terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Cultura - Fevereiro 2026

3/2 — Michael - Trailer Oficial

O trailer oficial de Michael me deixou mais animado quanto ao filme. Há um foco claro na trajetória de sucesso e nas mensagens otimistas que Michael costumava transmitir; não me parece o tipo de filme que irá focar demais nos traumas de infância, no sofrimento psicológico, nem o tipo de biografia Naturalista/minimalista que anda em alta hoje. Tem tudo para ser um raro blockbuster Idealista em 2026, pelo menos no nível do conteúdo.

3/2 — Kleber Mendonça Filho e a feiura

Notei algo perturbador em O Agente Secreto que me levou a fazer o seguinte comentário na crítica: “Não sei se o diretor tem um olhar que, sem querer, revela a feiura das coisas ou se isso é proposital — se ele tem algum compromisso ideológico com a representação do feio na arte.” Não estava falando exclusivamente dos atores, mas outro dia me deparei com uma matéria da Hollywood Reporter que me ajudou a compor um perfil. Apesar do que chamo de Casting Naturalista já ser uma prática comum no audiovisual há muitos anos, na entrevista, Kleber fala como se ainda houvesse uma pressão enorme na indústria pra escalar atores de boa aparência — algo que ele considera “ultrapassado”. Não só ele não valoriza a aparência dos atores, como diz também que não gosta de distinguir entre atores profissionais e não-atores. A matéria obviamente foi escrita porque O Agente Secreto está concorrendo ao Prêmio da Academia de Melhor Seleção de Elenco e, pelo visto, essa inversão de valores o coloca à frente na disputa.

3/2 — Ricos maus

Revendo a lista dos filmes mais populares de 2025, percebi que hoje são minoria os filmes que NÃO vilanizam a riqueza e o sucesso: Marty Supreme, apesar de celebrar ambição, não deixa de ser um retrato crítico da busca por sucesso; Hamnet e Valor Sentimental mostram os danos emocionais que homens de sucesso causam à família; A Única Saída e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out são sobre pessoas matando umas às outras pra subir na vida; em Pecadores, os ricos são racistas, assassinos, parte de uma elite opressora, assim como em Uma Batalha Após a Outra, O Agente Secreto e Zootopia 2; em A Empregada, eles são psicopatas mentalmente desequilibrados; em Bugônia, são aliens infiltrados querendo destruir a humanidade — e daria pra achar mensagens similares em diversos outros filmes populares, como Wicked: Parte II, O Sobrevivente, Acompanhante Perfeita, A Longa Marcha, Materialistas etc. O item 4 do Screen Guide for Americans nunca foi tão necessário.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Pecadores

ANOTAÇÕES:

(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

- A cena inicial do Sammie chegando machucado na igreja com o violão é um prólogo esquisito e anticlimático — até porque essa cena nunca se provará crucial para a narrativa. (Acho que o produtor mandou inserir isso só para avisar a plateia de que haverá ação mais pra frente, já que o filme irá enrolar horas até qualquer coisa acontecer).

- Dizer que não havia diferença entre Chicago e o interior do Mississippi na época é aquele insulto desonesto contra os EUA que faz você parecer moralmente superior hoje.

- Toda a primeira parte do filme é sobre Smoke e Stack recrutando pessoas para o bar que irão inaugurar. Mas isso não é um gancho narrativo. Por que eu deveria torcer pelo sucesso desses dois, se eles claramente são gângsters de caráter duvidoso? A única coisa que gera certa curiosidade até agora é a promessa do prólogo de que algo violento e sobrenatural irá ocorrer mais pra frente.

- Há muitos diálogos aleatórios sobre o passado dos personagens, as injustiças que sofreram, mas é aquele desenvolvimento de personagem solto que não contribui em nada para a trama — além disso, você precisa simpatizar com pessoas corruptas para se importar com esses dramas pessoais.

- As cenas e diálogos envolvendo sexo nesse filme são gratuitamente nojentos. O fato do roteirista que escreveu essas falas estar indicado ao Prêmio da Academia deveria ser suficiente para descreditar o evento.

- Aos quarenta e poucos minutos, descobrimos que estamos vendo um filme sobre vampiros! Óbvio que não é literalmente um filme de terror, assim como A Substância não é terror, e Bacurau não é faroeste. É apenas uma desconstrução de gênero típica de quem está mais preocupado em parecer original do que em contar uma boa história. (A mistura de filme de gângster/Lei Seca com filme de vampiro, por si só, já daria ao filme aquele ar excêntrico de produções como Cowboys & Aliens ou Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros — mas o filme soma outras bizarrices em cima disso).

- Assim como o prólogo, essa cena do vampiro na casa foi só para relembrar o espectador de que algo excitante irá acontecer no futuro — mas não ainda! Continuamos vendo um filme arrastado sobre criminosos inaugurando um bar.

- Não é nada convincente que, em um único dia, eles tenham conseguido contratar toda a equipe do bar e organizar tudo para a inauguração.

- O filme é descaradamente anti-brancos. De início, achei que eles tinham inserido pelo menos uma personagem branca boa na história pra mostrar que o problema não é cor de pele. Mas o motivo dela ser do bem é “explicado” pelo fato do avô dela ser mestiço! Mesmo assim, depois ela acaba sendo a vampira que se infiltra no bar e dá início ao caos.

- O filme é escrito naquele estilo de minissérie de TV. Não há um protagonista claro, ficamos alternando entre diversos dramas paralelos, o foco todo está em diálogos que enchem linguiça e não avançam a história, etc. Já estamos em uma hora de projeção e ainda não há sinal de vampiros se aproximando.

- A cena musical com os artistas negros de várias eras é uma das mais ridiculamente pretensiosas que já vi. O filme já tinha apresentado elementos de fantasia, mas não essa linguagem simbólica/surrealista, na qual o diretor rompe com o realismo físico pra “filmar ideias” e passar mensagens diretamente ao público. Há uma mudança brusca de linguagem e uma tentativa de enfiar uma reflexão histórica abrangente na trama que nada tem a ver com os assuntos que vinham se desenvolvendo até agora. É tão fora de contexto que tiveram até de repetir a narração mitológica do início, se não o espectador nem ia lembrar que essa discussão esotérica sobre música fazia parte do enredo.

- Outro problema dessa cena é que ela universaliza o conflito racial. Não é apenas um problema local, de um momento histórico, mas um duelo metafísico, atemporal, em que um lado é sempre o opressor e o outro sempre o oprimido.

- Está me lembrando esses filmes sobre cultura oriental, tipo K-Pop Demon Hunters, Ne Zha 2, que são sempre um duelo entre duas “energias” opostas, uma do bem e outra do mal (música negra vs. música branca aqui), e nada precisa ter muita lógica na trama, pois tudo funciona num nível simbólico.

