sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Bom Gigante Amigo

Tinha um mau pressentimento a respeito desse filme desde que Spielberg o anunciou. Por algum motivo, a história de uma amizade entre uma garotinha inglesa e um gigante idoso não me parecia muito empolgante. Resolvi assistir à animação de 1989 pra ver do que se tratava, e continuei achando que o material era fraco e que não renderia um bom filme. Ainda assim, minha confiança no Spielberg é tanta que eu estava pondo fé que ele acharia uma forma de modificar o material original e transformá-lo num grande entretenimento (ainda mais o roteiro sendo da Melissa Mathison, que apesar de não ter uma carreira muito extensa, escreveu E.T. - O Extra-Terrestre que eu considero um dos melhores filmes já feitos). Infelizmente isso não aconteceu. Spielberg parece ter confiado cegamente que o livro de Roald Dahl era um clássico, e se propôs apenas a transpor a história para as telas, emprestando seu talento apenas como narrador visual (não li o livro, mas pela semelhança do filme com o desenho de 89, suponho que ele seja uma adaptação fiel).

NOTAS DA SESSÃO:

- A fotografia, os cenários / direção de arte são lindíssimos.

- O começo da história é ruim. Mal somos apresentados à personagem e ela já é raptada por um gigante. Como assim? Por que gigantes caminham por Londres à noite e ninguém os vê? Não sabemos quem é essa menina, o que ela busca, o que o fato dela ser raptada muda na vida dela. Não existe nem o simples desejo de voltar pra casa (como Alice ou Dorothy), afinal ela vivia num orfanato e não tinha ninguém em sua vida. E ela gosta do gigante. Sem falar que é aquilo que eu chamo de "fantasia dentro da fantasia". Antes de aparecer o gigante, esse universo de Londres já parecia um lugar fantasioso. Não há um contraste interessante com a realidade. Spielberg raramente comete esse erro. Ele costumava dizer que não fazia filmes de fantasia como Star Wars, etc, porque gostava de trazer o fantástico pro mundo familiar do espectador (E.T. aparece numa típica casa americana, etc).

- A reação da Sophie ao gigante é meio falsa. Em vez de estar apavorada, ela já fala com ele de forma confiante, o desafia, etc. Não dá pra acreditar no que está acontecendo. Ele não é uma figura muito atraente, e a amizade entre os dois não empolga. Até porque o personagem da menina é muito raso. Em E.T., por exemplo, o Elliott era visto como loser, imaturo, não era aceito no grupo do seu irmão... E o E.T. vem pra dar a ele independência, poder e maturidade. Em vez de filho, ele passa a ter um papel de protetor, e ao longo da aventura prova seu valor e sua coragem. Não há nada parecido aqui. Não temos uma conexão emocional com a história.

- A ideia de transformar flatulências em uma coisa mágica e divertida simplesmente não dá!

- Talvez o Spielberg tenha se identificado com essa ideia do BFG ser uma criatura benevolente que traz sonhos pra vida das pessoas - algo que ele sempre fez com seus filmes. É uma metáfora bonita, mas que não está embutida em uma boa história.

- Faltam conflitos, antagonistas... Esses gigantes "do mal" não são nada ameaçadores. E não faz sentido eles se mobilizarem todos pra encontrarem 1 garotinha. O que eles vão fazer com ela, comê-la? A Sophie não serviria nem como um lanche da tarde pra 1 deles. Por que eles dão tanta bola pra ela? No fim da sequência em que eles invadem a casa do BFG, o BFG consegue espantá-los facilmente com um balde d'água. Ou seja, não são obstáculos sérios que precisam ser superados. O BFG não pode simplesmente se mudar pra outro lugar e deixar os "bullies" de lado?

