terça-feira, 6 de outubro de 2026

Outubro 2026 - outros filmes vistos

Dentro da Baleia (Whalefall / 2026 / Brian Duffield) ★★

Resumo das impressões de Caio Amaral, elaborado por inteligência artificial a partir de suas anotações durante a sessão.

O maior mérito do filme é sua premissa high concept: um homem tentando sobreviver após ser engolido por uma baleia. A ideia sugere possibilidades de aventura, fantasia e escapismo, mas também apresenta um desafio considerável. Talvez uma das razões pelas quais essa premissa seja tão pouco explorada no cinema live-action seja justamente a dificuldade de representar o interior de uma baleia sem transformar a experiência em algo desagradável ou repulsivo.

A orientação do filme já se anuncia na primeira cena, com Josh Brolin interpretando um homem doente e decadente, em uma prolongada crise de tosse. Uma vez dentro da baleia, a execução privilegia uma representação visceral e repulsiva do ambiente, muito distante do universo fantasioso de Pinóquio.

O protagonista cospe sangue, quebra o pé, sofre queimaduras provocadas pelos fluidos digestivos e acumula ferimentos ao longo da experiência, lembrando o sofrimento físico de 127 Horas. Em vez de despertar curiosidade pelo ambiente extraordinário ou entusiasmo pela engenhosidade necessária para escapar, o filme concentra-se na deterioração do personagem.

O roteiro também apresenta problemas de ritmo e credibilidade. Com poucas possibilidades de ação dentro da baleia, a narrativa prolonga o sofrimento e as reflexões do protagonista, recorrendo insistentemente a flashbacks sobre sua relação com o pai falecido. Quando finalmente começa a elaborar um plano de fuga, surgem soluções pouco convincentes: deslocamentos improváveis pelo sistema digestivo, descobertas convenientes de objetos necessários à sobrevivência e acontecimentos que parecem pertencer a um desenho animado. Há uma contradição entre a estética realista e a lógica fantasiosa dos acontecimentos. O isolamento do protagonista ainda obriga o ator a verbalizar seus raciocínios e planos para informar o espectador.

O problema mais significativo, porém, é de orientação artística. Na avaliação de Caio, Dentro da Baleia exemplifica uma tendência do cinema contemporâneo de buscar legitimidade dramática em traumas familiares e processos de cura emocional, mesmo quando sua premissa parece prometer uma aventura extraordinária. Transformar essa situação em uma experiência genuinamente divertida ou fascinante talvez fosse um desafio difícil de superar, mas o filme parece sequer estabelecer esse objetivo como prioridade. Pela perspectiva do Idealismo, ele subordina sua promessa de entretenimento a um drama psicológico convencional, demonstrando muito mais interesse pelo sofrimento do protagonista do que pelas possibilidades imaginativas de sua situação.

Na.za (2026 / Yxxal Abrxxam, Raxxel Szxx) ●

Mais um suposto documentário do diretor de Sem Chão. Ainda que os entrevistados sejam quem eles dizem ser, o que é dito sobre as ações de Israel na Palestina me pareceu incrivelmente distorcido, infundado, mal argumentado. Mas a grande questão é que eu duvido que os entrevistados sejam realmente oficiais do exército de Israel (são todos anônimos, filmados na penumbra, com a voz alterada digitalmente, e eles só falam coisas genéricas que qualquer leigo poderia ter inventado — leia a resposta oficial da IDF ao filme). Parece mais que o diretor reuniu alguns de seus amigos ativistas e os fez se passar por membros do exército israelense para fortalecer a narrativa do genocídio em Gaza. A maneira como os soldados confessam atrocidades e admitem prontamente que são pessoas perversas é tão artificial do ponto de vista psicológico/comportamental que beira o teatro amador. O que achei mais assustador sobre o “documentário” não é o que ele revela a respeito de Israel, do Hamas, nem mesmo constatar que existe gente capaz de produzir um filme assim, mas o fato de Na.za ter sido aplaudido por 25 minutos no festival de Veneza e de tanta gente achá-lo plenamente convincente.


Sobrevivência (Animals / 2026 / Ben Affleck) ★

Filme péssimo que me fez abandonar a noção de que Ben Affleck seria um cineasta com potencial para influenciar Hollywood numa direção melhor — ideia que formei depois de Air: A História Por Trás do Logo. Copiar a premissa de Céu e Inferno do Kurosawa e não dar crédito já é bem questionável. Mas fora isso, o filme é surpreendentemente mal dirigido... Fazia tempo que não via cenas tão desengonçadas que só de extrair um clipe de alguns segundos você já tem um meme pronto. Este é o primeiro grande projeto de Affleck depois que ele se associou à Netflix e se posicionou como um pioneiro na implementação da IA no cinema. O lado bom de o filme ser ruim neste nível é que isso sugere que não será tão fácil assim para a IA camuflar as limitações do artista. No fim, a qualidade de uma obra acaba sendo moldada por quem olha para cada resultado no processo de produção e diz: “isto está bom o bastante”.


Verity (2026 / Michael Showalter) ★★

O filme tem um set-up divertido e uma estética que nos remete a suspenses dos anos 90 — o casting, a fotografia, as locações, tudo é glamouroso e tinha potencial para resultar em algo como Louca Obsessão ou até clássicos mais antigos como Rebecca, a Mulher Inesquecível. Mas, como de costume, o roteiro do filme é seu calcanhar de Aquiles. A produção é praticamente arruinada por comportamentos artificiais e reviravoltas que parecem ter sido escritas por uma criança de 10 anos. Tenho frequentemente a impressão de que o QI médio dos roteiristas de Hollywood despencou uns 30 pontos nas últimas décadas. Verity é mais um caso do Idealismo tentando fazer um comeback, mas não conseguindo direito por deficiência no Fator G.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Digger

O filme basicamente pega o modelo de Dr. Fantástico de sátira política sobre o fim dos tempos e o usa de forma mais partidária para denunciar o capitalismo, promover pautas de esquerda, no espírito de Uma Batalha Após a Outra e Não Olhe Para Cima. O fato de eu discordar das mensagens do filme, por si só, não me faria reprová-lo totalmente. Só que algumas coisas que estão conectadas ao fato do filme ser ideológico e ter as ideias que tem acabam prejudicando Digger enquanto filme.

1º) O grande perigo que o mundo corre aqui, em vez de algo crível, com precedentes na história recente, como a guerra nuclear de Dr. Fantástico, são geleiras gigantes que se desprendem do Ártico e supostamente podem inundar boa parte da Europa ao se chocarem contra o continente. Ainda que isso seja cientificamente possível, o que eu duvido, uma geleira boiando lentamente conseguir causar tsunamis apocalípticos é algo tão difícil de visualizar que nem o filme mostrando uma simulação em 3D eu consegui entender a mecânica da coisa. O cinema já inventou incontáveis formas de destruir o planeta; umas mais realistas que outras, mas acho que nenhuma até agora foi tão anticinematográfica. Isso tira boa parte do senso de urgência da história.

2º) Outro problema é o fato de o filme odiar seu protagonista. Digger não é um personagem, e sim uma caricatura, um boneco de Judas para o espectador descarregar seu desprezo. Outro dia assisti ao filme da Netflix sobre o Unabomber, e fiquei pensando que o que tornou o filme interessante pra mim foi o fato de o personagem, apesar de ser um psicopata, não ser desprovido de traços admiráveis. Mas para Iñárritu, pelo visto, republicanos e bilionários são tão abomináveis que não é apropriado dar a eles uma faceta atraente, como faríamos com Unabomber, Hannibal Lecter, etc. Tudo bem que Digger está mais para uma comédia, em que a ideia não é admirar as pessoas na tela. Mas mesmo protagonistas de comédias precisam ter algum traço gostável, uma inocência por trás de suas tolices. O humor aqui é baseado em puro desprezo, na "diversão" de zombar de um perfil de cidadão associado à direita, não em sacadas realmente cômicas (é um pouco decepcionante que Tom Cruise, que parece ter ideias melhores que as do filme, seja produtor e tenha aceitado interpretar o papel). O filme chega ao cúmulo de tornar o câncer de cólon do "Trump" da história um alvo de piadas. Há também uma atitude duvidosa de transformar a pele branca dos personagens em motivo de insulto — todo mundo é tão exageradamente pálido no filme que você não consegue evitar de pensar que há um julgamento moral nisso, quase como uma resposta ao blackface.