- Ideologicamente, esse é talvez o filme mais perigoso do ano, porque ele traz uma perspectiva extremista de esquerda (ataque aos EUA, aos brancos/ricos, aos padrões morais), mas a apresenta de forma sedutora para pessoas mais alinhadas com a direita (por ter testosterona, falar em tradições, não ser woke, não subverter masculinidade, papéis de gênero, ser alinhado com certos temas cristãos, etc.). Não é como Uma Batalha Após a Outra, cujo discurso seduz mais quem já é de esquerda.

- Lá pela 1h20, os protagonistas finalmente descobrem a presença de vampiros e a ação principal se inicia. Mas é aquele tipo de conflito que espera que você torça por um dos grupos só porque o outro é ainda pior, não porque o primeiro tenha reais virtudes.

- Sinceramente, Michael B. Jordan, Delroy Lindo e Wunmi Mosaku não têm atuações dignas de Oscar. A única atuação desse filme que se destacou pra mim foi a do Miles Caton (Sammie), que tem uma voz surpreendente — e ele não foi indicado. Pegue a cena em que um dos gêmeos morre após ser mordido por Mary: a reação do Michael B. Jordan à morte do irmão deveria ter sido um grande momento, mas não é interessante nem intensa o bastante. Mosaku também não tem cenas muito expressivas. E o “mérito” do Delroy Lindo é mais trazer uma ironia que deturpa a seriedade do filme, como na cena: “Estão sentindo um cheiro? Acho que me ca****”.

- A fotografia e o design de produção do filme são ótimos, e dão uma embalagem de “filme premiável” a um roteiro que, de fato, não merece.

- Agora que há uma ação mais concreta, o roteiro se revela tão tolo quanto o de qualquer filme rotineiro de horror/ação. Os personagens já testemunharam eventos claramente sobrenaturais, mas continuam agindo e reagindo de maneira burra, como se ainda não tivessem percebido que estão diante de vampiros. Sem falar na coisa mais sem sentido de todas, que é a mulher oriental de propósito liberar a entrada dos vampiros no bar.

- As lutas são o típico videogame de filmes de ação modernos: pessoas despreparadas matando diversos monstros bem mais fortes do que elas como se fossem bonecos de papel machê.

- Mesmo que fosse um filme mais coeso narrativamente, com um protagonista gostável, provavelmente eu não gostaria muito do filme, porque ele cai um pouco naquela categoria de filme de zumbi, em que o horror não leva a uma aventura empolgante, mas a conflitos entre amigos, mortes de entes queridos, sacrifícios, etc.

- Nada faz sentido depois que eles saem do bar e vão para o lago. Como aquele disco metálico do violão do Sammie atravessou o crânio do vampiro? Ah, não importa, é a simbologia da música! Por que os outros vampiros ficaram lá parados, gritando, em vez de atacar os humanos? Como o sol nasceu tão rápido? Por que eles não se esconderam da luz? Os humanos acabam vencendo a batalha por acidente, e graças à burrice dos vampiros.

- Agora temos de novo a cena do Sammie chegando na igreja, que ainda não sei por que foi escolhida para ser o prólogo.

- Depois de derrotar os vampiros, inventam agora uma batalha extra contra os homens da KKK, que soa desnecessária. Já houve uma vitória contra os brancos maus e racistas; que efeito terá mais uma? Na verdade, o filme deveria ter sido inteiro sobre gângsters negros querendo abrir um bar e lutando contra a KKK. Os vampiros é que foram enfiados no filme sem necessidade. Mas agora fica simplesmente estranho tentar resolver um conflito com um segundo grupo de vilões em uma cena breve no final.

- Sammie velho tocando blues nos anos 90, como se fosse uma biografia de um músico, é a aleatoriedade perfeita para terminar um filme com tantos elementos desconexos. Como disse antes no blog, o filme é “o tipo de subversão de gênero misturada com comentário social que eu esperaria de um cineasta como Jordan Peele, não de Ryan Coogler. Vem nessa onda de filmes autorais desajeitados que, na tentativa de se provarem ‘não formulaicos’ e de atender à atual demanda por obras originais, jogam fora todos os princípios narrativos — inclusive os que não deviam.”

- Por que Pecadores recebeu 16 indicações aos Prêmios da Academia? Porque é um filme que promove de forma brilhante a ideologia corrupta da instituição. O fato de ser um “filme negro”, por si só, não explica o favoritismo — basta lembrar de A Cor Púrpura (2024), que recebeu 1 única indicação.

Sinners / 2025 / Ryan Coogler

A Teleologia do Prêmio

A corrupção dos valores da Academia tem um efeito negativo na indústria que é pouco discutido, porque poucos reconhecem um fato: que muitos cineastas fazem filmes justamente pelo desejo de ganhar um “Oscar”. Nossa tendência é achar que cineastas têm motivos sofisticados para fazer filmes, tomam decisões baseadas puramente em visões pessoais, considerando no máximo os espectadores — e que os Prêmios da Academia existem em uma dimensão paralela que nada interfere no processo criativo. Mas isso está longe de ser verdade. Uma das plateias que os cineastas mais trabalham para agradar é a própria Academia. Isso significa que as preferências da premiação têm o poder de moldar os filmes que são feitos — pelo menos aqueles que buscam prestígio, reconhecimento da crítica etc. (há sempre os filmes que se contentam apenas com bilheteria).

Todo ano, quando saem os indicados aos Prêmios da Academia, eu reviro os olhos e tento imaginar uma seleção alternativa, pensando quais filmes daquele ano seriam indicados a Melhor Filme caso o Oscar tivesse preservado seus valores. O problema é que esses filmes sequer foram feitos. Como o que ganha prêmio hoje são filmes com uma vertente mais autoral/experimental ou mais naturalista/social, o artista que quer ganhar prêmios acaba contaminando seu processo criativo com esses critérios (o Oscar Bait mudou de isca, mas continua existindo). Ele não vai continuar tentando agradar a Academia de 40 anos atrás. Só fará isso hoje quem não se importar demais com prestígio e acreditar tanto nesses valores que esteja disposto a seguir com sua visão, abrindo mão de troféus, da aceitação das “autoridades” etc.

A verdade é que poucos artistas são tão independentes assim, especialmente no cinema, que depende de mídia, de retorno financeiro e da colaboração de centenas de pessoas. Não que isso justifique alguém corromper sua visão a ponto de se tornar um queridinho da crítica atual. Mas também não quero invalidar totalmente a necessidade de aprovação externa, o desejo de ser reconhecido por profissionais experientes e bem estabelecidos da sua indústria. Dentro de certos limites, esse é um desejo humano racional.

