segunda-feira, 23 de março de 2026

Devoradores de Estrelas

Embora goste do gênero, já não fui com muitas expectativas por conta do trailer e do histórico dos criadores (não gosto de Perdido em Marte nem da franquia Aranhaverso). A história é sobre um homem em uma missão pelo espaço para salvar a humanidade, mas qualquer senso de heroísmo que você poderia esperar disso é destruído logo na primeira aparição do Ryan Gosling, que parece mais estar estrelando a paródia dos Trapalhões do filme do que a obra original (imagine Interestelar mas com as piadinhas de Guardiões da Galáxia). O humor às vezes é tão desnecessário que parece uma tática pra prender a atenção de uma plateia mentalmente prejudicada — me lembrei desses vídeos curtos do YouTube que precisam dividir a tela e inserir gameplays ou coisas tolas na parte superior para o público aguentar a discussão mais séria embaixo.

Outra coisa que costumo esperar em filmes de espaço/extraterrestres é um senso de encantamento, de inspiração ("awe") diante da grandiosidade do cosmos. Mas, assim como em Perdido em Marte, não há nada desse sentimento aqui. O protagonista é basicamente um cientista em sua rotina de trabalho — o fato disso envolver conhecer outros planetas e interagir com alienígenas é apenas um aspecto curioso do serviço, mas nada que provoque emoções grandiosas ou faça o personagem sair do seu modo irônico/blasé de reagir a tudo.

Os três pilares emocionais do Idealismo são: Autoestima, Excitação e Benevolência. O anti-heroísmo e a atitude blasé do protagonista dão conta de destruir os dois primeiros. Resta a Benevolência — algo que a ética cristã da história se encarrega de minar, transformando a trama em uma grande competição de autossacrifício. O Ave Maria do título, na verdade, é uma referência a um passe do futebol americano, mas as referências religiosas do filme (que incluem o nome do protagonista — Grace/"Graça") são totalmente consistentes com a moralidade da história. 

SPOILER: Embora o protagonista já estivesse em uma missão suicida para salvar a humanidade, ficamos sabendo mais tarde que ele acabou sendo colocado à força na nave, pois tentou voltar atrás na hora H. Culpado por não ter se sacrificado corajosamente no início, a redenção do personagem vem quando ele tem uma segunda oportunidade de se sacrificar — e, dessa vez, o faz por livre e espontânea vontade, não mais em nome da humanidade, mas em nome de um alien. Assim, o filme expande o alcance da moralidade altruísta para que sacrifícios humanos tenham valor até quando o beneficiário é de outro planeta. (Após o ato altruísta bem-sucedido, o filme termina em um tom festivo, ao som da música gospel “Glory, Glory”.)

Pra lista de coisas que me irritaram no filme, adiciono a narrativa não linear, entrecortada por flashbacks, que vêm expor fatos básicos da trama quando já é tarde demais pra você reavaliar suas opiniões sobre os personagens (eventualmente eles “explicam” por que Ryan Gosling parecia um maconheiro após uma bad trip no começo do filme — só que isso não anula o poder que a introdução de um personagem tem no cinema).

Quanto à amizade entre Grace e Rocky, não achei nada cativante — não só pelo altruísmo e pelo tom irônico que sublinham a relação, mas também porque é difícil ter empatia por uma pedra sem face. Fiquei pensando no trabalho brilhante de Carlo Rambaldi e na sensibilidade envolvida no design de E.T. para que a criatura projetasse traços de caráter e fosse carismática. Aqui, toda essa dimensão do processo de caracterização é descartada. Rocky acaba sendo mais um conceito curioso de vida extraterrestre do que a coestrela do buddy movie que o filme parece achar que é.

Dito isso, imagino que Devoradores de Estrelas será um grande sucesso de público e crítica, e estará indicado a vários Prêmios da Academia no ano que vem. Se você gostou de Perdido em Marte e dos filmes citados no início, não deixe que meu gosto exótico te impeça de comprar o ingresso.

Project Hail Mary / 2026 / Phil Lord, Christopher Miller

★½

segunda-feira, 16 de março de 2026

Cultura - Março 2026

16/3 — Prêmios da Academia: Vencedores

Uma Batalha Após a Outra foi o grande vencedor e, como eu disse, reflete um posicionamento mais moderado da Academia — a demonstração de algum respeito ainda por técnica cinematográfica, merecimento: é como se estivéssemos nos anos 70, quando filmes mais cínicos e de teor político ganhavam o prêmio, mas pelo menos eram bem dirigidos, tinham grandes atuações etc.

Michael B. Jordan levar Melhor Ator foi o prêmio mais forçado da noite, assim como o de Melhor Roteiro Original para Pecadores. A performance de Timothée Chalamet e o roteiro de Marty Supreme pra mim eram obviamente superiores, e o fato de Marty Supreme ter saído de mãos abanando é um mau sinal. Mas Pecadores ter perdido 12 dos 16 prêmios ajuda a diminuir um pouco a sensação de “fim dos tempos” que tive quando saíram as indicações.

Fora isso, não acho que os resultados foram exageradamente injustos, levando em conta os filmes disponíveis. Posso não gostar da maioria dos filmes como um todo, mas não discordo que tenham mérito em categorias específicas: gosto de Amy Madigan em A Hora do Mal (uma versão mais camp da personagem de Ruth Gordon em O Bebê de Rosemary, que também venceu Atriz Coadjuvante), achei Sean Penn ótimo em Uma Batalha, a performance de Jessie Buckley não me toca, mas não havia outras muito mais premiáveis que a dela; respeito a direção de Paul Thomas Anderson, a fotografia de Pecadores, gosto dos cenários e figurinos de Frankenstein, da canção de Guerreiras do K-Pop...

