quinta-feira, 30 de julho de 2026

Benevolência como valor fundamental

Recentemente vi um influenciador exaltando A Odisseia (2026), e dizendo que ficou embasbacado com Agamemnon. Achei estranho, pois o personagem não faz nada de memorável na história. Fiquei com a impressão que a armadura e sua presença visualmente imponente foram suficientes para encantá-lo. Esse influenciador em particular é fascinado por tudo que projeta masculinidade, força física e poder — ele provavelmente tem o arquétipo do Guerreiro como seu mais essencial. Pessoas assim me intrigam porque o Guerreiro é um dos arquétipos menos importantes pra mim enquanto espectador. Se eu pegar a lista dos filmes mais populares de todos os tempos, terei visto a maioria, mas os maiores buracos no meu repertório (consequência da minha preguiça de vê-los) serão filmes como os do Bruce Lee, Jackie Chan ou mesmo a série James Bond — ou seja, filmes de tiro, luta, cheios de testosterona, que não são famosos por serem bons como filmes, mas que atendem às necessidades de seu público-alvo.

Ter consciência desse tipo de espectador é útil pra mim, pois me ajuda a refletir sobre os meus vieses e a evitar ser totalmente cegado por eles.

No meu caso pessoal, o valor da Benevolência, representado pelo arquétipo do Idealista/Inocente, é o mais fundamental emocionalmente, pelo menos como espectador (o que eu projeto como cidadão ou criador não é necessariamente a mesma coisa). Se você quiser realmente me entender, e entender minha relação com a cultura atual, esta é a qualidade-chave. Posso gostar de uma variedade de coisas, mas aquelas pelas quais sou mais atraído terão sempre um toque de inocência. Admiro Kubrick imensamente, mas meus heróis do entretenimento são figuras como Walt Disney, Steven Spielberg e Michael Jackson, por terem celebrado a "criança interior" de forma épica na nossa cultura.

Ter esse tipo de qualidade como um valor essencial pode trazer vários desafios hoje. Não só por este ser um valor tradicionalmente associado às crianças e, às vezes, às mulheres, sendo frequentemente desvalorizado quando suas características se manifestam em homens ou adultos, mas também por ser um valor renegado pela cultura atual (o que não era o caso nos anos 80 ou 90, por exemplo). Como discuti no texto sobre Arquétipos, toda era escolhe alguns arquétipos que irá respeitar, e coloca outros de "castigo". Atualmente, o Idealista/Inocente está de castigo. Isso cria a impressão de que esses valores só são apropriados para crianças, mulheres tolas, tempos remotos ou para a fantasia. Nunca para homens, adultos, capazes, hoje. Se minha "incompatibilidade" com o entretenimento atual parece estranha, mais radical até do que seria razoável, parte disso tem a ver com o fato de eu ter a Benevolência como um valor indispensável.

Sim, o Idealismo (teoria estética) depende de uma combinação dos quatro Pilares para ser completo e, quando algo projeta Benevolência isoladamente, mas não Autoestima, Objetividade etc., eu não me sinto realmente inspirado, ainda que possa haver uma leve identificação. Ainda assim, é um fato que existe uma preferência pessoal, um "viés" emocional na direção da Benevolência, que pode ser útil que vocês que me acompanham entendam. Quando os quatro Pilares estão presentes, posso apreciar cada um deles. A Objetividade é a ponte que me permite compreender e respeitar necessidades diferentes da minha. Mas, quando os outros valores unem forças para enfatizar Benevolência em particular, é quando eu me sinto mais inspirado. Por outro lado, sua ausência é praticamente garantia de distanciamento emocional.