Por isso, acho um crime o fato de praticamente todas as instituições que dão esse reconhecimento hoje estarem alinhadas com ideais corrompidos. Não é estranha a falta de diversidade ideológica nas premiações? Todo ano parece que os mesmos cinco ou dez filmes rodam todos os eventos recolhendo os prêmios: Cannes, BAFTA, Globo de Ouro etc. Antigamente, alguns prêmios para filmes populares, como o MTV Movie Awards, operavam por critérios diferentes e ainda tinham certa relevância. Hoje, nenhum prêmio alternativo tem qualquer impacto cultural. Portanto, se você não se alinhar com os valores corrompidos da crítica, você simplesmente ficará sem o “prestígio”.

É por isso que, se a Academia realmente estiver além da salvação, seria importante que outra instituição preenchesse esse vácuo e criasse um prêmio que exercesse sua função antiga: premiar filmes narrativos de grande impacto cultural, que unam apelo popular com qualidade técnica e artística e, acima de tudo, tenham um compromisso com elevação moral e excelência humana.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cultura - Janeiro 2026

22/1 — Reação Inicial: Indicados aos Prêmios da Academia 2026

Imagine que você está andando na rua e recebe uma cantada. Você pode até ficar envaidecido por um momento, se assumir que o autor do elogio é criterioso, racional. Agora imagine que instantes depois ele repita o mesmo elogio a um cavalo que passa. Sua emoção muda totalmente, pois os critérios do galanteador são colocados em xeque. É mais ou menos essa a experiência que eu tenho vendo premiações de cinema hoje em dia — acompanho tudo com uma completa indiferença no que diz respeito aos resultados. No momento em que você começa a ficar alegre com o reconhecimento de um filme merecedor, você lembra que os filmes mais tediosos do ano estão na mesma disputa e com mais chances de vencer.

O fato mais risível desta edição dos Prêmios da Academia (até que criem um apelido mais apropriado, vou evitar o termo “Oscar”) são as 16 indicações para Pecadores. A mídia vai dizer que o filme quebrou o recorde de todos os tempos, superando as 14 indicações de Titanic e A Malvada, ignorando totalmente (e propositalmente) o fato de que o prêmio mudou de critérios e de identidade nas últimas décadas, preservando apenas o rótulo. Se você quiser exaltar esse feito de Pecadores, a forma mais honesta de dar a notícia é: “Pecadores quebra recorde e recebe 3 indicações a mais que Emília Pérez!”.

As indicações para O Agente Secreto são coerentes, se você levar em conta a nova realidade da Academia. O filme fez uma boa campanha, está ideologicamente alinhado com a agenda política dos votantes e traz o engajamento dos “torcedores de futebol” brasileiros nas redes sociais de quebra. Nos tempos de Cidade de Deus, porém, o filme provavelmente teria rodado alguns cinemas do circuito alternativo no Brasil e nunca chegado aos ouvidos dos votantes.

Uma Batalha Após a Outra é o segundo filme com mais indicações (13) e é outro filme extremamente ideológico desta edição. Até entenderia o reconhecimento em categorias como Fotografia e Edição — mas 4 indicações de atuação já indicam uma simpatia exagerada pelo filme (e seus personagens) que tem origens duvidosas.

O único filme que acho merecedor na disputa para Melhor Filme é Marty Supreme, mas não torço nem deixo de torcer por qualquer vitória.

O vídeo abaixo é do ano passado, mas vale repostar:

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Uma dessas “biografias” ou filmes históricos desconstruídos que primeiro escolhem se passar em um ambiente onde algo extraordinário está ocorrendo, só pra ir contra as expectativas e focar no ordinário. Durante a maior parte do filme, o nome de Shakespeare sequer é pronunciado, e nenhuma importância é dada ao seu trabalho. A abordagem é Naturalista e todo o foco está na rotina familiar, nos momentos singelos entre ele, sua esposa e os filhos. Há uma certa romantização do rústico, do místico, do estilo de vida primitivo que, assim como em Sonhos de Trem, parece vir de uma aversão à ciência e à civilização moderna.

Tudo vai bem até que uma série de infortúnios aleatórios começa a acontecer e, em vez de uma rotina banal, passamos a contemplar sofrimento, dor, morte, luto — e é aí que o filme encontra sua razão de ser. Se algo explica o favoritismo de Jessie Buckley na temporada de prêmios, são seus diversos urros de dor, que representam o sacrifício feminino.

Nada importa aqui o fato de William Shakespeare ser um gênio que moldou a cultura ocidental. O que importa, em primeiro lugar, é a grande mulher por trás dele. Na medida em que ele é relevante, o que deve nos interessar é o fato de que ele sofreu e de que ele era falho como todos os maridos, sempre colocando o trabalho acima da família. Londres — simbolizando a modernidade, a carreira — é mostrada como um lugar feio, decadente, quase como um prostíbulo onde Shakespeare precisa ir pra dar vazão a seus instintos inferiores.

Nas mãos de um diretor mais ressentido, teríamos aqui o palco perfeito pra um ataque ao legado de Shakespeare. Porém, Chloé Zhao aposta em uma “ressignificação” mais elegante, em que todas essas mensagens são transmitidas sem que o filme precise ser espalhafatoso para manchar a imagem de ninguém (Zhao faz com Shakespeare algo parecido com o que faz com a Amazon em Nomadland).

Estranhamente, o filme termina em uma nota positiva, exaltando Hamlet e perdoando Shakespeare parcialmente por suas falhas como pai. Mas nada me tira da cabeça que essa sequência final não foi encomendada e co-dirigida por Spielberg, produtor do filme. Não só por ela destoar de todo o resto (Agnes subitamente muda de caráter e se torna a esposa ingênua e incentivadora, encantada com o brilhantismo do marido), como por alguns detalhes de direção muito característicos de Spielberg nos minutos finais (os gestos manuais, a música, a despedida emocionante enquanto alguém atravessa uma porta para outro mundo). Em vez desse final me fazer gostar mais do filme, ele só me fez sair da sala mais contrariado, como se uma energia spielbergiana tivesse sequestrado o filme pra maquiar a intenção de Zhao, revelando falta de integridade em ambas as partes.

Hamnet / 2025 / Chloé Zhao

sábado, 10 de janeiro de 2026

Marty Supreme

Uma das poucas boas surpresas dessa temporada. Joias Brutas (dirigido por Josh Safdie ainda junto com o irmão Benny) foi um dos filmes mais esteticamente desagradáveis que já vi. Em 2025, os irmãos resolveram se separar e lançar cada um seu longa solo. Benny fez The Smashing Machine e Josh fez Marty Supreme. Como The Smashing Machine teve uma direção bem menos caótica que Joias Brutas, eu estava achando que Josh é que se provaria o irmão niilista da dupla, e entrei na sala esperando ser torturado por 150 minutos. No fim, me deparei com um filme agitado, excêntrico, às vezes até histérico, mas muito mais controlado do que eu esperava, e que nunca pareceu hostil em relação ao espectador. (Ou seja, talvez a interação dos dois seja o que criava o caos.)