Em 2025, quase não tivemos bons filmes alinhados com o Idealismo, então, pela ausência de constraste, minha sensação de injustiça nessa cerimônia foi menor que de costume.

12/3 — Hamnet: arte paliativa

A cena que mais me incomodou em Hamnet foi a cena final da apresentação da peça. Pra minha surpresa, é a cena que mais vem emocionando as pessoas. Fãs do filme parecem achar particularmente bonita a maneira como o filme ilustra o poder da arte; a maneira como a arte se torna crucial para a transformação dos personagens no final. Até aí não vejo nenhum problema. O que me impede de me conectar com a cena (além dos problemas de caracterização) é que ela só funciona sob a perspectiva da “arte paliativa”: da arte como remédio para as dores da vida, não como afirmação de valores positivos. De certa forma, é um final metalinguístico. O espectador se comove com Hamnet por ser uma história sobre luto e, no final, a protagonista de Hamnet vai a uma peça que a comove igualmente por falar sobre luto. 

11/3 — Prêmios da Academia: Expectativas

Pra usar a cerimônia deste domingo como termômetro cultural, os três filmes mais importantes pra ficar de olho são Uma Batalha Após a Outra, Pecadores e Marty Supreme.

Marty Supreme é o concorrente “opressor” da temporada. Ainda que tenha toques desconstruídos, no contexto atual, ele acaba simbolizando a busca por excelência, padrões elevados e merecimento à moda antiga — por isso mesmo vem perdendo força na disputa. A única categoria na qual ainda tem chances é a de Melhor Ator. Caso Timothée Chalamet vença, será um aceno bem-vindo (e hipócrita) da Academia à meritocracia.

Uma Batalha Após a Outra é o filme militante “respeitável”. Se vencer Melhor Filme e Melhor Direção, será a Academia optando por uma alternativa menos radical. Sim, ela ainda funciona como plataforma política, continua sendo contra os valores do antigo Oscar, mas pelo menos acredita que é importante equilibrar essa agenda com um pouco de mérito, reconhecendo artistas talentosos, de bom currículo etc.

Pecadores já é o chute no balde. É o filme que jamais conseguiria ser indicado pelos critérios antigos e só tem força na disputa por questões ideológicas que nada têm a ver com a qualidade real do filme. Prêmios técnicos ou ligados à produção podem até ser merecidos, mas, se ganhar Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e qualquer prêmio de atuação, será uma vitória da “justiça social”, a mensagem clara de que mérito e excelência não são mais os critérios, que o antigo Oscar continua morto etc. Com base nos resultados da última década, seria minha aposta para Melhor Filme.

11/3 — Todo Mundo em Pânico 6 — trailer

Os Wayans estavam afastados da franquia Todo Mundo em Pânico desde o segundo filme e agora estão voltando determinados a ressuscitar o besteirol politicamente incorreto dos anos 90/2000. Marlon Wayans disse à Deadline que seu objetivo é "cancelar a cultura do cancelamento" e que o filme é "sobre trazer a comédia de volta". Uma missão mais do que nobre e, pelo trailer, acho que eles têm tudo pra conseguir.

sábado, 14 de março de 2026

O Idealismo é naturalmente comercial

Para quem busca criar Idealismo em uma cultura Anti-Idealista, é importante entender que seu senso de impotência não vem tanto do fato de você oferecer algo que as pessoas não querem, mas algo que as pessoas não podem dizer que querem. A ética dominante da cultura define o que é apropriado dizer em público, o que as pessoas aprovam quando os outros estão olhando, mas não define o que as pessoas de fato desejam.

Imagine o sexo em uma sociedade ultrarreligiosa: torna-se raro ver expressões públicas de sexualidade, discursos favoráveis ao sexo, mas isso não quer dizer que as pessoas não se interessem por ele entre quatro paredes.

Essa perspectiva ajuda a explicar por que filmes Idealistas, quando conseguem ser feitos, continuam sendo sucessos de bilheteria, mesmo nos tempos atuais (pegue o caso de Top Gun: Maverick, entre outros sucessos recentes). O problema do Idealismo hoje não é nem tanto o fato do público ignorá-lo quando ele aparece, mas o fato de ser difícil produzi-lo com todas as interferências e barreiras que existem na indústria.

Um filme depende de dezenas de pessoas para ser produzido, e incontáveis decisões criativas são tomadas no processo. Muitas dessas decisões são tomadas em público, em diálogo com outros profissionais. Toda vez que isso ocorre, a ética dominante interfere no processo decisório e tende a afastar a produção do Idealismo.

Ganhar prêmios se torna ainda mais inviável. Embora o Idealismo continue tendo força comercial mesmo em eras Anti-Idealistas, ele não tem força em premiações, em áreas que dependem de apoio público, de aprovação formal. Muito do senso de alienação e de impotência do Idealista vem daí — nem tanto do fato de ninguém pessoalmente valorizar seu produto ou de ninguém querer consumi-lo, mas de ninguém aprová-lo publicamente.

Por isso, criadores com um olhar Idealista têm muito mais facilidade de serem bem-sucedidos em áreas que não exigem tantas etapas de sanção moral explícita entre a criação do produto e o consumidor final. Quando um produto que reflete valores Idealistas é colocado diante dos consumidores, ele é naturalmente comercial, atraente. O problema é que, na indústria do entretenimento hoje, dominada por uma ética contrária ao Idealismo, apenas criadores realmente confiantes e comprometidos com a causa (ainda que em um nível subconsciente) conseguem produzir algo Idealista sem que sua visão seja corrompida no processo.

