(Os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)
- A cena inicial do Sammie chegando machucado na igreja com o violão é um prólogo esquisito e anticlimático — até porque essa cena nunca se provará crucial para a narrativa. (Acho que o produtor mandou inserir isso só para avisar a plateia de que haverá ação mais pra frente, já que o filme irá enrolar horas até qualquer coisa acontecer).
- Dizer que não havia diferença entre Chicago e o interior do Mississippi na época é aquele insulto desonesto contra os EUA que faz você parecer moralmente superior hoje.
- Toda a primeira parte do filme é sobre Smoke e Stack recrutando pessoas para o bar que irão inaugurar. Mas isso não é um gancho narrativo. Por que eu deveria torcer pelo sucesso desses dois, se eles claramente são gângsters de caráter duvidoso? A única coisa que gera certa curiosidade até agora é a promessa do prólogo de que algo violento e sobrenatural irá ocorrer mais pra frente.
- Há muitos diálogos aleatórios sobre o passado dos personagens, as injustiças que sofreram, mas é aquele desenvolvimento de personagem solto que não contribui em nada para a trama — além disso, você precisa simpatizar com pessoas corruptas para se importar com esses dramas pessoais.
- As cenas e diálogos envolvendo sexo nesse filme são gratuitamente nojentos. O fato do roteirista que escreveu essas falas estar indicado ao Prêmio da Academia deveria ser suficiente para descreditar o evento.
- Aos quarenta e poucos minutos, descobrimos que estamos vendo um filme sobre vampiros! Óbvio que não é literalmente um filme de terror, assim como A Substância não é terror, e Bacurau não é faroeste. É apenas uma desconstrução de gênero típica de quem está mais preocupado em parecer original do que em contar uma boa história. (A mistura de filme de gângster/Lei Seca com filme de vampiro, por si só, já daria ao filme aquele ar excêntrico de produções como Cowboys & Aliens ou Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros — mas o filme soma outras bizarrices em cima disso).
- Assim como o prólogo, essa cena do vampiro na casa foi só para relembrar o espectador de que algo excitante irá acontecer no futuro — mas não ainda! Continuamos vendo um filme arrastado sobre criminosos inaugurando um bar.
- Não é nada convincente que, em um único dia, eles tenham conseguido contratar toda a equipe do bar e organizar tudo para a inauguração.
- O filme é descaradamente anti-brancos. De início, achei que eles tinham inserido pelo menos uma personagem branca boa na história pra mostrar que o problema não é cor de pele. Mas o motivo dela ser do bem é “explicado” pelo fato de o avô dela ser mestiço! De qualquer forma, depois ela acaba sendo a vampira que se infiltra no bar e dá início ao caos.
- O filme é escrito naquele estilo de minissérie de TV. Não há um protagonista claro, ficamos alternando entre diversos dramas paralelos, o foco todo está em diálogos que enchem linguiça e não avançam a história, etc. Já estamos em uma hora de projeção e ainda não há sinal de vampiros se aproximando.
- A cena musical com os artistas negros de várias eras é uma das mais ridiculamente pretensiosas que já vi. O filme já tinha apresentado elementos de fantasia, mas não essa linguagem simbólica/surrealista, na qual o diretor rompe com o realismo físico pra “filmar ideias” e passar mensagens diretamente ao público. Há uma mudança brusca de linguagem e uma tentativa de enfiar uma reflexão histórica abrangente na trama que nada tem a ver com os assuntos que vinham se desenvolvendo até agora. É tão fora de contexto que tiveram até de repetir a narração mitológica do início, senão o espectador nem ia lembrar que essa discussão mística sobre música fazia parte do enredo.
- Outro problema dessa cena é que ela universaliza o conflito racial. Não é apenas um problema local, de um momento histórico, mas um duelo metafísico, atemporal, em que um lado é sempre o opressor e o outro sempre o oprimido.
- Está me lembrando esses filmes sobre cultura oriental, tipo K-Pop Demon Hunters, Ne Zha 2, que são sempre um duelo entre duas “energias” opostas, uma do bem e outra do mal (música negra vs. música branca aqui), e nada precisa ter muita lógica na trama, pois tudo funciona num nível simbólico.
