ele seja apenas um oportunista que aprendeu com certos influenciadores na internet que falar coisas chocantes, imorais e até ilegais pode render muitos clicks, especialmente se seu alvo for a esquerda. É um vale-tudo por atenção e dinheiro que faz as franquias modernas dos grandes estúdios parecerem alta cultura em contraste.


Supergirl (2026 / Craig Gillespie) ★★

Daria pra ficar destrinchando várias fraquezas pontuais do filme: a subversão da heroína, a motivação boba para a ação (buscar o antídoto para o cachorro), as energias mágicas que convenientemente enfraquecem ou empoderam a protagonista conforme as necessidades do roteirista etc. Mas a verdade é que o problema principal aqui é o fato deste ser um filme genérico de estúdio, baseado em fórmulas prontas e guiado por tendências de mercado, o que acaba sendo "bom" por pelo menos um lado: assim como comentei abaixo na postagem de Mestres do Universo, os valores negativos presentes na história aparecem aqui mais por serem clichês modernos — os produtores devem achar que isso é o que vende hoje — do que por uma motivação Anti-Idealista autêntica. Em vez de um filme que empurra o conceito de "herói envergonhado" para novos patamares, fica parecendo apenas mais do mesmo: um filme rotineiro do gênero, que mostra que a ida de James Gunn para a DC nunca foi uma boa solução para a fadiga de super-heróis. O único momento que achei satisfatório é uma cena envolvendo uma espada (polêmica para os altruístas), que infelizmente é desconectada demais do que a heroína faz o filme inteiro para conseguir redimi-la totalmente. No meu mundo, Helen Slater continua sendo a única Supergirl.


Mestres do Universo (Masters of the Universe / 2026 / Travis Knight) ★★★

Assumidamente "Sessão da Tarde" — não é o tipo de filme que pega um material pop e tenta torná-lo artístico — mas é mais decente do que eu imaginava. O grande perigo aqui era o deste "não levar-se a sério" acabar caindo pro lado da autoparódia. Mas diria que em 85% do tempo, o humor do filme é benevolente, não destrutivo. Nem o fato do Esqueleto ser bem-humorado me incomodou, pois em filmes mais juvenis é aceitável o vilão ser semicômico pra história não ficar assustadora demais. Há sim alguns momentos em que o filme apela para o humor cínico estilo Guardiões da Galáxia, onde o heroísmo dos personagens se torna o alvo das piadas. Mas essas cenas acabam parecendo até deslocadas — algo que o filme insere mais pra seguir tendências do que por refletir o real espírito dos autores. Quando você analisa o conjunto da obra — o casting de He-Man, a trilha sonora, a fotografia, as mensagens, etc. — o que marca Mestres do Universo é sua tentativa de se distanciar do entretenimento envergonhado da última década em direção a algo mais honesto.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Toy Story 5

O tablet como ameaça aos brinquedos tradicionais é um ótimo gancho, e eu estava achando o filme impecável nesse primeiro momento, quando o conflito central é estabelecido. Mas depois que Jessie é separada de Bonnie e vai parar na fazenda de sua dona original (a de Toy Story 2), a história se afasta do assunto que nos prendeu inicialmente e começa a criar uma série de contratempos aleatórios para atrapalhar os planos dos personagens e encher linguiça: um personagem se perde do resto do grupo por algum motivo desnecessário, daí inicia-se uma missão de resgate; depois, outro personagem vai parar no lugar errado, e os bonecos passam o filme todo correndo de um canto para outro, enquanto o coração da história — a relação de Jessie com sua dona — fica em segundo plano.

As próprias reflexões sobre tecnologia são mais breves e superficiais do que se poderia esperar. No fim, vira uma história sobre Jessie (que não é das personagens mais gostáveis) ajudando Bonnie a se entrosar socialmente sem sacrificar sua integridade no processo — algo que Divertida Mente 2 fez bem melhor, pois a ansiedade social era o tema central daquele filme.

Os temas de abandono e fim da infância também já foram explorados à exaustão em outros filmes da franquia Toy Story. Assim, ao aproveitar mal a discussão sobre tecnologia, essa sequência acabou ficando sem uma identidade forte, sem um enredo envolvente ou uma mensagem profunda que a fizesse parecer distinta e necessária. A sofisticação típica das produções da Pixar ainda está lá e torna o filme melhor do que a maioria das animações lançadas no ano, mas as peças da história simplesmente não se encaixaram tão bem. 

Toy Story 5 / 2026 / McKenna Harris, Andrew Stanton

★★★

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Força Gravitacional da Época

Já parou pra pensar que o jeito de você falar não é neutro, mas é moldado pela época em que você está vivendo? No presente, é difícil identificarmos o "sotaque" particular do nosso tempo. Há uma ilusão de neutralidade. Mas quando vemos vídeos de outras décadas, sempre notamos um jeito diferente de falar. Não estou me referindo a gírias ou termos específicos, mas à própria entonação — no início dos anos 90, por exemplo, havia um jeito meio manhoso e cantado de falar que simplesmente desapareceu depois. O "r" dos paulistas dos anos 40 e 50 é totalmente diferente do "r" dos anos 70, e a entonação era mais formal também.