Pra ajudar a entender a diferença entre essas duas áreas, pedi pra IA me ajudar a criar as listas abaixo:

Áreas determinadas por preferência declarada (o julgamento coletivo, público e moral pesa mais):

Eleições e votações em geral / Promoções corporativas em grandes empresas / Prêmios literários, acadêmicos e culturais / Indicações a cargos públicos e diplomáticos / Aprovação em comitês e bancas universitárias / Escolha de porta-vozes e representantes sindicais / Financiamento público para arte e cultura / Viralização em redes sociais quando o tema é moral/político / Indicações ao Oscar e premiações de "impacto social" / Escolha de líderes religiosos e comunitários

Áreas determinadas por desejo latente (a escolha é privada, anônima, ou o custo de ser honesto é baixo):

Consumo de entretenimento em casa (o que as pessoas realmente assistem) / Buscas no Google e histórico de navegação privado / Aplicativos de namoro e atração sexual / Músicas mais tocadas no modo privado/offline / Escolha de mentores e modelos pessoais (não declarados) / Mercado de luxo e símbolos de status / Apostas e mercados de previsão / Quem as pessoas realmente ouvem em decisões importantes de vida / Empreendedorismo — o mercado pune a performance e premia o resultado / Esportes de alto rendimento — o desempenho é objetivo e inegável / Quem as pessoas seguem silenciosamente sem comentar ou curtir

Não estou negando a existência de consumidores que genuinamente não se conectam com os valores do Idealismo. Só estou negando que eles sejam uma vasta maioria, como a cultura faz parecer em certos períodos. É importante lembrar também de um fenômeno: o Idealismo continua sendo interessante até para aqueles que o rejeitam formalmente. Como o Idealismo reflete valores racionais e necessários para a felicidade, ninguém se livra totalmente de seus encantos. Já o contrário não é verdadeiro: uma pessoa de valores Idealistas não precisa ter uma atração reprimida pelo Não Idealismo. É por isso que o Idealismo não precisa que a população inteira seja Idealista para que ele permaneça comercial. Ainda que boa parte da população se volte contra o Idealismo intelectualmente, ele sempre será foco de interesse; a população ainda irá consumi-lo, nem que seja para atacá-lo depois.

Por exemplo: se o Oscar voltasse a ser como já foi um dia — celebrasse mérito, exaltasse os melhores sem culpa — ele provavelmente voltaria a ter uma grande audiência. Ainda que o público criticasse os resultados, as pessoas estariam assistindo. Agora, quando a Academia começa a se ajustar às preferências declaradas da sociedade, a refletir o discurso ético oficial, o evento "misteriosamente" vai perdendo o interesse.

Outro dia li uma frase que resume bem esse conflito interno gerado pela moralidade altruísta:

"Apoio público ao cordeiro, desejo privado pelo leão"

Com isso, vêm boas e más notícias. A má notícia é que se torna pouco produtivo, para quem produz Idealismo, buscar apoio público, prestígio social e reconhecimento explícito em uma era como a atual. A boa notícia é que, se essas não forem suas necessidades primárias, a pessoa terá o mercado ao seu favor e poderá ter muito sucesso prático em áreas onde as decisões são menos afetadas pelo julgamento social.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Março 2026 - outros filmes vistos

Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers / 2026 / Daniel Chong) 

Treinamento ideológico de esquerda para baixinhos. A "heroína" aqui é uma ativista ambiental revoltada que, pra proteger uma área verde perto de sua casa, organiza uma espécie de revolução dos bichos (com o auxílio de uma tecnologia inovadora à la Avatar) e bola uma estratégia para impedir a construção de uma rodovia que atravessará a floresta. Apesar da protagonista chegar a dar um passo na direção de assassinar o político responsável pela obra, o filme no fim opta por uma posição mais moderada — não quer ir ao extremo de promover terrorismo, mas também não quer dar liberdade total ao progresso humano. O ideal é o meio-termo, onde cada lado cede um pouco, permitindo que homem e natureza vivam em equilíbrio — uma mensagem bonita, mas desonesta no fim das contas. A "solução" que o filme apresenta não explica de fato como é possível ter progresso sem impactar a natureza. Para as crianças, fica a mensagem mais importante: quando você vir uma jovem raivosa, desarrumada, protestando contra homens engravatados sob alguma bandeira "progressista", ela provavelmente está no time certo.


Pânico 7 (Scream 7 / 2026 / Kevin Williamson) 

★★★

Corrigiu os principais problemas que me fizeram considerar Pânico VI o pior da franquia — a má direção, a falta de plausibilidade do roteiro, o casting naturalista, a ausência de Neve Campbell etc. Agora não há mais uma tentativa de “modernizar” a franquia (corrompê-la), mas de resgatar o clima dos filmes do Wes Craven, apostando no que já deu certo — algo que Kevin Williamson faz bem o bastante (roteirista do original que agora virou diretor). O maior problema aqui é que, no 7º episódio da franquia, apenas acertar o tom não é suficiente. Um mínimo de inovação seria necessário. O filme acaba parecendo algo que já vimos inúmeras vezes, sem novidades ou frescor criativo (o final também não ajuda — achei tão insatisfatório quanto o do filme anterior). Diverte na maior parte do tempo e reflete um recuo positivo da indústria em relação às tendências Anti-Idealistas dos últimos anos, mas em termos de história, não chega a ter nada muito memorável.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Cultura - Fevereiro 2026

24/2 — Netflix vs. Paramount

A batalha pela aquisição da Warner continua e é uma negociação complexa, mas pensando puramente pelo lado do cinema, minha torcida certamente iria pra David Ellison/Paramount — não só pelas declarações que ele vem dando, mais respeitosas em relação ao cinema do que as de Ted Sarandos, mas também pelo histórico de Ellison como produtor. Ele foi indicado ao Oscar por Top Gun: Maverick, está por trás da fase mais recente da franquia Missão: Impossível e produziu Air: A História por Trás do Logo — alguns dos poucos filmes decentes alinhados com o Idealismo lançados nos últimos anos.