Não é o tipo de história que costuma me atrair (lembrei bastante do Scorsese dos tempos de Touro Indomável ou Os Bons Companheiros), mas o que me conquistou foi a originalidade e a qualidade geral da obra; a alta Densidade Criativa do roteiro e o “Fator G” elevado da produção. É o oposto da superficialidade intelectual que senti em O Brutalista. Aqui, o universo parece totalmente crível, e o cineasta parece estar falando de conflitos e pessoas com os quais conviveu e tem bagagem pra discutir. Há tanta informação nos diálogos e na construção de mundo que é como se estivéssemos consumindo em velocidade normal algo que foi pensado em ultra câmera lenta (toda boa obra de arte, na verdade, deveria dar essa sensação).

Mas e quanto ao teor da história? Provavelmente haverá muito debate quanto à mensagem do filme, que não é das mais claras. Estava esperando que tudo não passasse de uma crítica cínica à ganância e à busca desenfreada por sucesso. Mas, assim como Joias Brutas, o filme é mais sofisticado que o normal; evita generalizações e não cai no ataque raivoso clichê ao capitalismo. Está mais pra uma narrativa positiva de sucesso em que o protagonista, por acaso, tem sérios problemas de caráter do que pra um cautionary tale contra a ambição.

Seria um caso de Idealismo Corrompido? Eu diria que não — que o filme cai mais na categoria de Idealismo Crítico. Isso porque os positivos aqui são retratados como positivos, e os negativos como negativos. O filme tem plena noção dos problemas de Marty e não os romantiza nem os justifica. Ao mesmo tempo, suas virtudes são apresentadas de maneira atraente, inspiradora (muito do mérito aqui é da performance excelente de Timothée Chalamet, que consegue andar nessa corda bamba preservando o carisma do personagem). Essa distinção moral é a marca do Idealismo Crítico saudável. No Idealismo Corrompido, o filme está sempre criando inversões de valores e apresentando virtudes sob uma luz negativa.

Sim, Marty Supreme tem um Senso de Vida misto: reflete um artista ambicioso, que acredita no sucesso, mas tem uma visão conflituosa de mundo que faz com que ele dê protagonismo e importância existencial a figuras problemáticas como Marty. Mas Safdie lida com esse conflito de maneira mais consciente e madura do que o artista malevolente padrão. Em uma entrevista recente, ele disse:

“Eu cresci cercado por algumas pessoas falhas na minha vida, e não tive escolha a não ser admirá-las. Acho que isso moldou a empatia com que eu costumo enxergar as pessoas. Às vezes isso é ruim. Às vezes dói, te coloca em enrascadas, porque você sabe… pode acabar se apaixonando por alguém que vai te machucar de alguma forma. Mas, ao mesmo tempo, isso abre o seu coração e permite que você veja o lado bom das pessoas e meio que releve algumas das coisas ruins — a menos que elas sejam realmente pessoas más.”

Ou seja, Marty Supreme é como se fosse Safdie duelando consigo mesmo e tentando decidir como lidar com o misto de admiração e condenação que sente por certas pessoas em sua vida. (Fiquei com a impressão de que, apesar da história se passar no tempo de seus avós, no fundo Josh está falando sobre a era de seus pais — a ambição característica dos yuppies dos anos 80, o que ajudaria a explicar os anacronismos propositais da trilha sonora.)

Marty Supreme tem questões mal resolvidas no nível da mensagem, e a conclusão do filme se torna menos satisfatória por causa disso. Safdie não parece ter uma tese ainda sobre o tema que resolveu abordar, mas pela maneira como ele lida com os personagens ao longo da história, sua investigação pelo menos caminha em uma boa direção.

Marty Supreme / 2025 / Josh Safdie

domingo, 4 de janeiro de 2026

Temporada 2025

2025 pra mim foi um dos piores anos da história do cinema — não só pela ausência de grandes filmes, mas pela qualidade média do cinema mainstream, que atingiu um ponto tão deprimente que acho que só não provoca uma revolta maior no público por causa de algum fenômeno tipo a síndrome do sapo na panela.

Em outros anos, me indignei mais com as mensagens e os valores projetados nos filmes. Não que isso tenha melhorado muito, mas a questão da qualidade básica das obras — especialmente na área de roteiro — foi o que mais me chamou a atenção em 2025.

É a primeira vez que chego ao final de um ano não só sem nenhuma avaliação máxima, mas também sem nenhum filme “4 estrelas”, o que deve me impossibilitar de criar um Top 10 minimamente aceitável (não tenho grandes expectativas em relação aos filmes do Oscar que estreiam entre janeiro e fevereiro).

Se algo meio que “salvou” o ano pra mim, foi um punhado de filmes comerciais sem grandes pretensões, que deixaram um pouco as agendas ideológicas de lado, se propuseram apenas a criar um entretenimento leve e foram bem-sucedidos nisso. Entre esses, destacaria Lilo & Stitch, Como Treinar o Seu Dragão e Um Filme Minecraft.

O fato desses filmes, que nem foram tão excepcionais assim, terem sido enormes sucessos de bilheteria me dá certa esperança de que os espectadores ainda têm salvação — de que o problema mais grave está nas instituições, nos estúdios, nas lideranças atuais etc. Continuo acreditando na minha teoria de que “Filmes Nota 6”, alinhados com princípios Idealistas, teriam capacidade de reerguer a indústria.

Infelizmente, não vejo nenhum movimento que aponte para um 2026 muito melhor. Meus mais aguardados, por enquanto, são Dia D, Michael e A Odisseia — mas em relação a Michael e A Odisseia, tenho mais uma curiosidade quanto ao tema e à abordagem do que uma esperança de que serão ótimos filmes de fato.

Já não tenho mais expectativas em relação ao entretenimento em geral, nem em relação ao Oscar. O ano passado pra mim foi como se a cultura americana tivesse finalmente colapsado. Se as coisas melhorarem no futuro, estará mais pra uma ressurreição do que pra uma mera recuperação. Ainda assim, continuarei aqui, acompanhando tudo e deixando meus comentários sempre que achar relevante.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Densidade Criativa: quantas ideias por minuto tem um filme?

Tentando entender a diferença entre os grandes filmes de Hollywood e as experiências tediosas proporcionadas pelo entretenimento atual, revi alguns dos meus filmes favoritos ao longo deste ano por um ângulo diferente: fiquei anotando tudo de interessante que acontecia a cada minuto de projeção — tudo aquilo que ajudava a manter a experiência prazerosa e gratificante pra mim enquanto espectador.

Ao fazer isso, comecei a me conscientizar de um critério pelo qual sempre avaliei os filmes, mas de forma subconsciente: sua Densidade Criativa.