- Essa mudança no ato final da história me parece estranha (no desenho já achei isso). O filme todo é uma fantasia na terra dos gigantes que foca apenas na garotinha e no BFG. Depois de uma hora e tanto de filme, de repente somos jogados no Palácio de Buckingham e estamos com a rainha da Elizabeth discutindo estratégias militares pra derrotar os gigantes?! Isso não parece fazer parte do mesmo filme. E qual a necessidade deles criarem esse sonho pra rainha antes de aparecerem? Se ela visse o gigante e a Sophie sem ter sonhado com eles antes, ela não iria acreditar no que estava vendo?! Não é uma história inteligente.

- O capricho técnico do Spielberg acaba irritando numa história tão sem vida e sem emoção como essa. Incomoda ver ele se divertindo criando planos bem coreografados, cuidando obsessivamente do visual a ponto de deixar tudo plastificado - quando algo tão mais importante está sendo ignorado (a alma do filme).

- Se o Spielberg se identifica com o papel do BFG de implantar sonhos na cabeça das pessoas, o que esse trecho da rainha significa, simbolicamente? Que as decisões políticas de um país também estão à mercê dos "sonhos" dos governantes? E que quem cria e controla esses sonhos (o artista) no fim é quem governa o mundo? Dá pra viajar um pouco nessas teorias.

- A sequência final da captura dos gigantes não interessa porque é muito falsa fisicamente (esses helicópteros não conseguiriam derrubar gigantes desse tamanho). E também pelo fato dos vilões serem fracos e não representarem uma grande ameaça no contexto da história.

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CONCLUSÃO: Tecnicamente bem feito, mas a história é fraca e sem vida.

The BFG / Reino Unido, Canadá, EUA / 2016 / Steven Spielberg

FILMES PARECIDOS: Jack, o Caçador de Gigantes / As Aventuras de Tintim / A Invenção de Hugo Cabret / Os Fantasmas de Scrooge / O Expresso Polar

NOTA: 6.0

15 comentários:

Anônimo disse...

Também não tinha uma impressão boa desse filme. O visual plastificado é infelizmente típico de quase todas as produções da Disney recentes. Pessoalmente, não consigo ver a tão decantada beleza de 'pintura a óleo' de Enrolados. Acho até que muitas animações da Dreamworks tem visual melhor, penas que o humor rasteiro e apelativo as tornem tão insuportáveis. A utilização da técnica de captura de movimentos só torna as piores, vide coisas insuportáveis de se assistir como Expresso Polar e Marte Precisa de Mães. Quantos fracassos mais serão necessários para verem que essa técnica não pode ser a base dos filmes? Em matéria de humor infantil, é uma lástima ver que o humor de Shrek se tornou o padrão ouro a ser seguido.

Caio Amaral disse...

Oi! Nunca vi esse Marte Precisa de Mães.. Mas vc é contra a captura de movimentos mesmo em casos como Senhor dos Anéis, Avatar, etc? O que eu acho estranho é quando eles tentam fazer um personagem animado parecer tão realista a ponto de deixar a plateia na dúvida se é animação ou não.. tipo Beowulf, etc.. isso costuma me incomodar.. mas enfim, se os problemas dos filmes fossem apenas essa questão técnica acho que estaríamos muuuito avançados.. o que mais me irrita em geral são questões fundamentais de roteiro, valores, etc.. abs!

Anônimo disse...

Big Fucking Giant... desculpa, não resisti

Caio Amaral disse...

Haha.. eu acho ruim esse título, e a tradução mais ainda.. um amigo observou que no título em inglês, a redundância é pra destacar o tamanho do gigante.. BIG friendly GIANT.. em português, a redundância é pra destacar a bondade.. BOM gigante AMIGO..
O Gigante Amigo já tava ok né.. ainda assim acharia um título pouco atraente.. imagine se E.T. se chamasse "O E.T. Camarada", seria frustrante. A graça é o bicho ser assustador inicialmente, e daí a gente descobrir pouco a pouco através das ações que ele está do nosso lado.. hehe.

Anônimo disse...

Hahahaha, muito bem observado.

