Coyote vs. Acme (2026 / Dave Green) ★★★
O grande destaque aqui é o fato do roteiro ser mais inteligente e criativo do que se espera de um filme do gênero, acrescentando uma dimensão mais adulta sem que isso subverta o tom de entretenimento familiar. Não achei o humor tão bom quanto o de Tico e Teco: Defensores da Lei, mas é decente e dá para traçar paralelos entre as propostas dos dois filmes. O que mais me incomodou foi a militância anticapitalista mais pro final, que me deixou até pensando se esse não teria sido um dos motivos para o filme quase ter sido enterrado pelo estúdio. Pelo menos não é algo que pareça gratuito, que arruíne o tom leve ou surja desconectado de funções narrativas — é a forma artisticamente decente de inserir ideologia em um filme.
Ponto Sem Retorno (The Dog Stars / 2026 / Ridley Scott) ★★
A história viola vários dos princípios narrativos que eu defendo. Como em muitos filmes pós-apocalípticos, há muito pouco de positivo a se esperar aqui. A grande dúvida do personagem é: será que o mundo já se tornou horrível o bastante para eu cometer suicídio ou ainda resta um mínimo de coisas positivas pelas quais vale a pena continuar sobrevivendo? E é por esse mínimo que você “torce” ao longo do filme, sem a expectativa de uma transformação realmente positiva para os personagens.
Também falta um bom gancho narrativo. O protagonista parte em uma jornada episódica em busca de um lugar melhor pra viver, sem muita perspectiva de sucesso, e no meio do caminho precisa lutar contra gangues hostis e consertar coisas depois que acidentes aleatórios acontecem. Não é uma história sobre conquistar positivos, mas sobre combater negativos pra que a situação ao menos permaneça num nível de ruindade parecido com o do início e não caia pra um nível ainda pior.
Apesar da produção bonita e do cenário de aventura, é basicamente um drama psicológico sobre um homem quebrado aprendendo a seguir em frente. As cenas de ação acabam parecendo super forçadas e desnecessárias, como se o roteiro originalmente imaginasse uma produção intimista, feita direto pra streaming, e alguém tivesse decidido de última hora contratar o Ridley Scott e dar ao filme um tratamento mais grandioso.
A Última Casa (The Last House / 2026 / Louis Leterrier) ★★
O Fim da Rua (The End of Oak Street / 2026 / David Robert Mitchell) ★★½
A Última Casa e O Fim da Rua são dois lançamentos desse início de agosto que tentam emular os filmes do Spielberg dos anos 80 e 90. A história de ambos envolve uma família normal, vivendo tranquila em uma casa no subúrbio, até que um fenômeno sobrenatural acontece e o bairro é invadido por criaturas de outro mundo.
As cenas abaixo homenageiam (ou copiam?) E.T.: nas três, durante a refeição, algum membro da família relata ter visto algo estranho no dia anterior, e os outros comentam de maneira cética, tentando dar explicações mais plausíveis.
O bom sinal é que estreias como essas reforçam a impressão de que a indústria voltou a flertar com o Idealismo em 2026. Referências a sucessos dos anos 80/90 nunca morreram, mas antes havia sempre uma tentativa de reformá-los, tornando-os mais cínicos para os tempos modernos. Agora, tenho visto alguns artistas atenuando o cinismo, a subversão, e tentando voltar a uma forma mais honesta de entretenimento.
O desafio é que uma mudança em intenção e tom emocional ainda não é o bastante — falta recuperar a técnica e a rede de talentos que foram perdidas nos últimos 15 anos (especialmente os bons escritores).