A Densidade Criativa de um filme é o quão rico em ideias ele é. Esse conceito pode ser visto como o resultado de duas variáveis:

Frequência Criativa: a quantidade de ideias — ou “Beats Criativos” — por minuto que um filme apresenta (ao longo do texto, usarei ‘ideia’ e ‘beat criativo’ como termos equivalentes). 

Qualidade Criativa: o valor intrínseco dessas ideias (o quão originais, inteligentes, emocionantes e bem integradas à narrativa elas são).

A Densidade Criativa é resultado da combinação entre Frequência Criativa e Qualidade Criativa.

No texto A Importância de Ideias e Inspiração, já discuti um pouco a questão da Qualidade Criativa: o que diferencia uma boa ideia de uma má ideia, na minha concepção. Muito trabalho ainda pode ser feito nessa área, que pode soar um tanto subjetiva, mas neste texto vou focar mais na questão da Frequência Criativa, que é igualmente crucial e é um princípio que nunca vi discutido dessa forma.

Frequência Criativa

No texto Ganchos e Recompensas, discuti que não adianta um filme ter apenas um ótimo gancho narrativo, uma boa ideia de trama e a promessa de uma recompensa no final; os bons filmes estão o tempo inteiro recompensando o espectador e, a cada minuto, reforçam seu envolvimento com a experiência. Ou seja: bons entretenimentos têm uma alta Frequência Criativa, pois precisam estar sempre estimulando o espectador com novas ideias.

Através da análise de alguns clássicos que sempre uso como referência aqui no blog, cheguei a alguns princípios gerais a respeito do conceito de Frequência Criativa.

Abaixo, vou listar as principais ideias/beats criativos de alguns minutos aleatórios de E.T. — O Extraterrestre, De Volta para o Futuro e O Exterminador do Futuro. Um ‘beat criativo’ seria a menor unidade criativa de um filme: toda ideia dentro de uma cena que gera estímulo emocional, curiosidade intelectual e sustenta o interesse do espectador.

---------------------------

MINUTO 11 de E.T. — O Extraterrestre
1 – Elliott entra afobado em casa e diz para os amigos e para a mãe que viu “algo” lá fora.
2 – Elliott alerta: “ninguém sai lá fora!” — os amigos valentões fazem o oposto e partem para o quintal.
3 – Eles pegam facas da cozinha antes de sair, para o desespero da mãe de Elliott.
4 – Imagem externa misteriosa, com lua, neblina e milharal, enquanto os amigos se divertem caminhando em direção à cabana (brincadeira com o tema de Twilight Zone).
5 – Eles encontram as pegadas de E.T. dentro da cabana.
6 – O irmão de Elliott dá uma explicação mundana para as pegadas: “o coiote voltou, mãe”.

MINUTO 12 de E.T. — O Extraterrestre
1 – Os amigos veem a pizza que Elliott derrubou no chão e dão uma bronca nele.
2 – A mãe pergunta quem deixou eles pedirem pizza. Elliott dedura o amigo, criando confusão.
3 – Depois que todos já saíram, vemos os dedos de E.T. na porta da cabana, reforçando que Elliott estava certo.
4 – Na beliche de Elliott, o cachorro acorda e olha para a janela ao ouvir um barulho lá fora. Elliott, na beliche de cima, já está acordado, olhando para a janela, como quem nem chegou a dormir.

O minuto 11 não é um minuto típico de E.T. — é um momento bem mais denso que a média. Resolvi incluí-lo porque muitas vezes não nos conscientizamos de quanta coisa pode acontecer em um filme em um simples intervalo de 60 segundos, e de quanto investimento criativo é necessário para se criar um entretenimento de alto nível. Se você me perguntasse sem eu olhar, eu provavelmente chutaria que esses eventos todos representavam dois ou três minutos do filme, e não apenas um.

Notem também que o minuto 11 funciona quase como uma mini-história: tem começo, meio e fim — começa estabelecendo um gancho e progride para um clímax, com várias mini-recompensas no caminho, todas narrativamente interconectadas.

---------------------------

MINUTO 33 de De Volta para o Futuro

1 – No celeiro, Marty tira o capuz de seu traje antirradição, e a filha apavorada dos fazendeiros grita para os pais: “Ele já está ganhando forma humana!”, achando que se trata de uma invasão extraterrestre.

2 – Marty dá partida no DeLorean e foge sob tiros, atropelando um de dois pinheiros protegidos por uma cerca no caminho, para a fúria do fazendeiro (algo que renderá um beat divertido mais adiante).
3 – Já na estrada, Marty freia o DeLorean bruscamente ao se deparar com o condomínio onde mora no futuro — Lyons Estates — ainda em construção.

MINUTO 34 de De Volta para o Futuro
1 – Marty tenta pedir informações para um carro que se aproxima, mas uma senhora histérica se apavora e manda o marido não parar.
2 – Marty tenta dar partida no carro, mas o DeLorean não pega, para sua frustração.
3 – Descobrimos que a câmara de plutônio da máquina do tempo está vazia.

---------------------------

MINUTO 14 de O Exterminador do Futuro
1 – Na loja de armamentos, o Exterminador solicita diversas armas específicas ao balconista, exibindo todo o seu conhecimento técnico.

2 – Quando o vendedor pergunta qual delas ele vai levar, ele responde: “todas”.
3 – O vendedor fica alegre e diz que vai “fechar mais cedo hoje”, mas, em vez de pagar, o Exterminador carrega uma das armas e o mata.
4 – Em outro ponto da cidade, Reese serra a coronha de um rifle para encurtá-lo, esconde-o dentro do sobretudo e se mistura aos pedestres.

MINUTO 15 de O Exterminador do Futuro
1 – O Exterminador arranca violentamente um homem de um telefone público.
2 – Ele procura por “Sarah Connor” em uma lista telefônica e encontra três mulheres com o mesmo nome.
3 – Vemos um bairro residencial feliz, com gramados verdes e crianças brincando, quando um caminhãozinho de brinquedo é subitamente esmagado pela roda de um carro estacionando.
4 – Nesse ambiente inofensivo, a figura ameaçadora do Exterminador sai do carro e se aproxima da porta de uma casa específica.

---------------------------

Acabei escolhendo alguns trechos mais densos que o normal, mas, pelo que observei, a média de um bom entretenimento é de pelo menos três ideias por minuto — ou seja, pelo menos três ações, acontecimentos ou informações que renovam o interesse do espectador, criando emoções prazerosas e/ou curiosidade intelectual. Em momentos mais excitantes, esses filmes podem apresentar quatro, cinco ou até mais ideias interessantes em um único minuto. Isso bate com algo que ouvi de David Zucker recentemente — um dos responsáveis por Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu! e Corra que a Polícia Vem Aí! — segundo o qual seus filmes buscavam ter uma média de três piadas por minuto. Se adotarmos essa média de três ideias por minuto, isso significa que, em um bom entretenimento, não passam muito mais de 20 segundos sem que algo estimulante aconteça.