16/2 — Erudição Judaica

Como mencionei na crítica, uma das coisas que mais apreciei em Marty Supreme foi a qualidade da escrita, a riqueza de ideias e a bagagem cultural que, intelectualmente, colocam o filme num patamar superior. Me ocorreu que isso não é raro em filmes de autores judeus. Lembro de ter notado essa qualidade específica em alguns filmes recentes, como Blue Moon, Saturday Night e A Verdadeira Dor — todos de roteiristas judeus. O nível de cultura da população parece ter decaído tanto nas últimas décadas que, hoje em dia, quando você nota essa qualidade intelectual em um roteiro, você quase pode adivinhar que o autor é judeu. A cultura judaica é conhecida por incentivar o desenvolvimento intelectual, os estudos e o conhecimento, de forma que, entre judeus, talvez esse declínio na erudição média tenha sido menos acentuado.

Fico pensando se a superficialidade do cinema contemporâneo pode ser explicada, em parte, por uma diminuição na presença de judeus na indústria. Lembrem-se que o cinema deve muito de sua legitimação enquanto arte aos judeus — a figuras como Irving Thalberg, que fizeram um esforço consciente para trazer cultura e sofisticação à indústria em seus primórdios, quando os filmes eram considerados apenas uma distração vulgar.


15/2 — Alguns cineastas estão sob ataque no Festival de Berlim — não por comentarem sobre política, mas por quererem evitar o assunto em coletivas de imprensa e focar em cinema. Isso revela uma situação curiosa nesses ambientes: se você não se posiciona, você é cancelado. Se você se posiciona, mas tem uma opinião que diverge do posicionamento “correto”, também é cancelado. Qual a única opção que sobra pra não ser cancelado, então? Falar — e falar aquilo que a imprensa quer que você fale.


15/2 — Se eu fosse fazer uma versão atualizada daquele meu vídeo do Oscar dos amputados:


12/2 — Dawson

Assisti a um ou outro episódio de Dawson’s Creek na época em que ia ao ar e, com a morte de James Van Der Beek ontem, lembrei de uma cena do episódio 10 da 3ª temporada que me marcou. Dawson, que era um estudante idealista, fã de Spielberg e aspirante a cineasta, estava se inscrevendo em um festival de cinema. Na recepção, após fornecer alguns dados, perguntam a ele qual era seu diretor favorito. Ele responde, sem hesitação: Spielberg. A reação da recepcionista foi o que eu nunca esqueci: ela olha para ele incrédula, revirando os olhos, como se ele tivesse dito algo totalmente bizarro, inesperado e uncool.

Esse episódio foi ao ar entre 1999 e 2000, numa época em que eu ainda não entendido que o Idealismo estava ficando “fora de moda” e não era bem aceito em ambientes acadêmicos. Pra mim, Dawson estava sendo totalmente sensato e respeitável ao dar essa resposta. Mas, no final dos anos 90, jovens cinéfilos já viviam no mundo de cineastas como Tarantino, David Fincher e Paul Thomas Anderson, em que Spielberg representava o establishment — o “óbvio” do qual eles sentiam necessidade de se diferenciar — uma atitude que definiu os cineastas da Geração X, que são o establishment em Hollywood hoje (Pulp Fiction foi o grande estopim dessa virada).

O curioso é que, hoje, os jovens cineastas não estão indo contra o novo establishment. Sim, eles querem se diferenciar, mas não rejeitando a atitude básica da Geração X. Em vez de voltar na direção do Idealismo, eles estão apenas “dobrando a aposta” e tentando ser ainda mais subversivos em relação ao antigo establishment do que os Tarantinos da época foram.


6/2 — O desejo de parecer inteligente

Outro dia li um comentário do diretor Scott Derrickson no X que ficou comigo: ele disse que a maioria das listas de melhores filmes do ano são feitas para “fazer o autor da lista parecer inteligente”. Isso é a pura verdade, mas o que me impactou ao ler essa frase foi perceber que muito do entretenimento hoje é feito com esse mesmo objetivo: muitos artistas produzem não pra dar prazer ou apresentar algo edificante ao público, mas pra parecerem inteligentes.

Se duvidar, escute algumas faixas do álbum do Bad Bunny que venceu o Grammy 2026 e reflita se alguém honestamente escuta aquilo pra ter qualquer tipo de satisfação musical. É como se o desejo de parecer inteligente estivesse arruinando a cultura inteira: artistas criam para parecerem inteligentes, o público consome e diz que gostou para parecer inteligente, e os críticos exaltam para parecerem inteligentes — num ciclo que mantém todos isolados em suas próprias bolhas de infelicidade.

Nada contra quem quer ser inteligente e ser apreciado por essa qualidade — o problema é que, quando esse não é de fato o ponto forte da pessoa, ela acaba confundindo inteligência com as táticas que discuto na postagem Pseudo-sofisticação, e o resultado disso é o estado da cultura pop atual.

3/2 — Michael - Trailer Oficial

O trailer oficial de Michael me deixou mais animado quanto ao filme. Há um foco claro na trajetória de sucesso e nas mensagens otimistas que Michael costumava transmitir; não me parece o tipo de filme que irá focar demais nos traumas de infância, no sofrimento psicológico, nem o tipo de biografia Naturalista/minimalista que anda em alta hoje. Tem tudo para ser um raro blockbuster Idealista em 2026, pelo menos no nível do conteúdo.

