sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Agosto 2026 - outros filmes vistos

A Última Casa (The Last House / 2026 / Louis Leterrier) ★★

O Fim da Rua (The End of Oak Street / 2026 / David Robert Mitchell) ★★½

A Última Casa e O Fim da Rua são dois lançamentos desse início de agosto que tentam emular os filmes do Spielberg dos anos 80 e 90. A história de ambos envolve uma família normal, vivendo tranquila em uma casa no subúrbio, até que um fenômeno sobrenatural acontece e o bairro é invadido por criaturas de outro mundo.

As cenas abaixo homenageiam (ou copiam?) E.T.: nas três, durante a refeição, algum membro da família relata ter visto algo estranho no dia anterior, e os outros comentam de maneira cética, tentando dar explicações mais plausíveis.


Nenhum dos dois filmes é muito bem-sucedido na tentativa. A Última Casa é mal dirigido e mais "corrompido" em tom (se torna um filme sobre confinamento, sobrevivência e dramas familiares). O Fim da Rua é melhor realizado e mais focado na diversão. Mas o roteiro de ambos deixa a desejar — não só quando comparados aos clássicos de Spielberg, mas até em relação aos blockbusters mais rotineiros daquele período (nenhum se esforça, por exemplo, para dar uma explicação minimamente inteligente para o fenômeno sobrenatural).

O bom sinal é que estreias como essas reforçam a impressão de que a indústria voltou a flertar com o Idealismo em 2026. Referências a sucessos dos anos 80/90 nunca morreram, mas antes havia sempre uma tentativa de reformá-los, tornando-os mais cínicos para os tempos modernos. Agora, tenho visto alguns artistas atenuando o cinismo, a subversão, e tentando voltar a uma forma mais honesta de entretenimento.

O desafio é que uma mudança em intenção e tom emocional ainda não é o bastante — falta recuperar a técnica e a rede de talentos que foram perdidas nos últimos 15 anos (especialmente os bons escritores).

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Cultura - Agosto 2026

3/8 — Nolan vs. Autoestima

Trecho de uma entrevista recente com Nolan sobre A Odisseia:

Entrevistadora: Vivemos em uma época que exige que a nobreza ("greatness") peça perdão. Quando retratamos a nobreza, nós desviamos dela, a tratamos como privilégio e exigimos que ela peça desculpas. É um fato sobre Hollywood. Me pergunto como você aborda a nobreza. Ainda é uma história de pedido de perdão, que exige arrependimento, reflexão e autocrítica?

Christopher Nolan: Como um contador de histórias, você está sempre em diálogo com as expectativas da plateia. Temos que ter consciência da energia que a plateia traz para a história e da intersecção entre nossa intenção e a maneira como a plateia a recebe. Falando de forma simples: você tem que tornar o personagem gostável. Então nos perguntamos: iremos tratar a nobreza como um absoluto? Ou, vindo do contexto filosófico mais idealizado e democrático em que vivemos hoje, em que queremos ver as pessoas como sendo iguais, precisamos pedir desculpas por essa nobreza? E a resposta é: sim, precisamos, ou então a plateia rejeita a nobreza.

Nolan fala como se esta fosse uma regra universal para qualquer contador de histórias hoje, ignorando que há filmes de sucesso que não corrompem seus heróis como um pedido de perdão (os blockbusters do Tom Cruise, por exemplo). Mais correto seria ele dizer: "Para agradar o tipo de público que eu acho importante e para receber os prêmios da crítica que eu acho importantes, sim, precisamos pedir desculpas pela nobreza."

Para entender como lidar, no Idealismo, com essa relação entre virtudes e vulnerabilidades, recomendo os textos O que torna um personagem gostável?Complementaridade: Por que o herói tem que ser incompleto