sábado, 21 de fevereiro de 2026

Fortes vs. Fracos: a maior mentira do cinema

A moralidade altruísta dominante na cultura cria uma “regra” que dificilmente consegue ser quebrada hoje no cinema: vilões devem sempre ser representados pelos fortes, poderosos, privilegiados, e as vítimas/mocinhos, sempre pelos mais humildes, desprovidos, vulneráveis.

Na ética por trás do Idealismo, não associamos força ao mal. Muito pelo contrário: o mal vem da irracionalidade, do erro, que, em última instância, torna o agente impotente. A fraqueza, portanto, é que é associada ao mal. Por trás da maldade, enxergamos burrice, ignorância, motivações como inveja, ressentimento, racionalizações e o desejo de proteger uma pseudoautoestima.

Pouquíssimos filmes, no entanto, retratam o mal dessa forma. O mal absoluto, no entretenimento, quase sempre é associado à força — a um personagem poderoso que ataca suas vítimas não por invejá-las ou para camuflar suas próprias fragilidades, mas porque é forte demais, e a força corrompe.

A realidade, porém, é que pessoas realmente fortes (estou falando de força de caráter, de pessoas motivadas por autoestima, ambição moral, pela conquista de valores positivos) não perdem tempo indo atrás de pessoas fracas para atacá-las; não ocupam suas mentes com elas. Pena, indiferença ou desprezo — não ódio mortal — é o que uma pessoa forte sente por aqueles que não têm suas forças. O forte odiará o fraco apenas se for atacado e prejudicado por ele, mas não gratuitamente, não como um impulso primário. Já a pessoa de caráter fraco (dominada pela “moralidade de escravo” descrita por Nietzsche) tende a odiar os mais fortes apenas por eles serem mais fortes — como a existência dos fortes evidencia sua fragilidade, eles representam uma “ameaça”, um “ataque”, mesmo que não tenham tomado nenhuma ação contra ela.

Essa verdade — de que o “ódio” primordial é um ódio da fraqueza em direção à força, não da força em direção à fraqueza — é o grande tabu que o cinema raramente ousa quebrar. Isso é ainda mais verdadeiro em sociedades ou eras decadentes, quando a autoestima geral da população é baixa.

Isso significa que, para ser mainstream, politicamente correto e aceito pelo público, todo conflito entre bem e mal, de uma forma ou de outra, acaba tendo que ser distorcido e apresentado como uma agressão provocada pelo forte. Isso leva, entre outras coisas, a uma falta de realismo psicológico no entretenimento: a vilões caricatos, cujo ódio parece gratuito, exagerado, irracional, sem as motivações mundanas, de lógica simples, que encontramos em conflitos da vida real.

Sim, existem pessoas “fortes” que não têm senso ético e, na busca de seus objetivos, podem atropelar os fracos — não por odiá-los, mas por não se importarem o bastante com eles, por vê-los como meros obstáculos em seu caminho. Nesse contexto, o fraco pode odiar o forte por razões legítimas — mas seu ódio será voltado contra a falta de ética de indivíduos específicos; não criará todo um ressentimento contra pessoas fortes, colocando no mesmo saco os éticos e os antiéticos. Mas esse tipo de distinção é raro entre pessoas que se colocam no time dos fracos. Pra essas, é muito mais conveniente ver os fortes sempre como opressores, os iniciadores de qualquer violência.

Outro ódio legítimo é o dirigido à pessoa obstinada por poder, por dominar outros homens, que muitas vezes consegue ser bem-sucedida economicamente, obter poder político e é confundida com alguém forte. Mas a obsessão por poder sobre os outros é sempre sinal de fraqueza de caráter, não de força. Por trás desse comportamento, há sempre um ego frágil, um ressentimento contra pessoas que o “poderoso” enxerga como ainda mais fortes do que ele — mas esse fato raramente é reconhecido pelos filmes hoje, que insistem na ideia de que o mal tem sua origem no poder.

É por causa dessa regra criada pela moralidade altruísta que dificilmente vemos filmes denunciando regimes comunistas. Discutir os males do comunismo honestamente requer que se exponha o ódio do fraco em relação ao forte, o que é um tabu. A maioria dos filmes anticomunismo acaba retratando os comunistas praticamente da mesma forma que os fascistas são retratados no cinema: autoritários, confiantes, oprimindo uma população humilde.

Os Gritos do Silêncio (1984), sobre os horrores cometidos no Camboja nos anos 70, nunca deixa claro que os Khmers Vermelhos eram seguidores do partido comunista. Se você não entender o contexto histórico, vai sair do filme com a impressão de que os Estados Unidos (fortes) foram os responsáveis pelo genocídio e que os mocinhos são os jornalistas expondo a crueldade do imperialismo ocidental.

Primeiro, Mataram o Meu Pai (2017) é um pouco melhor nesse sentido, pois, embora evite associar o Khmer Vermelho ao comunismo e culpe parcialmente os EUA no final, pelo menos expõe que os vilões são igualitários, rejeitam o luxo e a propriedade privada — características claras do comunismo. Mas a história não deixa de ser contada por uma lente altruísta, que quer que simpatizemos com os cambojanos por serem vulneráveis, simples, vítimas passivas, em contraste com os vilões assertivos e autoritários. Há toda uma atitude “humanitária” na abordagem que, pra o espectador comum, pode se traduzir em uma crítica à força excessiva.

