Uma dessas “biografias” ou filmes históricos desconstruídos que primeiro escolhem se passar em um ambiente onde algo extraordinário está ocorrendo, só pra ir contra as expectativas e focar no ordinário, no tedioso. Durante a maior parte do filme, o nome de Shakespeare sequer é pronunciado, e nenhuma importância é dada ao seu trabalho. A abordagem é Naturalista e todo o foco está na rotina familiar, nos momentos singelos entre ele, sua esposa e os filhos. Há uma certa romantização do rústico, do místico, do estilo de vida simples e primitivo que, assim como em Sonhos de Trem, parece vir de uma aversão à ciência e à civilização moderna.
Tudo vai bem até que uma série de infortúnios aleatórios começa a acontecer e, em vez de uma rotina banal, passamos a contemplar sofrimento, dor, morte, luto — e é aí que o filme encontra sua razão de ser. Se algo explica o favoritismo de Jessie Buckley na temporada de prêmios, são seus diversos urros de dor, que representam o sacrifício feminino.
Nada importa aqui o fato de William Shakespeare ser um gênio que moldou a cultura ocidental. O que importa, em primeiro lugar, é a grande mulher por trás dele. Na medida em que ele é relevante, o que deve nos interessar é o fato de que ele sofreu e de que ele era falho como todos os maridos, sempre colocando o trabalho acima da família. Londres — simbolizando a modernidade, a carreira — é mostrada como um lugar feio, decadente, quase como um prostíbulo onde Shakespeare precisa ir pra dar vazão a seus instintos inferiores.
Nas mãos de um diretor mais ressentido, teríamos aqui o palco perfeito pra um ataque ao legado de Shakespeare. Porém, Chloé Zhao aposta em uma “ressignificação” mais elegante e sutil, em que todas essas mensagens são transmitidas sem que o filme precise ser espalhafatoso ou raivoso para manchar a imagem de ninguém (Zhao faz com Shakespeare algo parecido com o que faz com a Amazon em Nomadland).
Estranhamente, o filme termina em uma nota positiva, exaltando Hamlet e perdoando Shakespeare parcialmente por suas falhas como pai. Mas nada me tira da cabeça que essa sequência final não foi encomendada e co-dirigida por Spielberg, produtor do filme. Não só por ela destoar de todo o resto (Agnes subitamente muda de caráter e se torna a esposa ingênua e incentivadora, encantada com o brilhantismo do marido), como por alguns detalhes de direção muito característicos de Spielberg nos minutos finais (os gestos manuais, a música, a despedida emocionante enquanto alguém atravessa uma porta para outro mundo). Em vez desse final me fazer gostar mais do filme, ele só me fez sair da sala mais contrariado, como se uma energia spielbergiana tivesse sequestrado o filme pra maquiar a intenção de Zhao, revelando hipocrisia e falta de integridade em ambas as partes.
Hamnet / 2025 / Chloé Zhao

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