Da mesma forma que o influenciador que citei anteriormente pode cair no erro de aclamar algo simplesmente por projetar o Guerreiro em um nível superficial, eu, se não tomasse cuidado, poderia cometer o erro de aclamar algo que projete o Idealista/Inocente de forma superficial e desequilibrada. Da mesma forma que posso menosprezar "filmes de lutinha" quando são pobres artisticamente e oferecem apenas testosterona de forma irracional, tenho que ter consciência de que, para uma pessoa com necessidades diferentes das minhas, as coisas que me encantam podem soar infantis, ingênuas e refletir uma "Síndrome de Peter Pan", se não estiverem equilibradas com outras qualidades. (Geralmente, o que se chama de guilty pleasure é algo que satisfaz apenas uma necessidade arquetípica básica, mas de forma pobre, desequilibrada, ignorando outras virtudes indispensáveis — o Chuck Norris de uns vira o meu High School Musical.)

A diferença é que a sociedade não rejeita igualmente todas as necessidades arquetípicas em cada época. No momento, por exemplo, o Guerreiro (assim como o Realista, o Governante ou o Revolucionário) é mais respeitado do que o Idealista/Inocente. O Guerreiro, até em suas versões desequilibradas, tóxicas (pense em líderes da "machosfera"), consegue ter impacto cultural e receber aplausos. Portanto, alguns arquétipos têm mais incentivo para se expressar desavergonhadamente do que outros. Claro, a versão imatura de qualquer arquétipo será sempre um alvo fácil e se sentirá frequentemente rejeitada. E a versão mais evoluída sempre terá caminhos mais abertos e espaço para ser celebrada. Ainda assim, cada época tem suas preferências, que aumentam ou diminuem resistências.

Quando você sente que vive na época errada, a ânsia por uma transformação cultural não é só o desejo de ter coisas melhores para consumir, é também a ânsia de viver em uma sociedade que acolha e celebre, em vez de condenar, aquele valor essencial que você carrega dentro de si. Por isso é importante para esse perfil de pessoa ("kids at heart") ter consciência da origem de seu senso de inadequação. Quando ela não tem consciência, a tendência será reprimir suas necessidades, ou distorcer sua própria identidade para poder expressá-la de maneira socialmente adequada (ou menos condenável): se refugiando na infância, no feminino, no passado ou na fantasia.

Na postagem sobre os 4 Pilares do Idealismo, descrevo Benevolência da seguinte forma:

"A experiência de acreditar que o universo é um lugar receptivo para o ser humano, harmonioso, onde a felicidade é possível e nossos valores podem ser atingidos. De acreditar que os homens podem ser perfeitamente morais, felizes, e que seus interesses não precisam estar em conflito. Que conflitos, a dor e o mal não são o estado natural da vida, e sim coisas a serem combatidas e superadas. É um certo respeito pela inocência da infância, pela visão daquilo que o mundo poderia ser..."

Vendo por esta ótica, não há nenhuma razão pela qual este sentimento deva ser relegado a crianças ou à fantasia. Ele não ignora que a vida tem dificuldades, ou que a vida adulta envolve responsabilidades. Pode não ser uma necessidade fundamental para todas as pessoas, mas é tão natural quanto qualquer outra necessidade arquetípica básica, e deve ser honrada por aqueles que se identificam com ela.

Por isso, convido vocês a refletirem sobre suas necessidades arquetípicas fundamentais. Elas são aceitas pela cultura atual? Você consegue expressá-las livremente? Que estratégias talvez esteja adotando para não ser julgado? E você está satisfazendo suas necessidades de forma equilibrada, evitando a sombra do arquétipo? De que formas você pode tornar suas necessidades mais maduras e menos incompatíveis com as de pessoas diferentes de você?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Cultura - Julho 2026

23/7 — Eu Sou o Rocky

Gosto mais da história por trás de Rocky - Um Lutador do que do filme em si. Eis que resolveram fazer um filme sobre a gênese do longa e, pelo trailer, Eu Sou o Rocky promete ser um hit de viés Idealista no fim do ano. Stallone foi explícito na época ao dizer que seu filme era uma resposta ao estado do cinema dos anos 60 e 70, o que pode tornar a mensagem do filme oportuna hoje.


