terça-feira, 6 de outubro de 2026

Outubro 2026 - outros filmes vistos

Dentro da Baleia (Whalefall / 2026 / Brian Duffield) ★★

Resumo das impressões de Caio Amaral, elaborado por inteligência artificial a partir de suas anotações durante a sessão.

O maior mérito do filme é sua premissa high concept: um homem tentando sobreviver após ser engolido por uma baleia. A ideia sugere possibilidades de aventura, fantasia e escapismo, mas também apresenta um desafio considerável. Talvez uma das razões pelas quais essa premissa seja tão pouco explorada no cinema live-action seja justamente a dificuldade de representar o interior de uma baleia sem transformar a experiência em algo desagradável ou repulsivo.

A orientação do filme já se anuncia na primeira cena, com Josh Brolin interpretando um homem doente e decadente, em uma prolongada crise de tosse. Uma vez dentro da baleia, a execução privilegia uma representação visceral e repulsiva do ambiente, muito distante do universo fantasioso de Pinóquio.

O protagonista cospe sangue, quebra o pé, sofre queimaduras provocadas pelos fluidos digestivos e acumula ferimentos ao longo da experiência, lembrando o sofrimento físico de 127 Horas. Em vez de despertar curiosidade pelo ambiente extraordinário ou entusiasmo pela engenhosidade necessária para escapar, o filme concentra-se na deterioração do personagem.

O roteiro também apresenta problemas de ritmo e credibilidade. Com poucas possibilidades de ação dentro da baleia, a narrativa prolonga o sofrimento e as reflexões do protagonista, recorrendo insistentemente a flashbacks sobre sua relação com o pai falecido. Quando finalmente começa a elaborar um plano de fuga, surgem soluções pouco convincentes: deslocamentos improváveis pelo sistema digestivo, descobertas convenientes de objetos necessários à sobrevivência e acontecimentos que parecem pertencer a um desenho animado. Há uma contradição entre a estética realista e a lógica fantasiosa dos acontecimentos. O isolamento do protagonista ainda obriga o ator a verbalizar seus raciocínios e planos para informar o espectador.

O problema mais significativo, porém, é de orientação artística. Na avaliação de Caio, Dentro da Baleia exemplifica uma tendência do cinema contemporâneo de buscar legitimidade dramática em traumas familiares e processos de cura emocional, mesmo quando sua premissa parece prometer uma aventura extraordinária. Transformar essa situação em uma experiência genuinamente divertida ou fascinante talvez fosse um desafio difícil de superar, mas o filme parece sequer estabelecer esse objetivo como prioridade. Pela perspectiva do Idealismo, ele subordina sua promessa de entretenimento a um drama psicológico convencional, demonstrando muito mais interesse pelo sofrimento do protagonista do que pelas possibilidades imaginativas de sua situação.

Na.za (2026 / Yxxal Abrxxam, Raxxel Szxx) ●

Mais um suposto documentário do diretor de Sem Chão. Ainda que os entrevistados sejam quem eles dizem ser, o que é dito sobre as ações de Israel na Palestina me pareceu incrivelmente distorcido, infundado, mal argumentado. Mas a grande questão é que eu duvido que os entrevistados sejam realmente oficiais do exército de Israel (são todos anônimos, filmados na penumbra, com a voz alterada digitalmente, e eles só falam coisas genéricas que qualquer leigo poderia ter inventado — leia a resposta oficial da IDF ao filme). Parece mais que o diretor reuniu alguns de seus amigos ativistas e os fez se passar por membros do exército israelense para fortalecer a narrativa do genocídio em Gaza. A maneira como os soldados confessam atrocidades e admitem prontamente que são pessoas perversas é tão artificial do ponto de vista psicológico/comportamental que beira o teatro amador. O que achei mais assustador sobre o “documentário” não é o que ele revela a respeito de Israel, do Hamas, nem mesmo constatar que existe gente capaz de produzir um filme assim, mas o fato de Na.za ter sido aplaudido por 25 minutos no festival de Veneza e de tanta gente achá-lo plenamente convincente.


Sobrevivência (Animals / 2026 / Ben Affleck) ★

Filme péssimo que me fez abandonar a noção de que Ben Affleck seria um cineasta com potencial para influenciar Hollywood numa direção melhor — ideia que formei depois de Air: A História Por Trás do Logo. Copiar a premissa de Céu e Inferno do Kurosawa e não dar crédito já é bem questionável. Mas fora isso, o filme é surpreendentemente mal dirigido... Fazia tempo que não via cenas tão desengonçadas que só de extrair um clipe de alguns segundos você já tem um meme pronto. Este é o primeiro grande projeto de Affleck depois que ele se associou à Netflix e se posicionou como um pioneiro na implementação da IA no cinema. O lado bom de o filme ser ruim neste nível é que isso sugere que não será tão fácil assim para a IA camuflar as limitações do artista. No fim, a qualidade de uma obra acaba sendo moldada por quem olha para cada resultado no processo de produção e diz: “isto está bom o bastante”.