Há um artifício engenhoso na narrativa que pode fazer alguns argumentarem que tudo bem o bilionário ser detestável, pois ele não é o verdadeiro protagonista da história. Mas isso seria quase como dizer que o protagonista de O Resgate do Soldado Ryan não é o personagem do Tom Hanks, mas o velho no cemitério que abre e encerra o filme. O personagem que mais precisa ser gostável não é aquele que, hierarquicamente, é o mais relevante no contexto da história — é a figura para a qual o espectador vai ficar olhando a maior parte do tempo.

O tal artifício narrativo é a coisa mais ousada e original do filme — Iñárritu corre um sério risco de perder o espectador, e de fato o perde por um trecho considerável do filme, mas milagrosamente consegue recuperá-lo até o final. Pra ser sincero, apesar da ideia boba do desastre, o filme é bem mais inteligente do que a média dos filmes que se passam por inteligentes hoje em dia — talvez até por causa disso não tenha virado unanimidade. Acho que ele irá resistir ao teste do tempo e ganhar mais prestígio ao longo dos anos. Não porque a mensagem se provará verdadeira, mas porque formalmente — se você conseguir ignorar o ativismo — ele é muito bem feito. Há pelo menos dois monólogos brilhantes e duas reviravoltas bem arquitetadas que tornam o filme digno de ser revisto. O conjunto da obra é um caso misto. Não achei o humor engraçado, a mensagem convincente, o protagonista interessante, mas há estímulo intelectual e excelência técnica o bastante pra torná-lo uma experiência no mínimo memorável.

Digger / 2026 / Alejandro G. Iñárritu

★★★

domingo, 20 de setembro de 2026

Resident Evil

O filme é bem produzido, visualmente interessante, e quem é fã do jogo talvez goste da maneira como o diretor traduziu a experiência para a tela grande. Para o resto, a história não tem o mínimo de plausibilidade pra envolver por si só — não estou falando de os monstros não serem plausíveis, mas de toda a sequência de acontecimentos não ter pé nem cabeça, uma vez que você aceita a premissa. O protagonista só precisa ir de ponto A para ponto B para fazer uma entrega, e o roteiro fica inventando uma série de contratempos sem sentido para atrasá-lo ou desviá-lo do caminho, permitindo que novos set-pieces de terror aconteçam. A maior parte do filme, por exemplo, se passa em uma montanha nevada pela qual Bryan tem que passar dirigindo para chegar ao hospital. Fiquei o tempo todo me perguntando por que um hospital importante seria construído num local tão inacessível que parece que a qualquer dobra da estrada você vai se deparar com o Hotel Overlook. 1 hora filme adentro, descobrimos que o hospital na verdade não fica naquele local isolado, mas em uma cidade de porte razoável, com infraestrutura, que certamente tem mais de uma rodovia de acesso. Por que Bryan então passou a maior parte do filme naquele lugar assustador? Simples: porque o cenário seria cool para um filme de terror.

Mais tarde, descobrimos que aquilo que Bryan tem que entregar no hospital é o único antídoto capaz de brecar o surto de zumbis e possivelmente evitar o apocalipse. Boa sorte tentando entender por que algo tão importante e urgente foi colocado nas mãos de um entregador desmiolado que trata o pacote com menos cuidado que um motoboy do iFood numa sexta à noite.

As regras do universo são mal estabelecidas, tornando tudo fácil pro roteirista: um infectado pode se comportar de maneira amigável, de repente ficar agressivo sem nenhum motivo, parecer morto ou ressuscitar sempre que conveniente, e as mutações genéticas aparentemente são tão potentes que conseguem criar uma suspensão das leis da física: um cachorro pode abrir a boca e soltar tentáculos com o triplo do volume do animal inteiro, o estômago de um homem pode comportar 500 litros de ácido, etc.

O pior de tudo é o uso de humor, que transforma o filme numa grande fraude. Se você entra no cinema pela fantasia, pelo horror, para ser transportado para o universo da história, a comédia estará o tempo inteiro quebrando a ilusão e te relembrando que aqueles são apenas atores em situações de mentirinha. Caso interpretemos o filme como uma comédia de fato, ainda seria o tipo de comédia que pra mim não tem graça, em que você ri das trapalhadas do protagonista não por serem nonsense, gags bem elaboradas, mas porque você se identifica e pensa: "ele é um loser sem qualquer virtude, assim como eu".

A única hora em que o filme se permite ser sério é durante as ligações entre o "herói" e a namorada, em que eles discutem dramas de relacionamento, responsabilidades, e algumas frases sobre aborto são jogadas pra tentar dar profundidade ao roteiro. Nesse momento, Resident Evil mostra que tem vergonha do próprio gênero. Ele é capaz de tratar com dignidade temas mais realistas, "humanos", o sofrimento do homem comum, mas não aquilo que é divertido, escapista e que o espectador pagou para ver.

Resident Evil / 2026 / Zach Cregger

★½

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Cultura - Setembro 2026

16/9 — Invasores de Marte (Invaders from Mars / 1986)

Esse filme é a melhor prova de que Spielberg dirigiu Poltergeist, não Tobe Hooper. Antes eu achava que Spielberg tinha apenas ajudado Hooper, dado alguns toques ao longo da filmagem, mas hoje já vejo Poltergeist como um filme 100% do Spielberg. Invasores de Marte deixa isso claro porque é um filme tentando desesperadamente ser algo como Poltergeist, E.T. e Contatos Imediatos — e falhando miseravelmente. É como se o produtor Menahem Golan tivesse tido a ideia de fazer um filme comercial imitando o estilo de Spielberg, que estava em alta na época, e contratado Tobe Hooper acreditando que ele tinha dirigido Poltergeist. Agora, Hooper tinha que provar uma capacidade que não tinha e fazer mais um Poltergeist, só que sem Spielberg — como alguém que mentiu no currículo e é colocado à prova. Assim como Congo (1995), que discuti em maio, esse é mais um bom caso para estudar boa vs. má direção.

domingo, 6 de setembro de 2026

Setembro 2026 - outros filmes vistos

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2 / 2026 / Susanne Bier) ★★

Não tenho nenhuma nostalgia especial em relação ao primeiro filme (o que mais me recordo é que os cabelos da Sandra Bullock e da Nicole Kidman estavam lindíssimos e volumosos). Já na época achei a direção e o roteiro fracos, e o tom era menos Idealista do que gostaria (a influência da cultura alternativa dos anos 90 já estava atingindo os filmes mainstream em cheio em 98). Esta continuação achei ligeiramente inferior, porque além de não ter o fator novidade, o filme parece sem energia, entusiasmo — mais ou menos como O Diabo Veste Prada 2 me pareceu meio "murcho", com um humor mais tímido do que o original. Sandra Bullock e Nicole Kidman ficam numa posição meio mal resolvida, em cima do muro — querem em parte assumir o papel secundário das "tias velhas", dando espaço para a nova geração, mas ao mesmo tempo querem parecer jovens e reprisarem o que fizeram no primeiro filme. Nenhuma das duas coisas acaba sendo realmente empolgante. A trama também não faz muito sentido. As duas passam boa parte do filme em uma jornada física para encontrar a filha de Bullock, simplesmente porque esta decide que não vai atender o celular. Por fim, o tom continua menos Idealista do que eu gostaria. Toda a aventura e a magia servem mais de fachada para a verdadeira essência do filme, que é uma história sobre traumas, cura de feridas, sacrifícios etc.


Mayday (2026 / John Francis Daley, Jonathan Goldstein) ★★★

Buddy comedy mais ambiciosa do que se poderia esperar, considerando que é um lançamento de streaming. Tenta apelar para o público que gostou de Top Gun: Maverick e sente falta de um certo americanismo no cinema — quem está por trás da produção é David Ellison, CEO da Paramount Skydance, que também produziu Maverick.