Estou destacando o jeito de falar — em vez do estilo de roupa ou algo mais óbvio — pra mostrar como há inúmeras influências agindo sobre nós das quais não temos consciência.

O mesmo ocorre na arte. Há modismos mais explícitos que caracterizam os filmes de cada época — a trilha sonora, os penteados dos atores — mas há inúmeras outras tendências que parecem apenas ser o "neutro" daquele período. Essas influências podem ser acidentais, definidas por questões puramente técnicas (a mudança da película para o digital, por exemplo, deu uma cara um pouco diferente aos filmes), mas muitas vezes as mudanças são reflexos de valores e crenças dominantes em um período, e vêm com uma carga simbólica que pode ser positiva ou negativa.

É muito difícil, ainda mais no cinema, escapar totalmente da força gravitacional da época em que se vive. Uma das melhores provas disso é o cinema dos anos 70 e como todo tipo de cineasta trabalhando naquele período acabou fazendo "filmes dos anos 70", querendo ou não. Quando você assiste a O Pequeno Príncipe (1974), por exemplo, é difícil acreditar que se trata de um musical de Stanley Donen, responsável por Cantando na Chuva duas décadas antes. Há algo de desconstruído e "hippie" na estética do filme que não remete em nada ao trabalho prévio do diretor. Os filmes de Hitchcock dos anos 70 também ficaram mais realistas, menos polidos visualmente, com atores menos glamurosos nos papéis principais. Os filmes de James Bond mudaram de estética e de tom nessa época, assim como as animações da Disney. Spielberg e George Lucas fizeram alguns "filmes dos anos 70" antes de ajudarem Hollywood a transicionar para uma nova era no final daquela década.

Muito do meu trabalho aqui no blog é tornar visíveis as influências ocultas do atual período nos diversos aspectos dos filmes — casting, caracterização, fotografia, padrões narrativos etc.

Mas minha ideia não é incentivar as pessoas a irem contra todas essas tendências indiscriminadamente. Com o tempo, passei a entender a importância de "dançar conforme a música" em alguns aspectos do trabalho. Assim como pode ser prejudicial sair na rua ou ir a uma reunião vestido de uma forma totalmente incompatível com sua época, criar uma obra de arte que não dialoga em nada com as tendências dominantes irá alienar o espectador desnecessariamente. Se sua ideia é fazer um filme avant-garde, experimental, inovador, não há tanto problema. Mas, se você quer apenas entreter, fazer o espectador embarcar na história, não é interessante que a obra cause estranhamento imediato, antes mesmo de a história começar.

Mas, pra fazer essas concessões sem comprometer a essência da obra, é preciso entender, entre todas essas influências que impactam o filme, quais têm peso estético, emocional ou moral e quais são menos significativas.

Ainda que eu não goste de algumas coisas, como a fotografia menos saturada do cinema moderno ou a luz mais natural/motivada, se eu fosse fazer um filme hoje, estaria disposto a ceder um pouco nessa área para dar ao filme uma cara contemporânea. Tudo o que é sensorial, externo, de absorção instantânea, é mais difícil de ser subvertido sem assustar o público. Quando o filme está "vestido adequadamente" e a embalagem deixa de gerar ruído, o público fica aberto para o conteúdo e para o que o filme tem a dizer. Ou seja: os valores e o conteúdo moral da história já têm mais liberdade para desafiar as tendências da época, pois são processados intelectualmente, de forma mais lenta, e não de forma sensorial e imediata.

Um filme Idealista em uma era como a atual, portanto, não precisaria ter a aparência de um filme feito nos anos 40 ou nos anos 90 (a não ser que esta seja a preferência do artista). Ele pode ter uma aparência geral compatível com o presente (dentro daquilo que é contemporâneo, há sempre variedade o bastante para que você não precise escolher uma opção totalmente incompatível com suas preferências). Num primeiro contato com a obra, o espectador irá pensar que se trata de um filme normal. O "anormal" será percebido em outro estágio — no decorrer da narrativa, ele notará uma racionalidade maior na linguagem, o caráter mais nobre dos personagens, uma visão mais inspiradora de mundo etc.

O grande problema é que a maioria dos artistas não adota apenas a roupagem externa da época em que está vivendo como tática de comunicação e persuasão, mas absorve os valores fundamentais em si, trocando de ética, de epistemologia, o que me faz lembrar da famosa frase de Groucho Marx: "Estes são os meus princípios. E, se você não gosta deles... bem, eu tenho outros."