Verity (2026 / Michael Showalter) ★★

O filme tem um set-up divertido e uma estética que nos remete a suspenses dos anos 90 — o casting, a fotografia, as locações, tudo é glamouroso e tinha potencial para resultar em algo como Louca Obsessão ou até clássicos mais antigos como Rebecca, a Mulher Inesquecível. Mas, como de costume, o roteiro do filme é seu calcanhar de Aquiles. A produção é praticamente arruinada por comportamentos artificiais e reviravoltas que parecem ter sido escritas por uma criança de 10 anos. Tenho frequentemente a impressão de que o QI médio dos roteiristas de Hollywood despencou uns 30 pontos nas últimas décadas. Verity é mais um caso do Idealismo tentando fazer um comeback, mas não conseguindo direito por deficiência no Fator G.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Digger

O filme basicamente pega o modelo de Dr. Fantástico de sátira política sobre o fim dos tempos e o usa de forma mais partidária para denunciar o capitalismo, promover pautas de esquerda, no espírito de Uma Batalha Após a Outra e Não Olhe Para Cima. O fato de eu discordar das mensagens do filme, por si só, não me faria reprová-lo totalmente. Só que algumas coisas que estão conectadas ao fato do filme ser ideológico e ter as ideias que tem acabam prejudicando Digger enquanto filme.

1º) O grande perigo que o mundo corre aqui, em vez de algo crível, com precedentes na história recente, como a guerra nuclear de Dr. Fantástico, são geleiras gigantes que se desprendem do Ártico e supostamente podem inundar boa parte da Europa ao se chocarem contra o continente. Ainda que isso seja cientificamente possível, o que eu duvido, uma geleira boiando lentamente conseguir causar tsunamis apocalípticos é algo tão difícil de visualizar que nem o filme mostrando uma simulação em 3D eu consegui entender a mecânica da coisa. O cinema já inventou incontáveis formas de destruir o planeta; umas mais realistas que outras, mas acho que nenhuma até agora foi tão anticinematográfica. Isso tira boa parte do senso de urgência da história.

2º) Outro problema é o fato de o filme odiar seu protagonista. Digger não é um personagem, e sim uma caricatura, um boneco de Judas para o espectador descarregar seu desprezo. Outro dia assisti ao filme da Netflix sobre o Unabomber, e fiquei pensando que o que tornou o filme interessante pra mim foi o fato de o personagem, apesar de ser um psicopata, não ser desprovido de traços admiráveis. Mas para Iñárritu, pelo visto, republicanos e bilionários são tão abomináveis que não é apropriado dar a eles uma faceta atraente, como faríamos com Unabomber, Hannibal Lecter, etc. Tudo bem que Digger está mais para uma comédia, em que a ideia não é admirar as pessoas na tela. Mas mesmo protagonistas de comédias precisam ter algum traço gostável, uma inocência por trás de suas tolices. O humor aqui é baseado em puro desprezo, na "diversão" de zombar de um perfil de cidadão associado à direita, não em sacadas realmente cômicas (é um pouco decepcionante que Tom Cruise, que parece ter ideias melhores que as do filme, seja produtor e tenha aceitado interpretar o papel). O filme chega ao cúmulo de tornar o câncer de cólon do "Trump" da história um alvo de piadas. Há também uma atitude duvidosa de transformar a pele branca dos personagens em motivo de insulto — todo mundo é tão exageradamente pálido no filme que você não consegue evitar de pensar que há um julgamento moral nisso, quase como uma resposta ao blackface.

Há um artifício engenhoso na narrativa que pode fazer alguns argumentarem que tudo bem o bilionário ser detestável, pois ele não é o verdadeiro protagonista da história. Mas isso seria quase como dizer que o protagonista de O Resgate do Soldado Ryan não é o personagem do Tom Hanks, mas o velho no cemitério que abre e encerra o filme. O personagem que mais precisa ser gostável não é aquele que, hierarquicamente, é o mais relevante no contexto da história — é a figura para a qual o espectador vai ficar olhando a maior parte do tempo.

O tal artifício narrativo é a coisa mais ousada e original do filme — Iñárritu corre um sério risco de perder o espectador, e de fato o perde por um trecho considerável do filme, mas milagrosamente consegue recuperá-lo até o final. Pra ser sincero, apesar da ideia boba do desastre, o filme é bem mais inteligente do que a média dos filmes que se passam por inteligentes hoje em dia — talvez até por causa disso não tenha virado unanimidade. Acho que ele irá resistir ao teste do tempo e ganhar mais prestígio ao longo dos anos. Não porque a mensagem se provará verdadeira, mas porque formalmente — se você conseguir ignorar o ativismo — ele é muito bem feito. Há pelo menos dois monólogos brilhantes e duas reviravoltas bem arquitetadas que tornam o filme digno de ser revisto. O conjunto da obra é um caso misto. Não achei o humor engraçado, a mensagem convincente, o protagonista interessante, mas há estímulo intelectual e excelência técnica o bastante pra torná-lo uma experiência no mínimo memorável.

Digger / 2026 / Alejandro G. Iñárritu

★★★