No caso de filmes que denunciam o nazismo, já estamos tão acostumados com a ideia de os nazistas serem os “fortes” que achamos que, nesse caso, o retrato é honesto e não há controvérsia alguma. Mas será mesmo? Um dos maiores “plot twists” da minha vida adulta foi descobrir que, ao contrário do que os filmes sempre fizeram parecer, os judeus, na verdade, eram vistos como fortes pelos nazistas e pela população europeia — não como um grupo frágil, humilde, digno de desprezo. No documentário Shoah (1985), isso fica claro nos depoimentos de alguns poloneses entrevistados. Eles não descreviam os judeus como inferiores no período pré-Segunda Guerra, mas como “os mais ricos em qualquer profissão”, as mulheres mais bem vestidas etc. Ou seja, o antissemitismo também era um ódio da fraqueza direcionado contra a força, e só quando entendi isso a perseguição contra os judeus fez sentido psicológico para mim.

A crueldade dos nazistas contra um povo tão vulnerável sempre me soou um pouco estranha — mas talvez essa tenha sido a narrativa que os judeus tiveram que construir para se proteger. Judeus em Hollywood, muito espertos, sabiam que, se fossem vistos como fortes pela população, sempre gerariam desconfiança e seriam julgados como maus. Portanto, o cinema ressignificou essa dinâmica e construiu a imagem do judeu simples, humilde, oprimido pela força dos nazistas. Quando eu era criança e ouvia falar em “povo judeu”, me vinha imediatamente à mente a imagem de pessoas frágeis, “simplinhas”, mal alimentadas — o equivalente ao que se pensa hoje em relação aos palestinos. Enquanto essa narrativa se sustentou, o antissemitismo esteve em baixa. Nos últimos anos, porém, a percepção de que os judeus na verdade são os fortes voltou à atenção das massas, e o antissemitismo no mundo explodiu.

Um filme único nessa discussão e que quebra essa regra altruísta do cinema de maneira engenhosa é Dogville (2003). A artimanha de Dogville é dar a entender que a história se trata de uma crítica aos EUA. Não sei até que ponto isso foi intencional e até que ponto é reflexo das contradições do autor, mas gosto de pensar que é um truque de mestre de Lars von Trier. Ao anunciar o filme como parte de uma trilogia irônica chamada “EUA: Terra das Oportunidades”, ele confunde o espectador o bastante para que ele acompanhe a história achando que se trata de um ataque aos fortes, sem perceber que Trier está, ao longo do filme todo, fazendo o contrário — expondo a mediocridade dos cidadãos de Dogville e revelando a verdadeira origem do ódio humano: o ressentimento do fraco em relação ao forte.

Em culturas dominadas pelo altruísmo, celebrar a força é sempre politicamente incorreto, sempre impopular e arriscado. É por ir contra a moralidade altruísta — contra a ideia de que os fortes são maus e os fracos são os nobres — que o Idealismo não consegue florescer em tempos como os atuais. Quanto mais o altruísmo domina a cultura, mais o artista precisará usar artimanhas, camuflagens, ser indireto, confundir o público, se quiser desafiar esses valores sem se tornar persona non grata na sociedade.

Hollywood vs. IA

A lista ao lado mostra uma divisão em Hollywood entre cineastas que estão abraçando a IA e outros que estão resistindo. Minha maior preocupação com relação à IA no entretenimento ainda é a questão da identificação. Se o conteúdo criado por IA for facilmente identificável, diferenciado de registros fotográficos e de trabalhos autorais feitos sem IA, será apenas uma revolução tecnológica como o CGI foi. Sim, muitas pessoas perderão seus empregos atuais, longas poderão ser feitos num estalo de dedos por amadores em seus laptops, e isso pode ter o efeito de degradar ainda mais o status do cinema na cultura — mas essa é uma consequência inevitável do progresso tecnológico. Reclamar disso é como reclamar da invenção da eletricidade, da fotografia digital etc.

Cineastas que quiserem manter o nível da arte continuarão podendo fazer filmes à moda antiga (fotografando atores em ambientes reais — o que se tornará apenas mais caro e inconveniente) ou usarão a IA com bons critérios — apenas para funções não criativas — colaborando com outros artistas (escritores, atores, diretores de arte, fotógrafos, compositores etc.), para que cada elemento da obra seja intencional, reflita decisões e talentos humanos, e não funções automáticas do algoritmo.

O problema é se não pudermos diferenciar facilmente trabalhos feitos com IA de trabalhos feitos sem IA.

Muita gente parece não entender, por exemplo, que existe uma diferença fundamental entre imagens fotografadas e imagens feitas no computador. Por mais que você torne um ator de IA realista, ele nunca terá o mesmo impacto de um ator que existe de verdade. Astros são tão importantes que, até em animações, hoje se tornou uma convenção contratá-los para dublar os personagens, pois isso aumenta o interesse pela produção.

O mesmo princípio vale para os cenários e os espaços físicos do filme: por mais grandiosa que seja uma imagem de CGI, ela sempre parecerá pequena em comparação com um panorama de David Lean. Se a IA se tornar a forma padrão de se criar imagens, isso significa que todo o cinema se transformará em animação. Animações podem ter muitos dos méritos criativos de um filme, mas o magnetismo de uma imagem fotografada não pode ser recriado por um desenho. “Ah, mas e se chegar a um ponto em que a imagem feita por IA fique indistinguível da realidade?” — Aí, o espectador terá uma desconfiança eterna em relação a tudo o que vê e, por via das dúvidas, assumirá que tudo é IA — ou seja, não se permitirá confiar na imagem e sentir o tipo de emoção que sentimos quando estamos diante de algo real. Mesmo quando a imagem for real, ele terá um pé atrás e reagirá a tudo como se fosse uma animação (isso já acontece hoje, com o excesso de CGI nos filmes). A confiança é uma coisa frágil. Se você descobre que uma pessoa lhe contou uma mentira descarada, você começa a duvidar de todas as suas outras afirmações.

