domingo, 30 de agosto de 2026

Agosto 2026 - outros filmes vistos

Coyote vs. Acme (2026 / Dave Green) ★★

O grande destaque aqui é o fato do roteiro ser mais inteligente e criativo do que se espera de um filme do gênero, acrescentando uma dimensão mais adulta sem que isso subverta o tom de entretenimento familiar. Não achei o humor tão bom quanto o de Tico e Teco: Defensores da Lei, mas é decente e dá para traçar paralelos entre as propostas dos dois filmes. O que mais me incomodou foi a militância anticapitalista mais pro final, que me deixou até pensando se esse não teria sido um dos motivos para o filme quase ter sido enterrado pelo estúdio. Pelo menos não é algo que pareça gratuito, que arruíne o tom leve ou surja desconectado de funções narrativas — é a forma artisticamente decente de inserir ideologia em um filme.


Ponto Sem Retorno (The Dog Stars / 2026 / Ridley Scott) ★★

A história viola vários dos princípios narrativos que eu defendo. Como em muitos filmes pós-apocalípticos, há muito pouco de positivo a se esperar aqui. A grande dúvida do personagem é: será que o mundo já se tornou horrível o bastante para eu cometer suicídio ou ainda resta um mínimo de coisas positivas pelas quais vale a pena continuar sobrevivendo? E é por esse mínimo que você “torce” ao longo do filme, sem a expectativa de uma transformação realmente positiva para os personagens.

Também falta um bom gancho narrativo. O protagonista parte em uma jornada episódica em busca de um lugar melhor pra viver, sem muita perspectiva de sucesso, e no meio do caminho precisa lutar contra gangues hostis e consertar coisas depois que acidentes aleatórios acontecem. Não é uma história sobre conquistar positivos, mas sobre combater negativos pra que a situação ao menos permaneça num nível de ruindade parecido com o do início e não caia pra um nível ainda pior.

Apesar da produção bonita e do cenário de aventura, é basicamente um drama psicológico sobre um homem quebrado aprendendo a seguir em frente. As cenas de ação acabam parecendo super forçadas e desnecessárias, como se o roteiro originalmente imaginasse uma produção intimista, feita direto pra streaming, e alguém tivesse decidido de última hora contratar o Ridley Scott e dar ao filme um tratamento mais grandioso.

A Última Casa (The Last House / 2026 / Louis Leterrier) ★★

O Fim da Rua (The End of Oak Street / 2026 / David Robert Mitchell) ★★½

A Última Casa e O Fim da Rua são dois lançamentos desse início de agosto que tentam emular os filmes do Spielberg dos anos 80 e 90. A história de ambos envolve uma família normal, vivendo tranquila em uma casa no subúrbio, até que um fenômeno sobrenatural acontece e o bairro é invadido por criaturas de outro mundo.

As cenas abaixo homenageiam (ou copiam?) E.T.: nas três, durante a refeição, algum membro da família relata ter visto algo estranho no dia anterior, e os outros comentam de maneira cética, tentando dar explicações mais plausíveis.


Nenhum dos dois filmes é muito bem-sucedido na tentativa. A Última Casa é mal dirigido e mais "corrompido" em tom (se torna um filme sobre confinamento, sobrevivência e dramas familiares). O Fim da Rua é melhor realizado e mais focado na diversão. Mas o roteiro de ambos deixa a desejar — não só quando comparados aos clássicos de Spielberg, mas até em relação aos blockbusters mais rotineiros daquele período (nenhum se esforça, por exemplo, para dar uma explicação minimamente inteligente para o fenômeno sobrenatural).

O bom sinal é que estreias como essas reforçam a impressão de que a indústria voltou a flertar com o Idealismo em 2026. Referências a sucessos dos anos 80/90 nunca morreram, mas antes havia sempre uma tentativa de reformá-los, tornando-os mais cínicos para os tempos modernos. Agora, tenho visto alguns artistas atenuando o cinismo, a subversão, e tentando voltar a uma forma mais honesta de entretenimento.

O desafio é que uma mudança em intenção e tom emocional ainda não é o bastante — falta recuperar a técnica e a rede de talentos que foram perdidas nos últimos 15 anos (especialmente os bons escritores).

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cultura - Agosto 2026

27/8 — Nova versão do livro

Ando focado na tradução do livro para o inglês, que na verdade será praticamente uma nova versão, pois não só estou incluindo várias ideias que só elaborei depois da primeira edição (Ganchos e Recompensas, Densidade Criativa, Arquétipos, Complementaridade, paralelos com Aristóteles etc.) como estou alterando bastante o tom da escrita, focando nos princípios positivos do Idealismo que possam ser úteis para o leitor, e menos nos ataques aos "maus artistas" e "maus espectadores".

3/8 — Nolan vs. Autoestima

Trecho de uma entrevista recente com Nolan sobre A Odisseia:

Entrevistadora: Vivemos em uma época que exige que a nobreza ("greatness") peça perdão. Quando retratamos a nobreza, nós desviamos dela, a tratamos como privilégio e exigimos que ela peça desculpas. É um fato sobre Hollywood. Me pergunto como você aborda a nobreza. Ainda é uma história de pedido de perdão, que exige arrependimento, reflexão e autocrítica?

Christopher Nolan: Como um contador de histórias, você está sempre em diálogo com as expectativas da plateia. Temos que ter consciência da energia que a plateia traz para a história e da intersecção entre nossa intenção e a maneira como a plateia a recebe. Falando de forma simples: você tem que tornar o personagem gostável. Então nos perguntamos: iremos tratar a nobreza como um absoluto? Ou, vindo do contexto filosófico mais idealizado e democrático em que vivemos hoje, em que queremos ver as pessoas como sendo iguais, precisamos pedir desculpas por essa nobreza? E a resposta é: sim, precisamos, ou então a plateia rejeita a nobreza.

Nolan fala como se esta fosse uma regra universal para qualquer contador de histórias hoje, ignorando que há filmes de sucesso que não corrompem seus heróis como um pedido de perdão (os blockbusters do Tom Cruise, por exemplo). Mais correto seria ele dizer: "Para agradar o tipo de público que eu acho importante e para receber os prêmios da crítica que eu acho importantes, sim, precisamos pedir desculpas pela nobreza."

Para entender como lidar, no Idealismo, com essa relação entre virtudes e vulnerabilidades, recomendo os textos O que torna um personagem gostável?Complementaridade: Por que o herói tem que ser incompleto