3/2 — Kleber Mendonça Filho e a feiura

Notei algo perturbador em O Agente Secreto que me levou a fazer o seguinte comentário na crítica: “Não sei se o diretor tem um olhar que, sem querer, revela a feiura das coisas ou se isso é proposital — se ele tem algum compromisso ideológico com a representação do feio na arte.” Não estava falando exclusivamente dos atores, mas outro dia me deparei com uma matéria da Hollywood Reporter que me ajudou a compor um perfil. Apesar do que chamo de Casting Naturalista já ser uma prática comum no audiovisual há muitos anos, na entrevista, Kleber fala como se ainda houvesse uma pressão enorme na indústria pra escalar atores de boa aparência — algo que ele considera “ultrapassado”. Não só ele não valoriza a aparência dos atores, como diz também que não gosta de distinguir entre atores profissionais e não-atores. A matéria obviamente foi escrita porque O Agente Secreto está concorrendo ao Prêmio da Academia de Melhor Seleção de Elenco e, pelo visto, essa inversão de valores o coloca à frente na disputa.

3/2 — Vilanização da riqueza

Revendo a lista dos filmes mais populares de 2025, percebi que hoje são minoria os filmes que NÃO vilanizam a riqueza e o sucesso: Marty Supreme, apesar de celebrar ambição, não deixa de ser um retrato crítico da busca por sucesso; Hamnet e Valor Sentimental mostram os danos emocionais que homens de sucesso causam à família; A Única Saída e Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out são sobre pessoas matando umas às outras pra subir na vida; em Pecadores, os ricos são racistas, assassinos, parte de uma elite opressora, assim como em Uma Batalha Após a Outra, O Agente Secreto e Zootopia 2; em A Empregada, eles são psicopatas mentalmente desequilibrados; em Bugônia, são aliens infiltrados querendo destruir a humanidade — e daria pra achar mensagens similares em diversos outros filmes populares, como Wicked: Parte II, O Sobrevivente, Acompanhante Perfeita, A Longa Marcha, Materialistas etc. O item 4 do Screen Guide for Americans nunca foi tão necessário.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

IA e o Criador

Venho discutindo os perigos da IA para o entretenimento, focando mais no lado do espectador e em como os filmes podem se tornar menos impactantes para o público, mas a IA pode ser igualmente destrutiva do lado do criador.

A arte é uma das expressões máximas da potência criativa do homem. Há poucas coisas mais satisfatórias e que trazem mais plenitude do que criar uma obra da qual você se orgulhe. E o processo criativo é tão gratificante quanto o resultado final. Ter uma grande ideia é uma das experiências mais prazerosas que um homem pode ter. Por essa ótica, pense no absurdo que é delegar o processo criativo à IA. Seria tão bizarro quanto ficar feliz com uma nova tecnologia que permita que um robô brinque com seus filhos por você ou faça sexo com sua esposa, já que ele pode fazer isso de maneira muito mais eficiente e lhe poupar esforço.

A autoestima é uma necessidade psicológica fundamental para o ser humano, e o trabalho criativo é onde o homem consegue a maior parte de sua autoestima. Mas autoestima vem da avaliação que você faz de si mesmo, não do que os outros acham de você. Por isso, pra ter uma autoestima autêntica, você tem que saber que é o autor do seu trabalho, que se superou, que realmente desenvolveu as capacidades que admira e está demonstrando. Senão, você está tentando obter uma autoestima falsa, baseada em uma ilusão na mente de outras pessoas.

Meu temor é que obter esse tipo de “autoestima” seja a motivação principal daqueles mais empolgados com os avanços da IA. Por que será que a IA generativa parece tão focada em Hollywood, em se desenvolver a ponto de poder imitar a arte perfeitamente? Eu não tenho nada contra a tecnologia em si. Mas há vários usos para ela fora do campo da arte que me interessam muito mais. Imagine como aplicativos de mapas podem evoluir. Imagine como vai ser mais fácil planejar um corte de cabelo, uma cirurgia plástica, visualizar uma reforma. Imagine aulas de história para crianças acompanhadas de vídeos realistas mostrando como era a Grécia Antiga etc. Tudo isso eu acharia fantástico, mas por algum motivo, estão todos obcecados em fazer filmes com IA, músicas com IA, escrever livros com IA — ou seja, fazer arte, aquilo que serve para expressar a potência criativa do homem e que, historicamente, sempre foi uma das fontes mais elevadas de autoestima e de prestígio na sociedade. É um senso de orgulho e valor pessoal que as pessoas estão buscando na IA — porém, de forma desonesta.

Vamos traçar um paralelo com as Olimpíadas. Imagine que inventem uma espécie de perna mecânica que permita que uma pessoa sedentária possa correr tão rápido quanto um atleta profissional. Eu não teria nada contra a tecnologia em si, que poderia ser usada para vários fins práticos fora do esporte — chegar mais rápido ao trabalho, passear pela cidade sem se cansar etc. Pra isso, a perna não precisaria ser ultrarrealista e se parecer exatamente com uma perna humana. Agora imagine que o usuário não esteja interessado nessas funções práticas, mas queira usar a perna mecânica para competir nas Olimpíadas. Qual é seu objetivo, nesse caso? Obter o tipo de admiração e prestígio que apenas atletas profissionais antes conseguiam. E, como ele deseja fazer o público acreditar que as capacidades da perna são suas capacidades naturais, ele precisa que a perna seja realista, indistinguível de uma perna humana.

