domingo, 22 de janeiro de 2017

Manchester À Beira-Mar


NOTAS DA SESSÃO:

- Amo o ator-personagem. Casey Affleck está perfeito. Ele não é particularmente ambicioso, mas é dedicado ao trabalho, inteligente, parece super capacitado no que faz, e apesar de anti-social tem boa índole (embora às vezes ele passe do ponto ao agredir pessoas em bares, etc). Uma tática que o filme usa é mostrar sempre as pessoas flertando com ele - o que subconscientemente vai tornando o personagem mais atraente pra plateia também.

- Demora até surgir um conflito mais envolvente no filme. É um começo meio Naturalista, porém interessante, pois os personagens são positivos, escritos com sensibilidade psicológica, bem atuados, e também porque há certa curiosidade em descobrir o que aconteceu no passado do Casey Affleck pra todos se referirem a ele como "o" Lee Chandler. Depois de uns 50 minutos, surge a questão dele se tornar o guardião do sobrinho, daí o filme ganha uma direção mais clara, pois ele fica dividido entre o senso de responsabilidade que sente pelo sobrinho e os traumas que teria que superar pra voltar a morar na cidade, etc.

- Fortíssima a sequência de flashback que revela o acidente com os filhos. O filme ganha uma nova dimensão a partir disso.

- Recentemente falei mal de Sete Minutos Depois da Meia-Noite por ser um filme sobre pessoas sofrendo - a grande diferença entre aquele filme e um filme como Manchester À Beira-Mar (que me faz ter antipatia por um mas não por outro) é o fato de que aqui não existe o sentimento de auto-piedade. O Casey Affleck passa por diversas dificuldades, mas ele se mantém independente, responsável, em nenhum momento se coloca como uma vítima injustiçada do universo (uma técnica infalível pra me fazer perder simpatia por um personagem).

- Geralmente também reclamo de filmes onde predominam relações negativas e conflituosas. Aqui, o Casey Affleck e o sobrinho parecem a primeira vista estarem sempre discutindo - a diferença é que fica sempre claro que no fundo eles se gostam, e que essa atitude provocadora é apenas uma maneira deles fortalecerem os laços e a intimidade (desde a primeira cena no barco, quando Patrick é pequeno e está pescando com o tio, fica claro que essas "brigas" são uma forma de expressar afeto). A relação entre os dois é o que sustenta e prende a gente à história - em particular a relutância do Casey Affleck em se responsabilizar pelo Patrick. É uma história de amor familiar, e o filme é bem sucedido em fazer a gente torcer pelos 2. 

- É interessante como o filme, mesmo contando uma história triste, consegue criar um universo atraente do qual gostaríamos de fazer parte (gosto até do visual - apesar da fotografia e das paisagens não serem especialmente belas, há algo de atraente na maneira como o filme retrata o universo de Manchester - os temas visuais que se repetem como a água sempre rodeando as locações, as garrafas de cerveja, o frio - da neve, do frango no freezer, do corpo congelado do pai, etc). É o que digo na postagem O Que Nos Atrai à Arte? - na vida real, essas situações de perda, problemas familiares, geralmente parecem deprimentes, confusas, sem sentido. Mas aqui, o filme transforma isso num período cheio de beleza, significado, transformações pessoais, etc.

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CONCLUSÃO: História tocante sobre relações familiares com uma performance impecável de Casey Affleck.

Manchester by the Sea / EUA / 2016 / Kenneth Lonergan

FILMES PARECIDOS: Tudo por Justiça (2013) / Álbum de Família (2013) / A Lula e a Baleia (2005) / O Segredo de Brokeback Mountain (2005) / Conte Comigo (2000) / Gente Como a Gente (1980)

NOTA: 8.5

2 comentários:

Marcus Aurelius disse...

Pelo que tu falou do filme me lembrou um pouco de "O Juiz" de 2014 com "Robert Downey, Jr.".

Caio Amaral disse...

É um estilo um pouco diferente, mas acho que dá pra indicar pra quem gostou de O Juiz...