Imagine que você está andando na rua e recebe uma cantada. Você pode até ficar envaidecido por um momento, se assumir que o autor do elogio é criterioso, racional. Agora imagine que instantes depois ele repita o mesmo elogio a um cavalo que passa. Sua emoção muda totalmente, pois os critérios do galanteador são colocados em xeque. É mais ou menos essa a experiência que eu tenho vendo premiações de cinema hoje em dia — acompanho tudo com uma completa indiferença no que diz respeito aos resultados. No momento em que você começa a ficar alegre com o reconhecimento de um filme merecedor, você lembra que os filmes mais tediosos do ano estão na mesma disputa e com mais chances de vencer.
O fato mais risível desta edição dos Prêmios da Academia (até que criem um apelido mais apropriado, vou evitar o termo “Oscar”) são as 16 indicações para Pecadores. A mídia vai dizer que o filme quebrou o recorde de todos os tempos, superando as 14 indicações de Titanic e A Malvada, ignorando totalmente (e propositalmente) o fato de que o prêmio mudou de critérios e de identidade nas últimas décadas, preservando apenas o rótulo. Se você quiser exaltar esse feito de Pecadores, a forma mais honesta de dar a notícia é: “Pecadores quebra recorde e recebe 3 indicações a mais que Emília Pérez!”.
As indicações para O Agente Secreto são coerentes, se você levar em conta a nova realidade da Academia. O filme fez uma boa campanha, está ideologicamente alinhado com a agenda política dos votantes e traz o engajamento dos “torcedores de futebol” brasileiros nas redes sociais de quebra. Nos tempos de Cidade de Deus, porém, o filme provavelmente teria rodado alguns cinemas do circuito alternativo no Brasil e nunca chegado aos ouvidos dos votantes.
Uma Batalha Após a Outra é o segundo filme com mais indicações (13) e é outro filme extremamente ideológico desta edição. Até entenderia o reconhecimento em categorias como Fotografia e Edição — mas 4 indicações de atuação já indicam uma simpatia exagerada pelo filme (e seus personagens) que tem origens duvidosas.
O único filme que acho merecedor na disputa para Melhor Filme é Marty Supreme, mas não torço nem deixo de torcer por qualquer vitória.
O vídeo abaixo é do ano passado, mas vale repostar:
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