Mais grave ainda é o fato de muita gente não entender a importância do talento humano, da autoria da obra (e dos diversos aspectos da obra), como se apenas o produto final importasse, independentemente de sua origem (já discuti isso no texto IA e Criatividade). Mas pense: toda vez que você viu algo realmente extraordinário na arte, toda vez que uma obra impactou sua vida, você provavelmente se perguntou logo em seguida: “Quem fez isso?” — e foi pesquisar sobre o artista. Se a autoria de tudo for colocada em xeque com a chegada da IA no entretenimento, a “desconfiança eterna” criada pela tecnologia prejudicará também essa dimensão da arte.

Agora pergunte-se: quem é que se beneficiaria ao borrarmos a linha entre trabalhos feitos com IA e trabalhos feitos sem IA? Quem teria interesse em não identificar que seu trabalho foi feito por IA? Certamente não é o artista talentoso, capaz de inspirar o público com suas verdadeiras capacidades. É aquele que deseja usar a IA para esconder sua incapacidade e tentar obter algum crédito imerecido desse estado de incerteza inaugurado na mente do público. A IA, nesse cenário, torna-se uma máquina gigante de “redistribuição de crédito”, dando crédito a quem não merece às custas de quem merece.

Num futuro mais distante, pode ser que a tecnologia avance tanto que modifique por completo a natureza humana; aí, nossas filosofias e valores terão de ser totalmente repensados. Mas, por enquanto, não vivemos nesse futuro, e ainda é importante que saibamos o que é verdade e o que não é, o que reflete talentos humanos reais e o que não reflete. Enquanto isso for um fato, fazer arte com IA e não avisar o espectador será uma forma de fraude.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Cultura - Fevereiro 2026

20/2 — Jurandir Gouveia: “O Morro dos Ventos Uivantes”

Já vi algumas análises do Jurandir Gouveia que achei boas e que bateram com minhas impressões gerais do filme, como esta sobre O Morro dos Ventos Uivantes, que também me soou como uma fanfic feita por uma mulher com valores deturpados e fetiches doentios.


16/2 — Erudição Judaica

Como mencionei na crítica, uma das coisas que mais apreciei em Marty Supreme foi a qualidade da escrita, a riqueza de ideias e a bagagem cultural que, intelectualmente, colocam o filme num patamar superior. Me ocorreu que isso não é raro em filmes de autores judeus. Lembro de ter notado essa qualidade específica em alguns filmes recentes, como Blue Moon, Saturday Night e A Verdadeira Dor — todos de roteiristas judeus. O nível de cultura da população parece ter decaído tanto nas últimas décadas que, hoje em dia, quando você nota essa qualidade intelectual em um roteiro, você quase pode adivinhar que o autor é judeu. A cultura judaica é conhecida por incentivar o desenvolvimento intelectual, os estudos e o conhecimento, de forma que, entre judeus, talvez esse declínio na erudição média tenha sido menos acentuado.

Fico pensando se a superficialidade do cinema contemporâneo pode ser explicada, em parte, por uma diminuição na presença de judeus na indústria. Lembrem-se que o cinema deve muito de sua legitimação enquanto arte aos judeus — a figuras como Irving Thalberg, que fizeram um esforço consciente para trazer cultura e sofisticação à indústria em seus primórdios, quando os filmes eram considerados apenas uma distração vulgar.


15/2 — Alguns cineastas estão sob ataque no Festival de Berlim — não por comentarem sobre política, mas por quererem evitar o assunto em coletivas de imprensa e focar em cinema. Isso revela uma situação curiosa nesses ambientes: se você não se posiciona, você é cancelado. Se você se posiciona, mas tem uma opinião que diverge do posicionamento “correto”, também é cancelado. Qual a única opção que sobra pra não ser cancelado, então? Falar — e falar aquilo que a imprensa quer que você fale.


15/2 — Se eu fosse fazer uma versão atualizada daquele meu vídeo do Oscar dos amputados:


12/2 — Dawson

Assisti a um ou outro episódio de Dawson’s Creek na época em que ia ao ar e, com a morte de James Van Der Beek ontem, lembrei de uma cena do episódio 10 da 3ª temporada que me marcou. Dawson, que era um estudante idealista, fã de Spielberg e aspirante a cineasta, estava se inscrevendo em um festival de cinema. Na recepção, após fornecer alguns dados, perguntam a ele qual era seu diretor favorito. Ele responde, sem hesitação: Spielberg. A reação da recepcionista foi o que eu nunca esqueci: ela olha para ele incrédula, revirando os olhos, como se ele tivesse dito algo totalmente bizarro, inesperado e uncool.

Esse episódio foi ao ar entre 1999 e 2000, numa época em que eu ainda não entendido que o Idealismo estava ficando “fora de moda” e não era bem aceito em ambientes acadêmicos. Pra mim, Dawson estava sendo totalmente sensato e respeitável ao dar essa resposta. Mas, no final dos anos 90, jovens cinéfilos já viviam no mundo de cineastas como Tarantino, David Fincher e Paul Thomas Anderson, em que Spielberg representava o establishment — o “óbvio” do qual eles sentiam necessidade de se diferenciar — uma atitude que definiu os cineastas da Geração X, que são o establishment em Hollywood hoje (Pulp Fiction foi o grande estopim dessa virada).

O curioso é que, hoje, os jovens cineastas não estão indo contra o novo establishment. Sim, eles querem se diferenciar, mas não rejeitando a atitude básica da Geração X. Em vez de voltar na direção do Idealismo, eles estão apenas “dobrando a aposta” e tentando ser ainda mais subversivos em relação ao antigo establishment do que os Tarantinos da época foram.