Pense no quão ridícula é essa atitude. Não só esse homem está sendo desonesto com o público, como está confessando que a única coisa que lhe importa na vida é o que os outros acham dele. Ele sabe que não tem as virtudes que está exibindo, mas isso não importa, desde que receba os aplausos, as medalhas, os créditos sociais. Ele confessa também que não tem nenhum prazer no esporte em si. Que treinar, atingir metas, superar seus limites não lhe interessa. Que o esporte é apenas um meio para obter aplausos — e, se uma máquina puder eliminar toda a parte “chata”, melhor.

Minha esperança é que essa confusão a respeito da função da arte, tanto para o artista quanto para o espectador, leve a um cenário caótico apenas nos primeiros anos de IA, mas que, com o tempo, as pessoas comecem a cair em si e a limitar o uso da IA apenas a funções mais técnicas, “braçais”, que não destruam a dimensão criativa da arte. Veremos.


Mais sobre IA:

Hollywood vs. IA

IA e Criatividade

Inteligência Artificial: meus pensamentos

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Fortes vs. Fracos: a maior mentira do cinema

A moralidade altruísta dominante na cultura cria uma “regra” que dificilmente consegue ser quebrada hoje no cinema: vilões devem sempre ser representados pelos fortes, poderosos, privilegiados, e as vítimas/mocinhos, sempre pelos mais humildes, desprovidos, vulneráveis.

Na ética por trás do Idealismo, não associamos força ao mal. Muito pelo contrário: o mal vem da irracionalidade, do erro, que, em última instância, torna o agente impotente. A fraqueza, portanto, é que é associada ao mal. Por trás da maldade, enxergamos burrice, ignorância, motivações como inveja, ressentimento, racionalizações e o desejo de proteger uma pseudoautoestima.

Pouquíssimos filmes, no entanto, retratam o mal dessa forma. O mal absoluto, no entretenimento, quase sempre é associado à força — a um personagem poderoso que ataca suas vítimas não por invejá-las ou para camuflar suas próprias fragilidades, mas porque é forte demais, e a força corrompe.

A realidade, porém, é que pessoas realmente fortes (estou falando de força de caráter, de pessoas motivadas por autoestima, ambição moral, pela conquista de valores positivos) não perdem tempo indo atrás de pessoas fracas para atacá-las; não ocupam suas mentes com elas. Pena, indiferença ou desprezo — não ódio mortal — é o que uma pessoa forte sente por aqueles que não têm suas forças. O forte odiará o fraco apenas se for atacado e prejudicado por ele, mas não gratuitamente, não como um impulso primário. Já a pessoa de caráter fraco (dominada pela “moralidade de escravo” descrita por Nietzsche) tende a odiar os mais fortes apenas por eles serem mais fortes — como a existência dos fortes evidencia sua fragilidade, eles representam uma “ameaça”, um “ataque”, mesmo que não tenham tomado nenhuma ação contra ela.

Essa verdade — de que o ódio primordial é um ódio da fraqueza em direção à força, não da força em direção à fraqueza — é o grande tabu que o cinema raramente ousa quebrar. Isso é ainda mais verdadeiro em sociedades ou eras decadentes, quando a autoestima geral da população é baixa.

Isso significa que, para ser mainstream, politicamente correto e aceito pelo público, todo conflito entre bem e mal, de uma forma ou de outra, acaba tendo que ser distorcido e apresentado como uma agressão provocada pelo forte. Isso leva, entre outras coisas, a uma falta de realismo psicológico no entretenimento: a vilões caricatos, cujo ódio parece gratuito, exagerado, irracional, sem as motivações mundanas, de lógica simples, que encontramos em conflitos da vida real.

Sim, existem pessoas “fortes” que não têm senso ético e, na busca de seus objetivos, podem atropelar os fracos — não por odiá-los, mas por não se importarem o bastante com eles, por vê-los como meros obstáculos em seu caminho. Nesse contexto, o fraco pode odiar o forte por razões legítimas — mas seu ódio será voltado contra a falta de ética de indivíduos específicos; não criará todo um ressentimento contra pessoas fortes, colocando no mesmo saco os éticos e os antiéticos. Mas esse tipo de distinção é raro entre pessoas que se colocam no time dos fracos. Pra essas, é muito mais conveniente ver os fortes sempre como opressores, os iniciadores de qualquer violência.

Outro ódio legítimo é o dirigido à pessoa obstinada por poder, por dominar outros homens, que muitas vezes consegue ser bem-sucedida economicamente, obter poder político e é confundida com alguém forte. Mas a obsessão por poder sobre os outros é sempre sinal de fraqueza de caráter, não de força. Por trás desse comportamento, há sempre um ego frágil, um ressentimento contra pessoas que o “poderoso” enxerga como ainda mais fortes do que ele — mas esse fato raramente é reconhecido pelos filmes hoje, que insistem na ideia de que o mal tem sua origem no poder.

É por causa dessa regra criada pela moralidade altruísta que dificilmente vemos filmes denunciando regimes comunistas. Discutir os males do comunismo honestamente requer que se exponha o ódio do fraco em relação ao forte, o que é um tabu. A maioria dos filmes anticomunismo acaba retratando os comunistas praticamente da mesma forma que os fascistas são retratados no cinema: autoritários, confiantes, oprimindo uma população humilde.

Os Gritos do Silêncio (1984), sobre os horrores cometidos no Camboja nos anos 70, nunca deixa claro que os Khmers Vermelhos eram seguidores do partido comunista. Se você não entender o contexto histórico, vai sair do filme com a impressão de que os Estados Unidos (fortes) foram os responsáveis pelo genocídio e que os mocinhos são os jornalistas expondo a crueldade do imperialismo ocidental.