Essa média se mantém inclusive em clássicos das décadas de 30 e 40. Os filmes da Era de Ouro, aliás, costumavam ter diálogos mais afiados, com poucas falas naturalistas ou meramente funcionais, o que ajudava a aumentar a taxa de beats criativos por minuto.

Tipos de Beats Criativos

Vários tipos de ideias podem ser estimulantes e tornar a experiência de um filme agradável. Entre os estímulos de uma cena, podem existir beats que criam gancho ou expectativa, toques de humor, atitudes carismáticas dos personagens, insights inteligentes, contrastes que realçam um valor, estímulos sensoriais e até decisões estéticas chamativas do diretor. Ainda assim, os beats narrativos são os mais indispensáveis no cinema. Um bom entretenimento terá, na maioria dos minutos, alguma ideia que traga novas informações a respeito da trama e faça a história avançar (é ao redor desses beats que as outras ideias serão integradas).

Um cuidado a ser tomado é com os beats que dependem de algum conhecimento prévio específico do espectador: referências a outras obras, comentários sobre eventos contemporâneos etc. Assim como ganchos internos são superiores a ganchos externos, o uso de “beats externos” deve ser limitado, para que a Frequência Criativa da obra não seja comprometida para muitos espectadores.

Limites Máximos

Há um limite natural para a Frequência Criativa de um filme. Não é possível amontoar 50 ideias em um minuto, pois cada uma exige um mínimo de desenvolvimento, um set-up. Não basta jogar ideias na tela sem critério. Elas precisam ter uma sucessão lógica, e o espectador precisa de tempo para absorver cada raciocínio. Assim como na escrita, é necessário ao menos uma frase ou um parágrafo para apresentar uma nova ideia — uma sequência aleatória de “palavras estimulantes” não prende a atenção nem cria emoção.

O ser humano só consegue focar em uma coisa por vez. Em um segundo de projeção podem existir centenas de informações num filme (figurinos, objetos, trilha sonora), mas essas são ideias periféricas. O que importa aqui — e o que vale como beat criativo — são as ideias explícitas que ocupam o primeiro plano e atraem o foco consciente do espectador.

Limites Mínimos

Se um filme quiser ser um bom entretenimento, existe um limite para quanto tempo pode passar sem que algo estimulante ocorra. Se um filme demora mais de 20 segundos para apresentar uma nova ideia, ele já começa a ficar um pouco desestimulante. Parece haver alguma lei psicológica natural que governa essas medidas — assim como, em uma palestra, uma pausa de três segundos pode ser dramática, mas uma de oito segundos rompe o fluxo e causa estranhamento.

Alguns filmes que analisei, como O Iluminado ou Encurralado, apresentam uma Frequência Criativa mais baixa, com uma média próxima de duas ideias por minuto. Ainda assim, considero-os bons entretenimentos. Se o gancho geral da história ou da cena é forte — ou seja, se há uma expectativa clara por algo prazeroso ou excitante no futuro próximo — essa média mais baixa ainda pode render uma experiência envolvente, embora com uma sensação mais calma e menos excitante quando comparada aos filmes discutidos anteriormente.

Quando um filme cai para uma média de 1 ideia/beat criativo por minuto, ele já se afasta do entretenimento Idealista e adquire um ar Naturalista, não narrativo — especialmente na ausência de ganchos. Uma das características mais cruciais do Naturalismo, na minha visão, é justamente essa baixíssima Densidade Criativa, essa escassez de ideias estimulantes. Nesse ponto, o Experimentalismo tende a ser mais interessante e a apresentar uma Densidade Criativa mais alta que o Naturalismo, ainda que as ideias não sigam uma progressão lógica.

Séries de TV modernas também tendem a se distanciar do Idealismo por causa da baixa Densidade Criativa. Ao analisar um episódio da série Pluribus (T1, E5), uma das mais aclamadas da atualidade, contei apenas cinco ou seis beats criativos ao longo de 40 minutos — e quase nenhum deles era uma ideia particularmente inteligente ou transformadora para a história. Em um único minuto de qualquer um dos filmes analisados acima, encontramos uma Densidade Criativa maior do que nesse episódio inteiro.

---------------------------

Níveis de Frequência Criativa:

1.0 Id/m — sensação de estagnação, “realismo” e monotonia
2.0 Id/m — narrativa um pouco lenta, mas que pode funcionar com um bom gancho
3.0 Id/m — entretenimento sólido
4.0 Id/m — narrativa ágil e empolgante
5.0+ Id/m — momentos de alta excitação, set pieces, “impossível piscar”

---------------------------

Quantidade vs. Qualidade

Como disse, a Densidade Criativa depende não apenas da Frequência Criativa, mas também da Qualidade Criativa — o valor das ideias em si. Nem toda ideia de toda cena precisa ser genial. O importante é que sejam lógicas, compreensíveis, alinhadas com o tema do filme, com a progressão da trama, e que tenham alguma carga emocional ou intelectual (alinhada com os 4 Pilares do Idealismo).

Mas, para se tornar um grande filme — daqueles que podemos rever inúmeras vezes sem cansar — é necessário apresentar não apenas uma alta frequência de ideias, mas ideias de qualidade com certa regularidade.

Ações Vazias vs. Beats Criativos

A maioria dos filmes comerciais terá três ou mais “coisas” acontecendo por minuto. O espectador casual não tolera trechos de puro vazio. Mas, na minha visão, apenas os beats criativos — aqueles acontecimentos baseados em alguma ideia interessante — realmente produzem entretenimento e aumentam a Densidade Criativa de um filme.

É por isso que uma cena de ação não consegue te divertir apenas com base na escala ou na movimentação física. Uma imagem grandiosa pode até servir como um beat, mas para permanecer interessante por diversos minutos, a cena precisará contar com diversas outras ideias. Uma luta pode ter inúmeros golpes e mortes, mas essas coisas só se tornam beats criativos quando trazem ideias coreográficas marcantes, mortes inovadoras, surpresa, humor etc. O verdadeiro ritmo de um filme não vem da montagem ou da ação física na tela, mas de sua Frequência Criativa.

Diálogos também podem se tornar ações vazias se não incluírem sacadas divertidas, informações que mudem o rumo da trama etc. Uma das formas mais fáceis de se encher linguiça em filmes e séries é colocando duas pessoas para dialogar na tela. O diálogo cria a ilusão de que algo está acontecendo e preenche o vazio. Mas, se o texto for meramente funcional, se for um desentendimento que não avança a história, o filme não estará cumprindo sua função enquanto entretenimento. 