6/2 — O desejo de parecer inteligente

Outro dia li um comentário do diretor Scott Derrickson no X que ficou comigo: ele disse que a maioria das listas de melhores filmes do ano são feitas para “fazer o autor da lista parecer inteligente”. Isso é a pura verdade, mas o que me impactou ao ler essa frase foi perceber que muito do entretenimento hoje é feito com esse mesmo objetivo: muitos artistas produzem não pra dar prazer ou apresentar algo edificante ao público, mas pra parecerem inteligentes.

Se duvidar, escute algumas faixas do álbum do Bad Bunny que venceu o Grammy 2026 e reflita se alguém honestamente escuta aquilo pra ter qualquer tipo de satisfação musical. É como se o desejo de parecer inteligente estivesse arruinando a cultura inteira: artistas criam para parecerem inteligentes, o público consome e diz que gostou para parecer inteligente, e os críticos exaltam para parecerem inteligentes — num ciclo que mantém todos isolados em suas próprias bolhas de infelicidade.

Nada contra quem quer ser inteligente e ser apreciado por essa qualidade — o problema é que, quando esse não é de fato o ponto forte da pessoa, ela acaba confundindo inteligência com as táticas que discuto na postagem Pseudo-sofisticação, e o resultado disso é o estado da cultura pop atual.

3/2 — Michael - Trailer Oficial

O trailer oficial de Michael me deixou mais animado quanto ao filme. Há um foco claro na trajetória de sucesso e nas mensagens otimistas que Michael costumava transmitir; não me parece o tipo de filme que irá focar demais nos traumas de infância, no sofrimento psicológico, nem o tipo de biografia Naturalista/minimalista que anda em alta hoje. Tem tudo para ser um raro blockbuster Idealista em 2026, pelo menos no nível do conteúdo.

3/2 — Kleber Mendonça Filho e a feiura

Notei algo perturbador em O Agente Secreto que me levou a fazer o seguinte comentário na crítica: “Não sei se o diretor tem um olhar que, sem querer, revela a feiura das coisas ou se isso é proposital — se ele tem algum compromisso ideológico com a representação do feio na arte.” Não estava falando exclusivamente dos atores, mas outro dia me deparei com uma matéria da Hollywood Reporter que me ajudou a compor um perfil. Apesar do que chamo de Casting Naturalista já ser uma prática comum no audiovisual há muitos anos, na entrevista, Kleber fala como se ainda houvesse uma pressão enorme na indústria pra escalar atores de boa aparência — algo que ele considera “ultrapassado”. Não só ele não valoriza a aparência dos atores, como diz também que não gosta de distinguir entre atores profissionais e não-atores. A matéria obviamente foi escrita porque O Agente Secreto está concorrendo ao Prêmio da Academia de Melhor Seleção de Elenco e, pelo visto, essa inversão de valores o coloca à frente na disputa.

3/2 — Vilanização da riqueza

Revendo a lista dos filmes mais populares de 2025, percebi que hoje são minoria os filmes que NÃO vilanizam a riqueza e o sucesso: Marty Supreme, apesar de celebrar ambição, não deixa de ser um retrato crítico da busca por sucesso; Hamnet e Valor Sentimental mostram os danos emocionais que homens de sucesso causam à família; A Única Saída e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out são sobre pessoas matando umas às outras pra subir na vida; em Pecadores, os ricos são racistas, assassinos, parte de uma elite opressora, assim como em Uma Batalha Após a Outra, O Agente Secreto e Zootopia 2; em A Empregada, eles são psicopatas mentalmente desequilibrados; em Bugônia, são aliens infiltrados querendo destruir a humanidade — e daria pra achar mensagens similares em diversos outros filmes populares, como Wicked: Parte II, O Sobrevivente, Acompanhante Perfeita, A Longa Marcha, Materialistas etc. O item 4 do Screen Guide for Americans nunca foi tão necessário.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Voz de Hind Rajab

A Voz de Hind Rajab, indicado ao Prêmio da Academia de Melhor Filme Internacional, é sobre o caso real de uma menina palestina de cinco anos que foi morta em 2024 na Faixa de Gaza durante um ataque do exército israelense. O filme mostra tudo pelo ponto de vista de socorristas que atendem a uma chamada de emergência da menina.

É um caso interessante de avaliar. Imagine que você vá ver um filme, e a história mostre apenas um jovem artista no início do século 20 desenvolvendo suas habilidades como pintor e tentando entrar na Academia de Belas Artes de Viena. O ator principal é carismático, o filme foca em suas qualidades positivas, há uma narrativa de sucesso razoavelmente envolvente, e a sessão, de modo geral, é agradável. O único “detalhe” é que esse artista se chama Adolf Hitler. Nada sobre seus males é citado na tela, não há críticas nem ironias nas entrelinhas, de modo que, se uma pessoa sem conhecimento de história entrasse na sala, ela só teria motivos pra admirar o personagem. Que nota você daria pra tal filme? Você julgaria o filme apenas pelo que ele apresenta — pelas emoções e ideias que evoca na plateia durante a sessão — ou levaria em conta informações que traz de fora da sala; o impacto que tal retrato pode ter no mundo?

Eu busco avaliar filmes sempre pelo que apresentam na obra em si. Quando me irrito com um filme por questões ideológicas, é porque essas questões estão infundidas na narrativa, porque os valores que desprezo se manifestam na própria obra — não porque li declarações do diretor, etc. Então, no caso de Hind Rajab, que foca em um drama específico, deixando o conflito Israel x Palestina em segundo plano, sou forçado a ignorar o contexto político externo e dar ao filme a mesma nota que daria a um filme sobre socorristas falando ao telefone com uma criança israelense durante um ataque terrorista islâmico.