Primeiro, Mataram o Meu Pai (2017) é um pouco melhor nesse sentido, pois, embora evite associar o Khmer Vermelho ao comunismo e culpe parcialmente os EUA no final, pelo menos expõe que os vilões são igualitários, rejeitam o luxo e a propriedade privada — características claras do comunismo. Mas a história não deixa de ser contada por uma lente altruísta, que quer que simpatizemos com os cambojanos por serem vulneráveis, simples, vítimas passivas, em contraste com os vilões assertivos e autoritários. Há toda uma atitude “humanitária” na abordagem que, pra o espectador comum, pode se traduzir em uma crítica à força excessiva.

No caso de filmes que denunciam o nazismo, já estamos tão acostumados com a ideia de os nazistas serem os “fortes” que achamos que, nesse caso, o retrato é honesto e não há controvérsia alguma. Mas será mesmo? Um dos maiores “plot twists” da minha vida adulta foi descobrir que, ao contrário do que os filmes sempre fizeram parecer, os judeus, na verdade, eram vistos como fortes pelos nazistas e pela população europeia — não como um grupo frágil, humilde, digno de desprezo. No documentário Shoah (1985), isso fica claro nos depoimentos de alguns poloneses entrevistados. Eles não descreviam os judeus como inferiores no período pré-Segunda Guerra, mas como “os mais ricos em qualquer profissão”, as mulheres mais bem vestidas etc. Ou seja, o antissemitismo também era um ódio da fraqueza direcionado contra a força, e só quando entendi isso a perseguição contra os judeus fez sentido psicológico para mim.

A crueldade dos nazistas contra um povo tão vulnerável sempre me soou um pouco estranha — mas talvez essa tenha sido a narrativa que os judeus tiveram que construir para se proteger. Judeus em Hollywood, muito espertos, sabiam que, se fossem vistos como fortes pela população, sempre gerariam desconfiança e seriam julgados como maus. Portanto, o cinema ressignificou essa dinâmica e construiu a imagem do judeu simples, humilde, oprimido pela força dos nazistas. Quando eu era criança e ouvia falar em “povo judeu”, me vinha imediatamente à mente a imagem de pessoas frágeis, “simplinhas”, mal alimentadas — o equivalente ao que se pensa hoje em relação aos palestinos. Enquanto essa narrativa se sustentou, o antissemitismo esteve em baixa. Nos últimos anos, porém, a percepção de que os judeus na verdade são os fortes voltou à atenção das massas, e o antissemitismo no mundo explodiu.

Um filme relevante nessa discussão e que quebra essa regra altruísta do cinema de maneira única é Dogville (2003). A artimanha de Dogville é dar a entender que a história se trata de uma crítica aos EUA. Não sei até que ponto isso foi intencional e até que ponto é reflexo das contradições do autor, mas gosto de me iludir que é um truque de mestre de Lars von Trier. Ao anunciar o filme como parte de uma trilogia irônica chamada “EUA: Terra das Oportunidades”, ele confunde o espectador o bastante para que ele acompanhe a história achando que se trata de um ataque aos fortes, sem perceber que Trier está, ao longo do filme todo, fazendo o contrário — expondo a mediocridade dos cidadãos de Dogville e revelando a verdadeira nascente do ódio humano: o ressentimento do fraco.

Em culturas dominadas pelo altruísmo, celebrar a força é sempre politicamente incorreto, sempre impopular e arriscado. É por ir contra a moralidade altruísta — contra a ideia de que os fortes são maus e os fracos são os nobres — que o Idealismo não consegue florescer em tempos como os atuais. Quanto mais o altruísmo domina a cultura, mais o artista precisará usar artimanhas, camuflagens, ser indireto, confundir o público, se quiser desafiar esses valores sem se tornar persona non grata na sociedade.

Hollywood vs. IA

A lista ao lado mostra uma divisão em Hollywood entre cineastas que estão abraçando a IA e outros que estão resistindo. Minha maior preocupação com relação à IA no entretenimento ainda é a questão da identificação. Se o conteúdo criado por IA for facilmente identificável, diferenciado de registros fotográficos e de trabalhos autorais feitos sem IA, será apenas uma revolução tecnológica como o CGI foi. Sim, muitas pessoas perderão seus empregos atuais, longas poderão ser feitos num estalo de dedos por amadores em seus laptops, e isso pode ter o efeito de degradar ainda mais o status do cinema na cultura — mas essa é uma consequência inevitável do progresso tecnológico. Reclamar disso é como reclamar da invenção da eletricidade, da fotografia digital etc.

Cineastas que quiserem manter o nível da arte continuarão podendo fazer filmes à moda antiga (fotografando atores em ambientes reais — o que se tornará apenas mais caro e inconveniente) ou usarão a IA com bons critérios — apenas para funções não criativas — colaborando com outros artistas (escritores, atores, diretores de arte, fotógrafos, compositores etc.), para que cada detalhe da obra seja intencional, reflita decisões e talentos humanos, e não funções automáticas do algoritmo.

O problema é se não pudermos diferenciar facilmente trabalhos feitos com IA de trabalhos feitos sem IA.

Muita gente parece não entender, por exemplo, que existe uma diferença fundamental entre imagens fotografadas e imagens feitas no computador. Por mais que você torne um ator de IA realista, ele nunca terá o mesmo impacto de um ator que existe de verdade. Astros são tão importantes que, até em animações, hoje se tornou uma convenção contratá-los para dublar os personagens, pois isso aumenta o interesse pela produção.