O lado cômico às vezes parece forçado — o filme torna escrachados momentos em que um humor mais sutil combinaria melhor com a situação — mas há uma história interessante o bastante para que ele não dependa totalmente das risadas pra funcionar. Não é grande coisa, mas é aquele tipo de filme "nota 6" que eu digo que anda em falta: despretensioso, mas com certa personalidade, que se esforça pra entregar um entretenimento decente e não parece feito no piloto automático, de forma preguiçosa, como tanta coisa que hoje chega até aos cinemas.

domingo, 30 de agosto de 2026

Agosto 2026 - outros filmes vistos

Coyote vs. Acme (2026 / Dave Green) ★★★

O grande destaque aqui é o fato do roteiro ser mais inteligente e criativo do que se espera de um filme do gênero, acrescentando uma dimensão mais adulta sem que isso subverta o tom de entretenimento familiar. Não achei o humor tão bom quanto o de Tico e Teco: Defensores da Lei, mas é decente e dá para traçar paralelos entre as propostas dos dois filmes. O que mais me incomodou foi a militância anticapitalista mais pro final, que me deixou até pensando se esse não teria sido um dos motivos para o filme quase ter sido enterrado pelo estúdio. Pelo menos não é algo que pareça gratuito, que arruíne o tom leve ou surja desconectado de funções narrativas — é a forma artisticamente decente de inserir ideologia em um filme.


Ponto Sem Retorno (The Dog Stars / 2026 / Ridley Scott) ★★

A história viola vários dos princípios narrativos que eu defendo. Como em muitos filmes pós-apocalípticos, há muito pouco de positivo a se esperar aqui. A grande dúvida do personagem é: será que o mundo já se tornou horrível o bastante para eu cometer suicídio ou ainda resta um mínimo de coisas positivas pelas quais vale a pena continuar sobrevivendo? E é por esse mínimo que você “torce” ao longo do filme, sem a expectativa de uma transformação realmente positiva para os personagens.

Também falta um bom gancho narrativo. O protagonista parte em uma jornada episódica em busca de um lugar melhor pra viver, sem muita perspectiva de sucesso, e no meio do caminho precisa lutar contra gangues hostis e consertar coisas depois que acidentes aleatórios acontecem. Não é uma história sobre conquistar positivos, mas sobre combater negativos pra que a situação ao menos permaneça num nível de ruindade parecido com o do início e não caia pra um nível ainda pior.

Apesar da produção bonita e do cenário de aventura, é basicamente um drama psicológico sobre um homem quebrado aprendendo a seguir em frente. As cenas de ação acabam parecendo super forçadas e desnecessárias, como se o roteiro originalmente imaginasse uma produção intimista, feita direto pra streaming, e alguém tivesse decidido de última hora contratar o Ridley Scott e dar ao filme um tratamento mais grandioso.

A Última Casa (The Last House / 2026 / Louis Leterrier) ★★

O Fim da Rua (The End of Oak Street / 2026 / David Robert Mitchell) ★★½

A Última Casa e O Fim da Rua são dois lançamentos desse início de agosto que tentam emular os filmes do Spielberg dos anos 80 e 90. A história de ambos envolve uma família normal, vivendo tranquila em uma casa no subúrbio, até que um fenômeno sobrenatural acontece e o bairro é invadido por criaturas de outro mundo.

As cenas abaixo homenageiam (ou copiam?) E.T.: nas três, durante a refeição, algum membro da família relata ter visto algo estranho no dia anterior, e os outros comentam de maneira cética, tentando dar explicações mais plausíveis.


Nenhum dos dois filmes é muito bem-sucedido na tentativa. A Última Casa é mal dirigido e mais "corrompido" em tom (se torna um filme sobre confinamento, sobrevivência e dramas familiares). O Fim da Rua é melhor realizado e mais focado na diversão. Mas o roteiro de ambos deixa a desejar — não só quando comparados aos clássicos de Spielberg, mas até em relação aos blockbusters mais rotineiros daquele período (nenhum se esforça, por exemplo, para dar uma explicação minimamente inteligente para o fenômeno sobrenatural).

O bom sinal é que estreias como essas reforçam a impressão de que a indústria voltou a flertar com o Idealismo em 2026. Referências a sucessos dos anos 80/90 nunca morreram, mas antes havia sempre uma tentativa de reformá-los, tornando-os mais cínicos para os tempos modernos. Agora, tenho visto alguns artistas atenuando o cinismo, a subversão, e tentando voltar a uma forma mais honesta de entretenimento.

O desafio é que uma mudança em intenção e tom emocional ainda não é o bastante — falta recuperar a técnica e a rede de talentos que foram perdidas nos últimos 15 anos (especialmente os bons escritores).

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cultura - Agosto 2026

27/8 — Nova versão do livro

Ando focado na tradução do livro para o inglês, que na verdade será praticamente uma nova versão, pois não só estou incluindo várias ideias que só elaborei depois da primeira edição (Ganchos e Recompensas, Densidade Criativa, Arquétipos, Complementaridade, paralelos com Aristóteles etc.) como estou alterando bastante o tom da escrita, focando nos princípios positivos do Idealismo que possam ser úteis para o leitor, e menos nos ataques aos "maus artistas" e "maus espectadores".

3/8 — Nolan vs. Autoestima

Trecho de uma entrevista recente com Nolan sobre A Odisseia:

Entrevistadora: Vivemos em uma época que exige que a nobreza ("greatness") peça perdão. Quando retratamos a nobreza, nós desviamos dela, a tratamos como privilégio e exigimos que ela peça desculpas. É um fato sobre Hollywood. Me pergunto como você aborda a nobreza. Ainda é uma história de pedido de perdão, que exige arrependimento, reflexão e autocrítica?

Christopher Nolan: Como um contador de histórias, você está sempre em diálogo com as expectativas da plateia. Temos que ter consciência da energia que a plateia traz para a história e da intersecção entre nossa intenção e a maneira como a plateia a recebe. Falando de forma simples: você tem que tornar o personagem gostável. Então nos perguntamos: iremos tratar a nobreza como um absoluto? Ou, vindo do contexto filosófico mais idealizado e democrático em que vivemos hoje, em que queremos ver as pessoas como sendo iguais, precisamos pedir desculpas por essa nobreza? E a resposta é: sim, precisamos, ou então a plateia rejeita a nobreza.

Nolan fala como se esta fosse uma regra universal para qualquer contador de histórias hoje, ignorando que há filmes de sucesso que não corrompem seus heróis como um pedido de perdão (os blockbusters do Tom Cruise, por exemplo). Mais correto seria ele dizer: "Para agradar o tipo de público que eu acho importante e para receber os prêmios da crítica que eu acho importantes, sim, precisamos pedir desculpas pela nobreza."

Para entender como lidar, no Idealismo, com essa relação entre virtudes e vulnerabilidades, recomendo os textos O que torna um personagem gostável? e Complementaridade: Por que o herói tem que ser incompleto. 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Achei apenas mais um filme-salsicha corporativo feito por comitê. Gostei do Tom Holland, algumas cenas de ação do Homem-Aranha saltando entre os prédios são visualmente empolgantes, mas me parece que os filmes da Marvel considerados bons hoje (como este) não são aqueles que apresentam algo realmente extraordinário, mas aqueles que têm a "virtude" de não terem algo tosco ou controverso que revolte o público — os que parecem normais, bem executados e fieis ao tom/estética esperada. Mas se você ignora esta barra estabelecida pelo estúdio e vai apenas esperando ver uma boa história, o filme é uma bagunça.