Não é uma nota muito boa, pois trata-se ainda de um filme semi-Naturalista, não muito dinâmico, focado em sofrimento, com uma relevância muito mais jornalística do que criativa — mas não é a nota zero que eu daria a um filme que representasse um ataque aberto ao mundo civilizado e ao direito de países livres de se defenderem.

The Voice of Hind Rajab / 2025 / Kaouther Ben Hania

★★

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Filmes em Alta

Queria aproveitar melhor a coluna lateral pra deixar dicas ou informações que possam tornar o blog útil mesmo na ausência de novas postagens (continuo com o plano de comentar só os filmes de maior impacto cultural). Neste painel “Filmes em Alta”, a ideia é destacar os filmes mais discutidos do momento. As estrelas ao lado são a minha avaliação. A cor funciona como uma espécie de termômetro cultural: filmes em verde são os que fazem alguma movimentação relevante na direção do Idealismo; em amarelo, são os filmes mistos que não mudam muito o status quo; em vermelho, são os que fortalecem as más tendências. Filmes em cinza são os que não vi.

Têm achado essas informações úteis?

sábado, 24 de janeiro de 2026

Pecadores

ANOTAÇÕES:

(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

- A cena inicial do Sammie chegando machucado na igreja com o violão é um prólogo esquisito e anticlimático — até porque essa cena nunca se provará crucial para a narrativa. (Acho que o produtor mandou inserir isso só para avisar a plateia de que haverá ação mais pra frente, já que o filme irá enrolar horas até qualquer coisa acontecer).

- Dizer que não havia diferença entre Chicago e o interior do Mississippi na época é aquele insulto desonesto contra os EUA que faz você parecer moralmente superior hoje.

- Toda a primeira parte do filme é sobre Smoke e Stack recrutando pessoas para o bar que irão inaugurar. Mas isso não é um gancho narrativo. Por que eu deveria torcer pelo sucesso desses dois, se eles claramente são gângsters de caráter duvidoso? A única coisa que gera certa curiosidade até agora é a promessa do prólogo de que algo violento e sobrenatural irá ocorrer mais pra frente.

- Há muitos diálogos aleatórios sobre o passado dos personagens, as injustiças que sofreram, mas é aquele desenvolvimento de personagem solto que não contribui em nada para a trama — além disso, você precisa simpatizar com pessoas corruptas para se importar com esses dramas pessoais.

- As cenas e diálogos envolvendo sexo nesse filme são gratuitamente nojentos. O fato do roteirista que escreveu essas falas estar indicado ao Prêmio da Academia deveria ser suficiente para descreditar o evento.

- Aos quarenta e poucos minutos, descobrimos que estamos vendo um filme sobre vampiros! Óbvio que não é literalmente um filme de terror, assim como A Substância não é terror, e Bacurau não é faroeste. É apenas uma desconstrução de gênero típica de quem está mais preocupado em parecer original do que em contar uma boa história. (A mistura de filme de gângster/Lei Seca com filme de vampiro, por si só, já daria ao filme aquele ar excêntrico de produções como Cowboys & Aliens ou Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros — mas o filme soma outras bizarrices em cima disso).

- Assim como o prólogo, essa cena do vampiro na casa foi só para relembrar o espectador de que algo excitante irá acontecer no futuro — mas não ainda! Continuamos vendo um filme arrastado sobre criminosos inaugurando um bar.

- Não é nada convincente que, em um único dia, eles tenham conseguido contratar toda a equipe do bar e organizar tudo para a inauguração.

- O filme é descaradamente anti-brancos. De início, achei que eles tinham inserido pelo menos uma personagem branca boa na história pra mostrar que o problema não é cor de pele. Mas o motivo dela ser do bem é “explicado” pelo fato do avô dela ser mestiço! Mesmo assim, depois ela acaba sendo a vampira que se infiltra no bar e dá início ao caos.

- O filme é escrito naquele estilo de minissérie de TV. Não há um protagonista claro, ficamos alternando entre diversos dramas paralelos, o foco todo está em diálogos que enchem linguiça e não avançam a história, etc. Já estamos em uma hora de projeção e ainda não há sinal de vampiros se aproximando.

- A cena musical com os artistas negros de várias eras é uma das mais ridiculamente pretensiosas que já vi. O filme já tinha apresentado elementos de fantasia, mas não essa linguagem simbólica/surrealista, na qual o diretor rompe com o realismo físico pra “filmar ideias” e passar mensagens diretamente ao público. Há uma mudança brusca de linguagem e uma tentativa de enfiar uma reflexão histórica abrangente na trama que nada tem a ver com os assuntos que vinham se desenvolvendo até agora. É tão fora de contexto que tiveram até de repetir a narração mitológica do início, se não o espectador nem ia lembrar que essa discussão esotérica sobre música fazia parte do enredo.

- Outro problema dessa cena é que ela universaliza o conflito racial. Não é apenas um problema local, de um momento histórico, mas um duelo metafísico, atemporal, em que um lado é sempre o opressor e o outro sempre o oprimido.

- Está me lembrando esses filmes sobre cultura oriental, tipo K-Pop Demon Hunters, Ne Zha 2, que são sempre um duelo entre duas “energias” opostas, uma do bem e outra do mal (música negra vs. música branca aqui), e nada precisa ter muita lógica na trama, pois tudo funciona num nível simbólico.

- Ideologicamente, esse é talvez o filme mais perigoso do ano, porque ele traz uma perspectiva extremista de esquerda (ataque aos EUA, aos brancos/ricos, aos padrões morais), mas a apresenta de forma sedutora para pessoas mais alinhadas com a direita (por ter testosterona, falar em tradições, não ser woke, não subverter masculinidade, papéis de gênero, ser alinhado com certos temas cristãos, etc.). Não é como Uma Batalha Após a Outra, cujo discurso seduz mais quem já é de esquerda.

