Em um episódio recente, o Yaron Brook comentou o filme Devoradores de Estrelas e, apesar de ter feito algumas críticas semelhantes às que fiz, notei que ele tem uma visão de heroísmo que diverge da minha. Embora também tenha considerado o uso de humor destrutivo, Yaron ainda viu atos heroicos no filme, especialmente mais para o final. Imagino que ele esteja se referindo à decisão do protagonista de salvar o amigo em vez de voltar para a Terra. Pra mim, esse ato foi ainda mais baseado em altruísmo do que o ato inicial de querer embarcar na missão. Ainda que alguém possa argumentar que a pedra se tornou um grande “amigo” do herói, e que salvá-lo foi baseado em auto-interesse, o que mais me incomoda aqui não é só a decisão do personagem no contexto da trama, mas a própria atitude do filme de ficar forçando cenários improváveis nos quais a sobrevivência de uma pessoa (ou da humanidade inteira) sempre depende do sacrifício de outra.
É muito comum as pessoas associarem heroísmo a autossacrifício, a atos coletivistas/altruístas — algo herdado de tradições religiosas. Mas até pra quem não teve criação religiosa, heroísmo muitas vezes ainda é sinônimo de coragem, de enfrentar um enorme perigo para salvar a vida de inocentes ou de pessoas que você ama. Pra mim, essa é uma visão muito restrita de heroísmo. Um ato desse tipo pode até ser heroico — se não partir de premissas altruístas — mas mesmo nos melhores casos, este é apenas o tipo de heroísmo particular do arquétipo do Guerreiro. Nem todo ser humano compartilha das necessidades emocionais do Guerreiro e, para cada tipo de indivíduo, um tipo diferente de heroísmo se aplicará.
Associar heroísmo apenas a matar dragões ou a resgatar pessoas de incêndios é partir do princípio de que a vida é trágica, que vivemos o tempo todo rodeados de perigo e que eliminar esses perigos é o ápice da existência humana. Por essa perspectiva, um homem com uma vida segura jamais poderia ser heroico. A tragédia se torna uma pré-condição para a virtude.
Sim, na vida há riscos, o sucesso sempre envolve dificuldades e, na arte, é frequentemente necessário inserir perigos extremos para ilustrar as virtudes dos heróis (O Princípio do Contraste). Mas quando o artista parte de um Senso de Vida benevolente, ele não torna sacrifícios e o enfrentamento de dores a essência do heroísmo, o aspecto mais admirável do herói, o clímax da obra. Dificuldades existirão no caminho, mas o objetivo final será a representação do ser humano em seu estado máximo de excelência.
Da mesma forma que, para criar um herói trágico, mostramos um personagem sucumbindo a vícios humanos de maneira eloquente e memorável, para criar um herói devemos mostrar um indivíduo incorporando virtudes importantes de maneira igualmente singular (no caso do Idealismo, virtudes importantes para o florescimento individual e para a conquista da felicidade).
O heroísmo será associado à conquista de valores positivos, não à capacidade de combater negativos. E os maiores desses valores positivos são os valores de caráter — ser um herói é tornar-se a versão mais elevada do tipo de personalidade que você pode ser: a versão mais consistente, mais expressiva, com as realizações mais emblemáticas no mundo real, no contexto de um determinado código de valores e área de atuação. O herói, na arte, é a concretização mais poderosa do pilar da Autoestima — o mais fundamental dos valores emocionais do Idealismo.
Ayn Rand também não caracterizava o heroísmo como enfrentamento de perigos e não romantizava o martírio. Pra ela, o heroísmo estava ligado ao desenvolvimento máximo do indivíduo — uma visão mais próxima da que discuti acima.
Ayn Rand sobre se sacrificar pela humanidade:
Pela mesma razão pela qual você deve valorizar sua própria vida, você deve valorizar a vida humana como tal. Eu diria até que a vida animal tem um certo valor que o homem deve respeitar. Mas isso não significa que você deva valorizar indiscriminadamente a vida de qualquer outro ser humano, nem que tenha o dever de sacrificar a sua própria vida pelos outros — embora deva, racionalmente, valorizar a vida de qualquer pessoa que corresponda aos seus valores.
Metafisicamente, nunca somos colocados em uma situação em que a vida de uma nação inteira dependa do sacrifício de um único homem. Se isso ocorresse (fora da ficção coletivista), estaríamos vivendo em um universo diferente e, portanto, as regras da nossa existência seriam diferentes. É claro que a questão de saber se um homem deve morrer lutando pela liberdade, como na Revolução Americana, é diferente. Tal homem não está morrendo pela nação. Eu honro os homens que morreram lutando pela liberdade no passado e os honro quando digo que espero que tenham morrido pela sua própria liberdade. Porque nos beneficiamos de suas ações, devemos apreciar o que fizeram; mas não era dever deles serem mártires por nós. [Ayn Rand Answers / Pág. 113]
Leonard Peikoff sobre heroísmo:
Um herói deve ser uma personificação completa — não necessariamente do Objetivismo — mas de um código moral. E todos os seus atributos têm que ser volitivos, têm que ser escolhidos, têm que ser possíveis. Se não são possíveis na Terra, então estão fora de toda a ideia de moralidade e de termos morais. Ayn Rand usava o conceito de “herói” de forma mais ampla do que apenas para a sua própria moralidade. Ela considerava, por exemplo, que Jesus é um herói dentro do cristianismo, e esse é um uso adequado do termo: a personificação completa da visão cristã; e que Hitler foi um herói dentro da ideologia nazista. [The Peikoff Podcasts / Ep. 241]
Ao definir heroísmo, as pessoas costumam tingir sua definição com o arquétipo particular com o qual mais se identificam. Da mesma forma que Yaron enxergou o herói pela lente do Guerreiro, essa definição de Peikoff e Ayn Rand pende um pouco para o lado do Sábio: ser um herói significaria incorporar uma ideologia de forma extrema, total. Na minha visão, dá pra ser ainda mais abrangente que isso e pensar em heroísmo como uma expressão superlativa de qualquer um dos arquétipos — e das virtudes humanas simbolizadas por eles.

























