sexta-feira, 18 de maio de 2018

Deadpool 2

Queria não ter deletado o vídeo que gravei na época do lançamento do primeiro Deadpool, pois tinha traduzido uns trechos do artigo "Bootleg Romanticism" da Ayn Rand que seriam novamente relevantes aqui. Mas só pra relembrar uma parte:

"Observe que na questão de humor vs. thrillers, os intelectuais modernos estão usando o termo "humor" como um anti-conceito, um "combo" de 2 significados, com o significado correto servindo de cobertura pra que eles enfiem o significado inapropriado nas mentes das pessoas. A intenção é destruir a distinção entre "humor" e "ridicularização", particularmente "auto-ridicularização" - e portanto levar as pessoas a sujarem seus próprios valores e suas autoestimas, por medo de serem acusadas de não terem um "senso de humor". Lembre-se que humor não é uma virtude incondicional - ele depende do objeto. Você pode rir com um herói, mas nunca de um herói - assim como uma sátira pode rir de um determinado objeto, mas nunca de si mesma. Uma composição que ri de si mesma é uma fraude sobre a plateia."

Concordo plenamente com ela (é o que já discuti em postagens como Herói Envergonhado e Idealismo Reprimido) e esse é o principal motivo de eu não me divertir com essa série.

Mas há outros valores ruins no filme também. Não só ele é anti-heróis, anti-autoestima, como ele é explicitamente pró auto-sacrifício, apresentando uma história onde o herói dedica todo o seu esforço pra salvar um personagem secundário, que nada tem a ver com sua vida, que é intencionalmente feio, mau caráter, não tem o menor carisma... Ou seja, o grande tesouro da história, a "arca perdida" que o herói tem que lutar pra conquistar, agora é um adolescente revoltado, andrógino, com obesidade mórbida, representante das "minorias oprimidas".

SPOILER: No clímax, assim como no último Star Wars, temos novamente um momento de duplo auto-sacrifício (1 só já se tornou uma dose muito fraca pro público atual) - onde o herói tenta morrer em nome dos mais fracos, mas daí um personagem secundário se sacrifica de última hora pra impedi-lo de se sacrificar. Assim, o herói consegue provar pro público que tem o "coração no lugar certo" - que está em harmonia com os ensinamentos de Jesus - mas não precisa morrer na prática, afinal isso seria muito inconveniente, o que vale mesmo é a intenção (o interessante nesse caso específico é que mesmo depois que o Deadpool se joga na frente da bala e leva o tiro pelo garoto, ele ainda poderia se salvar apenas tirando o dispositivo do pescoço que anula seus poderes - tirando o colar, o ferimento da bala se regeneraria - mas não: ele insiste em não tirar o colar e morrer de propósito, apenas pra provar que ele não fez aquilo por qualquer motivo egoísta (egoísmo = Hitler). Para um altruísta, apenas o sacrifício total conta como uma verdadeira prova de bondade.

A completa rejeição da lógica, da realidade, de regras claras, também é algo impressionante nos filmes da Marvel, e aqui não é diferente - o que destrói qualquer possibilidade de suspense na história e envolvimento nas cenas de ação (como ficar apreensivo, temer qualquer coisa, ou admirar qualquer virtude num universo onde tudo pode, onde nada tem características sólidas, onde não se tem uma noção de quais são os limites do herói, do que ele pode ou não fazer?). Afinal, não só Deadpool é praticamente indestrutível (ele é desmembrado diversas vezes no filme - às vezes demoram alguns dias pros seus membros crescerem de volta, mas às vezes ele já aparece todo "colado" na cena seguinte), como também há uma máquina do tempo no filme, então mesmo que alguém consiga matá-lo, sabemos de antemão que será possível desfazer tudo num estalar de dedos.

Rand dizia que a arte reflete a soma dos valores filosóficos mais profundos de uma sociedade. Não sei se Deadpool é um bom representante da cultura atual, mas o que quer que ele reflita, não é boa notícia.

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Deadpool 2 / EUA / 2018 / David Leitch

FILMES PARECIDOS: Logan (2017) / Star Wars: Os Últimos Jedi (2017) / Kingsman: Serviço Secreto (2014)

8 comentários:

Anônimo disse...

Certamente o filme é um representante dos valores que Hollywood vem promovendo nos últimos anos, haja vista o número de vezes que essas coisas foram notadas em flimes criticados no blog. Para a Hollywood atual, os filmes são principalmente veículos para mensagens progressistas, então a lógica interna da história pode ser dispensada.
Pedro.