- Lá pela 1h20, os protagonistas finalmente descobrem a presença de vampiros e a ação principal se inicia. Mas é aquele tipo de conflito que espera que você torça por um dos grupos só porque o outro é ainda pior, não porque o primeiro tenha reais virtudes.

- Sinceramente, Michael B. Jordan, Delroy Lindo e Wunmi Mosaku não têm atuações dignas de Oscar. A única atuação desse filme que se destacou pra mim foi a do Miles Caton (Sammie), que tem uma voz surpreendente — e ele não foi indicado. Pegue a cena em que um dos gêmeos morre após ser mordido por Mary: a reação do Michael B. Jordan à morte do irmão deveria ter sido um grande momento, mas não é interessante nem intensa o bastante. Mosaku também não tem cenas muito expressivas. E o “mérito” do Delroy Lindo é mais trazer uma ironia que deturpa a seriedade do filme, como na cena: “Estão sentindo um cheiro? Acho que me ca****”.

- A fotografia e o design de produção do filme são ótimos, e dão uma embalagem de “filme premiável” a um roteiro que, de fato, não merece.

- Agora que há uma ação mais concreta, o roteiro se revela tão tolo quanto o de qualquer filme rotineiro de horror/ação. Os personagens já testemunharam eventos claramente sobrenaturais, mas continuam agindo e reagindo de maneira burra, como se ainda não tivessem percebido que estão diante de vampiros. Sem falar na coisa mais sem sentido de todas, que é a mulher oriental de propósito liberar a entrada dos vampiros no bar.

- As lutas são o típico videogame de filmes de ação modernos: pessoas despreparadas matando diversos monstros bem mais fortes do que elas como se fossem bonecos de papel machê.

- Mesmo que fosse um filme mais coeso narrativamente, com um protagonista gostável, provavelmente eu não gostaria muito do filme, porque ele cai um pouco naquela categoria de filme de zumbi, em que o horror não leva a uma aventura empolgante, mas a conflitos entre amigos, mortes de entes queridos, sacrifícios, etc.

- Nada faz sentido depois que eles saem do bar e vão para o lago. Como aquele disco metálico do violão do Sammie atravessou o crânio do vampiro? Ah, não importa, é a simbologia da música! Por que os outros vampiros ficaram lá parados, gritando, em vez de atacar os humanos? Como o sol nasceu tão rápido? Por que eles não se esconderam da luz? Os humanos acabam vencendo a batalha por acidente, e graças à burrice dos vampiros.

- Agora temos de novo a cena do Sammie chegando na igreja, que ainda não sei por que foi escolhida para ser o prólogo.

- Depois de derrotar os vampiros, inventam agora uma batalha extra contra os homens da KKK, que soa desnecessária. Já houve uma vitória contra os brancos maus e racistas; que efeito terá mais uma? Na verdade, o filme deveria ter sido inteiro sobre gângsters negros querendo abrir um bar e lutando contra a KKK. Os vampiros é que foram enfiados no filme sem necessidade. Mas agora fica simplesmente estranho tentar resolver um conflito com um segundo grupo de vilões em uma cena breve no final.

- Sammie velho tocando blues nos anos 90, como se fosse uma biografia de um músico, é a aleatoriedade perfeita para terminar um filme com tantos elementos desconexos. Como disse antes no blog, o filme é “o tipo de subversão de gênero misturada com comentário social que eu esperaria de um cineasta como Jordan Peele, não de Ryan Coogler. Vem nessa onda de filmes autorais desajeitados que, na tentativa de se provarem ‘não formulaicos’ e de atender à atual demanda por obras originais, jogam fora todos os princípios narrativos — inclusive os que não deviam.”

- Por que Pecadores recebeu 16 indicações aos Prêmios da Academia? Porque é um filme que promove de forma brilhante a ideologia corrupta da instituição. O fato de ser um “filme negro”, por si só, não explica o favoritismo — basta lembrar de A Cor Púrpura (2024), que recebeu 1 única indicação.

Sinners / 2025 / Ryan Coogler

A Teleologia do Prêmio

A corrupção dos valores da Academia tem um efeito negativo na indústria que é pouco discutido, porque poucos reconhecem um fato: que muitos cineastas fazem filmes justamente pelo desejo de ganhar um “Oscar”. Nossa tendência é achar que cineastas têm motivos sofisticados para fazer filmes, tomam decisões baseadas puramente em visões pessoais, considerando no máximo os espectadores — e que os Prêmios da Academia existem em uma dimensão paralela que nada interfere no processo criativo. Mas isso está longe de ser verdade. Uma das plateias que os cineastas mais trabalham para agradar é a própria Academia. Isso significa que as preferências da premiação têm o poder de moldar os filmes que são feitos — pelo menos aqueles que buscam prestígio, reconhecimento da crítica etc. (há sempre os filmes que se contentam apenas com bilheteria).

Todo ano, quando saem os indicados aos Prêmios da Academia, eu reviro os olhos e tento imaginar uma seleção alternativa, pensando quais filmes daquele ano seriam indicados a Melhor Filme caso o Oscar tivesse preservado seus valores. O problema é que esses filmes sequer foram feitos. Como o que ganha prêmio hoje são filmes com uma vertente mais autoral/experimental ou mais naturalista/social, o artista que quer ganhar prêmios acaba contaminando seu processo criativo com esses critérios (o Oscar Bait mudou de isca, mas continua existindo). Ele não vai continuar tentando agradar a Academia de 40 anos atrás. Só fará isso hoje quem não se importar demais com prestígio e acreditar tanto nesses valores que esteja disposto a seguir com sua visão, abrindo mão de troféus, da aceitação das “autoridades” etc.