O mesmo princípio vale para os cenários e os espaços físicos do filme: por mais grandiosa que seja uma imagem de CGI, ela sempre parecerá pequena em comparação com um panorama de David Lean. Se a IA se tornar a forma padrão de se criar imagens, isso significa que todo o cinema se transformará em animação. Animações podem ter muitos dos méritos criativos de um filme, mas o magnetismo de uma imagem fotografada não pode ser recriado por um desenho. “Ah, mas e se chegar a um ponto em que a imagem feita por IA fique indistinguível da realidade?” — Aí, o espectador terá uma desconfiança eterna em relação a tudo o que vê e, por via das dúvidas, assumirá que tudo é IA — ou seja, não se permitirá confiar na imagem e sentir o tipo de emoção que sentimos quando estamos diante de algo real. Mesmo quando a imagem for real, ele terá um pé atrás e reagirá a tudo como se fosse uma animação (isso já acontece hoje, com o excesso de CGI nos filmes). A confiança é uma coisa frágil. Se você descobre que uma pessoa lhe contou uma mentira descarada, você começa a duvidar de todas as suas outras afirmações.

Mais grave ainda é o fato de muita gente não entender a importância do talento humano, da autoria da obra (e dos diversos aspectos da obra), como se apenas o produto final importasse, independentemente de sua origem (já discuti isso no texto IA e Criatividade). Mas pense: toda vez que você viu algo realmente extraordinário na arte, toda vez que uma obra impactou sua vida, você provavelmente se perguntou logo em seguida: “Quem fez isso?” — e foi pesquisar sobre o artista. Se a autoria de tudo for colocada em xeque com a chegada da IA no entretenimento, a “desconfiança eterna” criada pela tecnologia prejudicará também essa dimensão da arte.

Agora pergunte-se: quem é que se beneficiaria ao borrarmos a linha entre trabalhos feitos com IA e trabalhos feitos sem IA? Quem teria interesse em não identificar que seu trabalho foi feito por IA? Certamente não é o artista talentoso, capaz de inspirar o público com suas verdadeiras capacidades. É aquele que deseja usar a IA para esconder sua incapacidade e tentar obter algum crédito imerecido desse estado de incerteza inaugurado na mente do público. A IA, nesse cenário, torna-se uma máquina gigante de “redistribuição de crédito”, dando crédito a quem não merece às custas de quem merece.

Num futuro mais distante, pode ser que a tecnologia avance tanto que modifique por completo a natureza humana; aí, nossas filosofias e valores terão de ser totalmente repensados. Mas, por enquanto, não vivemos nesse futuro, e ainda é importante que saibamos o que é verdade e o que não é, o que reflete talentos humanos reais e o que não reflete. Enquanto essa for nossa realidade, fazer arte com IA e não avisar o espectador será uma forma de fraude.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Voz de Hind Rajab

A Voz de Hind Rajab, indicado ao Prêmio da Academia de Melhor Filme Internacional, é sobre o caso real de uma menina palestina de cinco anos que foi morta em 2024 na Faixa de Gaza durante um ataque do exército israelense. O filme mostra tudo pelo ponto de vista de socorristas que atendem a uma chamada de emergência da menina.

É um caso interessante de avaliar. Imagine que você vá ver um filme, e a história mostre apenas um jovem artista no início do século 20 desenvolvendo suas habilidades como pintor e tentando entrar na Academia de Belas Artes de Viena. O ator principal é carismático, o filme foca em suas qualidades positivas, há uma narrativa de sucesso razoavelmente envolvente, e a sessão, de modo geral, é agradável. O único “detalhe” é que esse artista se chama Adolf Hitler. Nada sobre seus males é citado na tela, não há críticas nem ironias nas entrelinhas, de modo que, se uma pessoa sem conhecimento de história entrasse na sala, ela só teria motivos pra admirar o personagem. Que nota você daria pra tal filme? Você julgaria o filme apenas pelo que ele apresenta — pelas emoções e ideias que evoca na plateia durante a sessão — ou levaria em conta informações que traz de fora da sala; o impacto que tal retrato pode ter no mundo?

Eu busco avaliar filmes sempre pelo que apresentam na obra em si. Quando me irrito com um filme por questões ideológicas, é porque essas questões estão infundidas na narrativa, porque os valores que desprezo se manifestam na própria obra — não porque li declarações do diretor, etc. Então, no caso de Hind Rajab, que foca em um drama específico, deixando o conflito Israel x Palestina em segundo plano, sou forçado a ignorar o contexto político externo e dar ao filme a mesma nota que daria a um filme sobre socorristas falando ao telefone com uma criança israelense durante um ataque terrorista islâmico.

Não é uma nota muito boa, pois trata-se ainda de um filme semi-Naturalista, não muito dinâmico, focado em sofrimento, com uma relevância muito mais jornalística do que criativa — mas não é a nota zero que eu daria a um filme que representasse um ataque aberto ao mundo civilizado e ao direito de países livres de se defenderem.

The Voice of Hind Rajab / 2025 / Kaouther Ben Hania

★★

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Filmes em Alta

Queria aproveitar melhor a coluna lateral pra deixar dicas ou informações que possam tornar o blog útil mesmo na ausência de novas postagens (continuo com o plano de comentar só os filmes de maior impacto cultural). Neste painel “Filmes em Alta”, a ideia é destacar os filmes mais discutidos do momento. As estrelas ao lado são a minha avaliação. A cor funciona como uma espécie de termômetro cultural: filmes em verde são os que fazem alguma movimentação relevante na direção do Idealismo; em amarelo, são os filmes mistos que não mudam muito o status quo; em vermelho, são os que fortalecem as más tendências. Filmes em cinza são os que não vi.

Têm achado essas informações úteis?