23/7 — O público quer filmes "reais"

Parece que estamos em um momento em que as sequências, reboots e filmes industrializados carregados de CGI estão finalmente dando prejuízo, enquanto filmes que vão na direção oposta têm se destacado justamente por isso. Por um lado, é bom ver que as forças do mercado funcionam. Por outro, é frustrante notar que elas costumam estar sempre pelo menos uma década atrasadas. O que essa matéria da Hollywood Reporter diz sobre o público é o que o espectador mais criterioso já sentia lá no meio dos anos 2010. Mas esse espectador parece não contar muito. É só quando as grandes massas mudam de comportamento — quando o incômodo chega àqueles espectadores que deixam o filme passando na TV enquanto lavam a louça — que o mercado responde, o que pode criar a impressão de que a mediocridade está sempre prevalecendo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

A Odisseia

História mal contada, diálogos sem inteligência, ação sem lógica, mas tudo apresentado através de imagens imponentes e uma mixagem de som que faz você descobrir que é possível ser estuprado pelos ouvidos. Há 20 anos que acho Nolan um mau cineasta — especialmente um mau roteirista — mas essa é a primeira vez que ele adapta uma história clássica com a qual eu já tinha certa familiaridade, e ver como ele lida com uma trama conhecida só me fez ter uma visão mais clara de suas inaptidões: a maneira como a não-linearidade e a fragmentação da história são usadas para camuflar falta de domínio narrativo e temático, como o realismo e o tom sombrio viram muletas para fazer um roteiro tolo soar sério, etc. A ruindade dos diálogos (cheios de exposições forçadas e toques anacrônicos) pra mim pareceu ainda mais gritante, pois acabei de rever Troia (2004), que é cheio de falas brilhantes e fica parecendo Shakespeare em comparação.

Pra ilustrar algumas dessas minhas críticas, pegue os set pieces de ação, por exemplo. Em outras versões de A Odisseia que assisti, não tive problema nenhum em aceitar a lógica das táticas de Odisseu para superar os monstros e obstáculos da jornada. Mas agora, detalhes estranhos tornaram muitas das cenas forçadas, ilógicas ou simplesmente confusas: a fuga da gruta do ciclope não parece mais baseada em uma série de sacadas brilhantes de Odisseu; o Cavalo de Troia não tem mais rodas, ficando inconveniente de transportar e perigoso para quem está dentro; parece haver outros caminhos para o navio evitar o redemoinho, em vez de uma geografia que os força a escolher entre o redemoinho de um lado e a Cila do outro... Outros detalhes também tiram credibilidade: Atena (que não tem muito mais utilidade na história) não transforma Odisseu em mendigo quando ele chega em Ítaca, o que torna forçado Matt Damon dialogar por horas com as pessoas com o rosto coberto para não ser reconhecido. Depois, quando ele tem que lutar contra os pretendentes de Penelope, há tantos adversários que a luta se torna inacreditável, até porque Matt Damon não está com um grande porte físico e a má coreografia o torna meio ridículo em alguns momentos. Em Ulysses (1954) e na minissérie A Odisseia de 1997, essa sequência é dirigida de forma que não parece absurdo o herói derrotar os homens sozinho. Quanto a Helena de Troia — meu problema com o casting da Lupita Nyong'o não é o fato dela ser negra, mas o fato de não ter o tipo de beleza óbvia e lendária que "lança mil navios", criando mais um toque de artificialidade.

Embora A Odisseia tenha um formato episódico, que normalmente torna filmes arrastados, algumas adaptações anteriores conseguiram contornar isso criando um enorme suspense em relação a Penelope e os pretendentes. Víamos primeiro como era a vida do casal antes da partida de Odisseu, como eles tinham um lar ideal em Ítaca, e como tudo vai sendo degradado com o tempo pelos pretendentes (como quando Scar sobe ao poder em O Rei Leão). Isso criava um gancho que tornava a jornada de Odisseu super envolvente. Aqui, não vemos como as coisas eram antes para poder comparar, portanto não há mais a mesma sede de vingança nem senso de urgência pelo retorno de Odisseu (a narrativa não-linear também ajuda a diluir a tensão, minando este gancho da história).