A verdade é que poucos artistas são tão independentes assim, especialmente no cinema, que depende de mídia, de retorno financeiro e da colaboração de centenas de pessoas. Não que isso justifique alguém corromper sua visão a ponto de se tornar um queridinho da crítica atual. Mas também não quero invalidar totalmente a necessidade de aprovação externa, o desejo de ser reconhecido por profissionais experientes e bem estabelecidos da sua indústria. Dentro de certos limites, esse é um desejo humano racional.

Por isso, acho um crime o fato de praticamente todas as instituições que dão esse reconhecimento hoje estarem alinhadas com ideais corrompidos. Não é estranha a falta de diversidade ideológica nas premiações? Todo ano parece que os mesmos cinco ou dez filmes rodam todos os eventos recolhendo os prêmios: Cannes, BAFTA, Globo de Ouro etc. Antigamente, alguns prêmios para filmes populares, como o MTV Movie Awards, operavam por critérios diferentes e ainda tinham certa relevância. Hoje, nenhum prêmio alternativo tem qualquer impacto cultural. Portanto, se você não se alinhar com os valores corrompidos da crítica, você simplesmente ficará sem o “prestígio”.

É por isso que, se a Academia realmente estiver além da salvação, seria importante que outra instituição preenchesse esse vácuo e criasse um prêmio que exercesse sua função antiga: premiar filmes narrativos de grande impacto cultural, que unam apelo popular com qualidade técnica e artística e, acima de tudo, tenham um compromisso com elevação moral e excelência humana.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Cultura - Janeiro 2026

22/1 — Reação Inicial: Indicados aos Prêmios da Academia 2026

Imagine que você está andando na rua e recebe uma cantada. Você pode até ficar envaidecido por um momento, se assumir que o autor do elogio é criterioso, racional. Agora imagine que instantes depois ele repita o mesmo elogio a um cavalo que passa. Sua emoção muda totalmente, pois os critérios do galanteador são colocados em xeque. É mais ou menos essa a experiência que eu tenho vendo premiações de cinema hoje em dia — acompanho tudo com uma completa indiferença no que diz respeito aos resultados. No momento em que você começa a ficar alegre com o reconhecimento de um filme merecedor, você lembra que os filmes mais tediosos do ano estão na mesma disputa e com mais chances de vencer.

O fato mais risível desta edição dos Prêmios da Academia (até que criem um apelido mais apropriado, vou evitar o termo “Oscar”) são as 16 indicações para Pecadores. A mídia vai dizer que o filme quebrou o recorde de todos os tempos, superando as 14 indicações de Titanic e A Malvada, ignorando totalmente (e propositalmente) o fato de que o prêmio mudou de critérios e de identidade nas últimas décadas, preservando apenas o rótulo. Se você quiser exaltar esse feito de Pecadores, a forma mais honesta de dar a notícia é: “Pecadores quebra recorde e recebe 3 indicações a mais que Emília Pérez!”.

As indicações para O Agente Secreto são coerentes, se você levar em conta a nova realidade da Academia. O filme fez uma boa campanha, está ideologicamente alinhado com a agenda política dos votantes e traz o engajamento dos “torcedores de futebol” brasileiros nas redes sociais de quebra. Nos tempos de Cidade de Deus, porém, o filme provavelmente teria rodado alguns cinemas do circuito alternativo no Brasil e nunca chegado aos ouvidos dos votantes.

Uma Batalha Após a Outra é o segundo filme com mais indicações (13) e é outro filme extremamente ideológico desta edição. Até entenderia o reconhecimento em categorias como Fotografia e Edição — mas 4 indicações de atuação já indicam uma simpatia exagerada pelo filme (e seus personagens) que tem origens duvidosas.

O único filme que acho merecedor na disputa para Melhor Filme é Marty Supreme, mas não torço nem deixo de torcer por qualquer vitória.

O vídeo abaixo é do ano passado, mas vale repostar:

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Uma dessas “biografias” ou filmes históricos desconstruídos que primeiro escolhem se passar em um ambiente onde algo extraordinário está ocorrendo, só pra ir contra as expectativas e focar no ordinário. Durante a maior parte do filme, o nome de Shakespeare sequer é pronunciado, e nenhuma importância é dada ao seu trabalho. A abordagem é Naturalista e todo o foco está na rotina familiar, nos momentos singelos entre ele, sua esposa e os filhos. Há uma certa romantização do rústico, do místico, do estilo de vida primitivo que, assim como em Sonhos de Trem, parece vir de uma aversão à ciência e à civilização moderna.

Tudo vai bem até que uma série de infortúnios aleatórios começa a acontecer e, em vez de uma rotina banal, passamos a contemplar sofrimento, dor, morte, luto — e é aí que o filme encontra sua razão de ser. Se algo explica o favoritismo de Jessie Buckley na temporada de prêmios, são seus diversos urros de dor, que representam o sacrifício feminino.

Nada importa aqui o fato de William Shakespeare ser um gênio que moldou a cultura ocidental. O que importa, em primeiro lugar, é a grande mulher por trás dele. Na medida em que ele é relevante, o que deve nos interessar é o fato de que ele sofreu e de que ele era falho como todos os maridos, sempre colocando o trabalho acima da família. Londres — simbolizando a modernidade, a carreira — é mostrada como um lugar feio, decadente, quase como um prostíbulo onde Shakespeare precisa ir pra dar vazão a seus instintos inferiores.

Nas mãos de um diretor mais ressentido, teríamos aqui o palco perfeito pra um ataque ao legado de Shakespeare. Porém, Chloé Zhao aposta em uma “ressignificação” mais elegante, em que todas essas mensagens são transmitidas sem que o filme precise ser espalhafatoso para manchar a imagem de ninguém (Zhao faz com Shakespeare algo parecido com o que faz com a Amazon em Nomadland).