A Regra dos 18 Minutos

A regra dos 18 minutos do TED Talk é uma diretriz segundo a qual palestras não devem ultrapassar esse tempo — longo o suficiente para apresentar um conceito relevante, mas curto o bastante para manter a atenção total do público, evitando sobrecarga cognitiva e incentivando uma comunicação focada e clara.

Acredito que essa “regra” seja útil também no universo do cinema. Evidentemente, o público consegue prestar atenção a uma história com mais de 18 minutos; se não, longas-metragens não seriam tão populares. Ainda assim, mudanças de ambientação, de clima ou de assunto são necessárias para que um filme não se torne cansativo. O público precisa de variedade. Analisando alguns filmes, notei que algo em torno de 15–20 minutos parece ser o tempo máximo para que um longa permaneça em um mesmo segmento narrativo sem começar a cansar.

Em O Exterminador do Futuro 2, por exemplo, todo o bloco em que os personagens decidem explodir a Cyberdyne pode ser visto como um “assunto” ou “ambiente” e dura cerca de 16 minutos. Em De Volta para o Futuro, a introdução ao universo de Marty, antes da revelação da máquina do tempo, tem cerca de 17 minutos. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, a sequência dos macacos dura aproximadamente 16 minutos.

A Frequência Criativa não precisa variar de um segmento para outro, mas o conteúdo das ideias sim, criando um senso de movimento para a narrativa como um todo.

Relevância do Conceito

Ainda que seja difícil chegar a um critério objetivo para definir o que é ou não uma boa ideia, o ponto central aqui é que o que torna um filme bom não é simplesmente sua mensagem, o conceito geral do diretor ou uma avaliação abstrata feita após a sessão, mas a soma das centenas de ideias apresentadas ao longo da projeção.

Ouvi um crítico dizer recentemente que, pra gostar de certo filme em cartaz, era obrigatório assistir à série de TV na qual ele se baseia; caso contrário, a pessoa não aproveitaria a sessão. Essa perspectiva não faz sentido se você encarar filmes da maneira como eu encaro. Se um filme se torna tedioso ou sem sentido quando você não conhece obras externas a ele, é porque não está fazendo esse trabalho fundamental de apresentar três ou mais ideias interessantes por minuto. Da mesma forma, não compro a ideia de que é preciso assistir a diversos episódios de uma série até que ela “comece a ficar boa”. Por mais que haja uma reviravolta no meio da temporada, é raro que ocorram variações muito grandes de Frequência Criativa ou de Qualidade Criativa dentro de uma mesma produção. O que uma obra apresenta em seus primeiros minutos costuma ser uma amostra bastante fiel do que virá depois em termos de Densidade Criativa.

Esse conceito de Densidade Criativa também pode ajudar alguns Idealistas a entender por que é possível gostar de certos filmes mesmo quando eles têm uma mensagem trágica ou um final incompreensível. Há muitos filmes com mensagens questionáveis que são compostos por beats inteligentes, prazerosos e alinhados com o Idealismo. No fim das contas, o que importa é a jornada.

É ainda um ótimo guia para quem deseja ser roteirista (ou cineasta, editor). Se seguirmos este princípio, sabemos, por exemplo, que para criar um filme de 100 minutos, você precisará ter no mínimo 300 ideias para manter o espectador entretido. Sem esse volume de ideias, você ainda não está criando um verdadeiro entretenimento. (Quando reclamo que os filmes hoje não se parecem mais com filmes, é porque eles tentam se esquivar dessa tarefa, preenchendo as duas horas basicamente com ações vazias, e apenas salpicando uma ou outra ideia ao longo da narrativa.)

Declínio do Entretenimento

Desde os tempos do cinema mudo, o entretenimento audiovisual foi se consolidando em torno de uma Frequência Criativa de aproximadamente três ou mais ideias por minuto. Não acredito que essa medida seja aleatória, mas sim um reflexo de um ritmo natural da mente humana em um estado de excitação.

Com a crise criativa em Hollywood, a Densidade Criativa do entretenimento vem diminuindo ano após ano. Em alguns casos, o problema está na má Qualidade das ideias. Mas na maioria das vezes, somos apresentados não apenas com ideias mais fracas, mas também com uma quantidade muito menor delas: conteúdos altamente diluídos. Já ouvi dizer que muitos projetos de streaming hoje são pensados de propósito como “segunda tela”, partindo do pressuposto que o espectador estará mexendo no celular enquanto assiste. E o que ele busca no celular? Provavelmente os beats criativos extras que a série não está fornecendo, e de que ele precisa para se manter entretido. (O sucesso do TikTok parece estar intimamente ligado à Frequência Criativa — com a diferença de que ele oferece estímulos aleatórios, sem coerência ou estrutura, ao contrário do cinema.)

Se Hollywood fosse uma grande sorveteria, uma análise do produto nas últimas décadas revelaria um declínio gradual na quantidade de açúcar contida em cada bola de sorvete, até chegar a um ponto em que já é discutível se aquilo ainda pode ser chamado de um “doce”. Externamente, o produto continuaria com a mesma aparência — assim como os filmes continuam tendo duas horas de duração e sendo visualmente atraentes — mas aquilo que tornava a experiência prazerosa foi sendo lentamente removido.

Não é surpresa alguma que as filas estejam diminuindo e se o cinema quiser recuperar seu público, a indústria precisará voltar a valorizar os profissionais capazes de equipar os filmes com essa quantidade massiva de ideias: escritores talentosos.

Índice: Artigos e Postagens Teóricas

sábado, 20 de dezembro de 2025

Avatar: Fogo e Cinzas

Em termos de trama e estrutura narrativa, esse filme tem muitos dos mesmos problemas de O Caminho da Água. Lembra um pouco uma novela, sem um protagonista definido, que fica saltando entre vários núcleos e conflitos diferentes, sem um rumo claro, enquanto nos impressiona com a ação e o visual.

Gostei um pouco mais deste filme do que da segunda parte por dois motivos principais. Achei interessante a maneira como o filme enfrentou o racismo de Neytiri, criando diálogos francos e um arco mais satisfatório para ela. A outra melhoria é que Spider aqui se tornou um personagem mais gostável, pois removeram aquela indefinição moral que o tornava uma figura irritante em O Caminho da Água.

Mas tanta coisa acontece no filme que é como se esses fossem apenas bons episódios no meio de uma temporada de série cheia de capítulos irregulares. Falta um “gancho mestre” em Fogo e Cinzas integrando todos os eventos e dando foco à história.

Ainda assim, o filme entrega espetáculo visual e consegue ser estimulante momento a momento. Só achei realmente cansativo o ato final, que é uma sequência de ação que parece não acabar nunca. De modo geral, eu estava achando a experiência divertida até essa parte, mas a duração exagerada dessa sequência acabou tornando a sessão exaustiva e me fez tirar alguns pontos da avaliação final.