Pra começar, a narrativa é conturbada e confusa para quem não tem um guia do lado com tudo o que já aconteceu antes no universo Marvel. Pros espectadores mais apegados a lógica e causalidade, como eu, o universo amorfo, sem identidade, onde esses filmes costumam se passar, também torna tudo frustrante de acompanhar. Além dessas coisas que tipicamente me incomodam no gênero — como o protagonista altruísta que não tem motivações convincentes para trabalhar de segurança da cidade — algumas coisas desse capítulo não funcionaram direito pra mim. Por exemplo: em um filme solo do Homem-Aranha, acho fácil comprar o conceito de sua identidade precisar ser secreta (assim como a de Superman). Mas quando você está em um universo onde existem diversos outros super-heróis, nenhum deles com essa mesma questão, essa necessidade de guardar segredo parece menos vital — e todo o drama central de Um Novo Dia se baseia nisso. Outro atrativo do roteiro envolve os "novos poderes" do Homem-Aranha, que agora começa a soltar teias orgânicas do próprio braço e a ter instintos aguçados de aranha... Mas isso é apenas um upgrade nos poderes que ele sempre teve. No 4º filme, não há mais como repetir o senso de novidade de uma história de origem. Fica a sensação de uma franquia que já foi explorada à exaustão e agora não tem mais o que fazer, a não ser apagar a memória de personagens estratégicos e dar um reset em coisas que já aconteceram antes pra poder recontar a mesma história de sempre. Uma tática do filme pra tentar fugir da mesmice é introduzir um personagem surpresa do universo Marvel, só que esta sub-trama fica parecendo o primeiro ato de um filme separado que resolveram enfiar em Um Novo Dia, não algo que enriquece o próprio filme do Homem-Aranha.

Pra nós "antiquados", que, em um filme de super-herói, esperamos ver habilidades admiráveis, indivíduos evoluídos, há muito pouco aqui também que deixe um senso de inspiração: Homem-Aranha está sempre em conflito com seus parceiros (bem e mal estão sempre se misturando, trocando de posição) e passa o filme inteiro caindo, falhando, ganhando hematomas, agindo como um aprendiz, dando a impressão de que a única coisa que o torna "super" mesmo é o acidente genético.

Spider-Man: Brand New Day / 2026 / Destin Daniel Cretton

★★

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Benevolência como valor fundamental

Recentemente vi um influenciador exaltando A Odisseia (2026), e dizendo que ficou embasbacado com Agamemnon. Achei estranho, pois o personagem não faz nada de memorável na história. Fiquei com a impressão que a armadura e sua presença visualmente imponente foram suficientes para encantá-lo. Esse influenciador em particular é fascinado por tudo que projeta masculinidade, força física e poder — ele provavelmente tem o arquétipo do Guerreiro como seu mais essencial. Pessoas assim me intrigam porque o Guerreiro é um dos arquétipos menos importantes pra mim enquanto espectador. Se eu pegar a lista dos filmes mais populares de todos os tempos, terei visto a maioria, mas os maiores buracos no meu repertório (consequência da minha preguiça de vê-los) serão filmes como os do Bruce Lee, Jackie Chan ou mesmo a série James Bond — ou seja, filmes de tiro, luta, cheios de testosterona, que não são famosos por serem bons como filmes, mas que atendem às necessidades de seu público-alvo.

Ter consciência desse tipo de espectador é útil pra mim, pois me ajuda a refletir sobre os meus vieses e a evitar ser totalmente cegado por eles.

No meu caso pessoal, o valor da Benevolência, representado pelo arquétipo do Idealista/Inocente, é o mais fundamental emocionalmente, pelo menos como espectador (o que eu projeto como cidadão ou criador não é necessariamente a mesma coisa). Se você quiser realmente me entender, e entender minha relação com a cultura atual, esta é a qualidade-chave. Posso gostar de uma variedade de coisas, mas aquelas pelas quais sou mais atraído terão sempre um toque de inocência. Admiro Kubrick imensamente, mas meus heróis do entretenimento são figuras como Walt Disney, Steven Spielberg e Michael Jackson, por terem celebrado a "criança interior" de forma épica na nossa cultura.

Ter esse tipo de qualidade como um valor essencial pode trazer vários desafios hoje. Não só por este ser um valor tradicionalmente associado às crianças e, às vezes, às mulheres, sendo frequentemente desvalorizado quando suas características se manifestam em homens ou adultos, mas também por ser um valor renegado pela cultura atual (o que não era o caso nos anos 80 ou 90, por exemplo). Como discuti no texto sobre Arquétipos, toda era escolhe alguns arquétipos que irá respeitar, e coloca outros de "castigo". Atualmente, o Idealista/Inocente está de castigo. Isso cria a impressão de que esses valores só são apropriados para crianças, mulheres tolas, tempos remotos ou para a fantasia. Nunca para homens, adultos, capazes, hoje. Se minha "incompatibilidade" com o entretenimento atual parece estranha, mais radical até do que seria razoável, parte disso tem a ver com o fato de eu ter a Benevolência como um valor indispensável.

Sim, o Idealismo (teoria estética) depende de uma combinação dos quatro Pilares para ser completo e, quando algo projeta Benevolência isoladamente, mas não Autoestima, Objetividade etc., eu não me sinto realmente inspirado, ainda que possa haver uma leve identificação. Ainda assim, é um fato que existe uma preferência pessoal, um "viés" emocional na direção da Benevolência, que pode ser útil que vocês que me acompanham entendam. Quando os quatro Pilares estão presentes, posso apreciar cada um deles. A Objetividade é a ponte que me permite compreender e respeitar necessidades diferentes da minha. Mas, quando os outros valores unem forças para enfatizar Benevolência em particular, é quando eu me sinto mais inspirado. Por outro lado, sua ausência é praticamente garantia de distanciamento emocional.

Da mesma forma que o influenciador que citei anteriormente pode cair no erro de aclamar algo simplesmente por projetar o Guerreiro em um nível superficial, eu, se não tomasse cuidado, poderia cometer o erro de aclamar algo que projete o Idealista/Inocente de forma superficial e desequilibrada. Da mesma forma que posso menosprezar "filmes de lutinha" quando são pobres artisticamente e oferecem apenas testosterona de forma irracional, tenho que ter consciência de que, para uma pessoa com necessidades diferentes das minhas, as coisas que me encantam podem soar infantis, ingênuas e refletir uma "Síndrome de Peter Pan", se não estiverem equilibradas com outras qualidades. (Geralmente, o que se chama de guilty pleasure é algo que satisfaz apenas uma necessidade arquetípica básica, mas de forma pobre, desequilibrada, ignorando outras virtudes indispensáveis — o Chuck Norris de uns vira o meu High School Musical.)

A diferença é que a sociedade não rejeita igualmente todas as necessidades arquetípicas em cada época. No momento, por exemplo, o Guerreiro (assim como o Realista, o Governante ou o Revolucionário) é mais respeitado do que o Idealista/Inocente. O Guerreiro, até em suas versões desequilibradas, tóxicas (pense em líderes da "machosfera"), consegue ter impacto cultural e receber aplausos. Portanto, alguns arquétipos têm mais incentivo para se expressar desavergonhadamente do que outros. Claro, a versão imatura de qualquer arquétipo será sempre um alvo fácil e se sentirá frequentemente rejeitada. E a versão mais evoluída sempre terá caminhos mais abertos e espaço para ser celebrada. Ainda assim, cada época tem suas preferências, que aumentam ou diminuem resistências.

Quando você sente que vive na época errada, a ânsia por uma transformação cultural não é só o desejo de ter coisas melhores para consumir, é também a ânsia de viver em uma sociedade que acolha e celebre, em vez de condenar, aquele valor essencial que você carrega dentro de si. Por isso é importante para esse perfil de pessoa ("kids at heart") ter consciência da origem de seu senso de inadequação. Quando ela não tem consciência, a tendência será reprimir suas necessidades, ou distorcer sua própria identidade para poder expressá-la de maneira socialmente adequada (ou menos condenável): se refugiando na infância, no feminino, no passado ou na fantasia.

Na postagem sobre os 4 Pilares do Idealismo, descrevo Benevolência da seguinte forma:

"A experiência de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. De acreditar que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas a serem combatidas e superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia ser..."

