A corrupção dos valores da Academia tem um efeito negativo na indústria que é pouco discutido, porque poucos reconhecem um fato: que muitos cineastas fazem filmes justamente pelo desejo de ganhar um “Oscar”. Nossa tendência é achar que cineastas têm motivos sofisticados para fazer filmes, tomam decisões baseadas puramente em visões pessoais, considerando no máximo os espectadores — e que os Prêmios da Academia existem em uma dimensão paralela que nada interfere no processo criativo. Mas isso está longe de ser verdade. Uma das plateias que os cineastas mais trabalham para agradar é a própria Academia. Isso significa que as preferências da premiação têm o poder de moldar os filmes que são feitos — pelo menos aqueles que buscam prestígio, reconhecimento da crítica etc. (há sempre os filmes que se contentam apenas com bilheteria).Todo ano, quando saem os indicados aos Prêmios da Academia, eu reviro os olhos e tento imaginar uma seleção alternativa, pensando quais filmes daquele ano seriam indicados a Melhor Filme caso o Oscar tivesse preservado seus valores. O problema é que esses filmes sequer foram feitos. Como o que ganha prêmio hoje são filmes com uma vertente mais autoral/experimental ou mais naturalista/social, o artista que quer ganhar prêmios acaba contaminando seu processo criativo com esses critérios. Ele não vai continuar tentando agradar a Academia de 40 anos atrás. Só fará isso hoje quem não se importar demais com prestígio e acreditar tanto nesses valores que esteja disposto a seguir com sua visão, abrindo mão de troféus, da aceitação das “autoridades” etc.
A verdade é que poucos artistas são tão independentes assim, especialmente no cinema, que depende de mídia, de retorno financeiro e da colaboração de centenas de pessoas. Não que isso justifique alguém corromper sua visão a ponto de se tornar um queridinho da crítica atual. Mas também não quero invalidar totalmente a necessidade de aprovação externa, o desejo de ser reconhecido por profissionais experientes e bem estabelecidos da sua indústria. Dentro de certos limites, esse é um desejo humano racional.
Por isso, acho um crime o fato de praticamente todas as instituições que dão esse reconhecimento hoje estarem alinhadas com ideais corrompidos. Não é estranha a falta de diversidade ideológica nas premiações? Todo ano parece que os mesmos cinco ou dez filmes rodam todos os eventos recolhendo os prêmios: Cannes, BAFTA, Globo de Ouro etc. Antigamente, alguns prêmios para filmes populares, como o MTV Movie Awards, operavam por critérios diferentes e ainda tinham certa relevância. Hoje, nenhum prêmio alternativo tem qualquer impacto cultural. Portanto, se você não se alinhar com os valores corrompidos da crítica, você simplesmente ficará sem o “prestígio”.
É por isso que, se a Academia realmente estiver além da salvação, seria importante que outra instituição preenchesse esse vácuo e criasse um prêmio que exercesse sua função antiga: premiar filmes narrativos de grande impacto cultural, que unam apelo popular com qualidade técnica e artística e, acima de tudo, tenham um compromisso com elevação moral e excelência humana.
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