Outro dia vi Natal Branco (1954) e notei uma tática narrativa muito interessante que a franquia Avatar ignora totalmente — ligada ao Princípio da Ascensão e aos Ganchos e Recompensas. Natal Branco prende seu interesse não só com base na trama — nos objetivos dos personagens — mas também com base na expectativa em relação à ambientação do filme, aos cenários que você quer ver. Ao colocar para assistir um musical com esse título, você naturalmente quer ver neve, pinheiros, pessoas cantando músicas natalinas em ambientes aconchegantes etc. Nós não vemos um filme só pela trama, mas também pelo “clima” que queremos entrar.

A tática curiosa de Natal Branco é construir muito lentamente esse clima natalino. Começamos em um ambiente árido de guerra. Depois, o filme nos leva para o calor da Flórida. Depois, quando finalmente subimos para Vermont, descobrimos que há uma falta inesperada de neve no estado, espantando os turistas naquele ano. Embora a trama principal esteja avançando, essa ausência da neve e do cenário tipicamente natalino cria uma espécie de gancho que faz você querer aguardar até o final. É como se o filme ainda não tivesse se tornado ele mesmo. E só no finalzinho mesmo que a neve cai e o filme mostra o cenário esperado, dando um senso de satisfação extra à história.

Em Avatar: Fogo e Cinzas, tudo já é escancarado logo de cara: a primeiríssima imagem já nos mostra Pandora em toda a sua glória, personagens voando em cima de banshees, fazendo mergulhos radicais que fazem o espectador se sentir em uma montanha-russa. Se você gosta de Avatar mais pelo universo e pela experiência visual do que pela trama, em cinco minutos de filme você já sentiu todo o “clima” que pagou para sentir — mas ainda faltam três horas para o filme acabar.

Cameron não tem uma história realmente forte para contar em Fogo e Cinzas; ele parece apenas gostar de passar tempo nesse universo de Pandora, de nos transportar para esse lugar mágico. É uma intenção pela qual simpatizo, apesar das questões narrativas problemáticas do filme. É mais ou menos como estar na Disney e entrar em um brinquedo que não é particularmente inovador ou memorável — você pensa: isso não foi nenhum clássico, mas, oras bolas, eu ainda estou de férias na Disney!

Avatar: Fire and Ash / 2025 / James Cameron

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Cultura - Dezembro 2025

18/12 — Onde estão os diretores Millennials?

Lembro que há uns 10 ou 15 anos, quando ainda tinha o desejo de seguir uma carreira no cinema, eu costumava checar a idade dos diretores em ascensão em Hollywood para ver se a minha geração já tinha “chegado lá”. Idade não é um fator totalmente determinante nessa área, mas ainda assim, eu tinha a noção de que diretores bem-sucedidos costumavam fazer seus primeiros longas lá pelos vinte e tantos ou trinta anos, e que seus períodos mais férteis ocorriam entre os 30 e os 40 e poucos anos. Eu me sentia levemente pressionado por essa questão da idade e imaginava que, se eu chegasse aos meus trinta e tantos anos e ainda nem tivesse encontrado uma porta de entrada na indústria, isso me faria sentir atrasado, vendo Hollywood sendo dominada por pessoas da minha geração, e eu de fora.

O tempo passou e meus planos profissionais mudaram. Hoje, trabalhar com cinema não é mais uma prioridade. Mas o curioso é que eu já passei dos 40 anos e ainda não chegou o momento em que a indústria foi dominada por pessoas da minha geração e eu poderia me sentir relativamente atrasado. Se você pegar esta lista dos 50 principais diretores em atividade hoje em Hollywood, encontrará uma pequena minoria nascida de 1981 para frente. A grande maioria será de cineastas da Geração X, Baby Boomers e alguns até da Silent Generation. Há apenas três Millennials: Damien Chazelle (1985), Ryan Coogler (1986) e Greta Gerwig (1983). E nenhum deles chega a ser uma figura de real peso e liderança. Aos 40 anos de idade, Tarantino, Scorsese, Cameron, Spielberg, Kubrick, Nolan e Fincher já tinham feito diversos de seus filmes definitivos e eram figuras culturalmente influentes.

Não sei se os Millennials terão um “desabrochar tardio” ou se Hollywood simplesmente irá “pular” essa geração, que de repente se encontrou melhor no YouTube, em podcasts, redes sociais etc. De qualquer forma, acho que isso ajuda a explicar o senso de estagnação na indústria.


16/12 — Disclosure Day

O primeiro teaser de Disclosure Day diminuiu um pouco minhas expectativas (exageradamente altas), embora ainda seja um dos lançamentos de 2026 que mais estou aguardando. Pareceu algo mais rotineiro, assumidamente fictício, quebrando um pouco o clima conspiratório (me lembrou até as produções do Shyamalan).

Uma ficha que só caiu pra mim há pouco tempo — e que esse teaser me lembrou — é o quanto eu nunca gostei da estética e da linguagem visual de Janusz Kaminski, o diretor de fotografia “fixo” de Spielberg desde A Lista de Schindler. Às vezes, vejo até uma correlação entre a chegada de Kaminski à equipe de Spielberg e o declínio da magia que marcou os filmes dele dos anos 70 até Jurassic Park.


15/12 — A Revolução dos Bichos

A direita está indignada com o trailer da nova adaptação de A Revolução dos Bichos, dizendo que pegaram uma história antissocialista e a transformaram em anticapitalista. Eu nunca li o livro de Orwell, mas não vi nenhuma inconsistência ideológica entre o trailer e a animação de 1954, que é uma adaptação elogiada, aparentemente fiel à obra — e exala socialismo do início ao fim. 1984 talvez seja mais ambíguo, mas acho incrível alguém ler uma história como A Revolução dos Bichos e concluir que Orwell era um conservador ou liberal. O fato dele fazer críticas ao stalinismo e ao totalitarismo não o coloca automaticamente na direita. O inimigo do seu inimigo — ou o crítico dele — não é necessariamente seu amigo.


11/12 — Spielberg/Disclosure

Ontem aparentemente surgiram alguns painéis misteriosos em Nova York e Los Angeles do novo filme do Spielberg sobre aliens (marcando a 30ª parceria dele com John Williams). O título nem foi revelado ainda, mas já estão surgindo teorias da conspiração divertidas na internet sobre o teor da história, já que a frase “TUDO SERÁ DIVULGADO” no telão se aproveita do hype desses últimos anos a respeito de OVNIs e do suposto complô do governo americano. Se for isso mesmo, não poderia haver um projeto melhor para o Spielberg fazer um comeback no gênero. Isso me faz lembrar do quão importante é o entretenimento estar antenado ao zeitgeist, ao que está acontecendo no mundo, e também reforça minha crença de que o escapismo é muito mais empolgante quando mantém um pé na realidade, se esforça para tornar a ficção crível etc.