quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O Homem que Matou Hitler e o Pé-Grande

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.) 


ANOTAÇÕES:

- Gosto que, apesar da premissa absurda, o filme se leva a sério. Não tem uma atitude cínica estilo Robert Rodriguez que destrói a ilusão.

- O filme chama atenção pra própria excentricidade, mas não parece algo forçado. Muitos diretores que se fazem de "cult" na realidade têm uma mentalidade convencional e estão apenas imitando o estilo de outros cineastas. Esse aqui parece de fato ter um olhar diferente, a excentricidade não soa apenas como um truque pra esconder falta de conteúdo e talento. O filme tem certa profundidade, riquezas, é cheio de ideias interessantes, diálogos criativos, tem uma boa performance de Sam Elliott etc.

- Embora a atitude do filme seja séria, é claro que ainda não se trata de um filme de ação "de verdade", totalmente dramático, hollywoodiano etc. É um "filme de autor", alternativo. Há um certo cinismo, um humor por trás de tudo, que parece resultado de Idealismo Reprimido (o diretor parece gostar da ideia de heróis exagerados, invencíveis, tipo Stallone, Chuck Norris, mas não teve culhão pra levar a ideia adiante de maneira séria, então ele embala tudo numa atitude sutil de auto-paródia). Mas é um Idealismo Reprimido bem intencionado, na medida do possível. Pois o que você enxerga concretamente na tela são personagens virtuosos, bons atores, cenas interessantes, filmadas de maneira razoavelmente convincente, uma trilha romântica, elevada, meio John Williams, uma produção bem feita... Apenas quando você para pra pensar na natureza da trama é que o elemento absurdo se torna óbvio. Mas o diretor, apesar de "reprimido", não consegue de fato sujar a própria obra escancarando na tela esses elementos destrutivos. Então fica a impressão que seu desejo, no fundo, seria fazer um filme sério, Idealista, fiel ao gênero. Existem cineastas nessa situação que fazem o contrário: deixam os elementos Idealistas de pano de fundo, distantes, e o que vemos concretamente na tela são apenas os elementos destrutivos, subversivos: personagens não heroicos, cenas que explicitamente não se levam a sério, auto-ridicularização, ataques ao gênero — como por exemplo o nacional As Boas Maneiras do Marco Dutraque é uma história de lobisomem apenas na sinopse, mas quando você assiste, é uma subversão bem mais explícita do gênero — não tenta ser em nada com um filme de terror hollywoodiano em termos de elenco, fotografia, trilha sonora etc.

- O confronto final com o Pé-Grande beira o ridículo em alguns momentos, mas acaba divertindo num sentido meio Sharknado.

- Algumas das cenas mais interessantes do filme no fim não têm a ver com a ação, mas com a vida pessoal do herói, com caracterização, estudo de personagem. A cena dele amarrando o sapato no final é um momento tocante que jamais esperaria ver num filme como esse.

CONCLUSÃO: Um filme difícil de encontrar sua plateia, pois ele não é subversivo e engraçadinho o bastante pra agradar o público Tarantino/Robert Rodriguez, nem sério o bastante pra funcionar pro público Stallone/Clint Eastwood. Mas é um experimento curioso, diferente, e o diretor tem potencial para coisas maiores.


The Man Who Killed Hitler and Then the Bigfoot / EUA / 2018 / Robert D. Krzykowski

NOTA: 7.0

terça-feira, 29 de setembro de 2020

O Diabo de Cada Dia

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- O filme supostamente faz uma crítica à religião, mas na verdade ele critica apenas o fanatismo religioso, não a religião em si, a fé. No fundo ele parece um filme cristão, que aceita os valores cristãos como referência. Ele tem um senso de autocrítica, mas pra alguém que não tem relação alguma com religião e não se importa por esses conflitos internos, a história não tem nada de tão interessante, não consegue criar um interesse genuíno baseado em valores universais. O espectador não religioso se sente meio de fora, assim como vendo um filme como A Cabana, por exemplo.

- Após meia hora de projeção, o filme ainda não tem um objetivo claro, um protagonista, a promessa de algo positivo. Fica apenas introduzindo personagens aleatórios, sem deixar clara a conexão entre eles. E não há ninguém admirável na história. Os personagens são todos caipiras, pessoas "pequenas", agindo irracionalmente, sofrendo, sendo más, hipócritas, vivendo vidas pouco atraentes. Pra que o espectador quer ficar olhando essas pessoas? O filme quer apenas criticar, demonizar, mas sem trazer algo de positivo para a plateia.

- SPOILER: O filme é violento, visualmente incômodo (coisas desnecessárias como o cuspe na torta). Eu cheguei a desligar a TV após a morte da Mia Wasikowska, só no dia seguinte com a cabeça fria tive paciência de voltar e terminar.

- Só lá pelos 45 minutos que começamos a entender que a história no fim será sobre os filhos dos personagens que vimos antes. O que devia ter sido uma introdução de 10 minutos tomou praticamente 1/3 do filme, tornando o início chato, arrastado (típico problema de adaptações de livros). E depois disso ele continua apresentando personagens aleatórios, sem se aprofundar em nenhuma das tramas. Quando Lenora fica grávida, por exemplo, isso é revelado de forma casual, através de um diálogo — nada é de fato dramatizado, nada resulta numa narrativa envolvente, bem desenvolvida. A história é apenas uma sequência de situações episódicas, distantes, que ajudam a ilustrar a ideia de que o fanatismo é mau. O foco do roteiro é a mensagem didática, não o prazer da jornada (não há cenas incríveis, bem construídas, diálogos brilhantes, ideias interessantes — nada de muito prazeroso cinematograficamente).

