Há elementos que me incomodaram no filme, como a violência e o body horror, mas achei a história tão bem contada que permaneci engajado apesar da ênfase na malevolência. Nunca dei muita bola pra Mike Flanagan, mas o roteiro de Cara-de-Barro é o mais bem escrito que vi este ano. Só a primeira parte, em que Matt Hagen é um ator em ascensão que tem sua vida arruinada, mas daí dá a volta por cima através de um procedimento médico inovador, já quase daria um filme interessante. Mas isso tudo acontece na primeira meia hora. Depois, acompanhamos as consequências cada vez mais surpreendentes do tratamento, tudo isso costurado a uma trama de vingança, um thriller policial e um romance, todos esses enredos bem integrados e gratificantes por si só. É o raro filme moderno com pouca “barriga”, em que a maioria das cenas não só ajuda a avançar a história, mas também é divertida e recompensadora. Achei uma grata surpresa, até porque nunca espero nada de filmes da DC ou da Marvel.
Minha principal crítica ao filme tem a ver com a ambivalência moral do protagonista na segunda metade. Eu entrei na sala sem ter a menor ideia de quem era o Cara-de-Barro, e acompanhei o filme achando que se tratava da história de origem de algum super-herói do universo do Batman, como os da Liga da Justiça. 95% do filme fez total sentido por essa ótica... Só que em uns 2 momentos, Matt Hagen faz algo indefensável, que vai além de se vingar daqueles que destruíram sua vida. Essa oscilação moral pra mim não estava fazendo sentido, e acabou degradando um personagem que, de modo geral, funcionava como um herói gostável. Talvez os produtores tenham achado que, como o público-alvo do filme já sabe quem é o Cara-de-Barro, que não seriam necessárias maiores explicações para os seus atos maus. Mas para o filme realmente se sustentar sozinho, uma “falha trágica” no caráter de Hagen já deveria ter sido bem estabelecida desde o começo da história.
Clayface / 2026 / James Watkins
★★★½
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