Estranhamente, o filme termina em uma nota positiva, exaltando Hamlet e perdoando Shakespeare parcialmente por suas falhas como pai. Mas nada me tira da cabeça que essa sequência final não foi encomendada e co-dirigida por Spielberg, produtor do filme. Não só por ela destoar de todo o resto (Agnes subitamente muda de caráter e se torna a esposa ingênua e incentivadora, encantada com o brilhantismo do marido), como por alguns detalhes de direção muito característicos de Spielberg nos minutos finais (os gestos manuais, a música, a despedida emocionante enquanto alguém atravessa uma porta para outro mundo). Em vez desse final me fazer gostar mais do filme, ele só me fez sair da sala mais contrariado, como se uma energia spielbergiana tivesse sequestrado o filme pra maquiar a intenção de Zhao, revelando falta de integridade em ambas as partes.

Hamnet / 2025 / Chloé Zhao

sábado, 10 de janeiro de 2026

Marty Supreme

Uma das poucas boas surpresas dessa temporada. Joias Brutas (dirigido por Josh Safdie ainda junto com o irmão Benny) foi um dos filmes mais esteticamente desagradáveis que já vi. Em 2025, os irmãos resolveram se separar e lançar cada um seu longa solo. Benny fez The Smashing Machine e Josh fez Marty Supreme. Como The Smashing Machine teve uma direção bem menos caótica que Joias Brutas, eu estava achando que Josh é que se provaria o irmão niilista da dupla, e entrei na sala esperando ser torturado por 150 minutos. No fim, me deparei com um filme agitado, excêntrico, às vezes até histérico, mas muito mais controlado do que eu esperava, e que nunca pareceu hostil em relação ao espectador. (Ou seja, talvez a interação dos dois seja o que criava o caos.)

Não é o tipo de história que costuma me atrair (lembrei bastante do Scorsese dos tempos de Touro Indomável ou Os Bons Companheiros), mas o que me conquistou foi a originalidade e a qualidade geral da obra; a alta Densidade Criativa do roteiro e o “Fator G” elevado da produção. É o oposto da superficialidade intelectual que senti em O Brutalista. Aqui, o universo parece totalmente crível, e o cineasta parece estar falando de conflitos e pessoas com os quais conviveu e tem bagagem pra discutir. Há tanta informação nos diálogos e na construção de mundo que é como se estivéssemos consumindo em velocidade normal algo que foi pensado em ultra câmera lenta (toda boa obra de arte, na verdade, deveria dar essa sensação).

Mas e quanto ao teor da história? Provavelmente haverá muito debate quanto à mensagem do filme, que não é das mais claras. Estava esperando que tudo não passasse de uma crítica cínica à ganância e à busca desenfreada por sucesso. Mas, assim como Joias Brutas, o filme é mais sofisticado que o normal; evita generalizações e não cai no ataque raivoso clichê ao capitalismo.

Seria um caso de Idealismo Corrompido? Eu diria que não — que o filme cai mais na categoria de Idealismo Crítico. Isso porque os positivos aqui são retratados como positivos, e os negativos como negativos. O filme tem plena noção dos problemas de caráter de Marty e não os romantiza nem os justifica. Ao mesmo tempo, sua ambição e determinação são apresentadas de maneira atraente, inspiradora (muito do mérito aqui é da performance excelente de Timothée Chalamet, que consegue andar nessa corda bamba preservando o carisma do personagem). Trata-se de um cautionary tale que parece entender quais são as qualidades e quais são os defeitos do protagonista. Essa distinção moral é a marca do Idealismo Crítico saudável. No Idealismo Corrompido, o filme está sempre criando inversões de valores e apresentando virtudes sob uma luz negativa.

Sim, Marty Supreme tem um Senso de Vida misto: reflete um cineasta ambicioso, que acredita no sucesso, mas tem uma visão conflituosa de mundo que faz com que ele dê protagonismo e importância existencial a figuras problemáticas como Marty. Mas Safdie lida com esse conflito de maneira mais consciente e madura do que o artista malevolente padrão. Em uma entrevista recente, ele disse:

“Eu cresci cercado por algumas pessoas falhas na minha vida, e não tive escolha a não ser admirá-las. Acho que isso moldou a empatia com que eu costumo enxergar as pessoas. Às vezes isso é ruim. Às vezes dói, te coloca em enrascadas, porque você sabe… pode acabar se apaixonando por alguém que vai te machucar de alguma forma. Mas, ao mesmo tempo, isso abre o seu coração e permite que você veja o lado bom das pessoas e meio que releve algumas das coisas ruins — a menos que elas sejam realmente pessoas más.”

Ou seja, Marty Supreme é como se fosse Safdie duelando com sua criação judaica e tentando decidir como lidar com o misto de admiração e condenação que sente por certas pessoas em sua vida. (Fiquei com a impressão de que, apesar da história se passar no tempo de seus avós, no fundo Josh está mostrando a gênese da geração de seus pais — discutindo a ambição característica dos baby boomers/yuppies dos anos 80, o que ajudaria a explicar os anacronismos propositais da trilha sonora, além da ênfase em bebês, espermatozoides etc.)

Marty Supreme tem questões mal resolvidas no nível da mensagem, e a conclusão do filme se torna menos satisfatória por causa disso. Safdie não parece ter uma tese ainda sobre o tema que resolveu abordar, mas pela maneira como ele lida com os personagens ao longo da história, sua investigação pelo menos caminha em uma boa direção.

Marty Supreme / 2025 / Josh Safdie