Vendo por esta ótica, não há nenhuma razão pela qual este sentimento deva ser relegado a crianças ou à fantasia. Ele não ignora que a vida tem dificuldades, ou que a vida adulta envolve responsabilidades. Pode não ser uma necessidade fundamental para todas as pessoas, mas é tão natural quanto qualquer outra necessidade arquetípica básica, e deve ser honrada por aqueles que se identificam com ela.

Por isso, convido vocês a refletirem sobre suas necessidades arquetípicas fundamentais. Elas são aceitas pela cultura atual? Você consegue expressá-las livremente? Que estratégias talvez esteja adotando para não ser julgado? E você está satisfazendo suas necessidades de forma equilibrada, evitando a sombra do arquétipo? De que formas você pode tornar suas necessidades mais maduras e menos incompatíveis com as de pessoas diferentes de você?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cultura - Julho 2026

23/7 — Eu Sou o Rocky

Gosto mais da história por trás de Rocky - Um Lutador do que do filme em si. Eis que resolveram fazer um filme sobre a gênese do longa e, pelo trailer, Eu Sou o Rocky promete ser um hit de viés Idealista no fim do ano. Stallone foi explícito na época ao dizer que seu filme era uma resposta ao estado do cinema dos anos 60 e 70, o que pode tornar a mensagem do filme oportuna hoje.


23/7 — O público quer filmes "reais"

Parece que estamos em um momento em que as sequências, reboots e filmes industrializados carregados de CGI estão finalmente dando prejuízo, enquanto filmes que vão na direção oposta têm se destacado justamente por isso. Por um lado, é bom ver que as forças do mercado funcionam. Por outro, é frustrante notar que elas costumam estar sempre pelo menos uma década atrasadas. O que essa matéria da Hollywood Reporter diz sobre o público é o que o espectador mais criterioso já sentia lá no meio dos anos 2010. Mas esse espectador parece não contar muito. É só quando as grandes massas mudam de comportamento — quando o incômodo chega àqueles espectadores que deixam o filme passando na TV enquanto lavam a louça — que o mercado responde, o que pode criar a impressão de que a mediocridade está sempre prevalecendo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Odisseia

História mal contada, diálogos sem inteligência, ação sem lógica, mas tudo apresentado através de imagens imponentes e uma mixagem de som que faz você descobrir que é possível ser estuprado pelos ouvidos. Há 20 anos que acho Nolan um mau cineasta — especialmente um mau roteirista — mas essa é a primeira vez que ele adapta uma história clássica com a qual eu já tinha certa familiaridade, e ver como ele lida com uma trama conhecida só me fez ter uma visão mais clara de suas inaptidões: a maneira como a não-linearidade e a fragmentação da história são usadas para camuflar falta de domínio narrativo e temático, como o realismo e o tom sombrio viram muletas para fazer um roteiro tolo soar sério, etc. A ruindade dos diálogos (cheios de exposições forçadas e toques anacrônicos) pra mim pareceu ainda mais gritante, pois acabei de rever Troia (2004), que é cheio de falas brilhantes e fica parecendo Shakespeare em comparação.

Pra ilustrar algumas dessas minhas críticas, pegue os set pieces de ação, por exemplo. Em outras versões de A Odisseia que assisti, não tive problema nenhum em aceitar a lógica das táticas de Odisseu para superar os monstros e obstáculos da jornada. Mas agora, detalhes estranhos tornaram muitas das cenas forçadas, ilógicas ou simplesmente confusas: a fuga da gruta do ciclope não parece mais baseada em uma série de sacadas brilhantes de Odisseu; o Cavalo de Troia não tem mais rodas, ficando inconveniente de transportar e perigoso para quem está dentro; parece haver outros caminhos para o navio evitar o redemoinho, em vez de uma geografia que os força a escolher entre o redemoinho de um lado e a Cila do outro... Outros detalhes também tiram credibilidade: Atena (que não tem muito mais utilidade na história) não transforma Odisseu em mendigo quando ele chega em Ítaca, o que torna forçado Matt Damon dialogar por horas com as pessoas com o rosto coberto para não ser reconhecido. Depois, quando ele tem que lutar contra os pretendentes de Penelope, há tantos adversários que a luta se torna inacreditável, até porque Matt Damon não está com um grande porte físico e a má coreografia o torna meio ridículo em alguns momentos. Em Ulysses (1954) e na minissérie A Odisseia de 1997, essa sequência é dirigida de forma que não parece absurdo o herói derrotar os homens sozinho. Quanto a Helena de Troia — meu problema com o casting da Lupita Nyong'o não é o fato dela ser negra, mas o fato de não ter o tipo de beleza óbvia e lendária que "lança mil navios", criando mais um toque de artificialidade.

Embora A Odisseia tenha um formato episódico, que normalmente torna filmes arrastados, algumas adaptações anteriores conseguiram contornar isso criando um enorme suspense em relação a Penelope e os pretendentes. Víamos primeiro como era a vida do casal antes da partida de Odisseu, como eles tinham um lar ideal em Ítaca, e como tudo vai sendo degradado com o tempo pelos pretendentes (como quando Scar sobe ao poder em O Rei Leão). Isso criava um gancho que tornava a jornada de Odisseu super envolvente. Aqui, não vemos como as coisas eram antes para poder comparar, portanto não há mais a mesma sede de vingança nem senso de urgência pelo retorno de Odisseu (a narrativa não-linear também ajuda a diluir a tensão, minando este gancho da história).

Outro atrativo de uma obra como A Odisseia é o potencial de escapismo — aquilo que torna os clássicos do Ray Harryhausen encantadores de ver. Mas o estilo de Nolan é incompatível com esse tipo de escapismo — sua seriedade não combina com os ingredientes mais fantasiosos da história, que exigiriam uma abordagem mais leve. Na tentativa de tornar bruxas e gigantes coisas sérias, adultas, ele acaba eliminando muito da magia. O resultado é aquele meio do caminho entre o naturalista e o fantasioso que tornava certas cenas da trilogia Batman esquisitas — quando estávamos numa sala realista, cheia de homens comuns, e de repente um adulto fantasiado de morcego entrava pela porta.

"Ah, se é tão ruim assim, como Christopher Nolan é o diretor mais bem-sucedido do século 21?". Acho que ele é muito bom em criar uma aura de poder, autoimportância, autoridade, o que parece ser irresistível para muitas pessoas. Meu problema não é com esses valores em si, mas com o fato dele projetar apenas esses valores (ter pouca versatilidade), e projetá-los em um nível sensorial, driblando o cérebro do espectador. Sua autoridade vem muito mais de gimmicks como rodar o filme em IMAX 70mm e escalar 10 dos atores mais bem pagos de Hollywood do que de suas reais competências. Nolan não saberia fazer o coração do espectador disparar no clímax da história com base em seu controle narrativo, mas junto com sua equipe de som, ele consegue desenvolver um batuque atordoante que, por meios fisiológicos, não duvido que acabe provocando uma taquicardia em alguém. É uma forma frágil de poder — e em alguns aspectos, seus filmes recentes têm falhado até em demonstrar o tipo de potência testosterônica superficial que seus fãs respeitam. Assim como a explosão de Oppenheimer foi decepcionante, o herói de A Odisseia nunca parece um guerreiro tão poderoso quanto deveria, e as cenas grandiosas do filme são tímidas se comparadas às multidões de Troia (2004). Admiro grandes feitos, mas Nolan é muito mais sobre uma pretensão de grandiosidade do que sobre grandiosidade de fato (o que por algum motivo me fez sair da sessão pensando em Trump e no dom de ambos de forjar esse tipo de autoestima sem lastro que encanta multidões).

The Odyssey / 2026 / Christopher Nolan

★½

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Julho 2026 - outros filmes vistos

O Convite (The Invite / 2026 / Olivia Wilde) ★★½

Uma "comédia inteligente" que não achei nem engraçada nem particularmente inteligente. O humor é do tipo Naturalista, baseado nos constrangimentos cotidianos das interações sociais (das classes mais altas, pelo menos). E a situação central me pareceu boba demais. Se os personagens do Seth Rogen e da Olivia Wilde fossem mais antiquados ou extremamente religiosos, o contraste com os vizinhos talvez rendesse boas risadas. Mas eles não parecem em nada o tipo de pessoa que ficaria chocada ao ser convidada para uma orgia. Parece o tipo de humor ultrapassado que você veria em uma comédia da Globo Filmes estrelada pela Ingrid Guimarães, e não na comédia sofisticada e cosmopolita que Olivia Wilde aparentemente pensa estar fazendo.


