sábado, 6 de junho de 2015

Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada É Impossível

Como um grande fã da filosofia do Walt Disney e da visão do futuro que ele criou em seus parques, esse era um dos filmes que eu estava mais curioso pra ver esse ano. Além disso, o filme é dirigido pelo Brad Bird (de O Gigante de Ferro e Os Incríveis) que é muito influenciado pelo Steven Spielberg (meu cineasta favorito), e que já foi várias vezes "acusado" de promover em seus filmes ideias da Ayn Rand (minha filósofa favorita). Ou seja, vários dos temas principais do meu universo cultural pareciam se juntar nesse projeto, quase como se eu tivesse mandado fazer um filme sob encomenda pra mim. Infelizmente o que parecia fantástico no papel não se traduziu pras telas da maneira que eu gostaria.

Falando primeiro do lado positivo, eu gosto muito do universo em que o filme se passa - do mundo dos grandes inventores, da visão otimista da tecnologia e do futuro (amei o detalhe da música do Carrossel do Progresso no início do filme); algumas ideias pras tecnologias de Tomorrowland são muito legais (por exemplo as piscinas flutuantes); e acho legal a crítica ao pessimismo, ao cinismo e a toda a histeria ambientalista.

Dito isso, há tantas coisas insatisfatórias no filme que fica difícil apontar o que é o mais grave... Fica a sensação de uma bagunça que você não sabe por onde começar a arrumar.

1) Personagens e Relacionamentos: Pra começar, não gostei muito dos personagens principais (George Clooney e Britt Robertson), que não têm um pingo de seriedade e não convencem como grandes sonhadores que querem mudar o mundo. Eles estão sempre discutindo de maneira cômica, agindo de maneira imatura, como se fossem adolescentes irresponsáveis numa excursão ao Hopi Hari. E não há uma boa construção de personagens, uma dimensão mais pessoal que crie um mínimo de conexão com o drama e os sonhos dessas pessoas. A personagem da Casey supostamente é muito "especial", mas não vemos ela fazendo nada de especial, apenas invadindo a NASA pra tentar impedir de maneira burra o fim do programa espacial. Talvez ser "idealista" já seja o bastante pra te levar a Tomorrowland (mas será que seria tão difícil encontrar idealistas desse tipo?). Frank é também um menino especial pois consegue inexplicavelmente construir um "jetpack" apesar de ser uma criança. E quando o pai questiona por que ele acha que aquilo irá funcionar, o menino responde "porque eu sou otimista!" (não porque ele tenha qualquer conhecimento científico sobre o que está fazendo). Clooney e a relação que ele tem com a garotinha Athena também não convence (apesar da atriz Raffey Cassidy ser uma das melhores coisas do filme) - será mesmo que depois de velho, Frank ainda estaria transtornado com o amor não-correspondido de 50 anos atrás? De um robô?

2) Narrativa Ruim: o filme não consegue criar magia, um senso de encantamento que faça a plateia querer ir pro mundo de Tomorrowland. Por mais que a concepção da cidade seja interessante, tudo parece ser mostrado cedo demais. Os personagens nem sabem da existência de tal lugar, e no minuto seguinte já estão lá voando em propulsores a jato e revelando o cenário inteiro pro espectador. Sem falar que o filme já parte de um ambiente fantástico: começa no futuro, com Clooney narrando a história em flashback; depois vamos pra Feira Mundial nos anos 60, que já é um cenário bastante exótico - ou seja, não há um grande impacto quando a gente finalmente chega em Tomorrowland.

Mais pro fim, há toda aquela sequência na Torre Eiffel que não funciona. É uma ideia ruim eles usarem uma tecnologia avançadíssima de teletransporte só pra levá-los até a Torre Eiffel, pra daí eles poderem usar uma tecnologia de séculos atrás e só assim sim conseguirem chegar em Tomorrowland. Soa bagunçado, burro (o simples fato da Torre Eiffel ter um papel importante numa história tão americana já é estranho). E nesse ponto a plateia já esteve várias vezes em Tomorrowland. Não é mais novidade. É um anticlímax o filme criar uma sequência tão grandiosa apenas pra levar a gente pra lá mais uma vez.

E toda a parte final do filme parece corrida e mal explicada. Por exemplo: Casey descobre em poucos minutos que o Monitor está mandando mensagens pessimistas pra Terra. Como ela chegou a essa conclusão? Por que Frank e os cientistas de Tomorrowland nunca pensaram nisso?

3) Ideias Mal Elaboradas / Intelectualmente Limitadas: O filme é cheio de ideias confusas e mal concebidas: como uma civilização como Tomorrowland, desenvolvida pelos maiores gênios do planeta, de repente entrou em colapso? De quem é a culpa? As pessoas foram expulsas de lá pelo Nix? Não ficaram pra proteger as próprias criações? O sonho delas era tão fraco assim? Se o Nix era um dos líderes de Tomorrowland, por que ele virou "do mal"? Ele não está certíssimo em querer impedir que a humanidade entre em Tomorrowland e a destrua como fez com a Terra? Ele subverteu os valores dos "Plus Ultra" originais? Ou o filme quer dizer que essa sociedade era instável por natureza? O que isso quer dizer politicamente? E por que o Monitor criado por Frank trouxe consequências negativas? Quer dizer que a tecnologia é algo perigoso que pode levar o mundo à destruição? Isso não vai contra a intenção do filme de mostrar Tomorrowland como a civilização ideal?

O filme tinha tanto potencial, tantas coisas interessantes. Brad Bird começou com uma visão positiva, com um conceito pra palavra Tomorrowland e a emoção que ela evocava, e ele tentou fazer um filme ao redor dessa emoção. Mas assim como o garotinho precisava mais do que otimismo pra construir o seu jetpack, Bird precisava mais do que boas intenções pra traduzir essa emoção em um bom filme.

