O filme basicamente pega o modelo de Doutor Fantástico de sátira política sobre o fim dos tempos e o usa de forma mais partidária para denunciar o capitalismo, promover pautas de esquerda, no espírito de Uma Batalha Após a Outra e Não Olhe Para Cima. O fato de eu discordar das mensagens do filme, por si só, não me faria reprová-lo. Só que algumas coisas que estão conectadas ao fato de o filme ter as crenças que tem acabam prejudicando Digger enquanto filme.
1º) O grande perigo que o mundo corre aqui, em vez de algo crível, com precedentes na história recente, como a guerra nuclear de Doutor Fantástico, são geleiras gigantes que se desprendem do Ártico e supostamente podem inundar boa parte da Europa ao se chocarem contra o continente. Ainda que isso seja cientificamente possível, o que eu duvido, uma geleira boiando lentamente conseguir causar tsunamis apocalípticos é algo tão difícil de visualizar que nem o filme mostrando uma simulação em 3D eu consegui entender a mecânica da coisa. O cinema já inventou incontáveis formas de destruir o planeta; umas mais realistas que outras, mas acho que nenhuma até agora foi tão anticinematográfica. Isso tira boa parte do senso de urgência da história.
2º) Outro problema é o fato de o filme odiar seu protagonista. Digger não é um personagem, e sim uma caricatura, um boneco de Judas para o espectador descarregar seu desprezo. Outro dia assisti ao filme da Netflix sobre o Unabomber, e fiquei pensando que o que tornou o filme interessante pra mim foi o fato de o personagem, apesar de ser um psicopata, não ser desprovido de traços admiráveis. Mas para Iñárritu, pelo visto, republicanos e bilionários são tão abomináveis que não é apropriado dar a eles uma faceta interessante, como faríamos com Unabomber, Hannibal Lecter, etc. O filme chega ao cúmulo de tornar o câncer de cólon do "Trump" da história motivo de diversão, e há também uma tática duvidosa de transformar a pele branca dos personagens em motivo de insulto — todo mundo é tão exageradamente pálido no filme que você não consegue evitar de pensar que há um julgamento moral nisso, quase como uma resposta ao blackface.
Há um artifício engenhoso na narrativa que pode fazer alguns argumentarem que tudo bem o bilionário ser ridículo, pois ele não é o verdadeiro protagonista da história. Mas isso seria quase como dizer que o protagonista de O Resgate do Soldado Ryan não é o personagem do Tom Hanks, mas o velho no cemitério que abre e encerra o filme. O personagem que mais precisa ser gostável não é aquele que, hierarquicamente, é o mais relevante no contexto da história — é a figura para a qual o espectador vai ficar olhando a maior parte do tempo.
O tal artifício narrativo é a coisa mais ousada e original do filme — Iñárritu corre um sério risco de perder o espectador, e de fato o perde por um trecho considerável do filme, mas de algum modo consegue recuperá-lo até o final. Pra ser sincero, apesar da ideia fraca do desastre, o filme é bem mais inteligente do que a média dos filmes que se passam por inteligentes hoje em dia — talvez até por causa disso não tenha virado unanimidade. Acho que ele irá resistir ao teste do tempo e ganhar mais prestígio ao longo dos anos. Não porque a mensagem se provará verdadeira, mas porque formalmente — se você conseguir ignorar o ativismo — ele é muito bem feito. Há pelo menos dois monólogos brilhantes e duas reviravoltas bem arquitetadas que tornam o filme digno de ser revisto. O conjunto da obra é um caso misto. Não achei o humor engraçado, a mensagem convincente, o protagonista interessante, mas há estímulo intelectual e excelência técnica o bastante pra torná-lo uma experiência no mínimo memorável.
Digger / 2026 / Alejandro G. Iñárritu