Outro atrativo de uma obra como A Odisseia é o potencial de escapismo — aquilo que torna os clássicos do Ray Harryhausen encantadores de ver. Mas o estilo de Nolan é incompatível com esse tipo de escapismo — sua seriedade não combina com os ingredientes mais fantasiosos da história, que exigiriam uma abordagem mais leve. Na tentativa de tornar bruxas e gigantes coisas sérias, adultas, ele acaba eliminando muito da magia. O resultado é aquele meio do caminho entre o naturalista e o fantasioso que tornava certas cenas da trilogia Batman esquisitas — quando estávamos numa sala realista, cheia de homens comuns, e de repente um adulto fantasiado de morcego entrava pela porta.

"Ah, se é tão ruim assim, como Christopher Nolan é o diretor mais bem-sucedido do século 21?". Acho que ele é muito bom em criar uma aura de poder, autoimportância, autoridade, o que parece ser irresistível para muitas pessoas. Meu problema não é com esses valores em si, mas com o fato dele projetar apenas esses valores (ter pouca versatilidade), e projetá-los em um nível sensorial, driblando o cérebro do espectador. Sua autoridade vem muito mais de gimmicks como rodar o filme em IMAX 70mm e escalar 10 dos atores mais bem pagos de Hollywood do que de suas reais competências. Nolan não saberia fazer o coração do espectador disparar no clímax da história com base em seu controle narrativo, mas junto com sua equipe de som, ele consegue desenvolver um batuque atordoante que, por meios fisiológicos, não duvido que acabe provocando uma taquicardia em alguém. É uma forma frágil de poder — e em alguns aspectos, seus filmes recentes têm falhado até em demonstrar o tipo de potência testosterônica superficial que seus fãs respeitam. Assim como a explosão de Oppenheimer foi decepcionante, o herói de A Odisseia nunca parece um guerreiro tão poderoso quanto deveria, e as cenas grandiosas do filme são tímidas se comparadas às multidões de Troia (2004). Admiro grandes feitos, mas Nolan é muito mais sobre uma pretensão de grandiosidade do que sobre grandiosidade de fato (o que por algum motivo me fez sair da sessão pensando em Trump e no dom de ambos de forjar esse tipo de autoestima sem lastro que encanta multidões).

The Odyssey / 2026 / Christopher Nolan

★½

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Julho 2026 - outros filmes vistos

O Convite (The Invite / 2026 / Olivia Wilde) ★★½

Uma "comédia inteligente" que não achei nem engraçada nem particularmente inteligente. O humor é do tipo Naturalista, baseado nos constrangimentos cotidianos das interações sociais (das classes mais altas, pelo menos). E a situação central me pareceu boba demais. Se os personagens do Seth Rogen e da Olivia Wilde fossem mais antiquados ou extremamente religiosos, o contraste com os vizinhos talvez rendesse boas risadas. Mas eles não parecem em nada o tipo de pessoa que ficaria chocada ao ser convidada para uma orgia. Parece o tipo de humor ultrapassado que você veria em uma comédia da Globo Filmes estrelada pela Ingrid Guimarães, e não na comédia sofisticada e cosmopolita que Olivia Wilde aparentemente pensa estar fazendo.


Moana (2026 / Thomas Kail) ★★

Um remake ainda menos necessário que o de costume. Primeiro porque o original não é antigo o bastante pra justificar uma nova versão; segundo porque a história foi mantida praticamente idêntica. O que funcionava na animação continua funcionando aqui, e o que não funcionava continua não funcionando. O frustrante é que há tanto CGI e fundo verde que em muitos momentos você nem sente os benefícios de estar vendo um live-action. Se houvesse um esforço para recontar a história em cenários reais, poderia haver um ganho em termos de fotografia e imersão visual. Mas do jeito como foi feito, é quase como rever o mesmo filme, apenas com gráficos mais realistas.

Se houve alguma melhora, diria que Catherine Laga'aia torna a heroína um pouco mais simpática e atraente do que na animação. Tive essa mesma impressão em Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão — talvez porque live-actions evitam certas tendências da animação moderna que reforçam o fenômeno do "herói envergonhado".