- Ideologicamente, esse é talvez o filme mais perigoso do ano, porque ele traz uma perspectiva extremista de esquerda (ataque aos EUA, aos brancos/ricos, aos padrões morais), mas a apresenta de forma sedutora para pessoas mais alinhadas com a direita (por ter testosterona, falar em tradições, não ser woke, não subverter masculinidade, papéis de gênero, ser alinhado com certos temas cristãos, etc.). Não é como Uma Batalha Após a Outra, cujo discurso seduz mais quem já é de esquerda.
- Lá pela 1h20, os protagonistas finalmente descobrem a presença de vampiros e a ação principal se inicia. Mas é aquele tipo de conflito que espera que você torça por um dos grupos só porque o outro é ainda pior, não porque o primeiro tenha reais virtudes.
- Sinceramente, Michael B. Jordan, Delroy Lindo e Wunmi Mosaku não têm atuações dignas de Oscar. A única atuação desse filme que se destacou pra mim foi a do Miles Caton (Sammie), que tem uma voz surpreendente — e ele não foi indicado. Pegue a cena em que um dos gêmeos morre após ser mordido por Mary: a reação do Michael B. Jordan à morte do irmão deveria ter sido um grande momento, mas não é interessante nem intensa o bastante. Mosaku também não tem cenas muito expressivas. E o “mérito” do Delroy Lindo é mais trazer uma ironia que deturpa a seriedade do filme, como na cena: “Estão sentindo um cheiro? Acho que me ca****”.
- A fotografia e o design de produção do filme são ótimos, e dão uma embalagem de “filme premiável” a um roteiro que, de fato, não merece.
- Agora que há uma ação mais concreta, o roteiro se revela tão tolo quanto o de qualquer filme rotineiro de horror/ação. Os personagens já testemunharam eventos claramente sobrenaturais, mas continuam agindo e reagindo de maneira burra, como se ainda não tivessem percebido que estão diante de vampiros. Sem falar na coisa mais sem sentido de todas, que é a mulher oriental de propósito liberar a entrada dos vampiros no bar.
- As lutas são o típico videogame de filmes de ação modernos: pessoas despreparadas matando diversos monstros bem mais fortes do que elas como se fossem bonecos de papel machê.
- Mesmo que fosse um filme mais coeso narrativamente, com um protagonista gostável, provavelmente eu não gostaria muito do filme, porque ele cai um pouco naquela categoria de filme de zumbi, em que o horror não leva a uma aventura empolgante, mas a conflitos entre amigos, mortes de entes queridos, sacrifícios, etc.
- Nada faz sentido depois que eles saem do bar e vão para o lago. Como aquele disco metálico do violão do Sammie atravessou o crânio do vampiro? Ah, não importa, é a simbologia da música! Por que os outros vampiros ficaram lá parados, gritando, em vez de atacar os humanos? Como o sol nasceu tão rápido? Por que eles não se esconderam da luz? Os humanos acabam vencendo a batalha por acidente, e graças à burrice dos vampiros.
- Agora temos de novo a cena do Sammie chegando na igreja, que ainda não sei por que foi escolhida para ser o prólogo.
- Depois de derrotar os vampiros, inventam agora uma batalha extra contra os homens da KKK, que soa desnecessária. Já houve uma vitória contra os brancos maus e racistas; que efeito terá mais uma? Na verdade, o filme deveria ter sido inteiro sobre gângsters negros querendo abrir um bar e lutando contra a KKK. Os vampiros é que foram enfiados no filme sem necessidade. Mas agora fica simplesmente estranho tentar resolver um conflito com um segundo grupo de vilões em uma cena breve no final.
- Sammie velho tocando blues nos anos 90, como se fosse uma biografia de um músico, é a aleatoriedade perfeita para terminar um filme com tantos elementos desconexos. Como disse antes no blog, o filme é “o tipo de subversão de gênero misturada com comentário social que eu esperaria de um cineasta como Jordan Peele, não de Ryan Coogler. Vem nessa onda de filmes autorais desajeitados que, na tentativa de se provarem ‘não formulaicos’ e de atender à atual demanda por obras originais, jogam fora todos os princípios narrativos — inclusive os que não deviam.”
- Por que Pecadores recebeu 16 indicações aos Prêmios da Academia? Porque é um filme que promove de forma brilhante a ideologia corrupta da instituição. O fato de ser um “filme negro”, por si só, não explica o favoritismo — basta lembrar de A Cor Púrpura (2024), que recebeu 1 única indicação.
Sinners / 2025 / Ryan Coogler

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