Moana (2026 / Thomas Kail) ★★

Um remake ainda menos necessário que o de costume. Primeiro porque o original não é antigo o bastante pra justificar uma nova versão; segundo porque a história foi mantida praticamente idêntica. O que funcionava na animação continua funcionando aqui, e o que não funcionava continua não funcionando. O frustrante é que há tanto CGI e fundo verde que em muitos momentos você nem sente os benefícios de estar vendo um live-action. Se houvesse um esforço para recontar a história em cenários reais, poderia haver um ganho em termos de fotografia e imersão visual. Mas do jeito como foi feito, é quase como rever o mesmo filme, apenas com gráficos mais realistas.

Se houve alguma melhora, diria que Catherine Laga'aia torna a heroína um pouco mais simpática e atraente do que na animação. Tive essa mesma impressão em Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão — talvez porque live-actions evitam certas tendências da animação moderna que reforçam o fenômeno do "herói envergonhado".

sábado, 27 de junho de 2026

Junho 2026 - outros filmes vistos

Citizen Vigilante (2026 / Uwe Boll) ●

Nunca tinha visto nada do Uwe Boll e não sei nada sobre ele... Pelo que entendi, sua fama vem do fato dele ser um diretor B muito ruim, desses que apelam para o trash e o sensacionalismo para cultivar um certo público, tipo um Ed Wood ou Roger Corman da direita. Eu nunca gostei desse tipo de coisa. Os filmes "ruins" que eu gosto são aqueles onde muitos elementos da obra são competentes, onde há uma boa intenção, mas alguma falta de noção do diretor gera incongruências e torna tudo meio cômico. Citizen Vigilante já é tosco em quase todas as dimensões, mostra um nível de amadorismo raro em lançamentos comerciais, o que pra mim é simplesmente tedioso e meio deprimente de ver. 

Além da ruindade na forma, o conteúdo do filme é igualmente péssimo... Propaganda ideológica explícita costuma estragar filmes até quando as ideias são boas. Mas aqui, o filme nem finge estar promovendo ideias decentes. Temos um homem revoltado com a sociedade que resolve sair por aí assassinando dezenas de pessoas, algumas das quais ele mesmo sabe que não são culpadas — e tudo isso é mostrado como se ele fosse um visionário, alguém cool, sexy, exemplar. Em muitos filmes ideológicos de esquerda, como Uma Batalha Após a Outra, há pelo menos uma tentativa (ainda que equivocada) de fazer a violência parecer moralmente defensável, e os revolucionários são mostrados de forma moralmente ambígua, evitando uma romantização completa de suas ações. Citizen Vigilante — que apela para a extrema-direita — é pior do que qualquer filme de esquerda que eu já vi: não só ele glamuriza o protagonista, como parece ter orgulho de seus atos não serem moralmente justificáveis.

Não acho que Uwe Boll de fato defenda tiroteios em massa ou anarquia completa. O mais provável é que ele seja apenas um oportunista que aprendeu com certos influenciadores na internet que falar coisas chocantes, imorais e até ilegais pode render muitos clicks, especialmente se seu alvo for a esquerda. É um vale-tudo por atenção e dinheiro que faz as franquias modernas dos grandes estúdios parecerem alta cultura em contraste.


Supergirl (2026 / Craig Gillespie) ★★

Daria pra ficar destrinchando várias fraquezas pontuais do filme: a subversão da heroína, a motivação boba para a ação (buscar o antídoto para o cachorro), as energias mágicas que convenientemente enfraquecem ou empoderam a protagonista conforme as necessidades do roteirista etc. Mas a verdade é que o problema principal aqui é o fato deste ser um filme genérico de estúdio, baseado em fórmulas prontas e guiado por tendências de mercado, o que acaba sendo "bom" por pelo menos um lado: assim como comentei abaixo na postagem de Mestres do Universo, os valores negativos presentes na história aparecem aqui mais por serem clichês modernos — os produtores devem achar que isso é o que vende hoje — do que por uma motivação Anti-Idealista autêntica. Em vez de um filme que empurra o conceito de "herói envergonhado" para novos patamares, fica parecendo apenas mais do mesmo: um filme rotineiro do gênero, que mostra que a ida de James Gunn para a DC nunca foi uma boa solução para a fadiga de super-heróis. O único momento que achei satisfatório é uma cena envolvendo uma espada (polêmica para os altruístas), que infelizmente é desconectada demais do que a heroína faz o filme inteiro para conseguir redimi-la totalmente. No meu mundo, Helen Slater continua sendo a única Supergirl.


Mestres do Universo (Masters of the Universe / 2026 / Travis Knight) ★★★

Assumidamente "Sessão da Tarde" — não é o tipo de filme que pega um material pop e tenta torná-lo artístico — mas é mais decente do que eu imaginava. O grande perigo aqui era o deste "não levar-se a sério" acabar caindo pro lado da autoparódia. Mas diria que em 85% do tempo, o humor do filme é benevolente, não destrutivo. Nem o fato do Esqueleto ser bem-humorado me incomodou, pois em filmes mais juvenis é aceitável o vilão ser semicômico pra história não ficar assustadora demais. Há sim alguns momentos em que o filme apela para o humor cínico estilo Guardiões da Galáxia, onde o heroísmo dos personagens se torna o alvo das piadas. Mas essas cenas acabam parecendo até deslocadas — algo que o filme insere mais pra seguir tendências do que por refletir o real espírito dos autores. Quando você analisa o conjunto da obra — o casting de He-Man, a trilha sonora, a fotografia, as mensagens, etc. — o que marca Mestres do Universo é sua tentativa de se distanciar do entretenimento envergonhado da última década em direção a algo mais honesto.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Toy Story 5

O tablet como ameaça aos brinquedos tradicionais é um ótimo gancho, e eu estava achando o filme impecável nesse primeiro momento, quando o conflito central é estabelecido. Mas depois que Jessie é separada de Bonnie e vai parar na fazenda de sua dona original (a de Toy Story 2), a história se afasta do assunto que nos prendeu inicialmente e começa a criar uma série de contratempos aleatórios para atrapalhar os planos dos personagens e encher linguiça: um personagem se perde do resto do grupo por algum motivo desnecessário, daí inicia-se uma missão de resgate; depois, outro personagem vai parar no lugar errado, e os bonecos passam o filme todo correndo de um canto para outro, enquanto o coração da história — a relação de Jessie com sua dona — fica em segundo plano.

As próprias reflexões sobre tecnologia são mais breves e superficiais do que se poderia esperar. No fim, vira uma história sobre Jessie (que não é das personagens mais gostáveis) ajudando Bonnie a se entrosar socialmente sem sacrificar sua integridade no processo — algo que Divertida Mente 2 fez bem melhor, pois a ansiedade social era o tema central daquele filme.

Os temas de abandono e fim da infância também já foram explorados à exaustão em outros filmes da franquia Toy Story. Assim, ao aproveitar mal a discussão sobre tecnologia, essa sequência acabou ficando sem uma identidade forte, sem um enredo envolvente ou uma mensagem profunda que a fizesse parecer distinta e necessária. A sofisticação típica das produções da Pixar ainda está lá e torna o filme melhor do que a maioria das animações lançadas no ano, mas as peças da história simplesmente não se encaixaram tão bem. 

Toy Story 5 / 2026 / McKenna Harris, Andrew Stanton

★★★

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A Força Gravitacional da Época

Já parou pra pensar que o jeito de você falar não é neutro, mas é moldado pela época em que você está vivendo? No presente, é difícil identificarmos o "sotaque" particular do nosso tempo. Há uma ilusão de neutralidade. Mas quando vemos vídeos de outras décadas, sempre notamos um jeito diferente de falar. Não estou me referindo a gírias ou termos específicos, mas à própria entonação — no início dos anos 90, por exemplo, havia um jeito meio manhoso e cantado de falar que simplesmente desapareceu depois. O "r" dos paulistas dos anos 40 e 50 é totalmente diferente do "r" dos anos 70, e a entonação era mais formal também.