- Há um fascínio pelo mal, pelo crime, assim como em filmes de gângsteres. O filme gosta de retratar pessoas detestáveis só pra depois ter o "gostinho" de matá-las violentamente. O padrão é esse: o filme desperta a raiva, depois sacia com violência. Desperta a raiva/sacia com violência. Tem tanta cena de morte que às vezes você nem sabe o que está acontecendo, mas você tem certeza a cena irá terminar com alguém sacando uma arma e matando outra pessoa inesperadamente. Reflete um pouco o fenômeno do Coringa, a motivação por ódio... A tentativa de apelar pro público revoltado, com sede de vingança, que adoraria poder pegar uma arma e sair por aí fazendo "justiça" com as próprias mãos.

- Robert Pattinson está forçado, artificial, ainda na missão de se livrar da imagem de Crepúsculo, querendo se provar um ator cult, diferentão. É engraçado como um dos pecados mortais da cultura atual é você romantizar uma figura masculina. Todos esses jovens bonitos que fazem sucesso com as meninas no começo da carreira, depois passam as próximas décadas pedindo perdão, se enfeiando, pagando de criminosos, decadentes, imorais, e só assim conseguem recuperar (se tiverem sorte) o respeito do público (Leonardo DiCaprio etc.).

- No final há muitas coincidências, o clímax não gera um grande senso de conclusão. Nunca houve uma grande rivalidade/conexão entre o policial e o personagem do Tom Holland. Se ele morrer ou deixar de morrer, não haverá uma grande mensagem, um senso de que as pontas foram todas amarradas, que as diversas histórias apresentadas agora tiveram um desfecho.

CONCLUSÃO:  O filme é bem realizado, o elenco está bem (especialmente Tom Holland), mas a narrativa é arrastada, os valores são negativos e a crítica à fé me pareceu bastante morna e convencional.


The Devil All the Time / EUA / 2020 / Antonio Campos

NOTA: 5.0

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O Dilema das Redes

Acho que os algoritmos e a obsessão por controle/manipulação das redes sociais estão de fato tornando a internet um lugar desagradável, e o documentário faz um bom trabalho em expor algumas dessas táticas eticamente questionáveis. Mas acho uma tolice o tipo de cenário apocalíptico que esse filme pinta. Pra começar, ele cria a impressão de que empresas e anunciantes são coisas maléficas, cujo grande propósito é fazer mal aos consumidores (em vez de oferecer um produto útil e desejado pelo consumidor, que é a intenção da maioria). Outra ideia boba é essa de que as pessoas ficaram viciadas no celular, como se isso fosse algo doentio. É óbvio que um adolescente não consegue ficar longe do celular por 1 semana (como eles dramatizam no documentário). Não é só o vício em likes e o aspecto "caça-níquel" das redes sociais que tornam o celular algo necessário. As pessoas precisam dele pra trabalhar, pedir comida, ler notícias, receber mensagens, combinar algo com os amigos. Seria autodestrutivo — e não saudável — querer ficar sem celular por uma semana nos dias de hoje. Claro que o celular abre portas para "viciar" usuários de maneira não saudável, mas qualquer coisa que dá prazer faz isso: jogos, doces, drogas, sexo... É responsabilidade de cada um não se deixar levar por esse tipo de excesso, e não da indústria de evitar produzir coisas "excessivamente interessantes". Mas o principal problema do documentário acima de tudo é que ele rejeita totalmente a ideia de que o ser humano tem livre arbítrio, autocontrole. É como se uma persuasão bem feita pudesse ser capaz de fazer a gente agir completamente contra nossos interesses e valores, fazer qualquer coisa que o algoritmo queira, como se não tivéssemos filtro algum para estímulos externos (lembre que nem hipnotizados fazemos coisas contra nossa vontade). É aquela visão da humanidade como um gado não pensante que sempre é usada pra justificar mais controles do governo (sim, no fim alguns entrevistados dizem que a solução pra isso tudo deve ser a intervenção estatal). Bem, se a humanidade de fato é tão indefesa e manipulável assim, praticamente tudo pode ser uma ameaça à civilização, não só as redes sociais: qualquer tipo de propaganda, todas as religiões, a TV, intelectuais, políticos, o sistema de educação, videogames, a indústria do cinema... Sim, muitas pessoas são manipuláveis, não pensam, mas ser burro sempre trouxe e sempre trará consequências negativas, não é uma novidade da era digital. O documentário é até meio hipócrita, pois ele em si é uma ferramenta de manipulação, repleto de noções equivocadas que promovem políticas destrutivas de esquerda. A Netflix e sua seção de documentários é uma das máquinas mais poderosas de propaganda anti-capitalista da atualidade — isso sim é algo que deveria te assustar.

The Social Dilemma / 2020 / Jeff Orlowski

NOTA: 6.0

domingo, 13 de setembro de 2020

Outros filmes vistos - Setembro 2020

Enola Holmes (2020): 5.5





A Juíza (RBG / 2018): 7.0



Lindinhas (Mignonnes / Cuties / 2020): 6.0



Estou Pensando em Acabar com Tudo (I'm Thinking of Ending Things / 2020): 7.0




 Mulan (2020): 6.0