Ando focado na tradução do livro para o inglês, que na verdade será praticamente uma nova versão, pois não só estou incluindo várias ideias que só elaborei depois da primeira edição (Ganchos e Recompensas, Densidade Criativa, Arquétipos, Complementaridade, paralelos com Aristóteles etc.) como estou alterando bastante o tom da escrita, focando nos princípios positivos do Idealismo que possam ser úteis para o leitor, e menos nos ataques aos "maus artistas" e "maus espectadores".Entrevistadora: Vivemos em uma época que exige que a nobreza ("greatness") peça perdão. Quando retratamos a nobreza, nós desviamos dela, a tratamos como privilégio e exigimos que ela peça desculpas. É um fato sobre Hollywood. Me pergunto como você aborda a nobreza. Ainda é uma história de pedido de perdão, que exige arrependimento, reflexão e autocrítica?
Christopher Nolan: Como um contador de histórias, você está sempre em diálogo com as expectativas da plateia. Temos que ter consciência da energia que a plateia traz para a história e da intersecção entre nossa intenção e a maneira como a plateia a recebe. Falando de forma simples: você tem que tornar o personagem gostável. Então nos perguntamos: iremos tratar a nobreza como um absoluto? Ou, vindo do contexto filosófico mais idealizado e democrático em que vivemos hoje, em que queremos ver as pessoas como sendo iguais, precisamos pedir desculpas por essa nobreza? E a resposta é: sim, precisamos, ou então a plateia rejeita a nobreza.
Nolan fala como se esta fosse uma regra universal para qualquer contador de histórias hoje, ignorando que há filmes de sucesso que não corrompem seus heróis como um pedido de perdão (os blockbusters do Tom Cruise, por exemplo). Mais correto seria ele dizer: "Para agradar o tipo de público que eu acho importante e para receber os prêmios da crítica que eu acho importantes, sim, precisamos pedir desculpas pela nobreza."
Para entender como lidar, no Idealismo, com essa relação entre virtudes e vulnerabilidades, recomendo os textos O que torna um personagem gostável? e Complementaridade: Por que o herói tem que ser incompleto.
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