domingo, 30 de março de 2025

Dinâmica Espiral

Li recentemente o livro A Theory of Everything, de Ken Wilber, e fui exposto à teoria da Dinâmica Espiral — que eu desconhecia — e que me pareceu ainda mais útil do que a teoria do Dabrowski para explicar os diferentes níveis de desenvolvimento humano. Achei interessante porque ela pode ser aplicada a questões artísticas e culturais de maneira mais concreta e provavelmente se tornará uma ferramenta valiosa nas minhas análises.

A teoria não é de Wilber e já parece bastante difundida, então não vou reintroduzi-la aqui. Quem se interessar poderá encontrar diversos resumos na internet. Mas vou dar uma breve descrição de cada nível, aproveitando pra indicar que tipo de cinema ou entretenimento associo a cada um deles em um primeiro momento (devo ler mais sobre o tema no futuro, o que pode levar a correções).

Basicamente, a Dinâmica Espiral descreve 8 níveis de desenvolvimento da consciência humana, indo do mais elementar (Bege) ao mais complexo (Turquesa). Todos nós nascemos no nível Bege e, normalmente, evoluímos para estágios superiores. Civilizações como um todo também tendem a avançar ao longo dos séculos, conforme a população adquire mais conhecimento. No entanto, nem todos os adultos chegam ao nível mais elevado da espiral, e cada cultura e período da história tem um “centro de gravidade” em torno de um nível específico.

Primeiro Nível

1. Bege – Nível arcaico/instintivo, preocupado em satisfazer necessidades básicas de sobrevivência, como alimentação, segurança física e sexo.
Arte: Percussões tribais; pornografia e obras focadas no apelo sexual.

2. Púrpura – Nível mágico/animista; enxerga significados misteriosos em fenômenos naturais e explica tudo através de superstições, misticismo, espíritos bons ou maus, etc.
Arte: Fantasia desconectada de propósitos mundanos; mitologia; folclore; lendas religiosas.

3. Vermelho – Nível do poder, caracterizado pelo instinto de dominação através da força bruta e do conflito.
Arte: Ação desconectada de valores morais; obras focadas em violência, batalhas e heróis cuja principal qualidade é a brutalidade e a força física.

4. Azul – Nível da ordem mítica, onde a vida ganha significado através da disciplina e da submissão a grupos, leis e códigos absolutos.
Arte: Filmes sobre heróis que se sacrificam em nome de ideais externos; Jornada do Herói; filmes de esporte; filmes religiosos; obras feitas para empoderar nichos ou subculturas específicas.

5. Laranja – Nível da ciência, que busca a racionalidade, a manipulação da natureza, respeita os direitos individuais e valoriza abundância material, liberdade e independência.
Arte: Fórmulas narrativas universais; estrutura em três atos; Hollywood clássica; arte comercial.

6. Verde – Nível da pluralidade, que valoriza a comunidade, o vínculo humano, a sensibilidade, o bem-estar interior e a quebra de antigos dogmas, rejeitando ganância e hierarquias. (Wilber aponta uma instabilidade especial neste nível, que pode cair em contradições internas e também servir de máscara para pessoas em estágios como Vermelho e Azul.)
Arte: Nova Hollywood; filmes que levam em conta a expressão pessoal do artista; filmes críticos em relação à cultura, que questionam o status quo e as convenções; filmes sensíveis a questões sociais e psicológicas.

Segundo Nível

(Há uma divisão entre os primeiros seis níveis e os dois últimos, pois Amarelo é o primeiro estágio que compreende o papel da espiral como um todo)

7. Amarelo – Nível integrativo, que entende a função de todos os estágios da consciência para a humanidade e busca harmonia e coordenação entre diferentes níveis de realidade.
Arte: União entre Arte e Entretenimento — obras que integram as sensibilidades do nível Verde com as necessidades dos níveis anteriores, buscando tocar todos os estágios de desenvolvimento e promover crescimento.

8. Turquesa – Nível holístico — plena integração entre razão e emoção; a união entre o “eu” e todos os elementos do cosmos.
Arte: Arte total — estágio no qual a integração do nível Amarelo é incorporada pelo próprio artista, tornando sua obra uma manifestação indivisível de sua pessoa e sua experiência única de vida.

Wilber estima que a população mundial esteja distribuída aproximadamente desta forma entre os diferentes níveis (o livro é do ano 2000 — imagino que, de lá pra cá, o Verde tenha crescido em poder):

Em alguns textos aqui no blog, já tentei categorizar filmes em termos de diferentes níveis de talento, maturidade, intelecto (como no texto O Fator G do filme), mas até agora não tinha encontrado um conceito que trouxesse tanta clareza para a qualidade que eu estava tentando nomear.

A teoria também ajuda a explicar minha noção de que os melhores filmes operam em diversos níveis — estimulam o intelecto, elevam o espírito, mas sem ignorar as necessidades básicas do espectador comum.

Pretendo explorar mais a Dinâmica Espiral e suas aplicações no futuro. Nesta postagem, quis apenas introduzir o tema para quem tiver interesse.

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