Estou destacando o jeito de falar — em vez do estilo de roupa ou algo mais óbvio — pra mostrar como há inúmeras influências agindo sobre nós das quais não temos consciência.

O mesmo ocorre na arte. Há modismos mais explícitos que caracterizam os filmes de cada época — a trilha sonora, os penteados dos atores — mas há inúmeras outras tendências que parecem apenas ser o "neutro" daquele período. Essas influências podem ser acidentais, definidas por questões puramente técnicas (a mudança da película para o digital, por exemplo, deu uma cara um pouco diferente aos filmes), mas muitas vezes as mudanças são reflexos de valores e crenças dominantes em um período, e vêm com uma carga simbólica que pode ser positiva ou negativa.

É muito difícil, ainda mais no cinema, escapar totalmente da força gravitacional da época em que se vive. Uma das melhores provas disso é o cinema dos anos 70 e como todo tipo de cineasta trabalhando naquele período acabou fazendo "filmes dos anos 70", querendo ou não. Quando você assiste a O Pequeno Príncipe (1974), por exemplo, é difícil acreditar que se trata de um musical de Stanley Donen, responsável por Cantando na Chuva duas décadas antes. Há algo de desconstruído e "hippie" na estética do filme que não remete em nada ao trabalho prévio do diretor. Os filmes de Hitchcock dos anos 70 também ficaram mais realistas, menos polidos visualmente, com atores menos glamurosos nos papéis principais. Os filmes de James Bond mudaram de estética e de tom nessa época, assim como as animações da Disney. Spielberg e George Lucas fizeram alguns "filmes dos anos 70" antes de ajudarem Hollywood a transicionar para uma nova era no final daquela década.

Muito do meu trabalho aqui no blog é tornar visíveis as influências ocultas do atual período nos diversos aspectos dos filmes — casting, caracterização, fotografia, padrões narrativos etc.

Mas minha ideia não é incentivar as pessoas a irem contra todas essas tendências indiscriminadamente. Com o tempo, passei a entender a importância de "dançar conforme a música" em alguns aspectos do trabalho. Assim como pode ser prejudicial sair na rua ou ir a uma reunião vestido de uma forma totalmente incompatível com sua época, criar uma obra de arte que não dialoga em nada com as tendências dominantes irá alienar o espectador desnecessariamente. Se sua ideia é fazer um filme avant-garde, experimental, inovador, não há tanto problema. Mas, se você quer apenas entreter, fazer o espectador embarcar na história, não é interessante que a obra cause estranhamento imediato, antes mesmo de a história começar.

Mas, pra fazer essas concessões sem comprometer a essência da obra, é preciso entender, entre todas essas influências que impactam o filme, quais têm peso estético, emocional ou moral e quais são menos significativas.

Ainda que eu não goste de algumas coisas, como a fotografia menos saturada do cinema moderno ou a luz mais natural/motivada, se eu fosse fazer um filme hoje, estaria disposto a ceder um pouco nessa área para dar ao filme uma cara contemporânea. Tudo o que é sensorial, externo, de absorção instantânea, é mais difícil de ser subvertido sem assustar o público. Quando o filme está "vestido adequadamente" e a embalagem deixa de gerar ruído, o público fica aberto para o conteúdo e para o que o filme tem a dizer. Ou seja: os valores e o conteúdo moral da história já têm mais liberdade para desafiar as tendências da época, pois são processados intelectualmente, de forma mais lenta, e não de forma sensorial e imediata.

Um filme Idealista em uma era como a atual, portanto, não precisaria ter a aparência de um filme feito nos anos 40 ou nos anos 90 (a não ser que esta seja a preferência do artista). Ele pode ter uma aparência geral compatível com o presente (dentro daquilo que é contemporâneo, há sempre variedade o bastante para que você não precise escolher uma opção totalmente incompatível com suas preferências). Num primeiro contato com a obra, o espectador irá pensar que se trata de um filme normal. O "anormal" será percebido em outro estágio — no decorrer da narrativa, ele notará uma racionalidade maior na linguagem, o caráter mais nobre dos personagens, uma visão mais inspiradora de mundo etc.

O grande problema é que a maioria dos artistas não adota apenas a roupagem externa da época em que está vivendo como tática de comunicação e persuasão, mas absorve os valores fundamentais em si, trocando de ética, de epistemologia, o que me faz lembrar da famosa frase de Groucho Marx: "Estes são os meus princípios. E, se você não gosta deles... bem, eu tenho outros."

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dia D

Filmes modernos do Spielberg muitas vezes se tornam das experiências mais indigestas pra mim no cinema, pois meu apego por seu passado me torna emocionalmente refém... Não consigo simplesmente menosprezar o que estou vendo, descartar como uma estreia fraca que não é pra mim. Me sinto como a Ripley em Alien - A Ressurreição, naquela que pra mim é uma das cenas mais horrorizantes da história do cinema: quando ela entra no laboratório onde se depara com seus clones abortados, mal-sucedidos. Ela não consegue permanecer fria diante das monstruosidades que está vendo, matá-las a sangue frio, pois elas têm seu próprio rosto. Dia D pra mim é como ver Contatos Imediatos do Terceiro Grau no estado daqueles clones — elementos daquilo que eu amo ainda são reconhecíveis, forçando empatia, mas aparecem distorcidos, conectados por protuberâncias aleatórias e membros mal-formados que causam repulsa.

O que tornou o filme indigesto pra mim se divide em várias categorias.

Assim como West Side Story, Dia D pra mim foi decepcionante pois é um projeto que parecia uma tentativa de Spielberg de recuperar um senso perdido de deslumbramento, de encanto, e isso acaba não ocorrendo. Temos aqui uma história que cai mais na categoria de filmes como Snowden ou Todos os Homens do Presidente do que de E.T. e Contatos Imediatos — um thriller jornalístico sobre pessoas vazando um escândalo político para a mídia, mais focado em hard drives e arquivos secretos do que no fascínio pela vida extraterrestre. Até porque a existência de extraterrestres não é novidade para alguns dos protagonistas. A surpresa ocorreu meses ou anos antes do filme começar (imagine se E.T. começasse no 3º ato, focando só na perseguição até a nave). Este tom mais político/social do que escapista fica evidente nas cenas em que vídeos dos aliens são mostrados para alguém: a reação é de choque, dor, indignação, como quem está vendo uma matéria sobre um genocídio, crimes contra a humanidade (às vezes parece até que os maus-tratos aos aliens nos vídeos são mais relevantes que a própria existência deles).

Extraterrestres não têm um significado emocional intrínseco. Se os associamos a algo mágico, é por causa de símbolos criados pelo próprio Spielberg no passado. Em E.T. e Contatos Imediatos, aliens representam esperança, sonhos. Mas em Guerra dos Mundos, eles já passaram a simbolizar o medo pós-11 de Setembro. Agora, em Dia D, refletem a desconfiança das instituições — viraram ganância corporativa e corrupção estatal.

Ainda que não seja meu "modo" favorito do Spielberg, consigo imaginar um filme respeitável dentro dessa proposta. O problema é que, além dessas questões conceituais todas, Dia D tem um roteiro terrível. A história é simplesmente conturbada, mal contada.

SPOILERS

Pegamos a narrativa de Daniel Kellner (Josh O'Connor) já no meio — não há muita introdução de personagem, contextualização inicial, o que limita nossa identificação com ele e sua jornada. Nossa ponte acaba sendo mais a Margaret (Emily Blunt), que é quem não sabe de nada ainda. Porém, as reações dela aos eventos do início causam estranhamento. Em vez de ficar perplexa ao começar a falar novas línguas, ler mentes, ela nunca parece realmente entender a gravidade do que está acontecendo. Ela reage a tudo de maneira casual, frívola, como se estivesse possuída, o que cria distanciamento e diminui a grandiosidade do evento.

