domingo, 20 de setembro de 2026

Resident Evil

O filme é bem produzido, visualmente interessante, e quem é fã do jogo talvez goste da maneira como o diretor traduziu a experiência para a tela grande. Para o resto, a história não tem o mínimo de plausibilidade pra envolver por si só — não estou falando de os monstros não serem plausíveis, mas de toda a sequência de acontecimentos não ter pé nem cabeça, uma vez que você aceita a premissa. O protagonista só precisa ir de ponto A para ponto B para fazer uma entrega, e o roteiro fica inventando uma série de contratempos sem sentido para atrasá-lo ou desviá-lo do caminho, permitindo que novos set-pieces de terror aconteçam. A maior parte do filme, por exemplo, se passa em uma montanha nevada pela qual Bryan tem que passar dirigindo para chegar ao hospital. Fiquei o tempo todo me perguntando por que um hospital importante seria construído num local tão inacessível que parece que a qualquer dobra da estrada você vai se deparar com o Hotel Overlook. 1 hora filme adentro, descobrimos que o hospital na verdade não fica naquele local isolado, mas em uma cidade de porte razoável, com infraestrutura, que certamente tem mais de uma rodovia de acesso. Por que Bryan então passou a maior parte do filme naquele lugar assustador? Simples: porque o cenário seria cool para um filme de terror.

Mais tarde, descobrimos que aquilo que Bryan tem que entregar no hospital é o único antídoto capaz de brecar o surto de zumbis e possivelmente evitar o apocalipse. Boa sorte tentando entender por que algo tão importante e urgente foi colocado nas mãos de um entregador desmiolado que trata o pacote com menos cuidado que um motoboy do iFood numa sexta à noite.

As regras do universo são mal estabelecidas, tornando tudo fácil pro roteirista: um infectado pode se comportar de maneira amigável, de repente ficar agressivo sem nenhum motivo, parecer morto ou ressuscitar sempre que conveniente, e as mutações genéticas aparentemente são tão potentes que conseguem criar uma suspensão das leis da física: um cachorro pode abrir a boca e soltar tentáculos com o triplo do volume do animal inteiro, o estômago de um homem pode comportar 500 litros de ácido, etc.

O pior de tudo é o uso de humor, que transforma o filme numa grande fraude. Se você entra no cinema pela fantasia, pelo horror, para ser transportado para o universo da história, a comédia estará o tempo inteiro quebrando a ilusão e te relembrando que aqueles são apenas atores em situações de mentirinha. Caso interpretemos o filme como uma comédia de fato, ainda seria o tipo de comédia que pra mim não tem graça, em que você ri das trapalhadas do protagonista não por serem nonsense, gags bem elaboradas, mas porque você se identifica e pensa: "ele é um loser sem qualquer virtude, assim como eu".

A única hora em que o filme se permite ser sério é durante as ligações entre o "herói" e a namorada, em que eles discutem dramas de relacionamento, responsabilidades, e algumas frases sobre aborto são jogadas pra tentar dar profundidade ao roteiro. Nesse momento, Resident Evil mostra que tem vergonha do próprio gênero. Ele é capaz de tratar com dignidade temas mais realistas, "humanos", o sofrimento do homem comum, mas não aquilo que é divertido, escapista e que o espectador pagou para ver.

Resident Evil / 2026 / Zach Cregger

★½

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Cultura - Setembro 2026

16/9 — Invasores de Marte (Invaders from Mars / 1986)

Esse filme é a melhor prova de que Spielberg dirigiu Poltergeist, não Tobe Hooper. Antes eu achava que Spielberg tinha apenas ajudado Hooper, dado alguns toques ao longo da filmagem, mas hoje já vejo Poltergeist como um filme 100% do Spielberg. Invasores de Marte deixa isso claro porque é um filme tentando desesperadamente ser algo como Poltergeist, E.T. e Contatos Imediatos — e falhando miseravelmente. É como se o produtor Menahem Golan tivesse tido a ideia de fazer um filme comercial imitando o estilo de Spielberg, que estava em alta na época, e contratado Tobe Hooper acreditando que ele tinha dirigido Poltergeist. Agora, Hooper tinha que provar uma capacidade que não tinha e fazer mais um Poltergeist, só que sem Spielberg — como alguém que mentiu no currículo e é colocado à prova. Assim como Congo (1995), que discuti em maio, esse é mais um bom caso para estudar boa vs. má direção.

domingo, 6 de setembro de 2026

Setembro 2026 - outros filmes vistos

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2 / 2026 / Susanne Bier) ★★

Não tenho nenhuma nostalgia especial em relação ao primeiro filme (o que mais me recordo é que os cabelos da Sandra Bullock e da Nicole Kidman estavam lindíssimos e volumosos). Já na época achei a direção e o roteiro fracos, e o tom era menos Idealista do que gostaria (a influência da cultura alternativa dos anos 90 já estava atingindo os filmes mainstream em cheio em 98). Esta continuação achei ligeiramente inferior, porque além de não ter o fator novidade, o filme parece sem energia, entusiasmo — mais ou menos como O Diabo Veste Prada 2 me pareceu meio "murcho", com um humor mais tímido do que o original. Sandra Bullock e Nicole Kidman ficam numa posição meio mal resolvida, em cima do muro — querem em parte assumir o papel secundário das "tias velhas", dando espaço para a nova geração, mas ao mesmo tempo querem parecer jovens e reprisarem o que fizeram no primeiro filme. Nenhuma das duas coisas acaba sendo realmente empolgante. A trama também não faz muito sentido. As duas passam boa parte do filme em uma jornada física para encontrar a filha de Bullock, simplesmente porque esta decide que não vai atender o celular. Por fim, o tom continua menos Idealista do que eu gostaria. Toda a aventura e a magia servem mais de fachada para a verdadeira essência do filme, que é uma história sobre traumas, cura de feridas, sacrifícios etc.


Mayday (2026 / John Francis Daley, Jonathan Goldstein) ★★★

Buddy comedy mais ambiciosa do que se poderia esperar, considerando que é um lançamento de streaming. Tenta apelar para o público que gostou de Top Gun: Maverick e sente falta de um certo americanismo no cinema — quem está por trás da produção é David Ellison, CEO da Paramount Skydance, que também produziu Maverick.

O lado cômico às vezes parece forçado — o filme torna escrachados momentos em que um humor mais sutil combinaria melhor com a situação — mas há uma história interessante o bastante para que ele não dependa totalmente das risadas pra funcionar. Não é grande coisa, mas é aquele tipo de filme "nota 6" que eu digo que anda em falta: despretensioso, mas com certa personalidade, que se esforça pra entregar um entretenimento decente e não parece feito no piloto automático, de forma preguiçosa, como tanta coisa que hoje chega até aos cinemas.