(Tomorrowland / EUA, Espanha / 2015 / Brad Bird)

FILMES PARECIDOS: O Destino de Júpiter / Interestelar / Círculo de Fogo / Depois da Terra / Super 8

NOTA: 5.5

6 comentários:

Anônimo disse...

Partindo do principio que este filme foi baseado em uma atração da Disney e está tentando fazer sucesso como um filme família, assim como os Piratas do Caribe. Como ele se saiu considerando o entretenimento e desconsiderando ideais filosóficos?

Caio Amaral disse...

Não foi só por causa da filosofia que eu saí insatisfeito do filme.. Foi mais por causa dos personagens, do storytelling.. Não tem potencial pra ser um sucesso como Piratas do Caribe eu acho.

Anônimo disse...

Umas coisas que fiquei voando no filme: querem salvar o mundo do apocalipse explodindo a máquina. Querem que os robôs tenham contato com humanos, mas colocam explosivos neles. No clímax, precisam se livrar da bomba, jogam em uma praia, explode e nenhuma conseqüência depois (e as tartarugas?). Daí a máquina cai da torre depois da robô explodir, e explode tudo embaixo. As armas futurísticas são altamente explosivas, diferente de um projétil como uma bala (imagine precisar atirar em um sequestrador atrás de um refém! Um rifle de precisão deve ser uma bazuca naquele mundo). O George Clooney, que fabricou a bomba, explode a própria casa. O casal de robôs primeiro destrói a própria loja com arma explosivas e depois explodem destruindo junto a loja. Acho que Michael Bay deu uma volta pelo set.

Outras coisas que me incomodaram. Os robôs são pré programados com diretrizes para detectar potenciais "sonhadores", aparentemente são gênios e têm amplo conhecimento da tarefa que irão executar. No entanto, é necessário que a história do filme seja contada pessoalmente a eles no boca-a-boca. Não é mais fácil inserir um chip com todas as informações de tudo que aconteceu e de que maneira eles devem interpretar a história (otimista), de modo que não exista a necessidade da menina contar do jeito dela?

O pai da menina nem liga pro desaparecimento dela e de estranhas explosões acontecendo aos arredores. Pra quem tem um pensamento tão pessimista (100% do mundo conforme o computador lá), soa estranho quando no reencontro de pai e filha, a residência não esteja cercada de investigadores e ele internado em uma clínica psiquiátrica tentando lidar com o sumiço da filha. Pois pelo jeito a mãe morreu, cade ela? Mas não, quando a menina aparece, ele tá lá bem de boas fazendo tudo exatamente como fazia antes, mexendo na plaquinha de circuitos dele, a menina era só um mero detalhe.

Coitado do George Miller que nunca mais vai fazer um Mad Max. Ao destruir a máquina pessimista, enterraram a carreira de milhares de pessoas que ganhavam a vida com o apocalipse. A CAPCOM não vai mais fazer jogos de apocalipse zumbi. Nolan vai morrer pobre. Oras, o público só gostava disso "subliminarmente".

O otimismo frente a grandes inovações e mentes do mundo se dá no planeta todo ou somente nos EUA. Por exemplo: a vidas melancólicas e de tom triste que se passam naqueles países europeus que sempre chovem e nunca tem um dia ensolarado e feliz, o povo usa roupa escura, a cidade é fria, o povo é frio, ninguém toma banho. O que vai acontecer já que todo esse pensamento foi moldado subliminarmente? O comunismo é consequência da máquina (anos 60, guerra fria e pá)?
E como funciona a tradição centenária, como no caso do sul do brasil? Onde as pessoas se recusam a adotar a tecnologia no cotidiano, pois acreditam que tecnologia é o oposto de felicidade. Estão plenamente felizes em viver de um modo rústico no campo, cuidando do gado, indo aos rodeios, tocando violão, fazendo músicas e poemas.

Cara, que filme estranho! Cada cratera no roteiro. E eu na esperança de mencionarem só um pouquinho a feira mundial de Nova York. Mostrarem um pouco de art deco. Se lá, Dubai que é tomorrowland da vida real e ninguém pensou em Dubai.

Quando chegaram em Tomorrowland e viram tudo destruido, imaginei o seguinte diálogo:
- "O que aconteceu? Foram os comunistas?"
- "Sim, tudo começou quando os inventores quiseram se sindicalizar, derrubaram quem estava no poder e colocaram o PT. Agora aqui se chama República Democrática Soviética Popular de Tomorrowland."

Caio Amaral disse...

Gente, os anônimos andam muito prolixos aqui!! Hehe.. Concordo que o filme tem vários problemas de roteiro e ideias mal desenvolvidas.. Quanto aos hábitos do Sul do Brasil... ou o motivo dos europeus serem mais melancólicos.. isso acho que já vai além das ambições do filme! Mas sua versão "PT" pra destruição de Tomorrowland é ótima... teria dado um filme bem mais convincente, kkkk.

Anônimo disse...

Acredito que a torre eifel estar no filme tenha a ver com a estatua da liberdade ser um presente da frança para os eua após a sua independencia. Tipo assim uma troca.

Caio Amaral disse...

Ah se a Torre tivesse sido um presente dos americanos.. quem sabe.. só achei meio estranho em termos de ambientação.. tipo que nem falei agora sobre Alice Através do Espelho - quando vc vai ver o filme, a última coisa que vc espera ver é a Alice com roupas de chinesa comandando um navio.. parece algo fora do universo da história.. um ingrediente que não combina com o resto da receita.. mas não considero isso um defeito ou algo grave.. abs!