Kellner, que já roubou os arquivos secretos quando o filme começa, precisa agora apenas escapar dos agentes da Wardex e divulgá-los para o mundo. Por que ele não faz logo um upload de tudo na internet é algo que nunca é realmente justificado. Ele passa 2h de filme sendo perseguido, correndo risco de vida, sem saber o que deve fazer, até que depois de muito tempo recebe ordens para levar os arquivos até uma estação de TV (como se a TV aberta ainda fosse imprescindível para comunicação em massa). Toda essa ação do miolo do filme, portanto, não parece muito coerente, nem necessária. O vilão também é fraco, caricato, pois não há uma motivação crível por trás de sua maldade e obsessão pessoal em proteger o segredo. Mais mal explicado ainda é o "pit stop" que precisa ser feito antes dos dois chegarem à emissora — a sequência no galpão onde está o personagem de Colman Domingo. Lá, Margaret se depara com uma réplica exata de sua casa de infância, que servirá de ferramenta psicanalítica para desreprimir memórias antigas. Mas por que isso precisa ser feito antes da divulgação dos dados? Por que a casa de Margaret, e não a de Daniel, já que ele também não lembrava de sua abdução? E como Colman Domingo já estava construindo a casa de Margaret no início do filme, sendo que ele só descobre quem ela é depois? Se ele tinha tantos dados sobre a garotinha, não seria fácil descobrir o nome dela e achá-la adulta?

Dia D começa de forma propositalmente intrigante, mostrando coisas misteriosas sem explicar nada para o público. Isso prende a atenção inicialmente porque achamos que tudo será amarrado depois... Mas quanto mais o filme avança, mais vemos que as peças não se encaixarão direito. Por exemplo: quando Hugo (Colman Domingo) diz para Daniel "Há dois de você. Sempre houve apenas 2 de vocês" e na sequência surgem círculos na plantação ao redor de Daniel — o que isso significa? Quando um filme cria ganchos mas depois não entrega as recompensas, o espectador se sente traído.

Em E.T. e Contatos Imediatos, há alguns "furos" desse tipo que vêm de Spielberg priorizar o emocional, o divertido, não o plausível. Mas não eram furos constantes que comprometiam os alicerces da história. Os filmes se passavam em um universo racional, onde o mágico tinha uma origem clara e delimitada. Dia D já parece escrito por alguém que realmente acredita no esotérico, que não sabe diferenciar o objetivo do subjetivo, fatos de emoções, que vê "poesia" no irracional etc. Nesse ponto, Spielberg se aproxima do subjetivismo típico da ficção científica moderna — a casa de Margaret seria sua versão da biblioteca do final de Interestelar. O problema é que Spielberg é muito menos eficaz nesse tipo de coisa do que Nolan, que tem o irracional como língua nativa. Muito da trama acaba dependendo de intuições mal explicadas, de poderes sem regras, efeitos sem causas claras. O artefato alienígena, por exemplo, pode ao mesmo tempo servir de telefone, controlar mentes e corpos, tornar qualquer coisa invisível, religar a energia... A eventual vitória dos mocinhos é frustrante pois deve-se a esse artefato mágico que resolve tudo.

Outro problema do roteiro de Dia D é querer abordar uma série de questões e temas intelectuais sem saber se aprofundar na maioria deles. A relação dos traumas de Margaret com os aliens poderia ter sido foco de um filme inteiro (alguém entendeu a crise de pânico no meio dos pianos?), os dilemas religiosos renderiam outro filme, os conflitos geopolíticos outro, a discussão sobre lógica vs. empatia outro (supostamente, tanto Margaret quanto Daniel foram imbuídos com superpoderes, mas o filme nunca explora os de Daniel!). Em vez de adicionar camadas e tornar a história rica, isso gera apenas ruído, poluição cognitiva.

Os filmes antigos do Spielberg eram simples. Havia sofisticação na execução, mas as histórias eram baseadas em desejos básicos, objetivos que até uma criança entendia. Eram como deliciosos cheeseburgers. Hoje, talvez Spielberg tenha perdido o paladar para esses sabores elementares. Ou talvez tenha se tornado tão lendário, haja tanta pressão e auto-importância em seus projetos, que ele acha que precisa enfiar todo tipo de ingrediente exótico no cheeseburger para impressionar, abafando no processo o sal, a gordura, o açúcar — os sabores que realmente dão prazer. Dia D é um filme que parece não localizar onde está o prazer do espectador — algo que já foi especialidade e meta explícita de Spielberg. A história está sempre desviando do que seria realmente interessante, complexificando o que não precisava ser complexo, causando pequenos estranhamentos gratuitos (pense na escolha de abrir o filme com uma imagem desconexa de um lutador de wrestling saltando na câmera).

Quando entrei na sala, eu queria ver pessoas se maravilhando com a aparição de aliens; céticos se deparando com o impossível. Isso não acontece — ou as pessoas já sabem sobre eles, ou não eram céticas pra começo de conversa, e reagem com um espanto indefinido, não maravilhado, mas também não apavorado (o que ainda seria divertido). Eu queria ver uma profissional ambiciosa, subvalorizada no emprego, tendo a chance de apresentar o maior furo de reportagem de todos os tempos. Isso não acontece, pois não há foco suficiente nas ambições profissionais de Margaret; não é enfatizado que ela é subvalorizada, e ela sinceramente parecia ter mais vocação para garota do tempo do que para âncora de jornal. Eu queria desvendar os segredos por trás de um grande mistério — o que não ocorre porque toda a mitologia dos aliens e a backstory são confusas, mal explicadas. Queria ver a aventura aproximando personagens gostáveis, formando laços novos e profundos — mas saímos nos lembrando mais da deterioração de dois namoros do que da aproximação entre Margaret e Daniel, que mal dá tempo de acontecer no meio de toda a correria (a única cena que achei de fato tocante no filme foi o primeiro encontro entre os dois, quando Margaret resgata Daniel de dentro do trailer dos vilões, e temos um gostinho desse vínculo). Eu queria ver um mundo afundando em guerra e pessimismo sendo transformado para melhor com a revelação dos aliens — o que não chegamos a ver porque o filme acaba de forma abrupta, no meio da transmissão, antes daquilo ter qualquer consequência.

Nem mesmo as cenas de ação pura achei eficazes, pois há descuidos que as fazem parecer meio tolas, como a maneira como os agentes da Wardex nunca enxergam Daniel escondido atrás de galhos secos e espaços totalmente abertos; ou o carro que engancha no trem de forma impossível só para ter alguma movimentação.

Outra decepção vem de uma tática desonesta de marketing, que inseriu no trailer aquela cena da nave saindo de dentro da nuvem à la Independence Day, como se fosse o grande momento do filme. Certas imagens no trailer fazem todo mundo pensar que Dia D envolverá abduções dramáticas, uma chegada espetacular dos aliens, sendo que essas cenas fazem parte apenas de flashbacks ou imagens de arquivo que passam em um monitor, tornando o final ainda menos satisfatório. Em vez de pessoas boquiabertas olhando para um evento cósmico nos céus, o grande evento aqui é uma jornalista fazendo uma transmissão — que por acaso tem aliens como assunto.

A verdade é que Spielberg talvez nunca tenha tido um grande controle sobre o impacto emocional de seus filmes. O encanto não era resultado de valores sólidos, técnicas conscientes, mas das circunstâncias de um período de sua vida, onde diversos fatores e motivações se convergiram para produzir aquele tipo de cinema. O que é consistente ao longo de sua filmografia, e que continuamos vendo em Dia D, é o domínio da imagem — a comunicação visual expressiva, estimulante, e o alto valor de produção. Mas isso também tivemos nos fracassos, como 1941 e O Bom Gigante Amigo. O Spielberg que me emociona, que é o grande expoente do Idealismo no cinema, infelizmente não é esse constante, intencional, mas aquele que foi possível durante duas décadas quando os astros se alinharam.

Disclosure Day / 2026 / Steven Spielberg

★★