Caio Amaral disse...

Ah sim, representa bem a Hollywood atual.. só fico na dúvida se esse tipo de filme representa também a população em geral.. o que o povo de fato quer.. ou se existe uma "silent majority" que no fundo preferiria coisas mais idealistas, porém consome isso porque é o que tem no momento, não sabe identificar o problema, etc.. abs!

Anônimo disse...

Falando de herói envergonhado e idealismo reprimido, li ontem no blog do Roberto Sadovski sobre a nova versão dos Thundercats, no mais puro estilo Cartoon Network de Gumball, Regular Show e etc. Nem era fã do desenho, mas fico impressionado com essa necessidade atual dos produtores de avacalhar tudo. Parece que acham mesmo que algo só pode fazer sucesso se for feio e bobo.
https://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2018/05/22/thundercats-da-um-aviso-nerds-velhos-nao-sao-donos-da-cultura-pop/

Como era antes:
https://www.youtube.com/watch?v=-ofc-p8ZSjc
Como vai ficar:
https://www.youtube.com/watch?v=Kdlt-mlMFzI

Pedro.

Caio Amaral disse...

Oi Pedro.. Horrível o desenho, mas o pior mesmo é o texto deste homem.. É o mesmo que a Rand diz acima no trecho que traduzi.. sobre os intelectuais modernos usarem "anti-conceitos" pra enfiarem ideias malignas na cabeça das pessoas.. Ele quer o leitor que não gostou do novo Thundercats se sinta inferior, "atrasado", por ter um apego irracional ao desenho antigo.. dizer que ele precisa "evoluir".. Ou seja, ele quer que a gente abra mão de nossos valores (autoestima, etc) sob o pretexto de que temos que nos "modernizar".. que se a cultura muda, e o certo é ir acompanhando as tendências sem questionar nada.. Se uma hora sua cultura adotar ideias malignas, então você deverá se tornar maligno junto pra não ser visto como um velho ultrapassado (esse provavelmente é o grande medo do Sadovski).. daí se na próxima década os valores mudarem de novo, você se atualiza mais uma vez.. pra ele, o principal na vida é sempre ser visto como "cool" entre as massas jovens (talvez o salário dele de fato dependa desse fator, rs). Abs.

Korvoloco Aspicientis disse...

Eu mesmo iria falar sobre essa nova versão dos Thundercats e sobre o texto do Roberto Sadovski, mas o amigo aí em cima já fez isso. É lamentável a forma como os estúdios tentam doutrinar as crianças a aceitarem desenhos toscos, com traços bisonhos e simples. Também notei que desenhos como Ben 10 e Teen Titans, que já tinham traços simples, ficaram ainda mais simples e mais coloridos. Uma tendência que os estúdios japoneses também vêm adotando de uns anos pra cá, mas numa escala menor.
Tenho muito medo de ver no que vai dar com o mundo do entretenimento daqui a vinte anos...

Caio Amaral disse...

Felizmente eu nem sei do que se tratam esses desenhos hehe.. meu sobrinhos ainda são pequenos e não saíram da fase Peppa Pig, rss. Mas acho que isso é um pouco como a questão da educação em geral.. As crianças sempre vão ser expostas a coisas toscas, ideias ruins.. na escola, na TV, pelos amigos.. Então depende muito dos pais apresentarem referências melhores né.. Não dá muito pra impedir o "lixo" de surgir na cultura.. abs!

Dood disse...

Deadpool é um anti herói por padrão, só que pelo que eu pude ler da sinopse tentaram colocar ele numa atitude heróica. Acho bizarro tratar ele como um herói por conta de sua essência. Mas hoje em dia eles relativizaram tanto o termo e o gênero que a coisa ficou tão ruim.


Quanto aos Thundercats Roar acho péssimo, pior que o criador de Jovens Titãs em Ação que vai virar filme esse ano. Se você assistir esse no cimena vai entender como o gênero herói está sendo tão atacado.

Caio Amaral disse...

Oi Dood.. não conheço o Deadpool dos quadrinhos pra dizer.. mas sim.. aqui basicamente ele age por objetivos considerados nobres.. não é pra ele ser visto como alguém imoral, criminoso, etc...

Acho deprimentes esses desenhos atuais.. Não que eu assista algum deles pra poder julgar, mas acho incrível eles parecerem tão mais toscos / simplórios, não só em conteúdo, mas também tecnicamente.. em comparação com desenhos que têm mais de meio século..