Anônimo disse...

"O E.T. Camarada", daria a impressão de um filme sobre um Gasparzinho do espaço.

Caio Amaral disse...

Hehe.. exato.. daria um tom explicitamente infantil.. "O Bom Dinossauro" foi outro título desse gênero q reclamei recentemente..

Diogo Bazar disse...

Pior que tinha cara de ser algo meia boca, esperava uma transformação nos personagens e na trama vinda do Spielberg. Mas vejo que vou passar esse.

Caio Amaral disse...

Oi Diogo.. Esses problemas de construção de personagem, motivação, falta de obstáculos interessantes, ação irreal, etc, são coisas que eu reclamo da maioria dos blockbusters hj em dia.. é por isso que tb não sou fã de Harry Potters, Hobbits e coisas do gênero.. Acho que o que torna o BFG menos atraente que esses outros filmes pro público em geral é o fato dele não ter um tom sombrio e dramático, e soar mais como um escapismo infantil, ingênuo.. e não os problemas de narrativa e história.. pq isso pelo visto não impede o grande público de lotar as salas, hehe.

Diogo Bazar disse...

Eu acho Hobbit interessante, tem até um objetivo só que me parece tão apático pra uma jornada dita épica. Bilbo fica totalmente apagado nisso e é dada uma importância que não é tanta assim.

Harry Potter acho bem mais problemático: até por conta de seu pano de fundo - um jovem que descobre ser especial para um universo. Só que vendo os filmes vejo que falta um objetivo pessoal pra ele. É muita bajulação, mérito desnecessário (principalmente no primeiro filme). Não é a toa que o Draco Malfoy não gostava dele rs...

Caio Amaral disse...

Pois é, todos esses em geral eu acho insatisfatórios em termos de narrativa.. por motivos um pouco diferentes.. Acho que o fato das pessoas não saberem mais contar histórias de forma envolvente talvez explique esse apego de Hollywood a franquias, adaptações, sequências, etc.. assim você não precisa criar uma experiência realmente satisfatória pra encher as salas. Mas filmes assim não têm muita longevidade acho.

Anônimo disse...

Marte Precisa de Mães, produzido pela Disney, foi um enorme fracasso de bilheteria, o que foi em parte creditado à forma como a captura de movimentos foi utilizada. Nesse filme, como no Expresso Polar e em Beowulf, a técnica foi usada para criar personagens iguais a humanos comuns, o gerou uma rejeição do público. Os humanos do filme pareciam mais esquisitos na aparência que os marcianos. Já em Avatar e no Senhor dos Anéis os personagens animados por captura de movimentos eram estranhos o suficiente para serem mais aceitáveis. Há um conceito chamado Uncanny Valley, que tenta explicar como a mente humana lida com essas imagens digitalizadas.
https://en.wikipedia.org/wiki/Uncanny_valley
Trailer de Marte Precisa de Mães:
https://www.youtube.com/watch?v=yBFUAW6jC_M

Caio Amaral disse...

Ah entendi.. o problema não é a captura de movimentos, e sim a tentativa de deixar os personagens idênticos a humanos.. faz sentido essa ideia do Uncanny Valley.. me incomoda mesmo essa faixa onde o personagem não está nem perfeito.. nem longe o bastante da realidade.. mas não tenho certeza se isso seria motivo pra um filme fracassar, caso ele fosse ótimo em termos de história e tudo mais..

Natal disse...

Eu gostei muito do filme... O "BGA" é nota 10... Quem quiser realidade, vai assistir o Jornal Nacional, o Brasil Urgente, o Cidade Alerta ou, então vai ler uma biografia ou um livro de direito... O filme é excelente, assim como o ET foi e uma série de outros... Abs. a todos! Quem critica, também deve aceitar ser criticado...

Caio Amaral disse...

Sim, a diferença é que o que você fez aqui não foi uma "crítica", e sim uma demonstração da sua ignorância.. abs.